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O mundo according to Breitbart

Junho 7, 2017

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A noção de que o autoritarismo é uma coisa que acontece em países como a Coreia do Norte ou a Venezuela sustenta-se em dois pressupostos errados. Primeiro, que as chamadas democracias consolidadas não podem ter mecanismos autoritários. Segundo, que a relação de poderes dos sistemas democráticos é autocontida. A primeira é facilmente negada por países como os Estados Unidos ou o Brasil. Com efeito, o que se verifica é que apesar de um sistema de checks and balances consolidado, o espaço para mecanismos autoritários é gigantesco. A segunda, é um cancro da própria democracia, que ao pensar-se como sistema auto-suficiente não se expande para o exterior da esfera da política, considerada esta no seu sentido mais estrito.

Os mecanismos autoritários emergem, por vezes de forma abrupta – como é o caso actual dos Estados Unidos –, através de formas enviesadas, dentro do próprio sistema de justiça ou através de conexões de natureza mafiosa – parece-me a palavra adequada – entre o mundo dos negócios e a política. Uma vez mais o caso norte-americano e brasileiro são emblemáticos. Mas estaríamos enganados se considerássemos que os casos mais gritantes seriam os únicos. Por cada democracia aparentemente saudável há um núcleo podre de compadrios, negócios e transacções que estão fora da alçada dos supostos mecanismos de controlo. Um dos aspectos que permitiu este estado de coisas foi a secundarização da política em relação à economia. Muito tem sido escrito sobre a influência das desigualdades sociais na eleição de magnatas populistas como Trump ou Macri na Argentina. Esta linha de pensamento quando interpelada responde altissonante: – É a economia estúpido! Talvez seja, mas apenas parcialmente. Uma grande parte, porventura a maior, cabe à cultura. O que leva as pessoas a votarem em massa nestas figuras é o facto de eles se apresentarem como homens de sucesso. O escorreito raciocínio segundo o qual “se ele conseguiu o que conseguiu nos negócios imaginem o que faria na política!”, tem levado milhões de pessoas atrás do canto da sereia dos gestores de emoções. Apenas a total infiltração das coisas da economia nos assuntos da política permite esta representação, esta mundividência, por grande parte do eleitorado. A uma menor escala a “tecnocratice” aguda do governo de Passos, com o seu batalhão de economistas encartados a repetirem o mantra de “deixem funcionar o mercado” encobria na realidade formas subterrâneas de funcionamento do mercado em benefício de redes clientelares. O laxismo do governo em relação à fraude fiscal dos muito ricos (mas a mão de ferro a esmagar os muito pobres!) mostra que a instrumentalização do poder do Estado em favor do dinheiro não é passível de ser controlada pelos tradicionais procedimentos democráticos.  Pelo contrário, estes servem frequentemente para ocultar essa instrumentalização. É aqui que o grande paradoxo da democracia actual reside. Como exercer os seus efeitos, desejavelmente benéficos, através dos seus instrumentos – de natureza política – quando ela própria gera as condições da sua plutocratização?

O que se passa nos Estados Unidos com Trump é o resultado de se guindar, por via eleitoral perfeitamente legitimada, a extrema-direita ao poder. Qualquer analista saberá dizer que não existem paralelos com o fascismo do período entre-guerras, que as distâncias são abissais entre um acontecimento e o outro. Desde logo os fascismos sustentaram-se na mobilização de massas em torno de um único partido que advogava um estado total que penetrasse as esferas sociais por inteiro: família, economia, religião, comunidade. Ora, esta unificação política não acontece nos Estados Unidos de Trump; pelo contrário, a extrema-direita encontra-se no poder, mas dentro do jogo democrático. Esta situação, contudo, foi também aquela que precedeu a totalitarização dos regimes alemão e italiano, e não é líquido que as contingências históricas não possam subalternizar as tipologias e modelos analíticos. Mas uma coisa emerge como um facto: o enquadrar da mensagem política tem as suas similitudes quer com experiências fascistas de antanho quer com um recorrente posicionamento estratégico de partidos de extrema-direita, sobretudo europeus.

Pensar Trump como um bomba relógio imprevisível é falhar o essencial. E isso tem que ver com o caldo ideológico onde devemos inserir Trump. Há uma linha visível que traça uma matriz onde se insere Trump e a sua entourage. Apesar dos esforços iniciais de Henrique Raposo para nos convencer que Trump era um inocente jacksoniano, retórica retirada ipsis verbis da insistente leitura dos ideólogos conservadores com que esse mesmo Raposo se deleita, o presidente norte-americano insere-se num leque diferente de propostas ideológicas. Passada a época da propaganda, até o próprio Raposo deixou de ser tão condescendente com Trump e o discurso do inocente jacksoniano passou de moda.

A alt-right, nome pomposo para baptizar a velha “Nova Ordem” e a junção entre supremacismo branco e os fundamentalistas cristãos do movimento Pro-life, é o que rodeia Trump. E digo rodeia porque Trump parece ser demasiado estúpido para liderar um tal projecto. Contudo a sua ligação a Banon é mais do que ocasional; e o fascínio que ambos partilham pela Rússia inscreve-se num programa cuja ideia é central para o supremacismo branco. Esse fascínio contrasta vivamente com o desprezo que nutrem pela Europa. Se quisermos perceber a orientação de Trump e Banon é ler a Breitbart. Toda a gente devia ser obrigada a ler a Breitbart para percebermos finalmente que é real, que não é apenas uma fantasia esquerdista – a extrema-direita está no poder! Quando nos preocupávamos com a possibilidade Le Pen ou Strache, eis que a extrema-direita chega ao poder na maior economia do mundo: the good old USA. É quase uma paráfrase do erro de análise marxista: quando todos achavam que a revolução aconteceria na Inglaterra industrialmente desenvolvida, ela acontece na Rússia agrícola, industrialmente atrasada. A contingência histórica tem destas surpresas.

Ler as caixas de comentários da Breitbart é também instrutivo. Permite perceber que aquilo não é gente afectada pela “grande depressão”; são fanáticos culturais, anti-feministas, com um ódio à esquerda apenas comparável aos regimes fascistas de Franco e Mussolini; com um ódio ao establishment político, e portanto com um discurso profundamente anti-político, e sobretudo com a reiteração acéfala dos tropos do autoritarismo ignorante: o descalabro climático é uma invenção!, o feminismo é destruidor das famílias, a pobreza é uma “mentalidade” (mindset no original). Este caldo ideológico onde fervilham punição e processos de intenção em substituição de revolta e emancipação tem servido de respaldo para encobrir o essencial da governação Trump: a extrema promiscuidade entre dinheiro e poder “democrático”. Neste sentido segue de perto o guião putiniano de um czarismo para os tempos dos piratas informáticos. O esmagamento da Europa entre as duas tenazes agora aliadas – os USA e o urso Russo – é o seu projecto mais consequente. A Europa consiste ainda no pequeno espaço onde as tendências cezaristas são combatidas. A América de Trump não precisa da Europa para nada; e tenho dúvidas em relação àqueles que se põem a adivinhar novas centralidades, colocando a Alemanha num pedestal. A verdade é que a Alemanha manda dentro da Europa, mas não tem expressão no concerto internacional, sobretudo quando apertada no torniquete das duas maiores potências militares.

Such a perfect day…

Maio 8, 2017

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Foi um bom domingo. O Benfica superou uma prova crucial para a sua imparável caminhada rumo ao tetra e Macron venceu as eleições para presidente da França. A primeira, diga-se, tinha um grau de improbabilidade bem maior do que a segunda. De tal forma a vitória de Macron era previsível que apenas nos questionávamos sobre a margem com que esta iria ser conseguida. Porém, isso não nega a pesada derrota infligida a Le Pen. Bem pelo contrário, enfatiza-a, mostrando que a França mais uma vez se uniu contra a extrema-direita. E por esse facto a vitória de Macron, quando comparada com situações homólogas na Áustria e na Holanda, é de todas a mais convincente. A sua derrota seria, simetricamente, a mais catastrófica para a Europa. Mas tal não sucedeu, tal como tinham previsto as sondagens, e é razão para o regozijo comum.

Macron uniu direita e esquerda. O que coloca a extrema-direita de Le Pen como “o principal inimigo do sistema”, como ela costuma dizer. No entanto, não existe um sistema que una a direita e a esquerda, nem em França, nem em nenhum outro país. O que existe é uma aliança conveniente que se torna operativa quando o perigo da extrema-direita emerge com demasiada intensidade. O efeito retórico pretendido por Le Pen é consequente naqueles que se julgam acossados pelos males do mundo produzidos por esse suposto “sistema”. A mesma argumentação foi utilizada por Trump para derrotar Hilary. Talvez os franceses tenham aprendido que as birras da esquerda a que assistimos nos Estados Unidos ou no Brasil contra os candidatos centristas apenas serviram para colocar no poder proto-ditadores. Talvez tenham aprendido que o problema é estes não serem apenas figuras decorativas de um mal menor; eles e elas agem e mudam coisas, algumas de forma irreversível. Por isso o exercício simplista de negar o voto de confiança ao candidato do centro tem redundado em soluções bem piores. Felizmente, o eleitorado da esquerda na sua larga maioria tem-se pautado por este pragmatismo. Veja-se em França, apesar do distanciamento de Mélenchon a Macron, não lhe prestando um apoio explícito, parte muito significativa dos 12 milhões que votaram Mélenchon deram o seu apoio a Macron na frente implícita que se uniu contra Le Pen. Tudo bem então: Macron 10 – Le Pen 0!

Mas Macron representa ainda uma outra coisa. Representa muito objectivamente uma solução alternativa à solução portuguesa. Uma solução em que os centristas de direita vêem o seu campo defendido sem abdicarem das suas posições. Uma solução que empurra o PS para a direita do seu espectro político e retira-lhe a possibilidade de aproximação à esquerda. Macron é o oposto de Costa em Portugal. Macron capitalizou o voto dos descontentes com Fillon e os apparatchiks de Valls. Macron está para o PS francês como Francisco Assis para o PS português: transigir em fazer acordos com a esquerda à sua esquerda é um crime de lesa política! Por isso Macron fugiu de um PS na iminência de se esquerdizar um pouco mais (não muito, obviamente!). Por isso teve o apoio incondicional de Valls, e por isso vai aprofundar o fosso entre o centro e os partidos à sua esquerda promovendo aproximações à direita.  Macron é também o coveiro do projecto Benoit Amon, um arremedo muito mal sucedido de António Costa. Mas apesar disso é também a possibilidade de uma nova ideia para uma Europa pós-Merkel. Uma Europa com Shultz na Alemanha e Macron em França terá forçosamente que ser diferente. Porque se não for, para a próxima nada irá demolir a ascensão vertiginosa da Srª Le Pen.

Futebol é dinheiro

Abril 28, 2017

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… e ninguém gosta de perder dinheiro. O feio do mundo do futebol é que se misturam pessoas verdadeiramente asquerosas com momentos belíssimos. Assim, o futebol jogado no campo é um espectáculo; aquilo que se passa fora do campo é repugnante. Pedro Proença, não se sabe se por ignorância se por consciência da impossibilidade semântica, falou em “pousar os machados de guerra”. Pousá-los é um termo escorregadio, porque enquanto enterrar é torná-los invisíveis, pouco ou nada acessíveis, pousar é tê-los ali à mão de semear, como os pistoleiros pousam as armas no tampo da mesa antes de uma partida de poker. Não sabemos se Proença brincava com os termos assumindo a indefectível obediência à realidade e aos seus meandros, que são os do futebol-nojo, ou se simplesmente não conhecia a expressão.

Entendamo-nos, o espectáculo desportivo mais belo do mundo possui no seu comando a gente mais nefasta desse mesmo mundo. É pena. Porque a nefasta condição dos seus dirigentes infesta frequentemente a espectacularidade dos executantes da bela modalidade. Apesar das intrigas serem dirimidas através dos órgãos competentes, em Portugal percebeu-se que face à fraca qualidade do campeonato o que havia a fazer era poluir as redes sociais e os media com declarações bombásticas, outras assininas, que de certa maneira substituem o espectáculo deprimente de alguns jogos. Não vale a pena invocar a estafada máxima “pane e circenses” porque ela não colhe. As estratégias de distorção usadas por comunicadores profissionais e dirigentes ou responsáveis são formas de evitar enfrentar os fracassos no domínio desportivo. Nesse sentido são estratégias manipuladoras da verdade desportiva. Por exemplo, Bruno de Carvalho desapareceria caso não tivesse o seu tempo de peixeirada e coquette arrogante do mundo do futebol, porque não tendo resultados para mostrar, o falhanço do seu mandato estaria à vista de todos. Assim não: mesmo acumulando resultados ridículos vai-se aguentando como um paladino incompreendido que navega nas turvas águas da perfídia e injustiça futebolística. O espectáculo reproduzido ad nauseam pela personagem Bruno de Carvalho não tem outro objectivo senão iludir os adeptos e aficionados do Sporting para aquilo que é a evidência de um colossal falhanço. Por isso não surpreende que Bruno invoque a imagem dos prédios e das barracas como inevitabilidade da condição do mundo do futebol. Para ele estar do lado das barracas tornou-se condição de sobrevivência.

O problema é que o futebol move demasiado dinheiro. E como em qualquer outro negócio onde as quantias transaccionadas são exorbitantes, as coisas não podem ser deixadas ao acaso. Por exemplo, os erros e deslizes dos árbitros são tantos e tão flagrantes que é difícil pensar que a aleatoriedade do acaso está a funcionar. E quanto mais alto subimos mais esses erros ganham uma dimensão inaudita. Veja-se a arbitragem de Kassai no Real Madrid – Bayern. É difícil acreditar que erros tão grosseiros tenham sido obra do acaso, do azar, da dificuldade de percepção. Parecem demasiado perfeitos, funcionais, instrumentais, e cometidos com tal perícia que dir-se-iam congeminados com suficiente antecipação. É curiosamente nos grandes árbitros que vemos erros elementares. Como por exemplo Soares Dias ter deixado passar o empurrão pelas costas escandaloso de Bruno César a Lindeloff, o mesmo Bruno César que passou o jogo a repetir a técnica.

Ver um jogo do Real ou do Barcelona é ver um tabuleiro inclinado com um árbitro numa das pontas a fazer pressão. Por isso o Porto e o Sporting não são propriamente lamechas quando se queixam da arbitragem; apenas praticam um desporto paralelo que sabem ser eficaz. Esse desporto tem por objecto a volubilidade dos árbitros que pode funcionar segundo dois registos. Por um lado, por pura e directa pressão, de forma a condicionar a actuação do árbitro. Por outro, por remuneração. Conhecemos a primeira do lavar de roupa suja sistemático e semanal. Desconhecemos a segunda porque esses são meandros que não são dados à cupidez da comunicação social. Que eles devem existir, é provado pela eficácia com que alguns jogos são manipulados. E se os montantes astronómicos que são movimentados no futebol bafejam tanta gente da estrutura dos clubes como poderiam deixar de fora um actor crucial para a manutenção e engrandecimento desta? Nem os próprios árbitros estariam tranquilos em habitar aquele espaço neutro que lhes é reservado, que os obriga a vestir um qualquer corpo de bom samaritanismo, mas que não possui equivalente em mais nenhuma posição no mundo do futebol. Seríamos ingénuos em pensar que as prebendas desse mundo passariam ao lado de uma classe que tanto poder tem sobre a sua definição. A razão pela qual não temos tecnologia no futebol – para responder ao repto de Hargraves – é que esta quebraria o pacto implícito que posiciona os árbitros num lugar interveniente na distribuição de dinheiro que, pelas regras objectivas do jogo futebol, lhes devia ser alheia.

Marine Le Pen – A mãe de todas as bombas

Abril 18, 2017

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Marine é a moab da Europa assim como a conhecemos. Tem o poder de fazer implodir o projecto Europeu infiltrando-se na terra e deflagrando a partir do seu interior: tal qual a moab. As ondas produzidas por uma tal deflagração arrasariam tudo à sua volta. Não é uma pequena mina terrestre como Strache na Áustria, tão-pouco um míssel de curto alcance como Wilders na Holanda. É a mãe de todas as bombas e o fim do projecto europeu. A entente que segurava a Europa entre França, Alemanha e Inglaterra, ver-se-ia reduzida à Alemanha; e esta por sua vez não tem interesse no projecto europeu para além dessa mesma entente. Sem França, ou tendo esta como inimigo juramentado do projecto europeu, a união desune-se, porque o cimento que a unia deixa de existir.

Le Pen tem aliás um discurso assaz curioso. Mas com o cinismo de Theresa May do outro lado da Mancha, quem a pode censurar? Os conservadores – e Le Pen é apenas uma conservadora de visões mais extremadas – nadam num mar de cinismo e hipocrisia. Os reptos de Le Pen anti-imigração, por exemplo, que coisas estranhas emitem quando não existe imigração para a França desde a década de 90! Porquanto desde essa época que a França, como tantos outros países europeus, encarreirou pelas chamadas políticas de imigração 0, que como o nome indica fecharam as fronteiras à imigração legal. Bem entendido, quando Le Pen fala refere-se aos refugiados. Eventualmente aos ciganos, aos roma do leste europeu que Sarkozy queria enviar num comboio para os seus países de origem. Mas a França tem as fronteiras fechadas desde o atentado do Bataclan e nada de extremamente novo aconteceu desde aí. Os empregos não regressaram, a França não se des-islamizou, os banlieus das grandes cidades não se transformaram em verdejantes quintas onde a paz reina. Porquê? Porque o problema não é a imigração. E mesmo que Le Pen assimile – como na realidade faz retoricamente – imigrantes e segundas e terceiras gerações, não poderá nunca expulsar cidadãos franceses.

O que significa então fechar fronteiras na acepção lepeniana? Não é com certeza fechar os caminhos aos estudantes chineses que acorrem em vagas cada vez maiores às universidades parisienses; tão-pouco aos jovens recém-formados italianos e luxemburgueses que tantas vezes estendem o seu campo de prospecção de emprego ao mercado de trabalho francês; também não será ao capital alemão que continua a circular quer em recursos humanos quer em negócios entre os dois países; menos ainda ao investimento russo que compra Paris aos talhões. O que quer dizer então com fechar fronteiras? Impedir os programas de aceitação de refugiados? Mas estes já foram reduzidos de tal forma que nem se consegue perceber donde viria o perigo por essa via…

Le Pen, tal como o seu pai, quer uma França pacificada com a sua história. Uma frança sem complexos ou dilemas morais com o seu passado colonial. E quer uma França branca, de comedores de queixo e de jogadores de Pétanque. Mas existe onde essa França? Não em Paris, onde o metropolitano oferece uma imagem saída dos piores pesadelos de John Difool e da cité-puits [ver o incal de Moebius para perceber alusão]. A França do dinheiro, a frança da moda, do turismo não existe sem esta, a da cidade-poço. Piores pesadelos no bom sentido, se tal se admite. Até porque essa Paris da confusão de culturas e origens é uma Paris que não se distingue daquela que nela é anualmente descarregada vinda de fora, de paragens tão longínquas como o Japão ou o Chile. Como fechar uma sem sacrificar a outra?

Le Pen é nacionalista. E isso está longe de contradizer a maior parte dos países com actual representação no parlamento europeu. Também aqui a mentira é dita e redita. Não existe qualquer contradição entre europa e nacionalismo. Senão como seria possível a sobrevivência no seu desta de nacionalismos aguerridos como o húngaro, ou o checo, ou o polaco? Não seria. E ninguém nas elites desses países se preocupa em fazer parte de um corpo chamado união europeia. O facto é que o federalismo é uma quimera na actual europa e só aparece para assustar criancinhas, como o papão. O papão do federalismo não tem qualquer consistência. E cuidado, o que Le Pen promete, o resgatar os empregos dos estrangeiros para os franceses, não anda longe das promessas de Trump. Ambas são falsas e subsistem apenas porque há muita mente ignorante que se entretém com a perversa equação.

Para que serve então Le Pen? A nível interno francês, para nada. Não vai fazer uma política doméstica muito afastada dos seus homólogos da UDP; não vai contrariar a neoliberalização das políticas públicas; não vai redistribuir rendimentos. Ou seja, com mais ou menos papão da imigração, as políticas vão ser fundamentalmente as mesmas dos seus congéneres neoliberais conservadores. Contudo, externamente, Le Pen pode ser muito mais preocupante. A sua eleição gerará, é quase certo, uma reacção em cadeia pela Europa fora que alastrará como fogo numa savana. A Europa de Leste ficará entalada entre uma Rússia putinista e uma França de extrema-direita, com a Alemanha, por enquanto, a servir de Estado-tampão. E não se desse o caso das simpatias de Putin por Le Pen, e vice-versa, serem muitas, e ainda poderíamos pensar que muita margem de manobra haveria para os entalados da Mittle Europa. Mas não. A tenaz será poderosa. E uma Alemanha sozinha no concerto europeu só pode tocar mais alto até a um certo ponto. A partir desse ponto deixará de existir a Europa que herdámos dos anos sessenta.

Ainda as nossas crianças

Abril 18, 2017

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Uma das justificações mais ouvidas por estes dias foi a de inexorabilidade do choque de gerações. Os comportamentos dos mais novos, disseram diversas vozes, sempre foram criticados pelos mais velhos, pelos seus excessos e desvarios.

Num texto muito interessante intitulado La jeunese n’est  qu un mot,  Bourdieu assinala algo que depois de lido se torna retrospectivamente de uma evidência cristalina: a juventude é uma categoria social e historicamente construída. Mais, os limites daquilo que lhe é permitido variam consoante as relações de defesa do status quo daqueles que, numa determinada conjuntura, possuem o poder, geralmente os mais velhos, eles próprios estabelecedores da possibilidade de divisão cultural entre categorias de idade. Ou seja, as atribuições da juventude enquanto grupo não apenas têm variado ao longo da história como são pretexto para lutas ideológicas sobre a questão donde situar a fronteira entre a juventude e a velhice. E estas são mutáveis. De tal forma que ao longo da história a juventude de uns ameaçou a estabilidade de outros, mas foi também incentivada quando a isso correspondiam interesses específicos, como por exemplo formar uma juventude violenta e apta para guerrear. Por isso não basta dizer que o choque de gerações é inerente à vida social, é preciso questionar a natureza desse mesmo choque. Isso sim é que parece ter interesse.

Aos nossos jovens fomenta-se a liberdade. Há, concretamente, uma ideologia de deificação da juventude – onde tudo é belo, vicejante e criador – que leva a que a velhice seja considerada um peso. Nisso a nossa época apresenta diferenças quando comparada com épocas anteriores. Por exemplo, se o viço da juventude foi em geral homenageado, já a racionalidade da velhice, a sua sagesse, era o complementar da senescência física. O que numa se perdia, ganhava-se na outra.

Outras épocas houve onde o controlo sobre os ímpetos da juventude era o ideal da organização social, da imposição da ordem. Assim, o choque geracional da época vitoriana, admitindo que existia, nada tem a ver com o actual. Leia-se Dickens para perceber que a estratificação das práticas juvenis era o que mais separava os grupos, i.e., as condutas rigorosas da burguesia, contra o desarvoramento dos filhos dos operários e, em geral, do povo. A juventude do Vermelho e o Negro de Stendhal, se pretendia ascender socialmente, colocava-se perante duas opções: a de seguir o caminho religioso ou o militar. Ambas, como mostra Stendhal, exigiam uma intensa disciplina.

Por isso, a indisciplina dos jovens não é efeito do choque de gerações – é a marca do nosso choque de gerações! Com a proliferação de linguagens de autocentramento, como as que nos chegam dos livros de auto-ajuda, dos discursos dos psicólogos, das sistemáticas estimulações publicitárias – o ego ganha uma dimensão inaudita. Os jovens, apesar das inúmeras maleitas psis, estão apaixonados por eles próprios. Nem poderia ser de outra forma. Incitados a contribuir constantemente para uma publicitação do seu eu, a construção desse mesmo eu não é nunca autónoma dessa compulsão para a sua publicitação. Eis o facebook! Na época da extrema autonomia, paradoxalmente confrontamo-nos com a escravatura à nossa exposição.

Dizia no outro dia Nuno Lopes que gostava “de ter sucesso, mas não gostava de ser famoso”. Frase eticamente admirável, mas que esconde o alfa e o ómega da sociedade actual: os dois termos são indistinguíveis. Resta mesmo saber qual precede qual – se ser famoso leva ao sucesso ou vice-versa. O que parece ser evidente é que, nas condições actuais, um não existe sem o outro. E as nossas crianças estão preparadas para navegar com presteza nos dois lados deste oceano.

Weapons of mass destruction

Abril 12, 2017

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Pode ser que esteja a ficar paranóico, mas o ataque com armas químicas alegadamente perpetrado por Assad cai que nem sopa no mel na administração Trump. Sabemos, de acontecimentos passados, como o gritar “armas químicas” ou of mass destruction, pode ser instrumental para os desígnios das administrações norte-americanas. Em tempos serviu para invadir um país, sem se perceber bem porquê, e com as consequências que estão patentes. Agora quando o cerco se apertava em torno de Trump, quando as ligações à Rússia por parte dos seus assessores e braços-direitos se tornavam evidentes, surge um acontecimento que permite a Trump assumir uma posição de força perante essa mesma Rússia de que se desconfia ter sido a obreira da sua eleição. Demasiado conveniente, se me perguntam.

Depois que sentido faz um ataque com armas químicas quando a insurreição síria se encontra praticamente esmagada? Em que plano militar isto seria sensato? Dando de barato que não exista sensatez na guerra – em qualquer guerra – não é no entanto judicioso desprezar a sua imensa dimensão estratégica. E neste plano, que sentido faria suscitar uma comoção internacional desta grandeza quando se tinha a guerra contra as denominadas forças rebeldes praticamente ganha? Mas para Trump este é o volte-face que tanto necessitava para reabilitar a sua imagem perante os americanos. Afrontando directamente os russos dificilmente se poderá doravante pensar que estes possam ser seus aliados; mais ainda que possam estes ter sido estratégicos na sua eleição… de forma ilegal. Será expectável que nos próximos tempos a popularidade de Trump comece a subir. É o efeito de Trump ter finalmente criado a ilusão que a América pode ambicionar o lugar de superpotência mundial novamente. Trump e a sua administração precisam desesperadamente de uma guerra. Está nos livros dos neocons, para quem belicismo e make america great são sinónimos. E veja-se como o mundo se deixa encantar com o regresso do polícia global que frequentemente os USA chamam assim. Como se esta responsabilidade, assumida unilateralmente, correspondesse aos interesses desse mesmo mundo. Ninguém estranha que depois de anos em que todos estavam convencidos de controlarem as armas químicas no cenário de guerra sírio, os americanos consigam descobrir a base onde estas se encontravam armazenadas… em dois dias! É um prodígio de eficiência. De duas uma, ou sabiam e nada fizeram – assim como os russos -, ou alguém achou conveniente criar a coincidência entre um ataque com gás sarin e a imperativa necessidade da administração norte-americana mostrar que afinal está contra os russos. Até a reacção dos russos é mansa e não atinge a dimensão expectável que um ataque directo a um seu aliado poderia produzir. Parece tudo muito bem encarreirado, certinho e pronto a servir. Apenas me pergunto se toda gente sabia onde estavam armazenadas tais armas porque não fizeram nada antes de forma a evitar que morressem centenas de civis com escoriações químicas?

O melhor do mundo são as crianças

Abril 11, 2017

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Os Amish têm um ritual que designam por Rumspringa, corruptela da palavra alemã rumspringen, ou seja, saltar por aí, e que consiste em libertar temporariamente os seus adolescentes das rigorosas imposições de que serão objecto toda a vida. Assim a um jovem Amish é-lhe permitido durante um período da sua adolescência, que pode variar de dois a quatro anos, fazer o que lhe dá na gana; o que inclui beber, fumar, sexo, drogas e o que mais lhe aprouver. Este período, como qualquer ritual de passagem, contém um teste: o do regresso à sua comunidade e a aceitação da severidade do seu modo de vida. Parece que a taxa de retenção destas comunidades é grande. Mesmo depois dos jovens Amish serem tentados com todas as primícias da moderna civilização, decidem regressar e integrarem-se na cultura de origem.

Os nossos jovens vivem um rumspringen permanente. No entanto parece que necessitam de exteriorizar a tensão em saídas em manada onde vale tudo. Importaram o ritual dos states, onde em filmes diversos de gente bonita e muito doida se vêem representados como prometeicos entes a quem nada é proibido. A importação cultural é de tal ordem que até os polícias se inspiraram nesse hábito e deram à operação de controlo da saída primaveril dos adolescentes o nome de “Spring break”. O mítico Spring break não existia em Portugal. Era uma coisa que a gente via nos filmes marados de jovens bêbedos e drogados a fazerem sexo como doninhas nas praias de Acapulco. Nada poderia estar mais afastado das nossas vidinhas. Helas!, as modas viajam. E fazem-no de tal forma, que quando se transmudam noutro contexto têm que atingir uma intensidade ainda maior. Foi assim que os jovens portugueses, não contentes com o delírio fílmico que lhes servia de inspiração, decidiram levar o ritual ao seu paroxismo. Em vez de Acapulco, saem em revoadas devidamente planeadas por grandes operadores turísticos, em direcção ao sul de Espanha. É o nosso Acapulco. À falta do James Franco e do fascínio da “vida loca” do sex, drugs and rock roll dos Spring breakers californianos, marcham todos para Torremolinos e aí preparam o seu estendal de liberdade. Só fazem merda!

Depois vem sempre uma pedopsiquiatra dizer que os meninos sofrem uma grande tensão, que precisam de extravasar, coitados, aquela tensão toda acumulada do 12 ano, aquele ano horribilis dos jovens de 17/18 anos assoberbados pelas agruras da vida, pela tremenda responsabilidade que é fazer o 12º ano, vejam lá, que nada se compara a isto, não senhor. Desta converseta, a pintar paredes e atirar colchões pela janela vai um pulinho que é como quem diz vai uma rumspringen!

Não acredito nos jovens. Tão-pouco no senhor que organiza estas viagens que com uma cara de rato comprometido apareceu ontem na televisão a dizer que o seu rebanho de 800 era incapaz daquelas malfeitorias. Afinal ver uma oportunidade destas para fazer dinheiro é caso para ser benzido de admiração! Quem se lembraria de sacar guito importando os Spring breaks norte-americanos aqui para a costa ocidental? E se bem que os nossos jovens não fazem merda nas ocidentais costas lusitanas, vão promovê-la para terras de nossos irmanos, e tudo com patrocínio de um jovem empreendedor que empreendeu com a ideia certa para o novo milénio!

Agora a questão do racismo. Os jovens queixam-se de terem sido vítimas de comportamentos e atitudes racistas. É preciso perceber que a ideia do Spring break é ela própria racista. Não pelo conteúdo da mesma, mas pelas formas práticas que ela assume. Que os jovens americanos que vão para o México divertirem-se a vomitar tudo, partir os quartos, estragar e inutilizar o que apanham decorre de haver sempre um qualquer mexicano que há de limpar a trampa logo a seguir. Por isso é que o Spring break se desloca para sul, para a colónia mexicana, e assume um aspecto de vendaval sem limites. É um exercício de poder. Ninguém os expulsa por uma imposição de dependência hierárquica económica. Há qualquer coisa desta subjugação nas afirmações de Trump sobre os mexicanos terem de pagar o muro. Mas os espanhóis não precisam de Portugal para nada, e por isso por que razão aturariam os Spring breakers do seu parente mais pobre? O mesmo não acontece com os britânicos. Aí a reverência em relação aos seus jovens é grande. De tal forma que nunca ouvimos queixas, e não será com certeza por estes se comportarem como verdadeiros lords, porque não o fazem. Mas a estrutura colonial funciona na perfeição. O país mais “afluent”, na parlance dos brits, atira com a sua explosão neurótica para os vizinhos pobrezinhos e estes só têm que estender a passadeira vermelha a todos os desmandos e javardice.

O que não justifica de maneira nenhuma o comportamento dos portugueses. Apenas indica que nesta coisa de jovens em manada há que perceber a estrutura que permite estes movimentos. Quando ela colide com um contexto que não lhe é particularmente subserviente, dá-se a contradição. No fundo é tudo muito marxista, hegeliano mesmo, entre senhor e escravo, embora os jovens actuais tenham absorvido a certeza de que a relação é imutável e onde quer que seja lhes devemos prestar vassalagem. É assim nas universidades; e tem vindo a ganhar expressão nos liceus. Nestes últimos onde dantes se pensava que a juventude não fazia mais do que a sua obrigação, que era marrar nos livros, tudo se faz para os manter entretidos. É preciso entretenimento. E aí podia mesmo entrar o Cobain e o seu repto para o entertainment – rock is stupid, entertain us! Lá se comportam os nossos jovens como uns selvagens, a pintar paredes, a despejar extintores, e pasme-se, revoltadíssimos porque não lhes vendiam cerveja no hotel! Que mais violências sofreram estes rapazes e raparigas, deus meu? Porque não organizar estas viagens ao México onde a estrutura da porcalhisse irresponsável já se encontra montada e pronta a recebê-los?