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Sistema/anti-sistema

Março 9, 2018

 

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O fenómeno italiano não mostra apenas um descontentamento generalizado com os partidos ditos “do sistema”. Até porque “o sistema” é de difícil definição e pode ser abordado consoante ângulos diversos (já lá iremos). O que as eleições italianas colocam em evidência é um esvaziamento da política, e em última análise do governo. Devemos começar a interrogar-nos sobre o papel do governo na condução dos destinos da res publica. Quando a Alemanha fica sem governo durante mais de seis meses e sobrevive; a Catalunha negoceia uma solução de governação vai para mais de um ano; a Áustria demorou meses para chegar a um acordo parlamentar – o que fica na percepção das pessoas é a dispensabilidade dos seus governos. Afinal a economia, a vida quotidiana, os mercados, a justiça, as contas para pagar, tudo isso continua a funcionar sem a intervenção, sequer a necessidade, de um governo. Dir-se-á: o Estado continua o seu funcionamento, por isso é natural que não haja uma panne generalizada nas funções do mesmo. Seja como for, a noção de que a presença e actuação de um governo são dispensáveis cala fundo. E com ela, a percepção da acção política como acção consequente.

Não será por acaso que os eleitores seleccionam como temas centrais do seu exercício de escolha democrática questões que diríamos residuais à governação. Por exemplo, a imigração pesa massivamente na escolha do eleitorado de direita, mas quando se olha para o mapa do voto em Itália constata-se que o norte do país é da Lega Nord, enquanto o sul, coube ao movimento cinco estrelas. Ora é no sul que se encontram a maioria dos campos de refugiados, é lá que os imigrantes fugidos da guerra e da fome dão à costa com as suas balsas, é também ali que a incorporação começa a ser feita, no sentido de uma posterior assimilação nas estruturas da sociedade italiana. Ou seja, são os eleitores com menos contacto com qualquer que seja o impacto da imigração que votam massivamente contra os imigrantes.

Um outro aspecto do esvaziamento da política é o concomitante esvaziamento da sua responsabilidade. O primeiro-ministro austríaco tem 31 anos; assim como o vencedor das eleições do Cinco Estrelas. Separados na retórica – um neoliberal conservador, o outro de esquerda dita libertária – mas não no estilo, ambos deviam suscitar a apreensão dos eleitores face à sua inexperiência governativa. Mas não suscitam. O que significa que aquilo que em tempos se designou por ética da responsabilidade se tornou secundário, quando não, indiferente. Segundo a definição de Weber, a ética da responsabilidade cabia ao indivíduo que se importasse com as consequências da sua acção. Weber utilizou a noção relativamente à atitude e comportamento dos políticos, mas não excluiu a sua aplicação a qualquer que fosse o portador de uma intencionalidade, ou seja, a qualquer um de nós. O que nós estamos a assistir é justamente o esvaziamento ético da política. E é aqui que a ideia de partidos do sistema perde a sua consistência. Porque o sistema não é mais uma posição equidistante na ética política – basicamente aquilo que se poderia designar pelo governo para o bem comum – mas antes uma forma de fazer política. Por isso quando relativamente a Itália se diz que os partidos do sistema perderam em toda a linha, não creio que a Forza Itália de Berlusconi veja com particular amargura a subida estrondosa de Salvini da Lega. Afinal foram em tempos aliados políticos. O mesmo exemplo pode ser aduzido da Áustria: o partido do sistema que tradicionalmente fazia alianças com o centro-esquerda, rapidamente virou os seus interesses para os proto-nazis do FPO. Para não falar da Europa de Leste onde tendências fascistas ou fascizantes são o “sistema” – na Polónia, na Hungria de Orban, na República Checa. E o que dizer da Dinamarca, o país com os maiores índices de felicidade, e de igualdade, do mundo que tem um partido de extrema-direita, agressivo e despótico, no governo. Onde está aqui o sistema?

Se por sistema entendermos a rotatividade do centro, é preciso lembrar que qualquer um dos partidos ditos do centro possui as suas tendências centrífugas. Assim as alianças com a extrema-direita não é algo que advém do puro taticismo político, mas antes de afinidades concretas, de partilha de ideias e ideários, de algumas dessas facções dentro dos partidos ditos do “sistema”. Para não ir mais longe, as alianças entre PSD e CDS sempre foram o fruto da negociação entre uma facção dentro do PSD, populista e conservadora católica; a mesma que agora entra em pânico com a possibilidade de aproximações ao PS.

Mas regressando à questão do esvaziamento da política, ele é notório a diversos níveis. Por isso o diagnóstico que mostra que este eleitorado vota em sinal de desagravo pelas forças da globalização que o esmagam, ou pela necessidade de segurança, significava que ainda estariam a articular politicamente estes mesmos sentimentos. Ora, julgo que a ascenção da extrema-direita se deva a duas coisas principais.

Primeiro, a imersão num individualismo extremo contra a noção de colectivo, no sentido que ela assume no pensamento democrático. Há que fazer um reparo inicial porque esta tese surge inicialmente como contraditória. Ou seja, poderíamos dizer que a emergência de movimentos nativistas e xenófobos retraduz esse posicionamentos num super-colectivo: a nação. Em certo modo a identificação com a nação recupera o prolongamento orgânico entre o povo e a sua pátria, típica dos movimentos de massa autoritários com expressão estado-cêntrica. Neste sentido, estes são movimentos profundamente antidemocráticos. Porque a democracia constitui-se no jogo de equilíbrios entre colectivos. Os partidos, os sindicatos, os clubes, os grupos de opinião, as associações, etc, é essa miríade de colectivos representativos que constituem a democracia. O que estes movimentos ancorados no super-colectivo da nação nos dizem é que apenas a este devemos obediência. Porém ( e aqui reside o volte-face) é um nacionalismo para tempos neoliberais. Quer dizer, o indivíduo surge contra o Estado, o seu suposto cinismo, e burocracia esmagadora. É, contudo, um Estado específico: o Estado-providência dos tempos keynesianos.

Segundo, o discurso da extrema-direita é punitivo. Falta perceber os mecanismos da sua retórica como essencialmente falaciosa e alarmista. Mas numa coisa é clara: a punição estrutura a sua mensagem política. Punição contra os imigrantes, contra os dependentes, contra os mais fracos no geral. Em nenhum lugar, no entanto, a imensa fé depositada no mercado é sequer abalada. Por isso a combinação entre neoliberalismo e neofascismo é das mais curiosas e bem conseguidas. De um lado, a intenção de aprofundar a privatização do Estado e de expandir a gestão de mercado a todas as esferas sociais. O que faz com que se distanciem da concorrência marxista ou keynesiana. Do outro, a expansão de um Estado punitivo e securitário; o que faz com que bifurquem caminhos com os seus companheiros liberais. Estas duas soluções já existem nas duas maiores economias do mundo: a China e os Estados Unidos. Ou seja, se em tempos tínhamos como referência os processos designados de “exportação da democracia” por essa nova Acrópole que seria Washington, com os seus consequentes choques estruturais que levaram tantos países à bancarrota, actualmente é esta combinação (que diria, terrível!) que serve de modelo a ser exportado. É ela que constitui o “sistema”.

Na Europa, esta surge como um objecto estranho porque ainda subsiste o imenso articulado de redes de governança que é própria da representação da multiplicidade de colectivos que caracteriza a democracia. Todavia, e como esta encontra-se paulatinamente a ser minada, não é certo que não surjam formas antidemocráticas, sob a aparência do parlamentarismo constitucional, como já é o caso na Hungria ou na Polónia. Deixou, por conseguinte, de fazer sentido falar de partidos do sistema e fora do sistema. O sistema actual auto-observa-se de formas diferenciadas relativamente aos canónicos entendimentos da democracia liberal.

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Saúde sem dono

Março 6, 2018

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Não é com certeza coincidência que logo após Rio lançar o seu libelo ao sistema nacional de saúde, no discurso de encerramento do congresso do PSD, várias corporações médicas viessem a terreiro dizer que o sistema está em ruptura.

Um senhor, dono do sindicato independente dos médicos, mas que de independente nada tem, visto que é militante do PSD, passa os dias a aparecer nas televisões a fomentar a discórdia entre médicos e ministro. Simultaneamente, administrações hospitalares despedem-se em bloco e os enfermeiros exigem, uma vez mais, a revisão das suas carreiras. Ou seja, de repente, o discurso de Rio suscitou uma manifestação comum de desagrado entre os profissionais de saúde que tem vindo a engrossar ao ponto de poder culminar em revolução (em sentido figurado, entenda-se).

Tudo isto seria fortuito, não se desse o caso de estas coisas raramente serem aleatórias e os seus códigos não passarem por entendimentos prévios e estratégias buriladas com antecipação. Assim o Rio que calhou ao PSD, colocou uma descarga nos media e na esfera pública e política que faz correr tinta e palavreado ao tornar este sistema a menina dos olhos do seu programa futuro. Todavia, a descarga de Rio tem à vez o seu lado dramático e hilariante.

Terá havido poucos partidos que mais fizeram pela destruição do SNS do que o PSD. Nos inícios dos 2000, lançou-se a grande privatização do sistema de saúde, que mais tarde seria aprofundada pela rota da empresarialização hospitalar surgida como obrigatória pelo memorando troikista. A privatização da saúde é uma consequência directa da difícil sustentabilidade do sistema público. E nesse sentido é inevitável. Mas a forma como esta tem sido prosseguida em Portugal é que deixa muitas dúvidas e outras tantas críticas. Desde logo, porque o afã privatizador das coligações psd-cds tem por definição entregar ao mercado para que este faça o melhor que sabe fazer. Numa profunda fé nas virtudes do mercado, na catalaxia de que falava Hayek, essa virtude auto-organizadora que não necessita de sistemas heterónomos para a conduzir, as coligações de direita têm feito aquilo em que melhor se especializaram: privatizar sem controlar. Foi assim na saúde; foi assim na educação; foi assim nas energias. Com consequências similares. Uma delas é que os sistemas deixam de funcionar de forma supletiva e passam a funcionar de maneira concorrencial. Quer no caso da saúde como da educação a concorrência não é perfeita, porque o sistema mais recente esbulha os recursos do sistema anterior, ou seja, do público. Esta parasitação não é complementar, é canibalística. Na saúde é talvez o mais notório dos sistemas onde uma tal relação é observável. E ela não apenas desonera o Estado, como serve um corpo de profissionais. Porque a verdade, é que se há grupo que mais tem beneficiado com esta configuração, esse é com certeza o dos médicos.

A promiscuidade com que os dois sistemas se canibalizam é talvez mais aberrante em Portugal. País onde os médicos agem como uma corporação fortíssima, cuja acção esmaga quem a eles se tenta opor. Lembremos Leonor Beleza quando teve a veleidade de propor a exclusividade.

Não se compreenderá o sistema de saúde actual sem perceber a multiplicidade de zonas cinzentas que este promove. Num exercício de fenomenologia quotidiana, podemos por exemplo interrogar-nos porque razão não há médicos acima dos 35 anos correntemente nos hospitais públicos. Certamente que há uma renovação da classe que é bem-vinda. Mas eu recordo tempos em que o velho especialista agia como autoridade nos meandros hospitalares e lançava o seu manto estatutário sobre uma prole de nóveis profissionais. Onde está ele? Bom, não é preciso dedicarmo-nos à busca do Wally para constatarmos que ele se encontra nos hospitais e clínicas privadas. Mas deixou o público? Não, claro que não. Conservou um pé dentro do público porque para todos os efeitos é ele que lhe dá o estatuto. A traficância de competências entre público e privado abriu igualmente brechas entre os profissionais da medicina. Assim aqueles que confinaram o exercício da mesma às paredes dos hospitais públicos olham com especial apetência para as fortunas que os colegas vão amealhando nos privados. Não podendo manter-se o sistema neste nível de frustração de desejos de mobilidade a solução encontrada é a porosidade entre os dois sistemas. O que descapacita o público, depauperando-o e privando-o das suas melhores competências; e engorda o privado, que não tendo gastos na formação destes pretendentes faz uma economia de escala sem grande investimento inicial. Quando os sistemas são, ou puramente privados ou puramente públicos, como nos Estados Unidos, podemos ver a grande indústria da saúde a contribuir para a formação. Firmas financiam universidades que por sua vez fornecem o pessoal para os hospitais que são propriedade dessas mesmas firmas. Na prática o seu funcionamente é injusto e terrível, como sabemos. Mas tem o mérito de clarificar os termos da separação entre mercado e Estado. Ora isso está longe de acontecer no sistema de saúde português. A promiscuidade é de tal ordem que os serviços estão desprovidos de pessoas. Mas, é porque faltam médicos em Portugal? Não, porque distribuem os seus préstimos e o seu tempo de trabalho por miríades de entidades privadas. É impossível que um médico que trabalhe em três ou quatro entidades, entre elas o hospital público, possa ser um bom profissional em qualquer uma delas. O que leva ao decréscimo da qualidade do serviço tantas vezes assinalado pelos utentes. Para todos os outros que se mantém no seu papel de agentes públicos a frustração é também crescente porque vêem o seu volume de trabalho distribuído por cada vez menos cabeças. Some-se a isto que as suas carreiras retornam sempre o mesmo rendimento enquanto quem se projecta no elevador dos privados the sky is the limite.

O que é mais suspeito neste estado de coisas é o silêncio dos próprios médicos sobre o funcionamento deste sistema a duas velocidades. Sistema que concita invejas e concorrências agressivas, mas que nunca é invocado como parte, ou mesmo a causa, do problema da qualidade do sistema nacional de saúde.

Os médicos são, a seguir aos advogados, a corporação mais poderosa do país. Parafraseando Jorge Coelho, quem se mete com os médicos, leva. E por isso estes dois sistemas têm evoluído de forma paralela sem qualquer intervenção niveladora de um agente externo. Formar mais médicos, abrir mais lugares, não funcionará mais do que como um paliativo temporário, porque estes novos médicos, logo que terminem o tirocínio que o público lhes oferece, escapulir-se-ão para os privados, abrindo novamente o hiato que separa os dois sistemas. Até que este se torne um abismo, e o sistema nacional de saúde esteja bem para além da salvação.

Nojo

Março 2, 2018

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Não se trata de opinião, porque esta as pessoas podem tê-la, diferente, contraditória, o que seja. Trata-se de falsificação. De dados, de informação, de conhecimento. E neste sentido, entre o Henrique Raposo e a Breitbart não vai uma grande distância. Sabemos que os intelectuais orgânicos da nova direita conservadora – a alt-right também ela com a sua branch em terras portuguesas – usam os media para lançar a confusão. É uma estratégia de guerrilha. E não deixa de ser curioso que seja a extrema-direita e a direita radical a usar as técnicas que eram apanágio da resistência esquerdista. Com uma diferença: o que Raposo faz é de uma desonestidade intelectual sem nome. O que o coloca na situação ou de supremo aldrabão ou de indefectível medíocre, posto que as suas leituras são de tal forma enviesadas ou propositadamente deturpadas que estamos perante um caso de lesa intelecto.

O artigo de ontem do expresso está eivado de todas as distorções propagandísticas que podemos encontrar na extrema-direita. A dicotomia (inexistente) entre brancos pobres e minorias, a falsa preocupação com a pobreza, mas apenas de um grupo – os brancos; a traição que putativamente a elite bem pensante liberal faz ao povo. E, surpresa, a vassalagem prestada a Trump que de quando em vez ora aparece mais explícita (como hoje) ora mais envergonhada.

Seja como for, são os temas caros à alt-right norte-americana, sem sequer os matizar com alguma objectividade inerente a quem se encontra de fora. Há no entanto alguns dados que devem ser colocados à cabeça e que rapidamente infirmam a sua estúpida litania.

Primeiro, a maioria dos pobres norte-americanos são negros e latinos. A riqueza média destes dois grupos tem vindo a decrescer sistematicamente, enquanto a dos brancos cresce. Segundo, o grupo com menor proporção de casa própria são os negros. E sabemos como na América onde tudo se paga e tudo se compra, não ter casa pode afectar todo o leque de escolhas subsequentes, desde o ensino, à saúde, passando pela velhice. Terceiro, Trump e a sua entourage não estão minimamente interessados em melhorar a situação dos cronicamente pobres. Desde logo porque o sistema de taxação vigente tem beneficiado constantemente os mais ricos penalizando os mais pobres – algo que sofreu um brutal agravamento com esta nova política do governo Trump. Quarto, e o cúmulo da sem vergonhisse, para falar como o irmão brasileiro, não existe nenhuma oposição de substância entre a pobreza e as questões ligadas à imigração (não sei porque razão o burro do Raposo confunde emigração com imigração!). O binómio é reiteradamente usado pela extrema-direita, como se os termos fossem mutuamente exclusivos e, obviamente, como se se estabelecesse uma relação de causalidade entre a imigração dos “outros”  e a pobreza dos “nossos”.

O “branco pobre” não pode ser desprezado, avisa-nos raposo. E qualifica a afirmação com os números de sem-abrigo a viverem em LA.  O racismo de Raposo é tão desabrido que nem se dá conta que entre os milhares de sem-abrigo que – espantemo-nos! – preocupam o cronista haverá muitos negros e latinos! Mas não para Raposo. Porque o que preocupa raposo não é a pobreza. Disso ficamos cientes quando o que estrutura o seu texto é o binómio maioria/minorias. O que preocupa verdadeiramente raposo é o branco. Este “branco” imaginário que faz parte de uma fatia considerável do discurso de ódio de Trump; o branco como vítima, que era, curiosamente, e para Raposo que gosta de citar os founding fathers, o discurso dos esclavagistas, de paradeiros diversos, dos Estados Unidos ao Brasil, celebrizado naquela frase lapidar do “white men’s burden”. Não tenhamos dúvidas: o actual discurso contra as minorias, ou melhor, que vê as minorias como um sugadouro de recursos, replica os principais traços, não apenas da cultura do “white men’s burden”, como do anti-semitismo.

Este discurso anda muito próximo dos neo-nazis do supremacismo branco; mesmo que disfarçado de (falsas?) boas intenções cristãs (o que aliás o anterior também faz).

Seria bom que o raposinho começasse a demonstrar as suas estúpidas teses com factos e números em vez de respigar a primeira trampa que vem à tona nos blogs conservadores com que se encharca. Há brancos ricos que são igualmente desprezíveis.

(e pronto lá dediquei uma vez mais um post a um escrito de Henrique raposo. Não é por dedicação exclusiva ao plumitivo, é porque os seus artigos são de tal forma asquerosos que não consigo deixá-los passar em branco!)

Raposo fazia bem em ir ver o I’m not your negro…

“A cada tempo a sua arte”

Março 1, 2018

O Henrique Raposo devia ser obrigado a colocar as referências das suas fontes. Não se pode fazer propaganda conservadora num jornal de referência nacional incendiando arbitrariamente as suas páginas. E eu até estou inclinado a concordar com muito do que ele diz no texto do Expresso sobre o Schiele. É o caso típico em que embora as conclusões sejam acertadas, as premissas estão todas erradas.

Vivi em Viena, por isso conheço bem o peso que Schiele – e claro está: Klimt – possui no imaginário da cidade. A Áustria tem 700.000 muçulmanos, dos quais cerca de 60% vive em Viena. Nos largos anos que por lá andei, nem uma só vez vi uma tentativa, ou acto, uma vandalização, do que fosse das inúmeras imagens de Schiele que decoram a espaços a cidade. Nem uma vez vi manifestações de muçulmanos contras as partes pudendas das figuras de Schiele. Penso aliás que é um não assunto. Muitas vezes passei pelo Museumsquartier e lá estava a enorme estampa de um dos quadros do Schiele. Nunca a vi maculada. Mas vi diversos atentados aos símbolos do Islão por parte da extrema-direita austríaca, a que agora se encontra no poder. Usava e abusava esta, na altura, de uma propaganda insidiosa contra os muçulmanos, como por exemplo representar os minaretes das mesquitas com o formato de mísseis, adornando estes mesmos cartazes com a sugestiva frase – Daham Statt Islam!  Disso vi eu muitas vezes; o contrário, não tenho memória.

Agora Raposo numa coisa tem razão, houve de facto censura às imagens que publicitavam os quadros e que era suposto serem expostas nos aeroportos e metropolitano de Londres. Mas não foi nem de feministas fanáticas nem de islâmicos radicais – foi, num dos casos, do comité de ética de um dos aeroportos. Diz a notícia, reproduzindo a fala da responsável pela exposição:

We had the green light for a very large format and, the day before they went up, agreement was withdrawn as an ethics committee felt (full nude versions) wouldn’t be acceptable for an airport public” or patrons of London’s underground trains.

Onde estão as raivosas feministas que pululam nos pesadelos de Raposo? Tão-pouco foi um órgão como o conselho muçulmano que se pronunciou. Tenho para mim que se a exposição do Schiele chegasse a uma terra de red necks, num qualquer estado vermelho que respire a intolerância e nescidade trumpista, o mais provável era queimarem os cartazes. Porque desconfio que em terras onde acreditam que o homem provém de Adão e Eva não se dariam muito bem com a nudez representada nos quadros do Schiele. Daí que para termos um mínimo que seja de honestidade intelectual, teríamos que dizer, sim, os fanáticos muçulmanos estão do lado da intolerância cultural e artística, assim como estão os fanáticos religiosos de outras confissões. O mote do título do artigo de Raposo pode até ser utilizado com proveito. Quando ele diz “de novo” relativamente à “desordem que Schiele revela” é bom lembrar que essa desordem foi prontamente fulminada pela então elite vienense de impecáveis pergaminhos católicos. Schiele não estava desacompanhado: era levado pelo seu mestre Klimt. O movimento que este encabeçou foi designado de Sezession (secessão). A secessão, como é do conhecimento geral, quebrava com os protocolos estéticos do naturalismo e do objectivismo. Curiosamente, o simbolismo de Klimt afirmava-se entre a abstracção de um Picasso ou de um Kandinsky e a figuração dos corpos assim como herdada do classicismo. Surgia na intersecção do figuracionismo neoclássico e da abstracção cubista. Mas sobretudo, tinha como programa, ao contrário dos grandes mestres abstraccionistas de Paris e Berlim, a recuperação dos corpos e da representação da sua sensualidade. Quando Klimt desenhou os espantosos tectos da Universidade de Viena foi recebido com especial incómodo pelos decanos da universidade e professores em geral. O incómodo partilhado perante a nudez das figuras que representavam as disciplinas, a evidencia das suas partes pudendas, levou a que o trabalho fosse cancelado e os gigantescos painéis confinados aos sótãos de espólios particulares. Havia de arder tudo no inferno nazi. Hoje encontram-se lá umas cópias do que teria sido o tecto do grande salão de reuniões da universidade, reposto na sua originalidade a partir de 2005.

Klimt, tantas vezes perseguido por deboche e atentado à moral, até na censura que a sociedade vienense de fin de siécle fazia ao seu estilo de vida… mas não por radicais islâmicos – antes pelo estado católico austríaco para quem a nudez funcionava como uma quebra dos bons preceitos e um atentado ao pudor. Foi a Viena católica e conservadora, com tiques historicistas-naturalistas, que conviveu mal com a iconoclastia de Klimt.

Na entrada do edifício da Sezession pode ler-se: Der Zeit ihre Kunst. Der Kunst ihre Freiheit. Mais ó menos: A cada tempo a sua arte. A cada arte a sua liberdade. E depois a abóbada do edifício encontra-se toda preenchida com as mulheres de Klimt nos seus ouropéis reverberantes. Contraste gigante com os corpos esquálidos de Schiele. Mas não nas suas evocações sexuais e amorosas, cuja preferência era partilhada por mestre e discípulo. Schiele foi ainda mais ostracizado do que o seu mestre. Os paralelos com a perseguição hoje movida aos seus quadros não pode deixar de ser oportuna.  Na altura, como agora, a exposição dos corpos assim como os via Schiele fez tremer as consciências amodorradas do establishment artístico e mediático. Paradoxalmente, foi essa inconformidade pública que o levou em larga medida à consagração como autor-símbolo do figuracionismo expressionista vienense. Porém, a relação entre Schiele e o público, ou as texturas morais da sociedade vienense da época, esteve sempre longe de ser pacífica. E assim era a posição sociocultural de qualquer artista de avant-garde que se afirmasse como tal. A ruptura como princípio espiritual da modernidade (para utilizar uma categoria de Mannheim) era assumida como a atitude pública de um autor. A avant-garde é inerentemente moderna e irrepetível noutras condições sociais. Assim os dois, Klimt e Schiele, em os Hermitas, representados com uma capa, como hábitos monásticos, e depauperados, prontos para a morte, ou como Schiele diria “tornados suicidas”. Klimt subjugado por Schiele, que no universo artístico repetiria a proeza do mestre: inventar um estilo onde a invenção de um estilo era o único gesto afirmativo do artista criador.

O desconforto gerado pelos corpos de Schiele não fica apenas pela sua exposição directa, que não se furta ao olhar do visitante. Porventura, mais do que os corpos despidos de Schiele, que como diz Raposo, são reproduzidos ad infinitum na pornografia a que todos temos acesso através da internet e outros veículos, o que choca (de novo) as consciências é a natureza desses corpos. Muitos não são belos, se por tal entendermos que não se enquadram nos actuais padrões normativos de beleza. Outros tantos chegam inclusivamente a serem desagradáveis à vista: são repugnantes, doentios, translúcidos.  E sobretudo procuram revelar mais do interior do que do exterior. Como compreender que o espanto e a recusa surja relativamente a esses corpos quando a nudez surge como mediador da adesão de tantos e tantos produtos culturais? Só através daquilo que eles revelam bem para além do simples facto da nudez. E o que revelam os corpos de Schiele? Um desconforto com a corporalidade. Paradoxo novamente quando um autor que tanto explorou o corpo e os seus gestos pudesse no fundo querer exorcizar esse mesmo corpo. Se há coisa que caracteriza os corpos de Schiele é esse namoro permanente entre a sensualidade e a morte. Nem tão estranho seria, quando pensamos que estávamos na Viena de Eros e Thanatos, onde o Dr. Freud tinha o seu sofá na distinta Berggasse. Julgo que o aluvião psicanalítico que então atravessava Viena terá contagiado de alguma forma o jovem Schiele. Por isso o desconforto que Schiele causa ainda hoje, não é pela nudez – é por este desconcertante conúbio entre a sensualidade e a morte. Pois se há tema que percorre grande parte da iconografia de Schiele é o da morte. Digamos então que o que choca nos seus corpos, o que leva ao bater a rebate dos sinos da inconformidade, é a contradição que estes corpos encerram com a medida cultural da corporalidade actual. E o que nos é hoje prometido senão o corpo eternamente jovem e belo?

“Coming outs” políticos

Fevereiro 19, 2018

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O coming out do vice-presidente do CDS não é o mais surpreendente da história recente deste partido. O mais insólito é como puderam os democratas-cristãos conviver com um presidente homossexual durante mais de 18! anos sem este nunca ter assumido que o era. Estaríamos no entanto enganados se pensássemos que o coming out de Mesquita Nunes é algo pacífico no seio do cds, um partido com pergaminhos católicos impecáveis. Não creio que seja. Aliás, Paulo Portas teve que lidar com essa ambiguidade grande parte do seu mandato. O facto de se deslocar com uma senhora simpática durante as típicas arruadas que tanto o caracterizaram, mostrava uma genuína preocupação com a imagem do chefe do CDS. Era no entanto um segredo de polichinelo; como seria também a orientação sexual de Mesquita Nunes entre os eleitores da Covilhã. As pessoas sabiam, já para não falar quem por perto do parlamento andava, que Portas tinha uma relação complicada com a heteronormatividade. Mas ao contrário do agora vice-presidente do CDS, optou por escorraçar esse lado mais cinzento da sua vida para uma zona obscura e não comentada. Mas isto não quer dizer que ela não tenha apresentado os sintomas de uma zona traumática no seio do CDS. Tal conflito, ou ambiguidade, está bem patente nas reacções de ribeiro e castro ao coming out de Graça Fonseca do PS… com um paralelo silêncio em relação ao seu vice-presidente.

Por exemplo, no site da alt right portuguesa – o blasfémias -, o momento da revelação não foi propriamente brindado com entusiasmo e fervor partidário. Pelo contrário, foi mencionado em pé-de-página num post de chuta para canto, como a dizer, isso é coisa que nem interessa discutir. Porém, interessa e muito. Porque é preciso perceber se partidos como o CDS acolhem as orientações de alguns dos seus membros porque tem que ser, porque não há nada a fazer, ou se estas confrontações espelham de facto o alargamento dos entendimentos relativos ao modelo de família, e em última análise, de identidade, que o partido consegue conciliar com a sua doutrina. Melhor dizendo, se tais aceitações significam abertura nos paradigmas da vida em sociedade que toda a doutrina política encerra – umas vezes de forma mais implícita outras mais explicitamente.

No CDS parece-me que uma tal observação é particularmente pertinente. Desde logo, porque as concepções que o CDS tem de família, de vida, de parentalidade e de conjugalidade são muito específicas e ideologicamente interpeláveis. Cristas, por exemplo, é aguerridamente contra a interrupção voluntária da gravidez (vulgo, aborto), mas parece ser mais consentânea em relação à homossexualidade. Estas coisas não são fortuitas, e respondem, de forma mais ou menos absoluta, à matriz católica do CDS. Matriz que não apenas caracteriza as idiossincrasias dos seus membros, mas que faz parte do património político do partido. É por definição um partido democrata-cristão, onde, em corolário, os valores católicos devem ser afirmados. Claro está que a complexidade das vidas reais colide facilmente com interpretações demasiado dogmáticas das matrizes políticas e ideológicas. É o caso de Mesquita Nunes. As organizações sociais não são impermeáveis aos desenvolvimentos que ocorrem no seu exterior. Por isso seria interessante perceber qual o real impacto que um tal coming out produziu na pragmática e doutrina do partido CDS. Bem para além de discursos insípidos sobre a grandeza do gesto ou sobre a coragem do mesmo.

Raposo e a mulher objectificada

Fevereiro 8, 2018

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Sacando um coelho da cartola, Henrique Raposo mistura a afirmação de um artigo de Jenny Hendrix no TLS, que alerta para que não se confunda  emancipação com objectificação, com uma crítica à revolução sexual! Mas onde vai ele buscar estas ideias?

Nos últimos textos sobre a sexualidade contemporânea, Raposo envereda por caminhos a que já nos foi habituando. Opta por admitir o sexo como uma lição de ética. Neste caso as ressonâncias com o puritanismo liberal conservador, com as suas cargas religiosas, são óbvias. Sexo sim: mas com mensagem – parece querer dizer, numa emulação demasiado perfeita do velho sexo sim, mas reprodutivo. As análises de Raposo sobre o fenómeno assédio sexual mostram em que águas turvas navegamos quando se trata do fenómeno metoo#. Por exemplo, uma cena gratuita de sexo seria condenável quanto ao seu aspecto moral. Por isso, a ser aceitável, o sexo tem que prometer mais qualquer coisa para além do seu acto.

O que estas posturas parecem querer enterrar no pântano lógico é que o sexo faz parte da vida. O que escandaliza tanto as mulheres do metoo# – que os homens aproveitem as suas posições de poder para terem sexo – foi durante séculos a verdadeira definição da organização social da sexualidade. Segundo este modelo, uma mulher usar os seus atributos para ganhar benefícios noutras áreas era a definição mesma de mercado matrimonial. É certo que as feministas desconstruíram estas e outras noções de mercado matrimonial, no pressuposto que a metáfora aderia demasiado à realidade de uma mulher enquanto mercadoria. Todavia – e isto é que é fantástico -, enquanto a histeria puritana do metoo# lavra por campos insuspeitos (ou tendo sempre por alvo os suspeitos do costume!) a mulher vendável entra-nos pelos olhos adentro em qualquer reality show em que encerrem vinte jovens numa casa obrigando-os a interagir. Este é um paradoxo a exigir teorização. E é a isto que Hendrix se refere quando fala de objectificação da mulher. Raposo consegue fazer o pleno ao aludir à revolução sexual dos 60 enquanto factor explicativo quando todo o artigo é sobre o boom económico dos 90, ou seja, a emergência voraz do neoliberalismo norte-americano enquanto desencadeador da sexualização do mundo. Talk about intelectual dishonesty. Como não me parece que a omissão de Raposo se deva à incompreensão da peça, só pode ser levada à conta de má-fé interpretativa. Mas isto é um jogo a que a direita conservadora recorre constantemente.

À mulher objectificada, opõe o metoo# uma mulher inacessível, ou só acessível nos seus termos. O que é estranho. Porque sendo a relação a dois, os termos teriam, pelo menos expectavelmente, uma margem de negociação. No feminismo de quarta via, as mulheres recuperam a sua identidade de mulheres e defendem-na com unhas e dentes. Longe vão os tempos do género como construção social, da bricolage com as características sexuais, que quando libertas de restrições morais e regulamentares não se fixam em nenhuma identidade duradoura. O metoo# vira a mesa de pernas para o ar. Não se brinca mais aos lugares intercambiáveis.  As mulheres encontram-se inamovíveis na sua localização social de mulher… e curiosamente esta confunde-se facilmente com a de vítima. Por isso, o discurso de Raposo, ao pegar na cauda conservadora do metoo# enaltece sobretudo a vitimologia em que este discurso se acantonou. De tal forma que termos pesados como violação são agora intercambiáveis com assédio ou comportamento abusivo. Bill Clinton pode ser acusado da violação de inúmeras mulheres sem entendermos que actos realmente foram praticados. Se a violação tem o sentido de estupro então envolve de facto (e de juri) actos violentos sobre a mulher contra a sua vontade, e é um crime. Mas em nenhum dos depoimentos tal comportamento assoma sequer. Daí que estimamos, como em outras semânticas tornadas casuísticas pelo processo histórico, que violação esteja a ser aproveitada enquanto um significado flutuante. E este por seu turno preenche-se com intenções políticas consoante a estratégia de quem o refere. Passamos do corpo performativo de Buttler, para a vítima desempenhada. Aqui parece inverter-se a máxima de de Beauvoir segundo a qual “não se nasce mulher, tornamo-nos mulher” para, parafraseando, não nos tornamos vítimas, nascemos vítimas.

É ainda nesta versão distorcida da sexualidade que Raposo insiste nos malefícios da revolução sexual. O argumento conservador é tão batido que dá pena. Funciona como um ersatz para qualquer explicação de algo que esteja, nesta perspectiva, mal no mundo. E neste sentido, é como assacar as culpas de todos os males da humanidade ao politicamente correcto, sem nunca se perceber bem o que é afinal o politicamente correcto. Da mesma forma, ninguém entende muito bem o que seja a revolução sexual, quais os seus impactos e como, se de alguma forma, perdurou? É que ao mesmo tempo que os suecos difundiam as saunas mistas, combatia-se pelas independências no tardio império português. Ou seja, devemos ter cuidado com a hiperbolização da revolução sexual enquanto acontecimento localizado. Mas o pânico do sexo que todo o bom conservador mostra ter (pânico sempre hipócrita, como a história nunca nos cansa de mostrar) representa a revolução sexual como algo que contagiou, pior, inoculou as mais recônditas esferas da psique e do socius.

É certo que subjacente à crítica da revolução sexual encontra-se a crítica ao relativismo. Na realidade, o que coloca o bom conservador de sobreaviso e com um pânico cultural imediato é o relativismo. Da cultura e da ciência ao sexo vai um pulinho, segundo esta estrada. O relativismo parece assim ser um Moloch descontrolado, que tudo destrói e tudo ameaça. Mas tal como com o politicamente correcto ninguém percebe bem qual o peso que tal bicho possa ter na vida real e quotidiana das pessoas, e não nas elucubrações nocturnas dos conservadores. Os dois fenómenos, relativismo e sexualidade amoral são sistematicamente associados, por esta leitura caricata, aos desmandos do Maio de 68. Importa no entanto notar duas coisas.

Primeiro, o Maio de 68 era sobre o poder, e, em última análise, contra o poder. Que a sexualidade fosse vista como uma das linguagens possíveis de resistência decorre da visão do poder enquanto repressão, e esta age primeiro que tudo sobre os corpos. Segundo aspecto, o metoo# é sobre poder, mas não articula um discurso contra o poder, mas sim sobre a sexualidade, em última análise sobre a sua perversidade. A limitação do discurso do metoo# e a impossibilidade de criar articulações verdadeiramente radicais fica bem espelhada na circunscrição do assédio ao sexo. Outra coisa seria se falássemos de assédio como categoria moral que extravasa o sexo. Assédio no emprego imposto por chefes a subordinados, por coacção, por tratamento desumano, por arrogância e exigência de submissão. São tudo categorias possíveis. Mas o metoo# fica confortavelmente acantonado no assédio sexual. E assim fazendo exclui da sua consideração a questão do poder. Daí que a linha traçada entre o terrível Maio de 68 não apenas é historicamente desprovida de sentido, como teoricamente desadequada. Apenas interessa para legitimar a versão conservadora da crítica à sexualidade.

E para fugir a um tal relativismo que supostamente baixou sobre as coisas da carne como uma doença, Raposo não faz mais do que equivaler o sexo ao mal – “Como disse aqui na sexta feira, o mal é para mostrar com secura.” (sic). (e veja-se como a dois artigos sobre a sexualidade feminina sucede um artigo sobre o “mal” – haveria muito para psicanalisar nesta associação). O que nem contradiz a moral católica que sempre viu o sexo como perdição. A queda liga-se inextricavelmente à nudez e ao conhecimento do corpo enquanto carne. E o mal, claro está, sempre foi equacionado na sua estranha relação com a visibilidade.  Ainda hoje se noticiou que o cardeal patriarca exortou os fiéis à abstinência, como se a marca da relação sexual contivesse em si mesma uma pegada (no sentido do adn) moral.

Lacrau libertino

Fevereiro 7, 2018

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Se é verdade que o Sporting há muito não dá campeonatos aos seus sócios e aficionados, não deixa no entanto de oferecer momentos de excepcionalidade hilariante (ou depressiva, conforme o ângulo que se escolha) protagonizados pelo seu presidente Bruno de Carvalho.

O discurso de Bruno no palanque televisivo nacional deixou com certeza muito boa gente boquiaberta tamanha a dimensão da boçalidade e do “carroceirismo”. Se ainda houvesse dúvidas, fica de uma vez por todas explicada a razão de uma empatia tão gigantesca e sólida entre Bruno e Jorge Jesus: são os dois umas abéculas. Todavia, uma das abéculas é mais perigosa do que a outra e possui os tiques daquilo que poderíamos designar por trumpismo. É claro que a comparação não pode ser tomada muito à letra. Desde logo porque se um possui os códigos que permitem destruir a terra mais de trezentas vezes, o outro só possui o segredo de como enterrar o Sporting no ridículo.

Quanto à comparação com Trump já lá iremos. Antes de mais é preciso dizer que Bruno é o típico queque que quer parecer muito mau, muito ordinário, ainda mais ordinário do que a malta da reboleira (da antiga, porque na nova já só acampam milenials e classes simbólicas); o homem que parece saído de um romance da Margarido Rebelo Pinto que diz caralhadas enquanto agita os berloques dos sapatos. E tudo isso estaria muito bem, não se desse o caso de Bruno ter falado no horário nobre de quase todas as televisões com difusão nacional. Bruno, não sei se por manifesta inconsciência ou por pura demência, deu um triste espectáculo por pensar que estava a falar lá para a casa dele, ou seja, o Sporting.

A boçalidade de Bruno de Carvalho é inenarrável. Desde trocadilhos com o olho do cu, passando pela boutade de que para ele tanto lhe fazia o método de Hondt ou o de La Palice, até opor liberdade a libertinagem (quereria dizer anarquia?) – de tudo isto nos serviu. Pelo menos eu tenho um presidente, que não primando pela sua genialidade intelectual, leva um papel bem escrito, revisto e corrigido, e bota discurso consoante o que está na pauta. Bruno de Carvalho achou que era um génio do improviso e provou que o Sporting está entregue a um boçal caprichoso. Mas não se enganem. Bruno é o sintoma de outra coisa qualquer; e é essa coisa que quero designar por trumpismo.

Salvaguardando as distâncias e a escala, os comportamentos de ambos são indiciadores de uma versão de democracia que é, para todos os efeitos, abastardada. Para ambos a democracia existe para os servir a eles e não o contrário. O princípio de que sob a alçada da democracia qualquer cidadão possui uma parte da soberania e por isso pode reclamá-la, não existe na sua concepção. Repare-se como Bruno faz uma fita porque não admite contestação interna, enquanto do outro lado do Atlântico, Trump acusa os democratas de traição porque não o aplaudiram durante o discurso da União. Escalas diferentes – princípios iguais. Comportam-se como dinastias e não como indivíduos plebiscitados. Mesmo a sistemática invocação das questões familiares tem mais a ver com os sistemas dinásticos do que com as democracias. Bruno a publicitar o nascimento da filha nos écrans gigantes de Alvalade é o exemplo acabado de uma demonstração simbólica dinástica. Também Trump, ao rodear-se da sua família, oferecendo-lhes lugares na governação trata a democracia como uma soberania de natureza dinástica.

Por outro lado, Bruno é useiro e vezeiro em insultar tudo e todos nos seus posts, utilizando as redes sociais como veículo de guerrilha. Trump usa as redes sociais para expelir ódio a qualquer pessoa ou facto que o contradiga. Bruno faz listas de pessoas que ele considera indesejáveis no Sporting e publica-as, num assomo de “bufismo” de menino queixinhas. Trump aponta a dedo e em público os seus ódios de estimação dentro do jornalismo e da comunicação em geral. Bruno constrói em torno da sua pessoa um discurso de predestinação sobre o seu comando do Sporting. Trump julga-se predestinado para ser o melhor presidente de sempre dos Estados Unidos. E finalmente, Bruno tem um total desrespeito pelos seus predecessores, como se o Sporting tivesse começado com ele. Trump faz exactamente o mesmo com a presidência dos Estados Unidos.

Repito: salvaguardando as distâncias, os tiques comportamentais são muito idênticos. Não quero engrandecer Bruno de Carvalho com a comparação; algo que certamente ele não enjeitaria. Mas simplesmente mostrar que se trata de qualquer coisa de sintomático que não está nem na pessoa Trump nem na pessoa Bruno de Carvalho. Ou melhor, está em ambos como tipos (como em tipificação) de uma gestão e expressão pública muito própria da época em que vivemos. Trata-se de uma personalização do lugar institucional que deixou de funcionar através de grandes manifestações de massa (excepto em Pyong Yang), mas cuja natureza colectiva não deixou de ser operativa. Com efeito, a dimensão da espectacularização encontra-se agora na capacidade de disseminação da mensagem e idiossincrasias do líder. Também nisso Bruno segue uma vulgata trumpiana. Na falsa aproximação do líder à linguagem da plebe, na crítica paradoxal do elitista à elite, e na delimitação do “grupo do croquete” – como ele diria – enquanto construção do inimigo interno. Algumas coisas são intemporais. E não são tanto as ocorrências que primam pela novidade, mas o veículo dessas ocorrências. Finalmente, como Trump, o presidente do Sporting está à vontade para cuspir insultos e alimentar um discurso corrosivo (como diria o presidente da liga) sobre os adversários – aqueles que são escolhidos a dedo: leia-se o Benfica. Porém, amofina-se como uma menina a quem amarratoram o vestido de noiva quando é alvo dos mesmos processos. Há um halo de significação que une os dois momentos da personalização contemporânea figurados em Bruno e Trump.

Porém, há coisas subjacentes mais importantes. Uma delas é Bruno de Carvalho ver novamente a possibilidade de ganhar um campeonato fugir-lhe; e isto depois de um investimento sem precedentes de 70 milhões de euros. Outra, é ver-se agarrado ao treinador mais caro de sempre em Portugal que passado quatro anos não ganha nada a não ser a taça ctt. É pouco. Tem por isso razões para todo o stress e descompensação que tem mostrado ultimamente. Bruno de Carvalho faz obviamente um bluff. O que ele propôs aos sportinguistas foi a velha doutrina do “ou estão comigo ou estão contra mim” – sem concessões. A diferença é que Bruno não tem uma posição de poder que seja autónoma da sua situação actual. Ou seja, o bluff funciona no pressuposto que nenhum sportinguista quer arriscar atirar o clube para uma crise sem fim à vista (e sem presidente) quando as possibilidades de ganhar um título estão, paradoxalmente, tão perto e tão longe. Perto, porque objectivamente o sporting está a fazer a melhor campanha desde que Jesus é seu treinador. Longe, porque já pressentiram que Jesus pode repetir a façanha de ficar aquém em todas as apostas. Por ser um momento crítico para o clube, Bruno faz funcionar o seu bluff. Ao encostar os sócios à parede com as condições draconianas que impôs sabe perfeitamente que nenhum quererá ficar com o ferrete de ter desestabilizado o sporting tão perto do seu desígnio de há anos. Como Trump, quer o amor incondicional da sua prole caso contrário o seu egocentrismo excessivo deixa de ter alimento. O paradoxo é que nem Trump nem Bruno fizeram os seus lugares – são os lugares que os fazem a eles. Melhor dizendo, quando Bruno se queixa de dar tudo ao sporting, de empenhar a sua vida pelo sporting, o que ele devia dizer é que tudo extrai do sporting: a sua entrega ao clube funciona mutatis mutandis como o motor do seu engrandecimento.

Por isso, Bruno está tão interessado em demitir-se como em dar um tiro na cabeça. Se o quisesse fazer, já o tinha feito. Caso os sportinguistas tivessem juízo não se deixavam arrastar pelos delírios de um megalómano passivo-agressivo. E podia bem ser que a assembleia geral prometida fosse o tiro na cabeça que Bruno não esperava.