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O que aí vem

Janeiro 26, 2017

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Em entrevista à SICNotícias, Miguel Monjardim, o comentador de relações internacionais da estação, repetia a estafada versão segundo a qual os democratas não perceberam a razão da vitória de Trump, e que essa incompreensão traria certamente dificuldades para o programa político democrático. É mais do mesmo: a crítica do elitismo democrático e etc… A pergunta que lhe fizeram fora: – Que tipo de presidente será Trump? Pese embora a futurologia implicada no arriscar de uma resposta, a questão é objectiva e não admite diatribes inconsequentes.

Que tipo de presidente será Trump? Considero que já existem dados suficientes para responder com alguma assertividade à questão. Podemos começar por examinar que tipo de homem é Trump. É, para começar, um ignorante. Aqui não se encontra implicado nenhum elitismo, na medida em que um presidente tem que ser um conhecedor de coisas, digamos assim para não especificar um saber técnico ou humanista. Trump não tem nenhum. Os seus discursos são pateticamente infantis, e nisso aproxima-se das pop stars mais inconsequentes e ignorantes. É preciso temer o pior, porque o pior vem aí. Nigel Farage exulta com a subida de Trump ao poder chegando mesmo a usar a palavra revolução. Bem pode António Louçã escalpelizar as diferenças entre o tempo histórico de Hitler e a América de Trump – talvez para nos tranquilizar, talvez para enunciar a afinação do olhar de historiador – não é isso que torna Trump menos fascista. À pergunta, será Trump um novo Hitler?, devemos responder que ela não é a correcta. Trump é um fascista dos tempos de alta aceleração comunicacional. Ao invés de grandes manifestações de massas, arregimenta ideologicamente as suas hostes através do twitter, da televisão e das redes sociais. Em vez de longos e inflamados discursos, despeja o seu ódio em interjeições e curtas formulações. Em vez de organizações de massas – como os grandes partidos fascistas – Trump move-se nas autocracias internacionais do dinheiro.

As medidas que já promulgou fazem prever o pior para o que ainda aí vem. Tortura, indústrias poluidoras, corte unilateral com convénios internacionais, apoio incondicional a Israel e ao seu papel de potência hegemónica (militar) no médio-oriente, alienação e até hostilização da Europa, muros com o México, medidas radicais anti-imigração… Toda uma agenda que diversos presidentes republicanos norte-americanos gostariam de ter assumido, mas que por taticismo ou diplomacia, se foram contendo. Trump é a extrema-direita no poder, perfeitamente legitimada, a entrar-nos pelas janelas adentro. O corte com o TPP (Trans Pacific Partnership), dizem alguns iluminados – como o comentador de política internacional da antena 1 – é paradoxal, na medida em que este estava feito para retirar poder económico à China. Não há nada de paradoxal. O que Trump pretende é desbloquear as regras do emprego e contratação para níveis idênticos aos da China, algo a que o TPP colocava alguns freios. A administração Trump pretende a desregulação total do mercado laboral, à maneira da China, para com esta poder competir no dumping social e económico que é a sua prática: inexistência de sindicatos, total desprotecção laboral dos trabalhadores, salários de miséria. Bem pode Bernie Sanders congratular-se com a exigência de Trump “fabricar” mais empregos – a que custo serão estes fabricados?

O atropelo directo e sem vergonha dos direitos humanos evidenciado pelo endossar da tortura e pela rejeição do acolhimento de refugiados é apenas o princípio. Seguir-se-ão cortes severos no que resta do Estado-providência, nos apoios sociais aos mais desmunidos, numa política sem qualquer tipo de misericórdia perante a exclusão e dificuldades de inserção social de certos grupos. O cristianismo de Trump é de tal forma contaminado pelo seu neoliberalismo sem concessões que nem sequer a réstia de humanidade subjacente às práticas caritativas da extrema-direita conservadora subsiste.

Há pelo menos um paralelo com Hitler que pode ser traçado sem nos enredarmos em diferenças conjunturais históricas. O discurso da catástrofe, do inimigo within, de uma América esventrada por gangues e crime, da associação sistemática desse estado a grupos específicos, tais como imigrantes e muçulmanos, possui parecenças reconhecíveis.

Pode não ser Hitler, mas há que perceber porque recebe tanto apoio dos grupos neo-nazis deste e do outro lado do Atlântico.

A bicicleta sem rodas

Janeiro 19, 2017

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Estaremos à beira de confirmar o título de um precioso ensaio de Tony Judt – Europa: A Grande Ilusão? O problema dos nacionalismos é algo de estrutural no espaço europeu e não emergiu devido à crise dos refugiados. As fracturas são antigas. Algumas datam das divisões de Versalhes, que subsistem em tantos arranjos e clivagens institucionais. Outras são mais recentes, e prendem-se com o esmagamento económico ou com políticos populistas que ascenderam entretanto ao poder. O facto é que os construtores da Europa sempre conheceram, e temeram, este equilíbrio precário. Os norte-americanos estão unidos em torno da ideia de democracia e do liberalismo original dos founding fathers (independentemente da sua extensão de cinismo); mas o que une os europeus? A Comissão bem se esforçou por disseminar programas que consolidassem uma qualquer identificação; verdadeiros crash courses em identificação europeia foram experimentados ao longo destes anos, e os resultados estão à vista. Os europeus não falam a uma só voz. E não se trata da autonomia dos estados norte-americanos, que podem discordar e antagonizar-se como frequentemente fazem. Não, os europeus discordam da própria necessidade de pertencerem a uma coisa a que chamam Europa. A Europa é pouco solidária não porque as nações sejam egoístas, mas porque os seus habitantes não aderem à própria ideia de Europa. A extrema-direita está em franco crescimento não porque a Europa não a soube suster, mas porque os seus apoiantes nunca viram nenhum interesse em pertencer a uma coisa designada Europa. Enquanto complexo geográfico e cultural, a identificação é automática – historicamente automática. Enquanto projecto político e social a identificação é flébil.

A Europa construiu-se, para além disso, contra o mundo muçulmano. Houve intercâmbios, claro que sim, e uma relação de absoluta oposição é sempre um entorse da interpretação histórica. Todavia, os grandes impérios a Leste sempre delinearam as suas fronteiras orientais pela linha de separação com os territórios muçulmanos. Se o Leste era um território estranho para os cronistas do século XVII provenientes da Europa ocidental, que nele viam um mundo arquitectónico ortodoxo, não deixava também de ser a fronteira dos Habsburgos e as suas capitais a afirmação desse poder imperial contra o Otomano. Não será de estranhar que as novas fronteiras emerjam precisamente aí. Que os povos se unam com os seus governos num populismo fascizante na securitização das suas fronteiras. As suas identidades foram em tempos construídas contra esse mesmo inimigo.

A Europa não comandará qualquer adesão se for apenas a Europa das elites, feita para elas e para a mobilidade destas. É o que tem sido. Sobretudo o aprofundamento das vias de alta mobilidade e velocidade para as elites europeias para quem todo o projecto parece cada vez mais funcionar. Em países onde outrora o Estado-providência foi vigoroso assiste-se agora ao desmantelar das redes sociais de segurança, à sua substituição por mercados, à estratificação impiedosa do acesso a estes. Quem fica de fora não tem a misericórdia do projecto europeu. Surpreendente então que a extrema-direita cresça viçosa pela maioria dos países da Europa do norte? Uma extrema-direita que se encontra no poder actualmente nos USA e que fará tudo para provocar a implosão do projecto europeu.

Os avisos de Trump sobre os potenciais trânsfugas do espaço europeu constituem uma estratégia de guerrilha comunicacional, mas que terá um grande apelo no eleitorado de extrema-direita deste lado do Atlântico. Ter-se-á Trump encontrado com Marine Le Pen? O mais provável é ter-se de facto encontrado, a coberto do fernezim jornalístico e da opinião pública. Não por acaso surgem estas afirmações sobre Merkel e a Alemanha dos refugiados e os descontentes com a Europa. O timing é demasiado perfeito entre a ida de Le Pen aos USA e as declarações do presidente norte-americano, para ser mera coincidência.

A Europa estará assim sobre dois fogos: um interno, o outro externo. Do lado americano, o make american great é uma estratégia de afronta aos concorrentes dessa américa. O tão propalado isolacionismo de Trump, não é isolacionismo nenhum. Ele escolhe criteriosamente os seus amigos, e estes parecem ser preferencialmente a extrema-direita (onde quer que ela se encontre) e os plutocratas russos. A europa vai ficar entre o urso russo e a águia americana. Pela primeira vez na história corre o risco de ser alienada pelos dois lados.

No meio de tudo isto há um parceiro pouco convencional segundo as perspectivas de há duas décadas: a China. A aproximação da Europa à China tem-se feito por muitos e variados caminhos. Os negócios obviamente ocupam a maior parte deste novo espaço de intercâmbios, mas não o esgotam. Cada vez mais os estudantes chineses procuram as universidades europeias; a classe média-alta chinesa procura as históricas cidades europeias para se refugiar do caos das megaurbes natais, os seus reformados fazem planos para passar os anos da velhice em Lisboa ou Madrid, e as embaixadas estreitam relações entre o todo-poderoso estado chinês e os seus homólogos europeus. Enquanto Trump imprecava a UNO de António Guterres, a China anunciou de imediato cooperação total. Não quer isto dizer que a China é um parceiro imaculado, que funciona como simétrico dos USA. Longe disso – a China também é movida a dinheiro, porventura ainda mais do que os USA. Seja como for, uma mutação fundamental na relação internacional de forças e no lugar nela ocupado pela Europa, encontra-se em curso, como a lenta mas efectiva deslocação de placas tectónicas.

E contudo desenha-se cada vez mais uma Europa conservadora. A vitória de Van der Bellens na Áustria com o profundo suspiro de alívio de metade da Europa, mostra bem como o precipício está ao virar da esquina. E respire-se de alívio com contenção porque 46% dos eleitores austríacos votaram em Hofer, o líder da extrema-direita. A muitos provoca certamente arrepios, para muitos outros é um indicador da possibilidade real de chegar ao poder. Diz-se frequentemente que estes outros não querem a Europa e por isso não precisam do poder Europeu para nada; que se encontram concentrados nas suas nações e que por introversão só com a domesticidade das suas lutas se preocupam. Julgo que estarão enganados.

A extrema-direita quer o poder na Europa, ou seja quer o poder europeu e não apenas governar os respectivos países. O franco paradoxo de uma extrema-direita que se candidata a eleições para o parlamento europeu alicerçando as suas campanhas numa retórica anti-europeísta é mera ilusão. O exemplo dos Estados Unidos dá um novo fôlego à extrema-direita mais organizada em França, na Dinamarca, na Áustria, Alemanha, Holanda, Suécia, sem falar dos países de Leste, onde esta ou se encontra no poder ou faz alianças com os partidos do governo. Suponho que o conjunto destas forças olha para a subida da extrema-direita ao poder nos USA como um arrimo imprescindível para continuarem as suas lutas. Hoje, não parece assim tão rebuscado o panorama de um parlamento europeu maioritariamente de extrema-direita. Efectivamente não será para já; mas esta hipótese parece hoje mais viável do que alguma vez foi desde que se celebrou o tratado de Roma. Os anticorpos que a Europa saída da II Guerra produzia contra os fascismos foram-se delindo, melindrados pela evolução global ou esgotados pela desmoralização dos eleitorados. Não é um cenário assim tão rebuscado. E se ontem parecia impossível nos USA, e hoje a extrema-direita ocupa o poder no dito país fonte e causa da democracia mundial!, porque será assim tão estranho que possa vir a acontecer na Europa?

Consenso e conflito

Janeiro 12, 2017

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“Isto é uma vergonha nacional!”, exclama um comensal ao ver o funeral do Mário Soares. Mais tarde, num facebook, encontro “esse verme”, “porco nojento”… e novamente o comensal: “esse homem é responsável por mandar matar milhares dos nossos”. Sem mais explicações. Fica assim a pairar um sentimento importuno de viés analítico, injustiça popular, comiseração saudosista. A razão para tais vitupérios estaria associada à descolonização? E se sim, como teria esta afectado aquele homem que almoçava a meu lado e que provavelmente nem nascido era quando se deu o acontecimento? Diz uma mulher que o acompanha ao ver o Costa vestido de brahmane hindu, “Este é que fez bem, que cavou daqui para não aturar isto”. Isto era o coro do São Carlos a preencher os claustros dos Jerónimos com Mozart em homenagem a Soares.

Penso que teria sido honesto se algum deste ódio tivesse perspirado para a comunicação social. Dava uma imagem mais objectiva da correlação de forças política e dos matizes da opinião pública. É certo que muito disto escancarou as caixas de comentários dos jornais. Mas numa acção mais profilática do que sincera, quem tinha que dizer coisas e espaço para o fazer não lhe fez alusão. Alguns disseram: Soares nunca foi consensual. Mas isto é pouco. Uma lei é uma coisa que pode não atingir o consenso, mas daqui não se segue que se invective a normativa; uma personalidade pública dificilmente é consensual, mas daí não se segue que se insulte a pessoa em praça pública. Por outras palavras, a falta de consensualidade de Soares não é uma particularidade, é a regra; por isso mesmo não explica o ódio que tantos lhe devotam. Em tempos de “descripação” como diz o nosso presidente, do ambiente político os consensos aparentes não são as melhores bússolas para perceber as relações de força. O consenso, como dizia o velho Lipset, sustem-se à custa da continuidade do conflito. Desconfiemos por isso dos panegíricos ao consenso e falta de crispação na sociedade portuguesa, porque normalmente são estágios preparatórios para outras refregas. Mas regressando ao caso Soares. O que impressiona, para além da boutade repetida ad nauseam de que este não era consensual, é o facto da direita (alguma esquerda, há que dizê-lo) ter cautelosamente deixado escapar nas entrelinhas de tímidas louvaminhas o potencial de raiva revanchista que em lugares menos censurados intelectualmente explodia sem pedir licença. É um fenómeno tremendo da sociedade portuguesa – e não nos esqueçamos que ainda assim a coligação psd-cds foi a força política mais votada. Existem crispações subterrâneas que não mostram a sua face quotidianamente, mas que a espaços ressurgem para espargir a sua virulência. Imaginemos que a crítica a Soares tem por articulação temática uma crítica ao 25 de Abril. Estaríamos perante o caso que não somente o 25 de Abril não se cumprira – como pretende a esquerda mais exigente – como para muitos dos nossos concidadãos se devia descumprir. Aqui persiste um fosso que não há “descrispação” na consensualidade que lhe resista. Que ele se torne tão aparente em momentos que suscitam desconforto da parte de tantos, mostra como a tese da pacificação da sociedade portuguesa só tem aplicação momentânea.

Os homens do sobretudo verde

Janeiro 10, 2017

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É paradoxal que Soares, a quem a direita tanto ódio dedicou nas famigeradas eleições contra Freitas, seja resgatado por essa mesma direita como o defensor das liberdades. Por exemplo, João Miguel Tavares, o vate da nova geração de direita (depois de Mexia  se ter arrumado na prateleira das eminência pardas da intelectualidade) diz que o Soares do tempo dele foi para todos os efeitos execrável – porque se colocou ao lado das ideias e movimentações da esquerda. E assim sendo, o que importa salvar é o Soares que não foi do tempo dele, o que lutou contra o comunismo. Notemos que o Soares que lutou contra a ditadura de Salazar tem sido apoucado nos comentários de toda uma direita que por pudor ou por cinismo se tem abstido de lhe prodigalizar os mesmos mimos que fez há muitos anos atrás. Nesses anos, onde os comunistas eram enviados para a Sibéria pelos defensores da liberdade que se reuniam em magotes enraivecidos nos comícios de Freitas do Amaral, o líder socialista não era visto com a mesma benevolência.

Pois eu sou do tempo desse Soares e dessa direita, e tendo vivido a sinistra arregimentação colectiva em torno de um sobretudo verde que os betos de Lisboa e do Porto usavam como sinal de pertença a uma qualquer contra-revolução conservadora, sei que a direita portuguesa nem sempre teve esta atitude (cinicamente) contemplativa sobre a acção de Mário Soares. É importante perceber que no estado de crispação em que o país se encontrava as fracturas entre a esquerda e a direita eram de tal forma evidentes que não havia pragmatismo que as invisibilizasse. O ápodo de Bochechas não era então utilizado de maneira carinhosa como alguns pretendem; e se de um lado se engoliam sapos com pernas a tremelicar, do outro o Bochechas era o carniceiro que tinha sangrado este país. Ouvi então de colegas meus, que ainda mal davam os seus primeiros passos no mundo politizado das campanhas, dizer que Soares era um traidor à pátria. E não podia deixar de causar perplexidade donde vinha tanto ódio por parte de miúdos de treze e catorze anos que mal sabiam o que era o regime constitucional português. Esse ódio era alimentado pelos seus progenitores, colhido em casa aos serões e nos jantares com os familiares e amigos: todo um Portugal com sede de vingança que se mobilizava para resgatar o sentimento de desforra que tinha ficado em suspenso.

Por isso, quando Soares ganhou as eleições, muitos de nós respirámos de alívio. Não tanto pela pacificação que posteriormente se instalou, mas porque nessa época respirava-se um sentimento de hostilidade latente por parte de uma direita que se mobilizava e parecia querer recuperar o seu lugar de antanho. Foi toda uma elite que sentiu que havia contas a serem saldadas com a história e que se reuniu em torno de Freitas do Amaral.

É pena que não seja esse o Soares recordado. Como as coisas entretanto se baralharam – Freitas passou a ser mais de esquerda do que alguns esquerdistas – a pacificação tornou-se um facto. Mas nesses tempos o ódio era palpável. O sobretudo verde simbolizava um retorno a uma ordem do passado que reclamava agora uma nova aparição que apagasse o curto-circuito que na sua óptica tinha sido o 25 de Abril. Não nos deixemos enganar por estas lágrimas de crocodilo com que os representantes da direita molham os seus artigos: o 25 de Abril, na retórica daquela época, era a catástrofe; o 25 de Novembro a verdadeira libertação. Nem espanta assim tanto que quando lidos os artigos de um conjunto de plumitivos – do Observador ao Expresso – o que mais salientado surge é o papel de Soares no 25 de Novembro. Este para todos os efeitos continua a ser o marco mais importante da história nacional segundo estes comentadores. Afinal de contas, mesmo com o clima político sem a crispação de outrora, a fractura que interessa encontra-se latente. A pergunta não é como Helena Matos diz se precisamos de um novo pai; é antes o que pode acontecer para que esta fractura volte a mostrar o poder divisivo que em tempos de sobretudos verdes um dia exibiu em claro. Nem a suposição é assim tão disparatada quando olhamos para o panorama europeu de braços levantados em saudações que já aterrorizaram uma outra Europa.

Soares é Fixe

Janeiro 9, 2017

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Uma coisa é consensual relativamente a Soares: os ódios que concita à esquerda têm a mesma intensidade dos ódios que suscita na direita. A segunda não lhe perdoa a descolonização que por preguiça intelectual e o desconhecimento mais básico da história recente de Portugal a ele todos os males lhe imputa. A primeira não lhe perdoa o fim da revolução, o socialismo na gaveta e aquilo que vê como tendo sido a abertura dos poderes institucionais à direita. Se a direita pode ser contrariada dizendo que nem Soares tem essa tão grande responsabilidade no processo de descolonização, nem esta teria sido diferente caso Soares não agisse como agiu; à esquerda pode-se sempre contraditar com o facto de o drama do regresso da direita ao poder assim como a europeização de Portugal parecer concentrar-se demasiado em Soares, pelo que este teria as costas muito largas mesmo.

Para analisar estes dois aspectos de maneira algo desapaixonada (nunca se é totalmente desapaixonado quando se defendem pontos de vista), começo pela descolonização. A primeira coisa a notar é que a tese da inevitabilidade que geralmente alguns sectores usam para justificar o que quer que seja que a direita acusa Soares não colhe. Quem ler o Portugal Amordaçado fica rapidamente consciente que Soares era um arguto crítico da realidade colonial, da ideologia imperialista do Portugal de Salazar e de Caetano. Certas páginas deste livro antecipam discussões que só nos últimos dez anos foram sustentadas pelos sectores intelectuais do país. Aí se lê sobre as estruturas racistas de dominação colonial, de como o direito à autodeterminação dos povos é algo de inalienável, de como a guerra colonial cerceava vidas inutilmente em ambos os campos. Por conseguinte, em vez da precipitação ou da inevitabilidade da solução, Soares defendia que ela acontecesse e o mais rápido possível. O estado de catástrofe do fim da empresa colonial portuguesa pelo qual muitos responsabilizam Soares, só por má-fé o podem fazer. Este, como se torna cada vez mais evidente com o aprofundamento do olhar histórico sobre este período, foi o resultado de uma situação demasiado prolongada no tempo. O contra-argumento reza que a descolonização soarista evitou na realidade um banho de sangue, como aconteceu noutras descolonizações africanas. Esta segunda modalidade de singularizar a descolonização portuguesa peca também por imprecisão. É preciso conhecer a configuração de poderes no terreno – ou seja nos territórios ultramarinos – para perceber porque razão não houve um banho de sangue. A intervenção de potências estrangeiras é uma das explicações; mas o facto de haver um exército que era ele próprio anticolonialista e revolucionário explica que a resistência não tivesse endurecido e que mesmo alguns portugueses ingressassem nas fileiras dos exércitos nacionalistas em lugares de destaque. Por conseguinte, o rancor que os “retornados” devotam a Soares está mal dirigido e devia ser, de uma vez por todas, ultrapassado com a pacificação da memória da perda. O exemplo de que assim ainda não aconteceu são os inúmeros insultos nas caixas de comentários dos jornais nacionais.

A esquerda, por seu turno, foi apaziguando a sua relação com Soares, mormente porque este desenvolveu nos últimos anos da sua vida, uma imagem de porta-voz legitimado da insatisfação com as medidas da troika. A aproximação de Soares à esquerda, com a participação nas conferências da Aula Magna, não é alheia à possibilidade de encontro que posteriormente se verificou entre o PS e o BE e o PCP. Podemos dizer que ela preparou em certa medida esse terreno. Soares inverteu assim a sua trajectória, do experimentalismo com o bloco central, para a proximidade com a esquerda e com o seu discurso emancipatório. O que lhe permitiu esta inflexão foi, por um lado, o enfraquecimento da típica irredutibilidade do PCP, e por outro a inflexibilidade na estratégia do PSD. Podemos perguntarmo-nos se isto não constituiu mais um exemplo do famoso pragmatismo soarista. Todavia, creio que permitiu uma gradual aproximação de uma ala mais soarista do PS a uma ala, também ela confortável com algum do soarismo, no BE.

Que Soares foi um combatente pela liberdade, ninguém o pode negar. Que foi um político de excepção, também não. Que o PCP continua a julgá-lo pelo seu papel no 25 de Novembro ou supostamente na abertura do país às privatizações, também é conhecido. Soares optou por um Portugal europeísta e rejeitou a ideia da revolução. Isso é claro e substancia o socialismo na gaveta. Para se compreender a expressão tem que se pensar nela no contexto da sua aplicação. O socialismo era uma coisa diferente. Hoje dificilmente teríamos grande parte da esquerda a defender uma reforma agrária; tão-pouco a colectivização dos meios de produção e a unificação sindical. Mas à época era justamente isso que a caminhada para o socialismo significava: uma aplicação prática das ideias de Lenine em o “Que Fazer?”.  Este Portugal era incompatível com o Portugal da União Europeia. E embora a pergunta possa ser feita se valeu (e vale) a pena  o Portugal da União Europeia, julgo que ela deve ser antes se teria Portugal sobrevivido sem a integração no espaço europeu.

Financial Times

Janeiro 9, 2017

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Os elogios a António Costa pelo Financial Times fizeram furor na comunicação social portuguesa. Mereceram o tempo de uma notícia nos principais noticiários televisivos. E porventura mais interessante, mereceram um afluxo razoável de comentários nas caixas de comments do Financial Times.

O teor da notícia é ele próprio matéria de estudo. O elogio é feito mas porque as expectativas eram exactamente as contrárias; ou seja, o elogio é feito against all odds! O velho Keynes ensinou-nos a importância das expectativas nos ciclos económicos. No jogo de negociar expectativas há pessoas que se tornaram profissionais. Por isso é que contrariar expectativas tornou-se questão de guerrilha comunicacional. É evidente que se tem sempre expectativas em função de qualquer coisa. Mas esse algo nem sempre é muito real ou sequer objectivável. Com efeito as expectativas estão, para o pior ou para o melhor, dependentes da informação que se possui. E isto para qualquer situação social que envolva um qualquer grau de incerteza. No campo político – e este compreende actualmente bem mais do que o parlamento e os partidos – gerir expectativas tornou-se a “fatia de leão” da linguagem política. O aspecto depressivo e punitivo do discurso de Passos, o seu falso moralismo económico, a sua arrogância pretensamente técnica (assim como tantos dos seus ministros) acabou por ser mau para o inflar de expectativas mesmo against all odds. É curioso que seja uma pseudocoligação de esquerda que melhor jogue o jogo das expectativas, aqueles que eram tidos pelos pessimistas carrancudos que pretendem arrancar pela base qualquer sinal de iniciativa individual. Daí o espanto do Financial Times. Como opera com preconceitos (não existe tal coisa como objectividade jornalística porque o jornalismo é feito por jornalistas) caldeados em muitos anos de formação ideológica, a “gerigonça” só poderia resultar against all odds! Mesmo que por princípio racionalmente conduzido qualquer outra alternativa dadas as circunstâncias em que o país se encontra mergulhado só poderia resultar, na mesma forma, against all odds! O facto é que os odds eram os mesmos para a esquerda e para a direita, a forma como são geridas as expectativas é que se distinguem.

Uma horda de profissionais prepara os seus textos, com bons correctores automáticos, ou mesmo especialistas em tradução, para os vomitar nas páginas dos comentários e assim tentar influenciar o jogo das expectativas. É impressionante como os ditos comentários – naquilo que se atribui à sua natureza espontânea – são na realidade burilados, formulados e reformulados. Só assim se pode compreender a consistência lógica, a estruturação cuidada de muitos deles – ao que nada devem à espontaneidade de desabafos ou extemporâneas opiniões. Há portanto uma máquina de fazedores de comentários, porventura pagos, para influenciar o jogo das expectativas. No caso vertente, o inglês de alguns é tão perfeito que diríamos escrito por nativos na língua; todavia o conhecimento dos assuntos internos à nossa res publica é de tal forma aprofundado que seria paradoxal termos nativos britânicos a expressarem a sua indignação perante os elogios tecidos a Costa. As máquinas partidárias não brincam em serviço. Sobretudo quando se trata de uma máquina revanchista e rancorosa como a do psd e do cds-pp. Não quer isto dizer que as outras máquinas não invistam nas mesmas estratégias e que para elas não seja igualmente importante o jogo das expectativas. Quer apenas dizer que actualmente é a máquina do psd e cds-pp que se encontram no lugar do rancor e da vingança. Seja como for, aqueles que têm meios para o fazer investem em profissionais das caixas de comentários. A opinião pública e publicada confundem-se e por isso na impossibilidade de separar o trigo do joio sem um aturado trabalho de selecção os nossos sistemas comunicacionais encontram-se sobrecarregados. Por isso Trump não é o labrego convencido que os apresentadores nova-iorquinos de talk shows dizem que ele é quando este envia twitters a toda a hora. Ele percebeu que a política se joga praticamente toda ali; o resto é burocracia e expansão de deliberações com base legal. O efeito de imediatismo que a linguagem política necessita ter convém da mesma forma para contraditar a opinião publicada. Ou seja, está montado um jogo de equivalências que  notícias a opiniões. Isto acontece porque no plano comunicacional a informação passou a igualizaser qualquer coisa desde que veiculada pelo meio de comunicação certo. Ou seja, se eu for perorar para o Rossio, em cima de uma banca e com um altifalante na mão, o mais provável é ser tido por maluco, mas se despejar ódio nas caixas de comentários ou no twitter, estou apenas a expressar a minha opinião – a fazer uso da minha liberdade de expressão.  Na verdade a comunicação funciona de tal forma como uma gigantesca caixa-de-ressonância que são as opiniões que passam a ter o estatuto de notícia. No futebol como na política.

Megaurbe (Buenos Aires XXI)

Janeiro 3, 2017

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Buenos Aires é uma cidade estranha: tão depressa nos apaixona como não a suportamos. Os argentinos não são gente simpática. E nesse ponto ficam a perder para os brasileiros; porque embora as cidades brasileiras sejam caóticas e perigosas, a sua energia é contagiante. Sim é de energia que eu falo. Não se explica, mas sente-se. Em buenos aires é diferente. Quando o sol brilha, a cidade abre-se como uma flor desperta. Quando as nuvens a abraçam, a cidade é feia, cinzenta, um monstro tonitruante que não se acalma. E os argentinos? Esqueçam aqueles velhos simpáticos, muito sabedores, que povoam os contos de Borges. São arrogantes, embrutecidos, autocentrados. Neles, percebe-se uma mentalidade mafiosa que não se civilizou. Resquícios de um passado de grupos, colectividades e as suas conexões. Mas entre os argentinos e Buenos Aires há um mundo. A cidade é um disparate de construções mal planeadas, com excepção dos bairros ricos como Belgrano ou Palermo, onde a planificação não cometeu crimes arquitectónicos sem parança. Os bairros de classe média, conseguiram produzir um emaranhado de telhados desencontrados, torres austeras a que se seguem pequenas casas de traça colonial: é difícil perceber que intenção presidiu a tal planeamento. Que as cidades estão completamente lotadas, as grandes urbes, é um facto. Vivê-lo é uma coisa diferente da invectiva teórica. Há gente a mais, e isso também é um facto. Nesta cidade aplica-se a estúpida ideia do Inferno do homem que escreveu o incrivelmente estúpido anjos e demónios: se desaparecessem uns tantos, não fazia mal nenhum. Ou como diria Bill Burr, a solução para o pandemónio seria restarem apenas 13.000 pessoas.

Isto significa que Buenos Aires é uma cidade asfixiada. Não me venham falar do tabaco e do mal que faz aos pulmões – andar no microcentro em hora de ponta é um pitéu para a saúde. E quando aos fins de semana vejo jovens atléticos aventurarem-se a correr pelas pistas para bicicletas da Bartolomeu Mitre, então penso que algures a publicidade antitabágica se enganou. Poluição, ruído ensurdecedor e multidões – a isto se resumem as megaurbes actuais.

Para compensar uma tal degradação do viver urbano, a cidade estende-se numa espectacularidade invertebrada que lhe atiça o sangue nas veias moribundas. Nada que ver com andar de metro na hora de ponta onde as pessoas são encaixotadas com as caras coladas nas costas dos outros. Nada que ver com isso. Há imensas diversões, para todos os gostos e vontades. E é por isso que a cidade respira, ainda. Uma das coisas mais interessantes sobre urbes densamente povoadas é que é preciso manter os seus habitantes numa espécie de êxtase suspenso. O que isto quer dizer é que é preciso tornar as pessoas em versões de coitus interruptos permanentes para que estas não saiam de casa num killer spree, como dizem os americanos quando casos como columbine acontecem. Isto porque em cidades densamente povoadas cada cidadão é um potencial assassino. De Quincey podia florear o que quisesse sobre formas estéticas do assassinato. A verdade é que os novos assassinos possuem muito pouco sentido estético e não procuram a forma, mas antes a possibilidade de se libertarem dum aperto maior do que a vida. Este já não se conforma com o aperto metafísico que atarefava Nietzshe. É um aperto terrível, de uma dimensão desconhecida até então, que num arremedo dos filmes de zombies nos tornará a todos, mais cedo do que tarde, em canibais. Os filmes de zombies não fazem mais do que prever este desfecho necessário.