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As desventuras de André

Julho 19, 2017

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André Ventura faz parte daquela constelação de intelectuais dontrinadores da nova direita portuguesa cujas maiores preocupações na vida são o islão e as chamadas minorias. Outros dos vates que enfileiram este grupo são Henrique Raposo e João Pereira Coutinho. Esta rapaziada vive assoberbada pela ideia de que o Islão está a invadir a Europa e que as minorias – negros, ciganos, bielorrussos, you name it… – se encontram a esbulhar o Estado. Logo eles que abominam o Estado! Esta relação entre os neoliberais da nova direita e o Estado começa a assemelhar-se a uma relação fetichista. Por exemplo, Raposo veio imediatamente defender a tese extraordinária que é não falando do assunto – neste caso “ciganos” – que se dá azo a correntes e especulações racistas. A questão é muito simplesmente esta: por que razão ocupa o candidato do PSD a Loures, André Ventura, 40% da sua entrevista com o tema ciganos? De todos os problemas que um Concelho possa ter, os ciganos não pagarem para andar de transporte público, será o mais relevante? Ou terá sequer alguma relevância?

Podemos ver em André Ventura um intolerante ou um oportunista. Não tenho a certeza para qual das carapuças me devo inclinar ; mas a de oportunista corresponde a certos factos que lhe dão consistência. Por exemplo, quando André Ventura publicou uma coisa chamada A última madrugada do Islão parece que houve alguma controvérsia, e que o escritor chegou mesmo, segundo nos relata, a ser alvo de ameaças por parte da comunidade islâmica a residir em Portugal. Digamos que este corpetezinho à la Rushdie serviu muito bem para dar corpo à figura do intelectual incompreendido perseguido pelo Islão. E acrescentemos que não há má publicidade – apenas publicidade! Por aqui já se vê que Ventura não é um estreante nestas andanças. Procede portanto a tese segundo a qual o PSD encontrando-se silenciado no grande tema ECONOMIA procura agitar as águas através dos temas caros à extrema-direita. Isto seria uma visão meramente instrumental das inconfessáveis razões de Ventura. Todavia, estou em crer que subjacente a esta instrumentalização, que sem dúvida possui o seu peso na retórica política, há um nível de crença naquilo que se diz que não é despiciendo. É certo que o tema ciganos pode ser visto como uma reactivação dos temas de eleição xenófobos que mobilizam as massas. Desconfio, no entanto, que não se tivesse dado o caso da condenação da esquadra de polícia de Alfrangide, André Ventura arrolaria os negros à sua lista de inimigos da nação. O que mostra alguma capacidade monitorizadora do discurso que lhe permitiu discernir que “negros” era uma no go area, enquanto ciganos era campo por desbravar… no que toca ao momento presente, bem entendido.

O que percorre o discurso do candidato, na realidade, é a paranóia securitária. Não são apenas os ciganos, ou melhor, o cigano enquanto categoria diferenciadora, que lhe fazem espécie – são os bairros sociais onde medram, para ele, todas as tendências entrópicas do Estado de direito! O Estado de direito, garante da ordem e da liberdade, vive acossado por esses espaços obscuros, selvagens e imprevisíveis que bordejam as nossas zonas habitacionais. Na sua segunda aparição sobre o tema, em tom de retractação, já Ventura diluía as suas afirmações ajuntando-lhes a questão do género e das diferenças de papéis no interior das comunidades ciganas, curiosamente, o tema central do artigo de Henrique Raposo desse mesmo dia. Mas na entrevista ao Notícias não está minimamente preocupado com as meninas ciganas e os seus destinos, algo de que nem sequer fala. Os temas são concretamente: o abuso do Estado por parte dos ciganos, nas suas múltiplas modalidades de não pagamento das suas obrigações, de frutificação na ilegalidade ou de edificação de guetos de autarcia interna… e depois a prisão perpétua.

Temos que nos habituar a não ver nestes processos retóricos esquemas de either/or. Ou seja, não se trata de à falta de economia viram-se para a xenofobia e para a segurança. Não. A sua economia, a visão que sobre ela têm, exige que se pense de forma xenófoba e securitária. Não é portanto um processo calculista de substituição retórica, mas sim uma conjugação por afinidades electivas. Os temas articulam-se porque a concepção neoliberal – diria mesmo a antropologia filosófica que lhe está subjacente -, assim o exige. De que forma? Das maneiras que tão bem descritas foram por Naomi Klein e Loic Wacquant. O neoliberalismo preza as assimetrias sociais como o sangue que lhe corre nas veias. O mundo é um mundo de desigualdades e assim deve ser mantido. O Estado é uma entidade caucionadora desta ordem, e nunca por nunca deve assumir o papel de potencial agente seu diluidor. Perante os fracos – força máxima. Perante os fortes, máxima flexibilidade.

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O estado da (i)nação

Julho 13, 2017

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Ver para crer, como dizia São Tomé. Se os acontecimentos recentes nos estates copiam, com grau de verosimilhança quase futorológica, o que se passou no house of cards, as reacções políticas da direita portuguesa são dignas de uma antologia dos melhores momentos de Maquiavel. Ou então da Scarlet Letter, visto que os dois partidos da oposição pareciam cães raivosos a tentarem ferrar uma condenação sem apelo ao PS. A desgastada acusação de caça às bruxas utilizada por Trump pode reverter para aqui.

Como anteriormente assinalei para a Cristas, convém repetir que esta gente tem uma falta de vergonha inexcedível. O credo actual da gente de direita é, pasme-se, a solidez do Estado. Não sabíamos nós o que se escondia por detrás da tão aventada ideia da reforma estrutural do Estado? E das gorduras? Ver o Leitão Amaro (havia uma brincadeira em puto que era telefonar para casa do sr. Leitão e perguntar se já tinha sido promovido a porco. No caso do Amaro a resposta é evidente), a dizer que o estado ceifou vidas inocentes é de rilhar os dentes para não lhe partir as trombas.

Mas basta ler a última crónica de Henrique Raposo no Expresso para perceber que todos estes senhores estão-se nas tintas para o Estado e o que esta raiva encobre é uma mais antiga dor de cotovelo: a da semi-coligação orquestrada por Costa para ter maioria parlamentar. Que esta solução tenha por diversas vezes sido apontada por especialistas na matéria como sendo perfeitamente constitucional, em nada abala o azedume duma direita que estava habituada a ganhar com o psd ou em coligação com o cds. Descobrindo-se-lhe o truque de saltimbanco, e com a devida flexibilidade do PS, a direita está verdadeiramente assustada pois pode passar um período de jejum prolongado.

Veja-se o que foi feito no Brasil. Perante a perspectiva de perder consecutivamente eleições para o PT, a direita orquestrou um golpe judicial e, alcandorada a uma máfia tenebrosa com maioria no Planalto, assaltou o poder. E se Dilma era história antiga, Lula tinha as estimativas de voto a seu favor. A solução foi atirar com a sua carcaça para a cadeia com antecipação suficiente para não se poder candidatar em 2018. Enquanto isso distraem-se as atenções de Temer e do bando de malfeitores que o apajam.

Portugal não é o Brasil. Ainda há alguma solidez e autonomia institucional que permite alguma tranquilidade. Mas os métodos da direita são semelhantes. Quando se proporcionou a viragem para a coligação com a decadência do governo Sócrates, rezava então Passos Coelho que o Estado tinha engordado à custa dos socialistas; que tinha sido um crime esbulhar o país à custa do Estado, e etc. Ver a sua trupe de saltimbancos berrar por amor ao Estado faz chorar o mais empedernido dos corações… a rir. Pois que é de histrionismo que se trata. Novamente o Raposo. Para ele todo “o mal e a caramunha” decorre do “spin” socialista. Confesso que não considero os socialistas assim tão competentes para terem um spin tão eficaz como quer o plumitivo. Contudo, detenhamo-nos no seu raciocínio para ver ao ponto a que chega a histeria do absurdo. Para o Raposo as (más) justificações das cadeias de comando das forças de segurança – tanto para o caso de Tancos como para Pedrogão – são tudo maquinações do “spin” socialista. Mas porquê? Porque não podem ser apenas maquinações das cadeias de comando? Ah, porque estas estão infestadas por boys socialistas enfiados à pressa com esta legislatura. Mas se estes chegaram agora foi porque substituíram os que lá estavam. Ora como julgo difícil serem todos do PCP ou do BE, a hipótese mais verosímil é que fossem da Páf. Isto é deveras interessante; e pese embora as diferenças de escala e de contexto político-institucional, uma das acusações recorrentes da direita conservadora brasileira ao PT foi a deste ter minado o Estado com os seus boys. Considero tudo isto fascinante. Ainda para mais vindo dum sector político que detesta o Estado, tanta preocupação com o mesmo é de facto estranha. De duas uma: ou os neoliberalóides não detestam assim tanto o Estado como apregoam quando dele fazem a origem de todos os males; ou isto não passa de retórica, de má fé política, de guerrilha sem conteúdo. Em qualquer dos casos, diremos como Trump nosso arauto: Fake News!

A cruzada Cristas

Julho 6, 2017

 

A Presidente do CDS-PP,  Assunção Cristas monta um cavalo durante a visita à Feira de São Martinho, XLI Feira Nacional do Cavalo e XVIII Feira Internacional do Cavalo Lusitano, 11 novembro 2016 na Golegã.  PAULO CUNHA/LUSA

O tempora! O mores!, assim podíamos começar um exercício crítico ao discurso da Cristas. Ou então: – Que sacana inacreditável! Ou, ver para crer, porque é necessário que a ouçamos para que nos belisquemos e digamos: não, não estou a sonhar.

Uma estratégia de terra queimada, mas cirurgicamente queimada, é assim que a vejo. Silenciados no campo a que se arrogavam mais competência – a economia – o psd e o cds-pp conluiaram-se para acertar agulhas no discurso da hecatombe do poder de Estado. Curiosa inversão esta. Onde dantes se acusava a esquerda de só querer Estado, de viver obcecada pela expansão do mesmo, e pelo reforço da sua penetração na sociedade; acusa-se agora de não ter Estado, de o delapidar, depauperar, esmifrar de tal forma que ele perde autoridade e extensão. Interessante reviravolta indeed. E isto vindo de neoliberais de cartilha, daqueles que apregoaram anos a fio que a origem de todos os males era, certamente, o Estado!

Ouvir Cristas a criticar o PS por cortes selvagens no Estado é um momento de hilaridade absoluta. Os troikistas, papistas do credo do “Vamos para além da troika”, tão preocupados que estão com a fragilização do Estado. Dá pena. Dá pena tanta hipocrisia. Mas que o povo não se esqueça que esta mesma Cristas enchia a boca com a reforma do Estado, com o excesso de Estado na economia, com a imprescindibilidade da sua redução, com o mantra sufragado e pregado pelos pagens da direita liberalóide do Estado Mínimo! Pasme-se então por ver tal ardor na defesa do Estado!

A bem da justiça argumentativa digamos que Cristas vê a ameaça pairar essencialmente sobre a componente de autoridade e soberania do Estado. É a velha equação dos neoliberalóides: menos Estado providenciador, mais Estado controlador. Veja-se a displicência com que o Estado-PS enfrentou os fogos de Pedrogão, diz Cristas. Culpado do incêndio? Não, Cristas não chega a tanto – não chega ao ponto de pôr na mão de António Costa, qual Zeus!, o raio deflagador. Mas a forma como lidou com o assunto – parece-lhe evidente – indicia o esboroamento das estruturas do Estado. E as armas? Pois a mesma coisa. O exército em bolandas, sem dinheiro sequer para pagar o pré, só pode dar nisto. Por paradoxal que pareça, os arautos do Estado mínimo optaram por uma interpretação maximalista do poder do Estado e, consequentemente, das suas falhas.

Mas há uma preocupação genuína na Cristas: esta sequência de desgraças é o filão político que uma direita silenciada por falta de assunto precisava. Como buldogues raivosos não largarão tão cedo o osso que prestimosamente se lhes ofereceu. E pela primeira vez vislumbram a luz ao fundo do túnel – a bem dizer, um clarão!

Esmagados no campo da economia para onde tinham afinado baterias durante anos contra a esquerda, surge-lhes agora a grande autoestrada retórica da autoridade do Estado. Quando o assunto economia falha, não havendo nenhuma razão apriorística para ir nos cantos da sereia da direita neoliberal, impõe-se o discurso da segurança. Foi assim com Trump. Como fazer uma crítica neoliberal à política económica de Obama quando a economia norte-americana crescia sustentadamente? O ersatz é sempre o Estado, a segurança, a soberania. O mesmo se passa em Portugal. Como gritar que vem aí o diabo na economia quando este foi de férias? Regressa pela porta do cavalo transfigurado em Estado, segurança, soberania.  É tudo muitíssimo previsível.

É caso para dizer, como Cícero, Quo usque tandem abutere, Cristas, patientia nostra? (Até quando vais abusar, ó Cristas, da nossa paciência?).

Jogo de espelhos

Junho 28, 2017

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MUSE no Meo arena

Estas celebrações são meritórias. Podemos afirmá-lo sem rebuço. O país une-se; a alma lusa chora lágrimas de sangue; a solidariedade encanta as almas mais empedernidas. E faz-se muito dinheiro… expectavelmente a ser distribuído pelas vítimas que forneceram a razão principal para a efeméride.

Há uma coisa antiga nas ciências sociais que é a preocupação com o que se encontra latente nas acções e eventos manifestos. E não é apenas com Merton que essa preocupação surge. Ela pode ser retraçada ao problema da ilusão religiosa em Marx, aos resíduos de Pareto, e eventualmente à ilusão da transparência durkheimiana. Seja como for, em termos muito prosaicos, nem sempre o que parece para os actores implicados, na realidade é. No caso vertente, uma análise desta natureza tem cabimento.

Um acontecimento destes tem uma outra virtude: a de podermos separar o trigo do joio. Ou seja, como nos são dados cantores tão diferentes em sequência podemos de facto distinguir os que cantam alguma coisa dos que são mera produção de estúdio. Assim, Carminho canta para caraças; enquanto Áurea arranha uns agudos. Camané faz o que quer da voz;  enquanto o Agir não canta puto. E assim sucessivamente. O que nos leva à questão essencial: o que é genuíno e o que é produzido no sentido mais ilusório do termo? Quero dizer que todo o talento é produzido na medida em que envolve trabalho e acção sobre o mundo material. Mas há talento e há ilusão de talento. Para percebermos melhor onde reside a diferença recorramos ao exemplo de Luciana Abreu. Não é uma grande atriz – para além dos esganiçados impropérios com sotaque do norte pouco mais se aproveita. E lançou-se recentemente no mundo da canção, onde também não é melhor. Contudo, a atriz parece não duvidar do seu talento e dizer em entrevista que foi fruto de muito trabalho e dedicação, um sonho cumprido, na realidade ultrapassou mesmo o sonho, etc. A questão fundamental a que deveria ser obrigada a responder é, por que cumprir um sonho para o qual não está obviamente talhada? A resposta é, porque pode. Mas não porque tem talento como cantora, mas sim porque tem recursos – que em nada são vocais – que lhe permitem fazê-lo. Os recursos são gerados pela fama e retroalimentam-se no mundo da fama. Estamos perante um caso – mas que é equivalente a tantos outros – em que a fama é o motor e não o talento. Ou seja, uma pessoa com o mesmo nível de talento de Luciana – medíocre – mas sem fama, nunca poderia movimentar-se pelo mundo do espectáculo sem ser necessário mostrar nenhum talento em especial. Agora é preciso entrar na cabeça destas pessoas para perceber onde é que o seu gigantesco ego lhes dita a necessidade de serem espectaculares. Porque é disso que se trata. Não há nenhum chamamento para a música para além daquele de se quererem ver a cantar. Contudo, a sua prestação não acrescenta nada nem ao mundo da música nem ao do espectáculo que não seja retroalimentar o mundo da fama. Variadíssimas pessoas agitam-se para dar suporte às acções que se executam dentro deste mundo; e não são necessariamente aquelas mais directamente ligadas à actividade. Órgãos de comunicação, com os seus comunicadores, ventilam a informação necessária que lhes empresta a publicidade. Como num jogo de caixas chinesas, uns tornam-se o eco dos outros. O que é mais interessante é que em nenhuma etapa desta troca o jogo se parte ou mostra a sua verdadeira natureza. Todos contribuem, solidariamente, para a manutenção da ilusão. Por exemplo, Luciana Abreu não se lança na canção sem antes ter diversas pessoas, igualmente do mundo da fama, a confirmar o seu valor como cantora. Nem uma só vez alguém o coloca em dúvida questionando a sua real necessidade, perguntando a Luciana se aquilo não traz nada de novo, nem sequer tem qualidade, para quê fazê-lo?

Este longo excurso serviu apenas para  situar o facto de que as espectaculares efemérides em torno de acontecimentos ou tragédias são apenas motivos para retroalimentar a fama. Ariana Grande mostra uma grande solidariedade com as vítimas do terrorismo em Manchester ao repetir o seu concerto na mesma arena? Em que sentido? Certo, o concerto na Meo arena recolheu dinheiro. Há uma aproximação que devemos fazer entre estes eventos e aquelas teletonas inventadas pelos norte-americanos onde se vai acumulando dinheiro comprando produtos publicitados na televisão. A lógica não difere muito. Podemos dizer que aqui os artistas entram com o seu trabalho gratuitamente. Mas sério? Gratuitamente? E os proventos da retroalimentação do mundo da fama? Não apenas o seu nome fica associado a uma iniciativa que é admirada por todos, como ao fazê-lo estão a acrescentar fama à sua carreira. Não são portanto inocentes estas participações; e só muito tangencialmente podem ser avaliadas como altruístas. A verdade é que o mundo da fama tem proventos simbólicos gigantes. E dado que a sua moeda – uma espécie de bitcoin da espectacularidade – é a visibilidade, acrescentar visibilidade é já lucro mais do que suficiente. Perguntemo-nos por que diabo contribuímos todos para chegar ao milhão de euros e não se juntaram estas celebridades, em média bem mais ricas do que qualquer um de nós, e contribuíram com um montante equivalente? A resposta é simples: porque no fundo estão a trabalhar para eles próprios. Lembram-se do live aid? A fome em África esteve longe de acabar, mas algumas daquelas músicas foram ouvidas até à exaustão, com os reflexos inerentes à retroalimentação no registo da fama.

É porque a fama não é um mundo como os outros. A sua multiplicação é exponencial. Os seus efeitos concentram-se numa só pessoa (ou num grupo, mas tomado como entidade singular) e intensificam o sentido moral de toda e qualquer das suas acções. Ter um filho não é aquilo que acontece a milhões de mulheres por esse mundo fora – é aquele filho daquela pessoa, emprestando-lhe uma aura que lhe acrescenta humanidade. Porque a bitcoin da fama – a visibilidade – produz um excesso de presença, um excesso que inere em termos de valorização de alguns em detrimento do anonimato de todos os outros. Sim, porque a fama comporta-se num sistema de diferenças; ela é por definição diferencial. A visibilidade de uns só tem poder mediante a invisibilidade de todos os outros. Aqueles que contribuem através das chamadas telefónicas ou no anonimato da audiência.

Dito isto, espero que o dinheiro angariado ajude as pessoas de Pedrogão; e espero que vá parar às mãos dos verdadeiramente necessitados porque o rótulo de vítima não apaga as assimetrias realmente existentes.

De homens e ratos

Junho 27, 2017

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Provedor da misericórdia de Pedrogão Grande e candidato do PSD à Câmara de Pedrogão Grande

Em mais uma crónica de uma beleza sofística incomparável, Rui Ramos vem fazer aquilo que começa a ser gizado como estratégia da oposição PSD-CDS para as autárquicas: bater no Estado e por via indirecta no governo PS responsabilizando ambos pela tragédia de Pedrogão Grande. Segundo Rui Ramos devemos alimentar uma desconfiança permanente relativamente à possibilidade de o Estado zelar pelo nosso conforto social. Diga-se logo de início que o princípio deve ser aplicado em abstracto na medida em que Rui Ramos desconfia do Estado para tudo, excepto para o seu próprio bem-estar social, visto que é o Estado que lhe paga o ordenado. George Steiner avisava há pouco tempo sobre o asco que lhe infundiam radicais esquerdistas a viverem como nababos burgueses. Acho que o raciocínio pode ser utilizado mutatis mutandis a conservadores anti-Estado a viverem às suas custas. Os exemplos são legião.

Contudo Rui Ramos não faz mais do que seguir a partitura com que os próceres da direita foram instruídos ultimamente. Veja-se a monumental patada política (como em espanhol meter la pata) que Passos Coelho cometeu. Há muito que considero a imagem de seriedade incorrupta de Passos um verniz fácil de quebrar e cair. Ontem tivemos mais uma demonstração de revanchismo político do líder da oposição. A pressa não é boa conselheira, diz o povo. Mas a ocorrência mostra bastante do banditismo político que nos foi servido durante os quatro anos da coligação páf. O nojo dos segredinhos de comadres que podem ser auscultados nas conversetas entre o candidato PSD à Câmara de Pedrogão e o líder do seu partido. Esta politiquice rasteira caracterizou muito do período da coligação páf, e evidencia bem como a máquina política da coligação se pauta por processos pouco transparentes. Obviamente que o putativo futuro líder da Câmara de Pedrogão levou um puxão de orelhas da hierarquia partidária por ter levado Passos ao engano. A sua retratação pública exemplifica como estas estratégias de urinol têm pernas curtas. Outra coisa é o texto do El Mundo a pedir a cabeça de Costa por causa do incêndio. Como diz Bruno Nogueira, de forma muito oportuna, o nome até poderia ser Catherine Deneuve – numa alusão a Paulo Portas, para quem não estiver recordado – mas escondendo-se por detrás de um confortável pseudónimo o elemento da máquina procura fazer a nível internacional os estragos que não tem conseguido internamente. Lamento dizer mas isto é o comportamento de bichos desesperados.

Quem vê árvores não vê a floresta

Junho 24, 2017

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Tem-se falado muito de ordenamento do território e de gestão da floresta. Não sendo um especialista em qualquer uma das áreas, tenho no entanto  – como bom português – algumas ideias sobre o assunto. Primeiro, há um tique, que dificilmente se pode imputar com exclusividade ao homem e mulher português, que é o de atirar tudo para as costas do Estado. Porque o Estado não acautelou; porque o Estado não interveio; porque o Estado não previu, etc, etc. No entanto o Estado não é uma entidade suprema que omnipotente pairasse sobre nós. O Estado tem os limites que lhe deixamos ter; e para além disso compete, ou mesmo conflitua, com outros interesses. Por exemplo, a ideia sistematicamente aventada por ecologistas e outros com afinidades ao tema segundo a qual o Estado devia gerir a reserva florestal obedecendo a critérios não produtivos ou económicos, mas antes a orientações de salvaguarda quer da floresta quer das populações, parte do princípio que o Estado possui de facto esse poder. Ora, o grande problema da floresta portuguesa é pertencer a uma miríade de privados que fazem dela o que bem lhes apetece. Aliás, a história da ruralidade em Portugal pode ser contada através dos conflitos de cajado e caçadeira por quinhões de terra. Muitos desses quinhões têm floresta, onde a propriedade é de minifúndio e o proprietário é seu dono e senhor não obedecendo a mais nada senão a sua vontade. E esta última tantas vezes troca o seu quinhão por um anexo na vivenda, ou por um carro melhorzinho, ou por comprar uma vivenda maior. Quantas estórias não ouvimos todos nós sobre o ti Manel que vendeu os terrenos a uma celulose e que encaixou o dinheirinho para fazer uma casinha maior? O longo braço do Estado, tal como o da lei, não chega a tanto.

Nesta condição como gerir comummente uma floresta que faz parte dos desígnios e interesses de tantos privados? Como alinhavar uma orientação, que se traduza em prática posteriormente, colectiva quando os quinhões de terra são utilizados para estratégias meramente individuais?

Lembram-se da litania do grande eucaliptal em que gradualmente se tornava Portugal? Pois é, mas tal não seria possível caso os milhares de proprietários privados não o tivessem permitido. Quer isto dizer que a extracção de valor económico da floresta por parte do Estado não existe? Certamente que não. O Estado tem sido para todos os efeitos um dos principais interessados neste negócio. A indústria do papel dá muito dinheiro ao país. Mas o Estado não constitui – longe disso – o principal motor que levou a este estado de coisas. Foi a fragmentação do minifúndio que impediu o gizar de uma orientação centralizada para a floresta.  Não o laxismo do Estado ou dos sucessivos governos. Do Estado tudo o que é orientação será, por definição, centralizada. Mas tirando os regimes totalitários  (e mesmo esses possuem as suas brechas) a centralização não pode ser forçada. Uma responsabilidade comunitária deverá igualmente ser assacada. Porque culpar o Estado tornou-se algo fácil, mesmo preguiçoso e retira os indivíduos de uma responsabilidade colectiva que é necessariamente deles.

O fogo combate-se com o fogo?

Junho 21, 2017

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Não pretendo ironizar com a dor das pessoas. Não pretendo minorar a tragédia que se abateu sobre a região de Pedrogão e Figueiró. A eles todas as homenagens são devidas e as mais sentidas penas endereçadas. Todavia, escalpelizar os resultados de tão grande tragédia passa inevitavelmente por sondar as suas causas. Essa é uma necessidade que tem sido representada pelos mais diversos sectores da sociedade portuguesa em formas diversas, por vezes desencontradas. Há, para ser justo, uma procura de resolução da catástrofe na mente das pessoas. É o equivalente ao mecanismo emocional do luto – é preciso alguma espécie de fechamento simbólico que permita a assimilação cognitiva e emocional dos acontecimentos. Um mecanismo é recorrente nas sociedades e podemo-lo encontrar em todos os tempos históricos: o bode expiatório. A procura do bode expiatório prende-se com o carácter sacrificial dos colectivos, a ideia de que é necessário sacrificar um elemento (ou vários) para que o colectivo prospere. Já não queimamos judeus nas fogueiras, nem cristão nas arenas, mas exigimos a cabeça dos ministros e fazemos autos-de-fé públicos com as palavras dos políticos. Por isso um tempo de escrutínio absoluto da palavra e dos gestos assemelha-se estranhamente a uma caça às bruxas. Ontem a entrevista de Judite e Pedro Pinto ao primeiro-ministro foi tingida dessas cores. Estaríamos nós a assistir a dois abutres a depenicar sedentos de sangue a carcaça recentemente aberta que se lhes apresentava? Pois assim parecia. Como em tudo na vida, e apesar da emocionalidade reiterada do nosso presidente, as coisas possuem uma dimensão estratégica. Não tardou por isso que os infelizes e trágicos acontecimentos pudessem servir de armas de arremesso na convulsionada arena da política. Com alguma cautela, diga-se. Mas também com gradual persistência, e a espera para que os jornalistas cumpram o seu papel favorito de caçadores de bruxas vai preparando o terreno para desfechar ataques futuros – e certamente mais seguros porque menos acossados pela emotividade do momento. E neste mesmo sentido a tragédia assim vivida nos últimos dias é péssima para o PS das eleições autárquicas. De repente, e como numa manifestação sádica da consabida expressão no melhor pano cai a nódoa, a pintura borrou-se por completo. Os tons róseos que coloriam os nossos dias tornaram-se de repente negros. Numa folha de serviço imaculada caem abruptamente 64 mortos (e eventualmente a contagem ainda não terminou). Desapareceu de cena o fim do défice excessivo, o crescimento da economia, o melhor ano de sempre para o turismo. Tudo limpo com um pano peçonhento de vidas ceifadas e floresta ardida. Tudo a eito. Mau para o governo? Sem dúvida. Mas tenho para mim que a exacerbação de certos tiques deve ser debelada a bem do bom senso. Por paradoxal que seja os tempos actuais trazem a conjugação entre a imprevisibilidade máxima e o desejo (e representação) da previsão e controlo totais. Ou talvez nada tenha de paradoxal. É quando se multiplicam as situações sociais de imprevisibilidade que aumenta exponencialmente a ansiedade de as controlar. Seja como for, este é um fenómeno que se pode comprovar facilmente pela histeria da exigência de previsibilidade absoluta.

Astuto como é, o primeiro-ministro assumiu imediatamente o tratar-se da maior tragédia humana causada por um fogo. Não caiu na esparrela de minorar o incidente, ou de tentar disfarçar a magnitude das suas consequências. Com isso retirou poder de fogo à oposição e aos jornalistas. Contudo, a estratégia só tem o alcance possível dentro da histeria da previsibilidade absoluta. Chegando aqui esbarra com a inflexibilidade de uma esfera pública, não apenas sedenta por apontar culpados, como fascinada pelo dever do controlo das coisas da natureza, do social, do espírito.

As tragédias acontecem. Não fosse pela sua imprevisibilidade e não seriam tragédias. Encontrar culpados para sossegar os espíritos é uma forma esquizofrénica de negar a imprevisibilidade também nas coisas humanas. Não é apenas a natureza que por vezes nos surpreende; os humanos são máquinas de imprevisibilidade. É claro que o erro é um mecanismo óptimo que nos dá possibilidade de correcção. Mas a ideia segundo a qual se a comunicação tivesse funcionado, isto não se passaria; se a gnr se tivesse coordenado, isto teria sido evitado; se a ministra tivesse autoridade centralizada, isto não teria estas consequências, se… é uma larga cadeia de “ses” sem conclusão à vista. É nestes “ses” que as coisas acontecem. Devemos lamentá-las, procurar melhorar? Claro que sim. Mas não viver na ficção de um mundo sob absoluto controlo do melhor juízo humano. Até porque este último não existe sem o mundo o desafiar e tantas vezes negá-lo.