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O voyeurismo dos adultos… e o das crianças também!

Janeiro 17, 2018

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Começo por dizer que as crianças têm capacidades reactivas, agênticas, voluntaristas (de vontade) e manipulativas. Não são recipientes inertes onde os adultos vertem tudo o que entendem – seja lixo, seja educação – criando assim um frankenstein cujo controlo asseguram através de choques eléctricos.

Ainda ontem ouvia falar dum estudo onde se concluía que as crianças de 8 a 11 anos construíam a sua autoestima em torno dos “gostos” que recebiam no instagram. Estas crianças sabiam perfeitamente jogar o jogo da imagem e da apresentação para terem excedentes de autoestima; da mesma maneira que desenvolviam uma relação de frustração quando esse excedente materializado em “gostos” não se verificava. Isto significa que as crianças sabem perfeitamente as regras do voyeurismo contemporâneo e, simultaneamente, do narcisismo hiperindividual. É por isso que me custa muito crer que as crianças do programa Supernanny sejam vítimas inocentes que de repente se vêem confrontadas com a presença de uma preceptora balzaquiana que lhes vai fazer a vida num inferno, ou seja, pô-las na ordem. Inclusivamente não será um exercício assim tão rebuscado imaginar que muitas destas crianças pularam de contentes quando receberam a notícia que iriam aparecer num programa da sic. Aparecer num programa de televisão é, desde os cozinheiros imberbes até aos infantes cantores, um bafejar de intensa autoestima, um banho de status para meninos e meninas, um autoreconhecimento deslumbrado decorrente de uma audiência. Por isso, suspeito que estas crianças do programa da Nanny não são vítimas de nada, e que a sua exposição pública – com ou sem adestramento – é mais desejada do que a vinda do pai natal.

Em televisão, muito pouca coisa é espontânea. Menos ainda na reality tv, desde logo porque a presença constante de uma câmara nos leva a sobre-actuar, ou seja, a actuar para além do actuar que é já o modo de relação com os outros com quem interagimos. Nenhuma destas crianças está a ser vigiada por uma câmara secreta cuja existência desconhece estando assim a ser violada a sua privacidade. Julgo até que as crianças têm perfeita consciência que a sua actuação no programa pode reverter em “gostos”, quer nas redes sociais quer na sua vida comunitária, escolar, ou entre os pares.

Alguns comentaristas, humoristas e cronistas querem fazer passar a ideia de que a coisa é combinada à revelia dos filhos. Que os sádicos progenitores estão de conluio com a psicopata da super nanny mais com o canal de tv sic para esmifrar os pobres petizes, expondo-os à cobiça telegénica das multidões. Avento que um tal diagnóstico estará completamente errado. Imagino uma conversa entre os pais e os seus filhos que comunicam às suas crianças que em breve serão estrelas de televisão, que tal como os seus congéneres cozinheiros, cantores ou simplesmente miúdos a serem miúdos em programas de patetice, vão ter direito aos seus 15 minutos de fama. E imagino ainda a alegria das crianças por se sentirem as escolhidas, como nos programas do preço certo, em que as pessoas saltam das suas cadeiras perante a imensa felicidade de poderem jogar. As razões para o fazer serão indiferentes. Uns cozinham, outros desafinam, e estes agora são educados. O importante é que estão na televisão. Ou seja, são mediáticos.

Aquela frase estafada, que se tornou um cliché dos pré-milenials, que reza que na educação dos nossos filhos estamos destinados a falhar, tem qualquer coisa de autocomprazimento parental. Isto pode parecer uma contradição. Contudo se quisermos interpretar atentamente o que ela realmente diz é que apesar de tudo fazermos, tudo darmos, e tudo tentarmos, o nosso produto sofrerá sempre de algum grau de imperfeição. O que é o simétrico da “as nossas crianças são as melhores do mundo” – as mais espertas, as mais vivas, as mais engraçadas, as mais etc… Porque assim como a hiperbolização das crianças funciona para engradecimento dos pais (a herança do seu código genético é verdadeiramente o que está em equação) também a confissão do provável falhanço é uma desculpa antecipada que iliba esses mesmos pais. Os pais comprazem-se no seu autocentramento, e assim aos filhos é-lhes servido de bandeja um espelho de narcisismo autocentrado.

Dito isto, não significa que o programa não seja lamentável. Mas o que ele representa é a imagem fiel desta relação. E esta não tem a ver com pedagogia. Mas sim com a mediação das percepções de nós mesmos através da tecnologia do espectáculo e da “estrelização” (star-systemacização, se o termo existisse). Ora nesta, os pais, os filhos, e a nanny, são cúmplices. Três vértices de um triângulo produzido por entidade exterior que capta movimentos, acções e discursos. Lembram-se do credo dos behaviouristas do princípio do século passado? O desenvolvimento das crianças enquanto treino, mediadas por mecanismos de condicionamento! Transponha-se esta lógica para uma sala, quarto, cozinha, rodeada do aparato televisivo (câmaras, som, produtores, luz, etc) e temos ratinhos em cubas. O que me parece relevante, no entanto, é que a relação estímulo-resposta não existe entre a nanny e a criança, mas entre a televisão e a criança sendo a nanny a mera responsável pela canalização desse estímulo. Desde logo, porque a nanny, muito antes de praticar psicopedologia, está sobretudo empenhada em fazer um programa de televisão. Assim como os chefes que aturam os putos, não estão a formar cozinheiros, mas antes a contribuir para a produção, para a organização, de um programa de televisão.

Desta forma, o que está a ser condicionado não é de todo o comportamento da criança na relação pedagógica que esta mantém com os adultos, mas sim a relação da mesma com o aparato mediático, o que é interno à casa e o que se encontra no exterior. Digamos assim que são crianças instruídas para agirem e pensarem (e pensarem-se) num reality show. A criança que é colocada na cadeira não está verdadeiramente a ser castigada, daí que não estejamos a assistir a uma violência em directo. O castigo tem que ter sempre um elemento de negação de um desejo – a cadeira em substituição do brincar com os amigos, o quarto em substituição da sobremesa, e por aí fora. Ora a cadeira do show da supernanny é o centro da ribalta – a criança está naquele momento a ser o foco de toda a atenção… que para mais ela sabe que em muito extrapola a situação presente em que se encontra. Não. As crianças são tanto vítimas, como os pais: ambos apanhados na ambição desmesurada de tudo transformar espaço televisionável. A pergunta que ainda não foi feita por ninguém é quanto, e se algum, recebem pais e crianças para alinharem nesta pornopedagogia?

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Onde vais ó Rio que eu canto?

Janeiro 16, 2018

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Rio percebeu, e justiça lhe seja feita, que a única forma do PSD regressar ao poder é resgatando novamente o eleitorado flutuante do centro.

É portanto errada a análise de tantos porta-vozes da direita “inorgânica”, nos jornais e blogs, que consideram que a única maneira de combater a frente de esquerda é através da união da direita, tornando-a mais conservadora. O texto de Henrique Raposo é um ex libris dessa posição. Rio é mais esperto que todos eles e sabe que a única maneira é partindo o PS ao meio. Até aqui a contestação interna a Costa, e tantos que estão verdadeiramente incomodados no interior do PS com a aliança com as esquerdas, não tinha pontes com o PSD porque o partido de Passos optara por uma estratégia de terra queimada e de isolacionismo. Tal estratégia, ao invés de consolidar a direita, apenas extremava posições, enfranquecendo-a. Desde logo, impedia que uma facção considerável do PS quisesse inclinar as orientações para acordos com o PSD, deixando assim de se encontrar (na lógica de tais senhores) refém do partido comunista. Mas o que sucederá quando Rio começar a estender uma mão cordata e voluntária a esse mesmo PS?  A oposição interna a Costa encontrará por fim a justificação que lhe faltava para se reorganizar, apelando para a costela mais liberal do PS contra o esquerdismo insuflado da facção afecta ao primeiro-ministro. Ou seja, o espírito de geringonça começará a ter uma alternativa interna, e por sua vez, esta alternativa encontrará um interlocutor válido no exterior, mas desta feita no quadrante político de direita. Passos e o seu trauma tornava qualquer encontro improvável, senão mesmo impossível. Mas um Rio que se diz disposto a viabilizar um governo PS é um interlocutor mais que seguro. E por essa mesma via, os seguristas e filhos de Assis que estão remetidos ao silêncio podem no futuro engendrar formas de confrontar Costa com uma até agora improbabilidade. Julgo que a liderança de Costa está sólida e muito dificilmente teria opositores à altura. Mas não é líquido que Costa não venha a ser obrigado a mudar o diapasão, oferecendo-se a perspectiva de acordos à direita (ou a fazê-lo voluntariamente). É certo que a irredutibilidade de um PCP anterior impedia entendimentos com o PS. Porém, também é certo que já tivemos deputados “limianos” provenientes do CDS para assegurar governações. O actual “esquerdismo” do PS não é uma constante inscrita na natureza das coisas. Com alguma facilidade pode converter-se num centrismo, sejam essas as conveniências das elites nacionais.

Já a recomposição da direita  passa por aquilo que muito explicitamente diz Manuela Ferreira Leite e que eu me permito reproduzir:

Da mesma forma que o Bloco de Esquerda e o PCP têm vendido a alma ao diabo, exclusivamente com o objetivo de pôr a direita na rua, acho que ao PSD lhe fica muito bem se vender a alma ao diabo para pôr a esquerda na rua”.

É um compêndio de verdades quando a mulher que queria suspender a democracia abre a boca. Verdades internas, sublinhe-se, e não verdade no sentido filosófico, pristino, e inabalável do termo. Internas ao PSD e às suas estratégias.

Devo dizer que não me parece que o BE e o PCP estejam a vender a alma ao diabo. Mas não tenho dúvidas nenhumas que o diabo – e para o PSD este parece surgir em múltiplos avatares e significações -, espreita mediante a possibilidade de alianças com o PS. Que este último é um partido volúvel,  já por diversas vezes o provou.

“Pôr a esquerda na rua” é uma expressão que só se poderia esperar de alguém de direita. Permitam-me a digressão pelo recente caso Trump e a boutade diplomática dos shithole countries. Anda toda gente atarefada a acusar Trump de racismo, quando na realidade ele é apenas o emblema de desumanização que tantos senhores do dinheiro envergam. É racista? Certamente. Mas isso é secundário. Tudo no comportamento de Trump mostra prepotência e desrespeito, que são as marcas de quem manda e quem tem dinheiro. Ora a direita, quando não finge, revela exactamente aquilo que é. Soa a pleonasmo; por isso é bom que frases como as de Ferreira Leite venham dar corpo às nossas intuições. Ficamos assim a saber que a direita não tem qualquer programa, qualquer ideia de governo, qualquer fito organizador, para além de “pôr a esquerda na rua”.

A esquerda faria bem em estar atenta. E não se escudar naquela atitude blasé de distanciamento intelectual que acha que as eleições do PSD não lhes diz respeito (como a atitude revelada por um plumitivo da nossa praça em conversa pessoal que me escuso aqui de reproduzir).  Diz e muito. Porque se Santana era um garante para um Tea Party incomunicável com a geringonça, e quem sabe enveredando por temas populistas para alargar a sua base de apoio, a aposta de Rio é a contrária. É, sem equívocos, uma aposta matemática. A direita sabe que a nova configuração designada geringonça transformou radicalmente o cenário das possibilidades políticas. O país sociologicamente de esquerda pode muito bem reincidir nesta distribuição e alijar a direita do poder por muitos e bons anos. A velha trapaça política de alianças entre PSD e CDS podem bem embater doravante com uma impossibilidade matemática. Para pôr a esquerda na rua há que transigir. E transigir significa recuperar o centro. O que significa que só na retórica o PSD se considera um partido do centro (nem sequer centro-direita, diria!). Contudo, para regressar ao poder, precisa deste como de pão para a boca. E a razão pela qual o pretende fazer, é porque sim: porque não há PSD sem açambarcar o poder. Um partido vazio de ideias, só tem a ideia de poder.

Zeitgeist

Janeiro 14, 2018

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Na literatura contemporânea há uma marca interessante de explorar. A multiplicidade de registos que competem com a narrativa, ou que com ela se imbricam, ou a substituem a espaços, intercalando momentos novelísticos com efeitos de realidade em discurso directo. Svetlana Aleksievitch, a prémio nobel russa, explora a fundo esse efeito, construindo as suas narrativas com base nos discursos dos seus entrevistados. Um jornalismo que encontra a narrativa do lado dos próprios narrados que já não precisam mais da imaginação novelística, antes imprimem a sua própria imaginação aos relatos que lhes são pedidos tecendo assim a estrutura romanesca como que em torno de uma “verdade” experiencial.

É curioso que numa época em que a imaginação digitalizada e computorizada deixou de ter fronteiras para o que é possível representar, a literatura recupere a voz dos seus alvos preferenciais dando-lhes o palco e retirando-se respeitosamente para os bastidores. Por exemplo, Laetitia de Ivan Jablonka, é um relato jornalístico, sociológico e antropológico que mostra uma frança pobre e destituída, mas escondida pelo manto das instituições da república. Uma obra de natureza sobretudo sociológica que é premiada com um prémio literário (o Medicis). Jablonka convoca peças jornalísticas, relatos das pessoas envolvidas, a sua própria perspectiva sobre o caso da rapariga assassinada para assim construir uma narrativa que está na fronteira do ensaio com a literatura.

O que liga Aléksievitch a Jablonka é a constatação de que certos temas só podem ser falados através de relatos desapaixonados e objectivos. Sem interferência do literário propriamente dito; ou melhor, sem a sua subjugação total.

Uma das melhores penas a caracterizar a sua época, os costumes, as idiossincrasias – e por isso mesmo, os seus cinismos e mentiras – foi Maupassant. Sente-se que Maupassant retira grande parte do seu material daquilo que foi encontrando na sua vida, nos acontecimentos quotidianos, nas histórias que lhe foram contadas, etc. Maupassant tem a virtude de ser o melhor contista de todos os tempos; ninguém, na história da literatura, conseguiu em poucas páginas condensar um tal fluxo da multiplicidade dos sentimentos humanos, da sua moral ou da sua argúcia. E o naturalismo de Maupassant vem obviamente a contrapelo do embrionário modernismo que viria a fazer escola posteriormente: escola de excessos e experimentalismos. Se o simbolismo da frase de Rimbaud “é preciso ser absolutamente moderno” marcava o ritmo de uma época de apostas incondicionais, talvez o mote hoje deva ser transmudado para “é preciso ser absolutamente híbrido”.

Veja-se Lincoln no Bardo de Saunders, uma paródia que convoca diversos registos tais como a investigação histórica e jornalística, o teatro, a ficção científica, os escritos de horror de Poe a Lovecraft. Com tal mestria se imbricam estes registos, que Lincoln no Bardo emerge em simultâneo como um prodígio de experimentalismo e, dir-se-ia com algum risco, um naturalismo de uma nova espécie. Por exemplo, as descrições das sumptuosas recepções na casa dos Lincoln (o presidente e a primeira-dama) são-nos dadas através de peças jornalísticas contemporâneas aos eventos ou então de ensaios históricos que sobre ele se debruçaram. E são oferecidas numa polifonia de interpretações e pontos de vista que compõem como um movimento de câmara abrangente que se fosse deslocando e captando os acontecimentos a partir de vários ângulos. Esses ângulos encerram igualmente um teor político, posto que há leituras politicamente críticas dos acontecimentos em apreço e outras mais simpatizantes. Da mesma forma, o retrato desenhado da sociedade russa por Aléksievitch, sobretudo “O fim do homem soviético” recupera as diversas vozes envolvidas num novo tempo pós-comunista; vozes de esperança ou de desalento, que vão esboçando as fronteiras, as pertenças, as localizações sociais – uma panóplia sociográfica da sociedade russa pós-comunista. Esta é uma prosa à boa maneira dos ensaísmos sociológicos, mas que não observa, por conseguinte não se embrenha na prática etnográfica como foi tradicional em tantos estudos de comunidade. Pelo contrário, deixa as pessoas falarem das suas experiências e dos seus pontos de vista recusando a triagem heurística da narrativa em ciências sociais. Ao contarem as suas histórias estão a narrar fragmentos da grande narrativa da emergência de uma nova sociedade russa pós-comunista. Prosa não ficcionada que se lê como o imenso romance da sociedade russa. Não temos Pierres nem príncipes Bolkonskies; não há verdadeiramente heróis, e é apropriado para um olhar desencantado onde apenas encontramos vilões. Mas quer estes quer as simples (e na realidade nada disto é simples) pessoas que deixam o seu testemunho não têm nada de épico. Nem os acontecimentos que vão sendo narrados e que oferecem fragmentos de uma sociedade russa em mudança possuem um pendor de grandiosidade histórica. Não se trata das invasões napoleónicas nem tão-pouco da Rússia feudal confrontada com os ventos da modernidade. Pessoas que perdem a casa e que são obrigados a implorar a familiares por um tecto; ou mulheres arrivistas e ambiciosas para quem o mundo do dinheiro é o santo e a senha da sua existência: estes são os personagens que anunciam o fim do homem soviético, e que à sua maneira autobiográfica caracterizam categorias específicas desta mesma sociedade.

Qualquer destes autores foi considerado suficientemente inovador para merecer os maiores prémios literários. O Nobel, o medicis, o Man booker, e não por acaso qualquer deles arrisca o hibridismo, a fronteiras entre a ficção e a prosa jornalística ou ensaística. Prémios que se adequam a um tempo que concedeu o Nobel a Bob Dilan, um cantor, ou um canta-autor, mas de qualquer das formas um badaladeiro com letras acutilantes. De tal maneira o comité do nobel estava fascinado com esta incursão por terrenos estranhos, este atravessamento de fronteiras estilísticas, que decidiu, naquilo que constituiu um erro crasso, dar o nobel ao cantor. Isto não é significativo pelo tremendo faux pas que se veio a revelar; mas é quanto às preferências da intelectualidade relativamente à obra escrita. E tem vindo a replicar-se em inúmeros júris e especialistas literários.

Tais processos têm primado pelo fascínio pelo híbrido, isto apesar de alguns autores premiados continuarem a seguir esquemas literários bem convencionais. Kazuo Ishiguro está mais perto de Tolkien ou Conan Doyle do que da “loucura” de Pynchon ou Vonegut. Contudo,  o hibridismo das temáticas e registos atravessa os seus romances. Uma escrita repleta de rasgos imaginários e fantasistas, como em Never let me go ou Burried Giant, onde a ficção científica se confunde com o romance histórico, no último com a aparição de ogres e dragões na Inglaterra saxónica, aproxima mais o autor de objectos como A guerra dos tronos, do que do romance histórico ao estilo Ivanhoe de Scott. O próprio autor menciona as suas diversas fontes de inspiração como estando na música pop – sobretudo Cohen – ou no cinema; e incita à transgressão dos estilos como método de escrita.

Entre as ciências sociais e o literário as divisões foram por diversas vezes consideradas difusas. Bauman, por exemplo, defendia uma sociologia literária. O livro de Jablonka, em método, não se afasta muito dos camponeses bearneses que Bourdieu estudou; ou melhor, aproxima-se na sua intencionalidade de observação, desvelando, a partir de um caso concreto, um conjunto de modificações culturais na sociedade francesa. Mas afasta-se e muito porque não possui qualquer objectivo heurístico. Em rigor há um aproveitamento implícito (ou não tanto) de um certo jornalismo sensacionalista. Porque se o caso dos solteiros do Béarn não suscitava grandes comoções quando foi escrito (e continuaria, suponho, a não suscitar), já o mesmo não pode ser dito do rapto e assassinato de Laetetia. Bourdieu poderia ter escrito um livro diferente, caso a sua intenção fosse ter um público para além da academia. Um início sobre sistemas de parentesco na sociedade camponesa tradicional é de molde a desmobilizar até o mais afoito dos leitores não especializados. Mas a obra é propositadamente académica e intencionalmente confinada aos seus circuitos e protocolos. Jablonka poderia ter escrito um ensaio sociológico sobre o assassinato de Laetetia, mas em vez disso escolheu uma via entre o jornalismo de investigação, o romanesco e o ensaístico, que não quadra de maneira nenhuma nos sistemas de apreciação académicos. Mas que foi rapidamente assimilado pelas lógicas do cânone literário. Lógicas instituidoras, está bem de ver. Na medida em que consagram certos objectos e abrem campos interpretativos para a sua exploração e aprofundamento posterior. Ou seja, a consagração de Saunders e o seu Lincoln abre espaço para novas e mais arriscadas tentativas de jogar com o hibridismo dos registos.

Pode-se dizer que nada disto é novo; que pelo contrário parece tudo moderno demasiado moderno. Não fez Pound todas as violências e mais algumas à poesia incorporando relatos e referências exteriores às suas regras? Ainda assim o efeito pretendido era o do estranhamento. Um objecto de difícil classificação, Os Cantos. Um acumular de linguagens que destruíssem de uma vez por todas as tradicionais fronteiras entre prosa e poesia. E um certo classicismo… renovado.

Nenhum dos autores mencionados atrás, e ganhadores de prémios, possui um projecto tão desestabilizador dos códigos literários. Julgo aliás que a sua intenção é bem diferente. A era em que vivemos – em que eles vivem – prima pela confusão de estilos e registos. No mesmo dia somos capazes de passar das páginas do jornal, para uma série de televisão, e depois para um filme de cinema, acabando a ler um grande romance histórico. Esta transumância de estilos narrativos que a nossa época de consumos rápidos e sucessivos nos oferece teria de alguma forma de instilar a própria matéria e processo da escrita. Ninguém vive numa redoma – e mais ainda actualmente: não se pode sequer inventar uma redoma.

Apesar (ou para além) destes detalhes interpretativos, o que interessa é saber se são bons livros. E são.

A inquisição feminina

Janeiro 11, 2018

Quando o conservador beato Henrique raposo vem, na sua crónica do expresso de ontem, apoiar o #metoo, sabemos que estamos na merda. O seu apoio – aliás: incitação à denúncia por parte das mulheres portugueses -, a um movimento que prima facie rescenderia ao enxofre do politicamente correcto, cauciona aquela admoestação velha de barbas da Judit Buttler (que já aqui mencionei) segundo a qual a agenda do sexual harassment é fundamentalmente de direita puritana. Ver um James Franco completamente encaralhado num directo televisivo a ter que se justificar em público, escolhendo muito bem as palavras, o seu comportamento sexual agora exposto no twitter por um antigo engate, anda muito perto de assistir em directo a um tribunal inquisitorial. Até os termos são muito semelhantes: todos estes homens sem excepção afirmam que, caso tenham procedido mal com as suas acusadoras, doravante irão corrigir os seus comportamentos, que estão prontos a fazer viagens de autoconsciencialização que os libertem dos seus demónios. Como os acusados de heresia de antanho incitados a confessar os seus pensamentos e a jurarem que no futuro serão os mais fiéis dentre os fiéis – a linguagem, se excluirmos a marca dos tempos, é tão similar que dá medo. Mesmo assim, quase nunca escapavam à tortura – porque o objectivo de facto era a tortura, sendo a confissão o seu mero desencadeador. A tortura actual é a exposição pública e destruição das carreiras destas pessoas.

Felizmente que da França, país das liberdades republicanas, surge um rasgo de sanidade na maré de desvario que grassa do outro lado do atlântico. A carta das 100 mulheres contra o #metoo, subscrita por pessoas como Catherine Millet ou a mais mediática Catherine Deneuve diz coisas tão prosaicas quanto estas:

Or c’est là le propre du puritanisme que d’emprunter, au nom d’un prétendu bien général, les arguments de la protection des femmes et de leur émancipation pour mieux les enchaîner à un statut d’éternelles victimes, de pauvres petites choses sous l’emprise de phallocrates démons, comme au bon vieux temps de la sorcellerie.

E mais ainda

Cette fièvre à envoyer les « porcs » à l’abattoir, loin d’aider les femmes à s’autonomiser, sert en réalité les intérêts des ennemis de la liberté sexuelle, des extrémistes religieux, des pires réactionnaires et de ceux qui estiment, au nom d’une conception substantielle du bien et de la morale victorienne qui va avec, que les femmes sont des êtres « à part », des enfants à visage d’adulte, réclamant d’être protégées.

E sobretudo

nous ne nous reconnaissons pas dans ce féminisme qui, au-delà de la dénonciation des abus de pouvoir, prend le visage d’une haine des hommes et de la sexualité. Nous pensons que la liberté de dire non à une proposition sexuelle ne va pas sans la liberté d’importuner.

 e para terminar

Les accidents qui peuvent toucher le corps d’une femme n’atteignent pas nécessairement sa dignité et ne doivent pas, si durs soient-ils parfois, nécessairement faire d’elle une victime perpétuelle. Car nous ne sommes pas réductibles à notre corps. Notre liberté intérieure est inviolable. Et cette liberté que nous chérissons ne va pas sans risques ni sans responsabilités.

Julgo que as razões invocadas pela belíssima carta destas 100 mulheres tocam no essencial dos alçapões dum movimento como o #metoo. E entre eles, porventura o mais significativo, é a infantilização das mulheres, bem retratada nos seus relatos e testemunhos, como se o sexo e a sexualidade fosse um campo com regras pré-escritas, devedoras de uma normatividade da consensualidade, onde zonas de risco ou de aleatoriedade – tantas vezes geradoras de ansiedade – fossem rasuradas. É óbvio que não podemos escapar à sensação que muitas destas mulheres estejam a assumir um papel, que a sua verdadeira vingança não seja a recuperação ou reformulação de um princípio de justiça, mas a absolvição individual de um arrependimento retrospectivo mediante a memória de actos praticados que, conjecturamos, não resultaram conforme o calculado.

I, twitter

Janeiro 10, 2018

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Os acontecimentos que se sucederam à cerimónia dos globos de ouro e que envolveram James Franco, mostram bem como a “luta” das mulheres tem duas caras. Acto contínuo a Franco ter sido agraciado com o prémio de melhor actor, uma ilustre desconhecida veio tweetar acusações de abuso sexual contra ele. O metoo transforma-se assim facilmente em canal para vendetas pessoais e revanches mal digeridas. Neste contexto, em que acusação pessoal se torna arma política, ou arma para fazer política, na medida em que as mulheres envolvidas se assumem como porta-vozes de uma “luta”, pode bem dizer-se que Trump é o mais contemporâneo dos políticos. Verdade seja dita, e em abono da sua tão autoproclamada genialidade, Trump percebeu perfeitamente como se faz política actualmente: a sua fire and fury propagada através de tweets que visam tudo e todos é a mais actual das linguagens de protesto. É precisamente neste sentido que a América do metoo encontra o presidente Trump na sua mais escandalosa proporção do “fazer notícias” através de redes sociais. E que os espasmos pretensamente libertários do metoo que prometem uma terra de mel e abundância a uma categoria social devem ser vistos como sintomas de modificações profundas nas linguagens e modos de fazer política.

Dentro daquela lógica algo ociosa de destacar acontecimentos nos anos transactos existe para mim um acontecimento que se singularizou e que pode bem ser colocado com certeza topológica no intervalo de 2017. Trata-se das “fake news”. As fake news não podem ser vistas como o delírio de um populismo oportunista e, quase se diria, senil. Elas são o fenómeno político mais importante desta época porque inauguram um tempo novo nessa mesma política. Por isso merecem com propriedade o destaque que advém da sua singularidade.

Primeiro, não se trata apenas de notícias falsas que são disseminadas. Esta é uma prática antiga e quem melhor do que Shakespeare para a ter caracterizado em tão diversas instâncias poéticas (Iago não lança o opróbrio sobre Othelo?, e etc). A diferença é que desta feita são social bots a espalharem as notícias falsas. Ou seja, a capacidade de inventar factos políticos (e não só) foi deixada à eficácia de algoritmos que agem como se fossem utilizadores humanos das redes sociais. E isto é francamente novo.

As fake news têm duas caras, como a moeda. Por um lado, são atiradas a torto e a direito como defesas contra aquilo que os presidentes-ditadores do momento designam como ataques pessoais. É assim com Trump; é assim com Putin; e seria com Xi Jinping caso houvesse liberdade de imprensa na China. Qualquer coisa que não seja do seu agrado é imediatamente arrolada ao ataque pessoal, retirando-lhe assim o potencial crítico objectivo.

O metoo, pressupõe-se, não é alimentado por fake news, mas também não é relevante, porque o contraditório fica imediatamente subterrado num primeiro impacto devastador que a sua super-disseminação provoca. Até ver, o metoo tem pessoas reais que fazem as acusações. Mas a forma como estas surgem desarticuladas de qualquer outro discurso ou instância, não anda longe dos artificialismos dos algoritmos que se fazem passar por interlocutores nas redes sociais criando um efeito de realidade.

Por exemplo, as estórias que são despejadas no twitter pelas vítimas do metoo podiam bem constituir conversa de café – meninas que acusam homens de estes terem proposto felacios em passeios estivais pela costa oeste dos estados unidos. Escândalo! Seria de facto conversa para ter numa noitada de copos e drogas entre amigas. Contudo, catapultado pelo twitter ganha uma dimensão pública – de opróbrio público, sobretudo – que advém mais do próprio meio do que do seu conteúdo.

Os social bots são uma história semelhante. Tudo indica que fizeram com que Hilary Clinton fosse arrastada pela lama na campanha eleitoral de 2016. O sistema é engenhoso. Criam-se interlocutores falsos nas redes sociais que agem como respondentes humanos e cuja capacidade de difundir boatos é centuplicada para além daquilo que seria o natural caso fossem humanos a disseminar esses mesmos boatos. Se isto parece teoria da conspiração é porque elas existem: as teorias e as conspirações. Do lado das teorias é antiga a necessidade de conhecer a velocidade em que as notícias se deslocam quando partilhadas por redes sociais. Desde os anos 40 pelo menos há números e velocidades que as calculam. Que o comportamento dessa difusão seja actualmente semelhante ao das epidemias, ratifica a ideia de algo que se torna viral. E assim, quer os tweets do metoo quer os do presidente cum genius in office Donald Trump imitam esse mesmo comportamento. Em contraposição, que a política esteja actualmente a ser feita através de sistemas virais, speeks volumes da necessidade da sua erradicação, e não apenas em sentido metafórico. É bom começarmos rapidamente a pensar em antídotos e antivirais que sustenham as epidemias para níveis de contenção suportáveis sob pena de não distinguirmos mais política e doença.

Ano novo, vida nova?

Janeiro 4, 2018
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Começou a charanga do PSD a funcionar em pleno logo com a entrada do ano. Estas coisas nós já as vimos e revimos vezes sem conta. E até um dos protagonistas é useiro e vezeiro nestas andanças.

O PSD é um partido de aldrabões. Não é com grandes análises que nos devemos debruçar sobre o seu comportamento e tácticas. Fico sempre perturbado quando ouço aquela frase melada “o psd é um partido indispensável à democracia”. Sério? Como se um partido, bem para além daquilo que fosse a sua actuação, tivesse um lugar cativo na indispensabilidade democrática. Nem o PSD me parece indispensável, nem o seu comportamento como oposição – como se tem visto ultimamente – parece acrescentar o que quer que seja à dita democracia. Repito: o psd é um partido de aldrabões. Mas é preciso substanciar uma afirmação tão forte.

Primeiro, ideologicamente não expressa àquilo que vem. Isto não é de somenos, sobretudo quando temos os vates do comentário político como António Costa Pinto a repetirem à saciedade que não são os aspectos ideológicos que interessam analisar nesta contenda. Não são porque, como de costume, eles estão todos encobertos. Mas nós sabemos (oh se sabemos!) que assim que se apanham no poder eles assomam como baleias a expelirem ar à superfície. É uma pena a memória ser um sistema tão falível e tão desordenado, senão bastava uma compilação das formulações utilizadas pelos ministros e ministras do governo de Passos para acedermos ao adn do PSD actual. Curiosamente, várias foram as análises durante esses funestos quatro anos que mostraram claramente com que linhas se cosiam as suas fatiotas. A sua singularidade não é assim tão grande para que não possamos encontrar congéneres nos conservadores ingleses de May ou no PP de Rajoy. Os modelos de postura política não são assim tantos para que os partidos não se copiem uns aos outros.

Segundo, se dizer que o PSD é um partido de poder, é um truísmo, e não tem, em substância, nada de moralmente reprovável, dizer que o psd é formado por uma elite que se julga com direito ao poder, é outra coisa. E essa já é uma análise do carácter e da atitude dos seus militantes e quadros. Até porque o PSD, por mais que os candidatos elenquem 221 medidas nas suas moções, não tem nenhum programa substancialmente diferente ao dos anos da troika. É preciso insistir neste ponto: o psd não foi forçado a governar daquela maneira pelas imposições da troika – o psd aproveitou as imposições da troika para governar como sempre verdadeiramente quis. Este pormenor é essencial e deve sempre levar-nos a rejeitar qualquer aproximação a uma putativa social-democracia que os nóveis candidatos à liderança do PSD queiram ensaiar. Lembram-se que Santana insistia com denodo parlamentarista na sigla PPD-PSD? Porque para ele o Popular teria sempre precedência em relação à social-democracia. E nesse sentido está muito mais próximo do PP de Rajoy ou dos tories de May do que de qualquer social- democracia do norte da Europa. Estou convencido que esses são os modelos quer para Rio quer para Santana – a May e o Rajoy. E por isso devemos ter medo, porque também esses são uns aldrabões. Mais uma vez a memória a atraiçoar-nos. Porque não relembrar o amor inabalável que Durão nutria por Aznar? Não há social-democracia nenhuma aí, assim como não há nos tories de May.

Aldrabões portanto, os dois candidatos, vertebrando o seu discurso em torno de uma mirífica social-democracia que nem eles querem que exista nem fazem tenções de aprofundar. Mas veja-se por exemplo como o espaço é calculado com alguma atenção. Se por um lado, agitam a bandeira da social-democracia na vontade de “reinventar” Portugal; por outro afirmam que acordos com a esquerda nem que venha o diabo

                                                          (que parece não chegar).

O que estes dois candidatos sabem é que o jogo político mudou significativamente. Dantes era passar o PS por alguns pontos percentuais e ter o CDS ali à mão de semear, e eram favas contadas – tinham o governo da nação no papo. Mas na era após-geringonça as coisas modificaram-se; a táctica tem que ser diferente. O PSD não pode continuar a falar de “gorduras do Estado” ou de “liberdade dos mercados financeiros” (Volta memória!) como era o seu repertório com Passos e nos governos anteriores a Passos. Tem de falar de “social-democracia do século XXI”, como se de repente as duas sumidades tivessem engolido um catarpácio do Esping Andersen. Não te fies, oh Zé, que isto é tudo tanga. Rio, com certeza não deixou de ser um arrogante, barão do norte, que governou a Câmara do Porto como o seu pequeno condado. E Santana, apesar daquelas aparições tribunícias com António Vitorino, não deixou de ser um populista, show-offer (se a palavra existisse) que foi aquando do seu consulado lisboeta ou na breve passagem pelo governo. Ou como ministro da cultura, deus meu, lembram-se dos violinos de Chopin? Como é que estas coisas caem no esquecimento?

                        (volta memória – estais perdoada!)

Terceira, a verdade é que o PSD consegue sempre o mesmo feito. A excessiva mediatização da sua eleição para líder dá uma aparência de indispensabilidade. Note-se, é a sua excessiva mediatização, nada mais. Não é a clareza das suas ideias, a natureza revolucionária destas, ou a novidade que possam trazer. Aliás, este é sempre um trabalho que fica para a esquerda fazer. Lembro-me dos incansáveis escrutínios ao programa de António Costa quando este se apresentou como candidato. Do tarado do José Gomes Ferreira a esmiuçar todos os números e mais alguns. Não seria, por exemplo, tempo de pedir o mesmo detalhe, a mesma exigência, com as propostas vindas da direita? Essa necessidade não existe porque os programas ou orientações dessa mesma direita são vistos como verdades inscritas na ordem das coisas. Nem nunca o programa de Passos em 2011 foi tão escrutinado como seria o de Costa quatro anos depois. E o mesmo se vai passar com os dois candidatos agora presentes às eleições internas do PSD. Esta falta de escrutínio – este desinteresse interessado, parafraseando um douto do funcionamento político – por parte de opinadores e especialistas facilita bem a vida aos candidatos; e em grande medida é isso que lhes permite passar pelos pingos da chuva apelando para outras dimensões, emotivas, fleumáticas, carismáticas que não expressam directamente a prática sobre a política.

                                        (Vão ser meses difíceis… e nauseantes… os que se avizinham)

Afinal o que querem estes candidatos? Querem aumentar ou diminuir os impostos aos ricos? Diminuir os custos do trabalho? Flexibilizar as condições laborais? Fechar serviços públicos? Privatizar o pouco que resta para privatizar? Não sabemos. E provavelmente, tão cedo também não iremos saber.

                                (e o resto é silêncio)

Raríssimos?

Dezembro 19, 2017

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O caso raríssimas será assim tão raro ao ponto de consternados exclamarmos: – Casos destes são raríssimos! Tenho para mim que o escândalo das raríssimas é apenas uma pequena espreitadela ao funcionamento real das ipss em Portugal. O mundo obscuro das ipss, com as suas conivências com a igreja católica, que abocanha o sector social em Portugal, está por deslindar. E é necessário uma guerra interna numa ipss, com o seu quê de feio e de mesquinho, para desvelar as artimanhas que alguns de nós suspeitamos estarem bem mais disseminadas do que a excessiva atenção na raríssimas permite crer.

O sector das ipss é um canto mal explorado da economia nacional. Não apenas porque a igreja lança o seu manto, nada diáfano, sobre a maioria das suas operações e constituição, como também porque se trata de um sector que funciona tanto através de donativos como de projectos, na sua grande maioria financiados através de dinheiro do Estado.

Assim, o caso raríssimas revela com grande claridade os arrivismos das pessoas que se encontram a capitanear tais instituições. E mais ainda, a ansiedade de status em que giram tantos destes projectos. Por exemplo, chamar doutora e doutor a pessoas que não têm o grau é um dos sinais mais destacados desta escada arrivista e autoproclamatória onde se alcandoram tantos não-doutores e não-doutoras. É importante o título de doutor para gerir uma instituição destas? Longe disso! O que o fenómeno mostra é a construção de fachada em que vários destes projectos subsistem. Olha-se para a raríssimas e vê-se portas com a fotografia da sua presidenta, ao melhor estilo de culto de personalidade kim ill sunguista. O que significa esta ansiedade pela visibilidade?

Note-se: isto não é uma maçã podre. O que acontece na raríssimas é fruto da sua condição estrutural e cultural. Por um lado, a ambivalência estrutural de habitar simultaneamente o mundo da necessidade – da ajuda social, do suporte familiar, em última análise, das margens – e o mundo do dinheiro. Esta é uma ambivalência da qual o Estado se pode eximir concentrando os seus poderes e acções apenas sobre o mundo da necessidade. Mas as ipss vivem em conúbio permanente com o mundo do dinheiro, o mundo da ostentação, o mundo da não-necessidade – o anti-mundo da vulnerabilidade! E isso provoca um fenómeno cultural específico. Ou as pessoas que se dedicam as estas causas são ricas, ou têm que aparentar que o são. Podemos dar as voltas que quisermos, mas a forma como estas organizações se enquadram na sociedade em geral é a da caridade, e essa tem uma raiz muito específica, que é a do catolicismo. Ora só os verdadeiros clérigos podem andar pelo mundo dos ricos em trajos de pobres. Os laicos não podem (ou não resistem) sobreviver a esta alquimia da caridade. José Barata Moura: Vamos brincar à caridadezinha… lálálá lálálá… Por isso o investimento no estatuto tem que ser intenso e perdurável. Um franciscano pode posar andrajoso ao lado da princesa Letícia, há algo do carisma do sofrimento que é aspergido pelos seus andrajos. Mas um laico tem que parecer que está no mesmo patamar da princesa Letícia… mesmo não estando. É assim que o mundo das ipss é tanta vez o mundo da criação de ilusões: a respeito dos seus líderes e trabalhadores, e a respeito dos seus trabalhos e resultados. As pessoas têm uma vaga sensação que as ipss trabalham para o bem comum, para o sanar de várias e ingentes vulnerabilidades; mas ninguém sabe muito bem aquilatar os seus resultados.  Esta também ambivalência da penetração das ipss no tecido social mais próximo conduz-nos ao terceiro aspecto, que não por acaso surge como seu corolário.

Como o escrutínio a estas organizações se esgota frequentemente na verificação de que se ocupam de áreas que mais ninguém considera, o seu funcionamento está ao abrigo de intervenções mais sérias. É justamente esta falta de escrutínio – para além do contabilístico, que é sempre controlado por quem gere – que permite retirar fundos destas organizações, desviá-los para outras funções, utilizá-los em proveito próprio. A sua lógica de funcionamento centrada numa personalidade torna particularmente apetecível este tipo de procedimentos. E é também aqui que a imoralidade da prática do esbulho se confundo com a moral da criação de visibilidade. Como poderiam estas organizações funcionar através de donativos se não explorassem a fundo a sua imagem? Como subsistir num mundo onde a imagem vale ouro – o mundo dos ricos com o seu cortejo de aparições e de ostentações públicas – sem jogar a economia política da criação dessa mesma imagem? Estranho será então que as directoras, “chefas” ou matriarcas destas organizações queiram participar no carnaval imagético em pé-de-igualdade com as personalidades que as sustentam? Até se poderia pensar numa forma casta e abnegada de habitar este mundo, mas como dito atrás ela seria sempre falhada quando não praticada pelo verdadeiro clérigo. É o único que pode estar com a sua batina uniformizada e cinzenta imerso no colorido esfuziante do dinheiro. Os outros seriam sempre párias.

Há todavia um lado das ipss que não tem sido muito comentado na cobertura do escândalo raríssimas. Trata-se dos inúmeros processos de contratação precária em que estas instituições são useiras e vezeiras; ou a discricionariedade dos seus métodos de selecção, elaborando-se estes frequentemente em torno de compadrios, amiguismos e redes familiares. Seria interessante fazer um levantamento dos familiares que se encontram nos diversos quadros de direcção das ipss em Portugal para se ter uma ideia exacta do recrutamento endógeno que estas praticam. Não é raro o transitar de pessoas do Estado para ipss que trabalham nos mesmos sectores onde os anteriores funcionários tinham responsabilidades, e vice-versa: saltarem das ipss para o Estado porque as afinidades com os sectores são aparentemente importantes. Ora este trânsito faz-se sempre debaixo do sombrero partidário; não é um movimento autónomo. Aqui joga-se muito do poder partidário e das afinidades pessoais. Paula Brito e Costa da raríssimas, como bem mostra Daniel Oliveira, tinha afinidades com o PSD, contrariamente à tese que a pretende ligar ao PS. Mas outras há com ligações ao CDS e ao PS. A falsidade de um terceiro sector autónomo, empreendedor, fora da alçada do Estado, fica bem patente quando se olha para estes trânsitos contínuos.

Mas finalmente, o caso Raríssimas não pretende ser uma porta de entrada para o escrutínio das ipss. Tão-pouco um acesso de moralização dos envolvidos. Ele foi urdido com uma única coisa em mente: a implicação de Vieira da Silva. Esse é em última análise o objectivo mais precioso. É por isso que esperneiam PSD e CDS. Paula Brito e Costa foi apanhada em mais uma maré de revanche política lançada pelos partidos da direita que muito hipocritamente deixam na sombra os seus próprios aliados no mundo das ipss para explorarem vampiricamente o caso Vieira da Silva. É pena, porque com outra oposição podíamos chegar a alguns esclarecimentos interessantes. Mas como pedi-lo ao sector político que mais investiu na lógica da caridadezinha para substituir o Estado? Aquele que mais liberdade deu às ipss para se tornarem no tal putativo terceiro sector, robusto e empreendedor, que substituirá o Estado num futuro promissor.