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“Estado todo poderoso”

Outubro 18, 2017

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Eu gostava francamente de perguntar aos mete-nojo Henrique Raposo e JMTavares, que usam amiúde a expressão “Estado todo poderoso” para classificar a intervenção do Estado nas diversas esferas da sociedade – da cultura, à economia, passando pela providência – se para fazer chicana política o Estado-papá já lhes serve. Porque espumam da boca estas cavilosas personagens quando o Estado não consegue evitar mortes por incêndios? Não seria, para eles, liberalões apoquentados, qualquer intervenção do Estado uma violência que se faz à boa condução dos negócios em sociedade? E quando tudo arde, não é deixar arder, porque o Estado é o caminho para a servidão? Então porque se empertigar tanto com a inacção do Estado? Um Estado inerte não é o Estado com que todo o liberalão, neoliberal, liberal conservador, sonha? Eu pensava que sim. Com  toda a justeza lógica devíamos estar a ouvir estas pessoas a berrarem pela privatização dos bombeiros, a organização de milícias comunitárias para combater os fogos, ou a entrega da protecção civil a uma empresa de segurança. Mas não – há uma imensa consternação nas suas hostes porque o Estado não protegeu os cidadãos. O Estado-papá diria JMTavares. Curiosamente, o flibusteiro, vem desta vez com a conversa da responsabilização do Estado, e por arrastamento do governo. Onde ficamos afinal?

Marcelo por seu turno aparece como o Marcelo que afinal sempre soubemos que lá estava. Escrevi neste blog que quando as coisas dentro do PSD se apresentassem de feição para a emergência de uma nova liderança, o Marcelo do PSD surgiria. E ele aí está. Senão vejamos, ameaçar com a dissolução de um governo democraticamente eleito por causa de catástrofes naturais seria razoável se o próprio governo as tivesse provocado. Mas não foi o caso. A mim afigura-se-me demasiado rebuscada a tese oportunista do CDS segundo a qual o governo é responsável pela morte dos cidadãos. Nesse caso, cobraríamos responsabilidades ao CDS pelos mortos em acidentes de trânsito quando este se encontrava no governo. Porque não? As estradas são da responsabilidade do Estado; as cartas de condução também; segue-se que se há pessoas a morrerem em acidentes de viação a responsabilidade é do Estado. Falso. A responsabilidade é dos condutores. E isso é estranho no discurso do presidente. Nem por um momento se preocupou com as causas dos fogos. Porque é que acontecem tantos em simultâneo, como em manobras concertadas? Porque é que há gente a ser julgada por fogo posto mas de quem nada se sabe, nem nada transpira para o exterior. Fizeram-no a mando de alguém? Que interesses representam? São lunáticos sociopatas? Nada. Não se fala, não se diz, não se interroga. A mim parece-me perfeitamente idiota dizer, como faz hoje Daniel Oliveira, ecoando os mais nefandos boatos da direita, que a culpa é dos boys do PS na protecção civil. Sério? Segundo a pordata existiam 472 corporações de bombeiros em 2015. Em 2017 este número pouco se alterou. Será que toda esta gente foi inoculada pelo vírus da incompetência socialista? Todavia, o que tem acontecido é uma sangria nas corporações de bombeiros, com os números dos soldados da paz a decaírem em catadupa. Isto é um pormenor? Não creio.

Como diz o Marcos Capitão Ferreira hoje no Expresso, “o Estado mínimo sai caro”. E era bom que as pessoas obrigassem os celebradores do Estado mínimo, como Raposo e JMTavares, a retirarem ilações consequentes. Porque não se pode pedir grande intervencionismo do Estado quando sistematicamente se pretende boicotá-lo, ora com palavras ora com acções. Os doidinhos das “gorduras do Estado” que assomaram à porta do poder quando lhes cheirou a novo ciclo político, deviam perguntar-se se são estas boas para assar. Porque o que se passa em Portugal, ao contrário da tese da Cristas e sus muchachos, é uma total ausência do Estado na floresta. Por culpa deste? Não porque esta é maioritariamente privada, como aqui já escrevi, e está sujeita aos caprichos de milhares de privados que apenas se preocupam com o dinheiro que podem retirar do seu quinhão de terra. Há uma responsabilidade colectiva que não pode ser despachada para as costas do Estado “PS” ou de uma desgraçada de uma ministra.

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Antolhos

Outubro 10, 2017

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Da estátua do padre António Vieira pouco mais há a dizer do que foi escrito por Alexandra Lucas Coelho num texto brilhante. É de tal forma bom que Mamadou Ba, da associação SOS racismo, retirou, nas suas declarações à comunicação social, selectivamente uma das suas expressões: a de que Vieira seria “um anti-esclavagista selectivo”.

A estátua é de uma infelicidade tremenda. Os índiozinhos aos pés de Vieira; a cruz lançada para a frente como em manobra de evangelização – deus meu que aberração! Que Vieira merecia uma estátua na cidade de Lisboa, disso não há dúvidas – e não me refiro ao Vieira do Benfica. Que nem no Brasil, onde vários bustos do padre António Vieira embelezam as praças, se vê tamanho desconcerto histórico e intelectual, lá isso também não. E no entanto há qualquer coisa a puxar ao turista naquela estátua. Ao turista brasileiro, bem entendido; e sobretudo ao menos informado e crítico, que  os há aos magotes.

Por alguma razão que desconheço, Vieira tem uma expressão bem maior no espaço público brasileiro do que em Portugal. Note-se que falo das diversas encarnações de Vieira e da sua obra, e não da influência que esta teve na cultura de ambos os países. Pois aí é difícil aquilatar esforços e inspirações, porque Vieira está presente em tantos dos nossos pensadores, de Pessoa a Saramago, que não saberia dizer qual lhe bebe mais em estilo e sabedoria. E é por isso que Vieira merecia outra estátua. Porque a ideia da cruz a proteger os incivilizados índios faz lembrar os finais dos filmes do Mel Gibson. E isso não abona nunca a favor do escultor. Mais contenção deveria ter sido colocada na estátua. Ou então, que uma outra orientação lhe suportasse o gesto.

Mas o mais curioso nisto tudo, foi como a nossa alt-right (roubando a expressão a Pacheco Pereira) se mobilizou para atacar o protesto que esteve para ser feito contra a estátua, quedando-se  silenciosa a respeito do cerco colocado pela extrema-direita a esse mesmo protesto. São dois pesos e duas medidas. Ou apenas uma: a do conservadorismo atolambado. Contudo, a organização que mostram ter é sempre interessante de analisar. Por exemplo, no mesmo dia, saem dois artigos sobre a estátua nos dois jornais mais sérios do país: o expresso e o público. O primeiro assinado por Henrique Raposo; o segundo por JMTavares. A coincidência não pode ser isso mesmo. A verdade é que a alt-right reúne-se, discute, elabora estratégias comunicacionais. Não é CIA style; são coisas mais comezinhas, como ir beber copos e comer nos mesmos restaurantes. Ambos os artigos elaboram os mesmos raciocínios e reincidem nos mesmos lugares-comuns que o conservadorismo tem por hábito aplicar à esquerda (intelectual!).

O primeiro é o da inutilidade do acto de contrição. Não se trata de pedir desculpas, como argumenta o JMT no Público. Trata-se sim de reconhecer o esclavagismo português. Não o fazer, insistindo na versão edulcorada de um passado exemplar, é reincidir no discurso do excepcionalismo colonial. Isto não me parece muito difícil de perceber, mesmo para jovens da alt-right portuguesa. Donde se conclui que JMT não está assim tão impressionado com a necessidade de combater “com todas as forças” a tese ridícula do Estado Novo. Até porque esta só é compreensível quando cotejada com uma versão da história que encobria precisamente o passado esclavagista português, pintando-o de necessidade através de uma missão civilizadora de cariz cristão e ocidental. As coisas não são dissociáveis e não se restringem às “cinco ou seis décadas” que atenazam o JMT.

Pedir desculpas é logicamente contíguo a assumir a culpa. Ninguém se espanta que os alemães assumam colectivamente a culpa pela morte de seis milhões de judeus. Donde provém então o incómodo pela assunção da culpa pela escravatura? JMT não teria dificuldade em aceitar que a Alemanha nazi devia ser alvo de alguma retribuição histórica, mesmo que os factos a que esta se refere estejam, como diz o plumitivo, no tempo dos tetravôs. Com a escravatura e comércio de escravos transatlântico, é apenas questão de estender o tempo histórico. Porque se prolongou por quase quinhentos anos. Porque definiu a história dos povos ocidentais e dos outros; ou seja, porque inscreveu no tempo histórico o “dispositivo do Oeste e do resto”, assim como o definiu Said.

É óbvio que uma tal assunção colide com o discurso da beneficência universal dos povos que assiste em grande medida as linguagens actuais da sombra histórica portuguesa. A contradição gera mal-estar. Mas é esse mal-estar que deve ser absorvido culturalmente, ruminado e reflectido. Para posteriormente entender o passado tal como ele foi e não como teríamos gostado que fosse segundo uma concepção elaborada no tempo presente.

Aqui ambos os plumitivos insistem que a tese de um Vieira enquanto esclavagista selectivo é um rematado disparate. Todavia, os testemunhos escritos não lhes dão razão. No seu Sermão da Epifania, pregado em 1662 na Capela Real de Lisboa, se por um lado dizia que o cativeiro ilícito dos índios era pecado, nada havia a obstar ao cativeiro dos negros, desde que ao escravo ou escrava o senhor não mandasse “cousa que ofendesse grandemente a alma, e a consciência” (ref. Sermão XXVII do Rosário, em Sermões, v.XII, p.331). Mas o que era pecado ou não tinha uma ampla latitude interpretativa na concepção de Vieira. Deste modo, quando instado pela Junta de Missões a manifestar a sua posição relativamente aos negros sublevados da “nação” quilombola de Palmares, Vieira não hesita em mandar exterminá-los, apresentando para isso cinco razões, cuja quinta rematava o assunto: como se tratava de escravos rebelados, persistiam no pecado, donde, numa lógica substancialmente pragmática, apenas o extermínio poderia ser consequente. Difícil encontrar o rasgo humanista que seria expectável.

Mas não estava desacompanhado. Las Casas, que é citado por Raposo,  enquanto mostrava uma genuína preocupação com o futuro dos indígenas, incitava Carlos de Espanha a enviar negros para trabalho escravo em Hispaniola. Será apenas mais tarde, na História Geral das Índias, que se confessa arrependido de ter feito a distinção. Mas não totalmente, visto ele próprio ser senhor de escravos até 1544.

Devemos julgar estes homens pelos padrões actuais? Não, definitivamente que não. Devemos relevar a sua ambiguidade, caldeada em preceitos religiosos e em visões morais que dividiam a humanidade enquanto merecedores e não merecedores de compaixão? Certamente que sim. A impossibilidade de Vieira e Las Casas se posicionarem da mesma forma para indígenas e negros mostra que o processo de desumanização dos segundos foi total. O preceito religioso da alma em muito contribuiu para tal desumanização. E de facto a célebre discussão entre Sepúlveda e Las Casas residiu em saber quem tinha ou não alma. Ou melhor, quem, não tendo alma que salvar, poderia ser escravizado sem vir daí nenhum mal para a consciência cristã. Aliás, com alguma perversidade epocal, Las Casas instiga ao transporte massivo de negros para as Américas a fim de poupar os indígenas. Em nenhum lugar, quer Vieira quer Las Casas, questionam por inteiro a instituição da escravatura.

Em suma, de todas estas coisas devemos estar cientes e não ter medo de sobre elas falar. Parece que o paraíso da liberdade liberal da nossa alt-right é que insiste em ter zonas de silêncio, assuntos intocáveis, e no fundo, a obrigar-nos a andar com antolhos.

A canção do bandido

Outubro 9, 2017

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Começam a sair da toca os psds que andavam por aí amuados, sem grande polémica que concitar. Quando há a crucificação do líder, logo aparecem vários a mostrar a pluralidade do partido, como este está vivo em opiniões e estratégias, e o mais que se sabe. Todavia, trata-se de uma falácia. Posto que invariavelmente todos dizem a mesma coisa, repetida ad nauseam, desde os tempos em que Cavaco foi fazer a rodagem ao seu carro até ao bater consternado no peito dos actuais pretendentes. Não há diferenças nenhumas entre eles. Mas como é necessário mostrar que estão vivos e que são uma oposição a temer, mexem-se muito por estas ocasiões.

É quase certo que vamos ser servidos com o congresso da praxe, onde as televisões acampam com os seus comentadores, e se passam dois airosos dias de inanidades e inconsequências. Será assim desta vez também. Porque por aqueles que vão dando à costa nos jornais e na comunicação social em geral, já se vê que vêm armados dessas mesmas vacuidades e do viró-disco e toca o mesmo. Por exemplo, numa glosa do regresso dos mortos-vivos, mas desta feita enquanto regresso dos meninos de cabelinho à foda-se, o Diogo Agostinho vem espalhar a boa-nova. É certo que o artigo do expresso é um exercício bocejante de banalidades; mas tem o condão de mostrar uma coisa: a de que vem aí mais do mesmo. Há, para ser justo, uma espécie de lavagem de cara dos principais símbolos do partido. Uma insistência em definir-se como a “social democracia do século XXI” – os jograis de direita começam a espinotear com estas imbecilidades! – que se opõe “às gorduras do Estado” e visa tornar a sociedade portuguesa mais competitiva. O manifesto troikista de Passos Coelho por uma pena, só que com a manobra cosmética da “social democracia do século XXI”. Também Pacheco Pereira, pese embora o facto de ser a bússola moral do psd, inventa um partido que apenas nos seus mais intangíveis desejos existiu. O historial que traça no seu artigo do Público oblitera, como por magia, praticamente 20 anos de psd, de Cavaco a Durão Barroso, insistindo numa matriz, pasme-se, socialista! Felizmente que temos Rangel a recuperar alguma sanidade no conspecto ideológico do seu psd, afirmando-se um liberal, reformador, um liberal, liberal, ou o que seja. Mas colocando, muito apropriadamente, a social-democracia (e nem falar do socialismo) entre espessos parêntesis.

A necessidade que sentem de recuperar a social democracia nos seus diversos avatares, mostra que numa coisa não mudou: continua a ser um partido de demagogos. Pois que a conversa do Diogo Agostinho, mostra ao que vêm. Pacheco Pereira horrorizar-se com a realidade do psd, é a verdadeira negação freudiana. E no entanto o psd de Rangel, de Agostinho, e seguramente de Rio, tem uma linha e conduta: é neoliberal. Não pode haver qualquer dúvida sobre isto. O artigo do Agostinho diz tudo. Menos Estado, mais mercado – até onde não se sabe, porque este é um princípio que não encerra um limite lógico: é auto-propulsivo. Mas espero sinceramente que a retórica das gorduras do Estado, da avaliação dos seus trabalhadores – vejam como ressurge a ideia do “remanso” do funcionalismo público, tão ao jeito dos passistas da troika – e a baixa produtividade, que esconde, nunca esqueçamos, os custos do trabalho, faça ressoar na cabeça dos portugueses um intenso sinal de alerta. Não é preciso puxar muito pela memória para perceber que isto é ipsis verbis a conversa do Passos, da Maria Luís e dos homens do excel, que iam endireitar o país e pô-lo na vanguarda europeia. Os resultados são os que se conhecem. Mais pobres, níveis de desemprego inauditos, uma desigualdade galopante. E, com todos estes entorses, a economia estagnada.

Actualmente, ninguém no seu perfeito juízo dá crédito ao “diabo” segundo Passos Coelho. Mas é igualmente importante não dar crédito à mirífica “social democracia do século XXI” que estes demagogos nos vão tentar impingir nos próximos meses. Ela não existe. O que existe, sim, é o programa de reestruturação neoliberal que serviu para os anos da troika. O PSD de Rangel e do Agostinho não tem mais nada para oferecer.

Where does he get all those wonderful toys?

Outubro 3, 2017

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(loja em Mesquite, Nevada)

Tenho mix feelings (como diriam os americanos) sobre os acontecimentos em Las Vegas. Certamente que devemos chorar os mortos, as famílias despedaçadas, as vidas ceifadas de alguns em tão tenra idade. Ninguém deseja que estas coisas aconteçam. Mas entre o desejo e a efectiva prática interpõe-se a sua probabilidade. E esta será tanto maior quanto os necessários recursos para a levar a cabo abundarem.

Via a FoxNews e deparava-me com a necessidade de pensar um país segundo a linguagem dos westerns. E nesse sentido, quase apetece dizer they had it coming! Sem surpresas, a linguagem utilizada pelos comentaristas e pivots da Fox é um compêndio para a compreensão da cultura americana. Desde apodarem o atirador de “cobarde”, scumbag, até ao Pure Evil do presidente Trump, é um conjunto de conotações que radica no mais profundo do imaginário western. E enquanto a cultura norte-americana continuar a falar a linguagem de John Wayne, coisas assim vão acontecer.

A coincidência de Stephen Paddock viver num sitio chamado Mesquite, faria as delícias de um moderno Nostradamus de extracção ibérica. Não fosse o caso de o acto perpetrado não ter qualquer conexão com terrorismo islâmico. O que coloca a leitura de um tal acto numa zona ambígua. A fox gostaria que tudo fosse mais simples. Trump com certeza que também. Se se provasse uma ligação ao terrorismo uma reflexão séria sobre a famosa second ammendment da constituição deixaria de ser necessária. Mas há coisas que me fazem pensar que deus escreve de facto direito por linhas tortas, e que quanto mais não seja os ínvios caminhos da sua justiça reservam sempre lições a ser apreendidas. Isto faria sentido num país conservador religioso. Mais comezinha seria a ilação a retirar do facto de se poder comprar armas como quem compra guitarras. E nisso há uma ironia fantástica. O local onde Paddock comprou algum do seu arsenal chama-se Guns and Guitars. Nele se pode encomendar pela internet uma AK-47 por 600 dólares, assim como se pode comprar uma guitarra baixo. Mas cúmulo da ironia, pode-se encomendar uma guitarra com a forma de uma metralhadora! Uma AK-47 é uma arma militar, que vimos empunhada por alguns dos movimentos de libertação, do kurdistão ao sudeste asiático. Quem sabe se compradas por encomenda na Guns & Guitars? O que torna a discussão levantada pelos conservadores americanos sobre a diferença entre automáticas e semiautomáticas, com as limitações legais que impendem sobre as primeiras, de uma hipocrisia, que mais uma vez apetece dizer they had it coming!

O segundo momento de máxima ironia, é o facto de a matança ter sido dirigida contra um concerto de música country. Há uma afiliada da NRA (National Riffle Association) que se chama NRA Country, e que defende os valores partilhados entre o the right to bear arms, da segunda emenda, e o good old american way of life da música country. Essa associação não é fortuita, e muitos dos grupos country são defensores sonoros do direito às armas. Depois da tragédia alguns vieram a público dizer-se arrependidos. Mas a verdade é que a linha que une os dois aspectos mostra a uma claridade surpreendente a américa que vota em Trump.

Perante o esforço que a Fox fez para passar a mensagem que a segunda emenda era intocável, só apetece dizer they had it coming! Pois foram tantos os especialistas chamados a depor sobre a inocência de ter um arsenal de 40 armas, entre elas metralhadoras e explosivos, que só nos oferece dizer, é bem-feito.

O terceiro aspecto é que só num país onde se tornou tão corriqueiro ter armamento de guerra como quem tem material de jardinagem pode um homem transportar 23 armas semiautomáticas para o quarto de um hotel. Perguntamo-nos como pôde guardar um arsenal durante três dias numa suite? Como puderam as empregadas da limpeza não dar pelo seu arsenal privado? Como puderam os responsáveis pelo hotel não interrogarem sobre a natureza do material que transportava? A resposta é que a ninguém levanta suspeitas que se carregue armamento desta natureza quando o mesmo pode ser comprado na mesma loja que vende guitarras para estudantes de música.

Assim as perguntas que os americanos fazem, recorrendo a especialistas – como foi possível transportar o armamento?, Como passou despercebido, etc – mostram o sonambulismo em que vegetam. Porque nenhuma delas encerra um enigma. Fê-lo porque podia; porque é corriqueiro fazê-lo sem levantar suspeitas; porque podemos levantar-nos de manhã e ir a uma loja comprar uma metralhadora, entre o café com leite e o almoço… O que poderia haver de estranho em tal comportamento?

Os USA têm uma lista de mass shootings. Não são todos os países que se podem orgulhar de um ranking destes. A Fox insiste que devemos olhar para a Europa onde leis restritivas controlam a venda de armas, e mesmo assim os crimes de massa acontecem, em Barcelona, em Londres, em Berlim. O argumento é cínico, e oblitera que foram matanças com automóveis, e não com armas automáticas. E para todos os efeitos, a indústria americana de matanças conseguiu o efeito desejável, e essa constitui a terceira ironia. Apesar da proibição de venda de armas automáticas, que disparem vários rounds em simultâneo, é possível comprar um dispositivo, uma manivela, que as transforma em automáticas completas. E este custa 99 dólares. Com tantos brinquedos à mão de semear porque se espantam os americanos quando a oportunidade para os testar se oferece?

A santíssima trindade de Oeiras

Setembro 29, 2017

Há uma singularidade na campanha para as autárquicas no panorama nacional. Bem sei que dada a qualidade de tantas candidaturas que se apresentam por esse país fora detectar uma singularidade afigura-se um pleonasmo. Mas considero que uma delas é especialmente digna de nota. Este ano, a campanha em Oeiras é um fenómeno. O que nos deixa perplexos é como num dos mais ricos concelhos do país se apresenta um leque de candidatos tão miserável. Um, é um mafioso, que se locupletou à custa da sua posição como presidente da câmara, e que surge agora putativamente renovado depois de passar uns tempos na prisão. É este que está na calha para vencer as eleições. Oeiras é o concelho com mais licenciados do país. Para além disso, há uma notória tendência de gentrificação oeirense com o regresso das classes altas ao seu seio. É este o concelho que se prepara para devolver a câmara a Isaltino.

É facto que do outro lado as coisas não se apresentam de feição. O candidato do PS teve a infelicidade de mostrar que era um “burgesso” nas suas esporádicas aparições televisivas. Um misto de arrogância labrosta e de cara de cu caracterizou a sua prestação. Não podia ter bons resultados. Raposo talvez se achasse o rei da parada porque vinha crismado da Amadora. Todavia, as bocas que sobre ele abundam não dignificam a sua carreira no município amadorense. E a falta de humildade eleitoral perdeu-o para sempre. Nem mesmo os gigantescos outdoors que semeou pelo concelho lhe emprestaram o perfil digno que necessitava. Talvez pensasse que com um meliante como Isaltino a comandar a banda não precisava muito de limar a imagem. Enganou-se. Oeiras nutre uma paixão inexplicável por Isaltino.

Os dois candidatos de esquerda nunca tiveram hipóteses, muito embora Oeiras se apresente consistentemente como o alfobre dos bés, porventura preenchido por uma juventude trendy que gosta de varandas com vista para o mar. Mas o BE apresentou exactamente o oposto do que poderia ser apelativo para essa coorte. Miguel Pinto tem o entusiasmo de uma carroça em exposição no museu de etnografia de Lisboa. Contrariamente, a CDU apostou na costela vegetariano-ecológica dessa juventude levando a Verde Luísa Apolónia à liça. Esta, por acaso, não se sai mal, tendo em conta que Oeiras poderia ser o Concelho do BE. Ou seja, fica tudo na mesma, com o BE sem meter vereador e o PCP com o seu tradicional único soldado nas fileiras.

E o mais fantástico dos candidatos desta eleição é sem dúvida o do PSD – Ângelo Pereira o candidato que preferiu manter o anonimato fotográfico. O que se passou com Ângelo Pereira devia ser digno de estudo, de  teses em psicologia ou politologia regressiva. A primeira coisa que há a notar é que Ângelo tem o cuidado de nos avisar nos seus cartazes que é goês. Só por si já é estranho num país que tem por primeiro-ministro um goês. O candidato prefere explicar que se tratou de uma manobra dramática de marketing. Como nunca tal foi visto, pergunto-me quem foi o dramaturgo que aconselhou. As pessoas ficaram a falar (a pensar) para o boneco, e Ângelo Correia não ficou mais bem quisto por ter um boneco castanho. O pormenor da cor do boneco é por si só um momento semiológico digno da maior atenção. Fica a sensação que Ângelo estava francamente preocupado com a sua imagem e com o que ela poderia suscitar nos oeirenses. Pode descansar porque os oeirenses preferem escolher bandidos.

E chegamos a Vistas. O ar de taberneiro que exibe não lhe confere grande porte. Os cartazes fazem lembrar mais um anúncio ao Zé dos Leitões do que uma campanha política. Mas eu considero que o seu mandato não foi terrível. E entre Vistas e Isaltino, caramba! O problema é que Vistas não podia ser uma figura mais apagada, em flagrante contraste com o espalhafato isaltinense: o charuto que segura a cabeça à boa maneira do caudilho latino-americano.

Porém, o verdadeiro âmago da questão é que Isaltino, Vistas e Pereira, são a santíssima trindade, e como tal são as três pessoas numa só. Vistas e Pereira são criações isaltinescas, criadas frankansteiniescamente nos corredores do palácio do marquês, a apanhar as beatas que o caudilho ia deixando cair. Vistas quis matar o pai; e claro que necessitava de o fazer para sobreviver, como se veio a provar. O pai ressuscitou e perante a incredulidade do filho, a este só resta berrar “pai porque me abandonaste?”. Porém, não tenhamos dúvidas: as três candidaturas são, como dizia a minha avó, farinha do mesmo saco. Todos comeram da mesma gamela. E o que temos é à boa maneira da fragmentação do sujeito pós-moderno, uma polivocalidade que sai de um só lugar. Assim como Moreira no Porto é CDS, com a ideologia do CDS e o modus operandi de um CDS (e tal coisa existe? Claro que sim!) também os três moscãoteiros de Oeiras são psds, caldeados na linha de montagem da jota, instruídos pelos seus tropos e ideais, e promotores dessa linha programática no poder local. Há diferenças? Certamente que sim: por exemplo apenas um foi bater com os costados à prisão. Vistas tem maiores preocupações com os animais, enquanto Isaltino está-se borrifando para a bicharada. E Ângelo ainda quer enriquecer com uma qualquer negociata que catapulte Oeiras para os pináculos do turismo mundial, enquanto Isaltino tem suficiente património imobiliário que lhe permitiria abrir um airbnb só seu. But make no mistake, a merda é a mesma.

Conclusão. Afigura-se muito preocupante que um Concelho como Oeiras apenas possa recorrer a tão degradado e deprimente leque de candidatos. Desde logo, tenho alguma dificuldade em compreender o fascínio com Isaltino. Mas há um dado novo na sua candidatura: é que este não tem nada a perder. Já passou pela prisão; já viu a sua imagem pública ser destruída, já foi escorraçado pelos seus correlegionários do PSD… ou seja, being there, done that. O que significa que é provável que entre a matar em Oeiras. Que queira mostrar muita obra, muito depressa. E quando assim é, coitado do Concelho que se lhe submete.

Blowing in the wind…

Setembro 27, 2017

(manifestação do Pegida em Dresden, 2015)

O texto de Ricardo Costa sobre os resultados eleitorais da AfD, o partido de extrema-direita que entrou no parlamento alemão nas últimas eleições, é um compêndio do disparate e da desinformação. Para mais porque possui um tom de texto encomendado, de informação soprada ao ouvido, de intenção velada encomendada. E eu até gosto do que escreve Ricardo Costa, escorreito e sem grandes moralismos atenazadores. Mas desta vez pouco se aproveita da sua análise.

Lemos esta frase “O crescimento da AfD e de uma xenofobia que quase tinha desaparecido da Alemanha (…)” e não podemos deixar de ficar apreensivos. Saberá o plumitivo do que está a falar? Terá lido alguma coisa ultimamente sobre xenofobia na Alemanha? Com que bases faz uma afirmação tão taxativa quanto esta? Pois com poucas ou nenhumas.

A AfD é o culminar de uma tendência emergente desde há anos que tem o seu apogeu recente no Pegida. O Pegida é um movimento espalhado por 27 países que claudica em relação a tornar-se partido porque o seu líder Lutz Bachman não pretende uma formalização do seu rebanho. Todavia, com a obtenção de 13% dos votos por parte da AfD nestas últimas eleições, a possibilidade de fazer alianças com o Pegida torna-se bem mais interessante. Não por acaso Frauke Petri, a muito inteligente co-líder da AfD, saíu do partido depois da vitória. Bachman e Petri desentenderam-se por causa da circumcisão. Não do próprio Bachman, mas dos jovens em geral. Era óbvio que Bachman pretendia atingir os judeus, e Petri sendo uma nacionalista conservadora não quis mergulhar nas turvas águas do anti-semitismo.

A saída de Petri da AfD logo a seguir a tão surpreendente resultado eleitoral só tem uma leitura: os seus correligionários querem ensaiar uma aliança com o Pegida de Bachman. E para tal, Petri tinha que sair de cena.

Por isso, ao contrário do que diz Costa, a xenofobia não tinha (quase!) desaparecido da Alemanha. Organizava-se, recolhia apoios, tornava-se movimento, e ganha agora força parlamentar. Os desenvolvimentos são preocupantes porque seguem o ocorrido em França. Bachman é um labrego que passa a vida a afirmar que fala “como e para o povo trabalhador”. Já ouvimos esta ladainha a Trump, também ele um labrego. A breitbart dá algum relevo a Bachman e não esconde a sua simpatia por uma frente de extrema-direita formada pela AfD e o Pegida. O mesmo é dizer que têm o aval de Trump e do seu ideólogo Steve Banon. Perceber que isto é uma onda que está bem para lá da questão dos refugiados é importante, se não necessário. Bem antes da Alemanha aceitar mais de um milhão de refugiados da crise Síria, já o Pegida passeava com as suas cruzes iluminadas pelas maiores cidades alemãs (a iluminação das cruzes é um erzats para o fogo com que os cavaleiros da kkk adornavam as suas cruzes).

Aliás este conservadorismo cristão nacionalista tem ramificações cada vez mais sólidas no Leste Europeu. Com a Polónia, a República Checa e a Hungria de Orban a sustentá-lo. Curiosamente, a reacção da própria igreja – católica e luterana – a estes movimentos tem sido no mínimo ambígua. Nem se ouvem grandes condenações, nem tão-pouco explicitam a sua posição em relação aos mesmos. E no entanto é um movimento que se estende dos Estados Unidos à Ucrânia, e que parece ecoar a ideia de irmandade branca advogada pela alt-right.

Ora nenhuma destas tendências teve origem na crise dos refugiados. Esta apenas serviu como subterfúgio para o seu reforço. O programa da AfD era fundamentalmente anti-europeísta; com o tempo ampliou a sua retórica para um discurso ferozmente anti-imigração e islamismo. Mas não tenhamos dúvidas de que esta mudança ocorreu bem antes de sequer se prenunciar a chamada crise dos refugiados!

É preciso perceber que a extrema-direita se encontra viva na Europa e nos Estados Unidos (e na Rússia, obviamente).  Que as razões por que tal acontece têm sido sistematicamente mal apreciadas. Trump por causa dos perdedores da globalização; a AfD por causa dos refugiados; Le Pen por causa do operariado no desemprego – são algumas das razões mais invocadas. Nenhuma delas me parece fazer justiça ao fenómeno. E este tem vindo a adquirir um efeito de vaga de fundo que apesar da sua feroz ideologia nacionalista cada vez mais se organiza internacionalmente.

Pode a palavra mais…

Setembro 20, 2017

 

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Há quem diga que ele é um louco. Outros acusam-no de ser um ditador sem escrúpulos e cruel. Outros ainda comparam-no a Kim Jong-Un. E no entanto, sentei-me a ouvir um discurso de Maduro na Constituinte e pensei: aí está um tipo que ainda fala de política. Sendo certo que, na boa tradição de Castro, o presidente da Venezuela não discursa nunca menos do que três horas (o recorde pertence intocado a Castro, com 8 horas de discurso), a hora que eu consegui suportar não mostrou nem um louco, nem um ditador cruel e vicioso, nem um excêntrico alucinado. O discurso foi servido com registo de cátedra; na realidade parecia uma lição numa aula magna de uma universidade em qualquer parte do mundo. Um discurso com carácter quase académico, pela estrutura dos argumentos e necessidade de passar uma mensagem. Nele, citou Gramsci, e Castro, e políticos venezuelanos que desconheço, mas que pelo suspense que criavam na audiência serão com certeza personalidades de renome.

Quantas vezes vimos citar Gramsci nos nossos políticos? É certo que durante quase todo o tempo mostrou um livro que ele próprio, Maduro, tinha escrito; e fazia-lhe tantas vezes referência como se algo de profético tivesse sido vertido naquelas páginas. O culto da personalidade no seu melhor estilo. E no entanto, o discurso prendia. E agarrava  a audiência. Não porque esta fosse fundamentalmente composta pelos seus correligionários – o que era verdade – mas porque o discurso era interessante, tinha corpo, interpelava.

Discursar uma hora (o que eu assisti) não é fácil. Torná-lo interessante é ainda mais difícil. Sem papel, sem videotexto, sem dispositivos: em improviso (estudado, planeado, quem sabe?) e capacidade retórica. O que interessa no discurso de Maduro não é tanto o seu conteúdo, criticável de diversos pontos de vista. É a sua virtude enquanto arte do discurso. Recorda os discursos parlamentares dos grandes oradores, no início dos parlamentos, onde as Câmaras baixa e alta eram lugares de oratória e necessidade estética.

Compare-se com a pobreza de tantos líderes mundiais e teremos um retrato aproximado da miséria da política actual. Compare-se com a boçalidade de Trump, com a magreza dos seus recursos linguísticos, com a enorme ignorância que o assiste, e teremos uma medida dos tempos actuais. Compare-se ainda com Temer, aquele vazio pomposo e estudado, um ignorante emproado, cuja oratória parece um relatório do conselho de economia. E não se deixe de parte Merkel ou Theresa May, ambas absolutamente desinteressantes e mecânicas.

Ouvia Maduro e pensava na idiotice do parlamento britânico, com os seus tiques ancestrais de um país onde a gentry respira um ar bafiento, com os seus urros medievais, intercalados por discursos asininos e demagógicos. Ouvia Maduro e pensava: concordasse-se ou não, a sua palavra oferecia elementos para reflectir. O oposto dos discursos políticos dos acima referidos, repletos de sound bites vazios que apenas servem para fazer caixas de imprensa. Curiosamente, no país onde impera uma ditadura (diz-se), como a de Maduro, é onde o discursante corre mais riscos com as suas palavras, porque estão carregadas de simbolismo, de emotividade, e mesmo de ideias erradas. Para além disso, o discurso possuía o condão de explicitar o papel do Estado, algo que a maioria dos discursos políticos actuais tende a ofuscar. É claro que a ideia de Estado se encontra presente, a ideia de Estado de direito, de soberania, nas múltiplas invocações respeitosas da lei e da constituição. Mas o real papel do Estado enquanto actor político está, na maioria das vezes, encoberto por um véu retórico que não lhe mostra as verdadeiras garras. Contrariamente, foi com uma candura quase patética que Maduro confessou que a economia venezuelana se sustenta no petróleo e que quando o preço deste cai a pique é toda a economia que se ressente. Construiu depois um arremedo de teoria da conspiração contra os países que segundo ele têm segurado artificialmente o preço do petróleo. Assim se mostra sem pejo a real dimensão do Estado e o que é o seu programa. Claro que a queda dos preços do petróleo prejudica a Venezuela, mas  beneficia quase todos os outros que não produzem petróleo. Estanca, por exemplo, os níveis de inflação. Porém, para Maduro isso era secundário. O Estado e as suas orientações ficaram assim à vista de todos.

 

Há formas de camuflar o Estado. Veja-se por exemplo a missa rezada em directo do gabinete oval. As teocracias sempre foram as configurações políticas mais eficazes a dissimular  a acção do Estado. Nas teocracias o Estado funde-se com a transcendência o que o torna uma entidade intemporal e imaterial. A afirmação de graças dada a Trump por ter trazido deus para dentro da casa branca proferida em directo nas televisões mostra como a teocracia remete sempre para um inefável que esconde a brutalidade do humano. As declarações de Trump na ONU possuem um cunho evidente de religioso. Na casa da concórdia universal, Trump mostra que veio para trazer a espada e não a paz. Mais concretamente, se tivermos em conta a frase do evangelho de Mateus, o que diz é “não penseis que vim trazer a paz à terra”, e Trump não quer que restem dúvidas sobre esse propósito ao afirmar que destruirá a Coreia do Norte se for necessário. A atitude de Trump na ONU é de desafio messiânico.

No mesmo mundo convivem Trump e Maduro. Nesse mesmo mundo, Trump, um ogre asqueroso, que lidera o país mais desenvolvido do mundo económica e militarmente, mal sabe falar; enquanto Maduro, o ditador acossado pelas organizações internacionais, dá uma aula de oratória.