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Os bárbaros no interior das muralhas

Março 16, 2017

(imagem retirada do The Economist)

E a Europa lá respirou de alívio uma vez mais. Primeiro foi o imenso susto pregado pela Áustria. Esse lá passou sem maiores estragos. Agora a tremideira política causado pela Holanda e a ascensão de Geert Wilders. Podemos ficar contentes porque os liberais conservadores se aguentaram no poder. Mas Wilders tem um aumento notável – salta de 9 para 19 lugares no Parlamento – e ganha Roterdão por uma margem confortável, a segunda maior cidade holandesa, consolidando o reinado do PVV que detinha desde 2010. Por conseguinte não há motivo para respirar de alívio. Trata-se de uma tendência inexorável que mais cedo trará os seus azedos resultados.

Ainda ontem um renomado sociólogo português repetia na televisão a tese do esboroamento do centro ser decorrente do seu apoio às políticas de austeridade. A tese é falsa como por diversas vezes mostrei neste blog. Mas a contumácia com que a esquerda recita este mantra é exasperante. A revolução patriótica, como lhe chamou Wilders, parece ser um motivo mais consequente do que o imaginário da esquerda de gente vergada pela austeridade em voto de protesto. Até porque, como por aqui também já assinalei, não são os prejudicados pela austeridade que estão a votar massivamente na extrema-direita. É uma média e pequena burguesia, sobretudo rural ou de agregados urbanos menores, contra uma população cosmopolita habitante das “capitais” que resiste estoicamente a esta maré. Assim Amesterdão contra Roterdão na Holanda, ou Viena contra Graz na Áustria. Até ao momento afiguram-se ser as “capitais” a segurar as pontas deste frágil equilíbrio.

Todavia, parecemos condenados a vaticinar o fim dos tempos cada vez que há eleições na Europa civilizada. E digo civilizada, porque o lado leste há muito que foi perdido para os bárbaros. De tal forma que o desassossego provocado pelas radicais incursões da extrema-direita no jogo parlamentar rotineiro não tem equivalente quando se trata da extrema-direita que se encontra no poder e que domina o jogo. Esse é para todos os efeitos o caso da Hungria, da Polónia e numa certa medida da República Checa. Que a extrema-direita tenha acampado nas instituições nesses países apoderando-se da governança mostra bem como as hipóteses mais terríficas que possam ser fabricadas para este lado da Europa podem de facto realizar-se. Wilders ficou em segundo lugar na Holanda e por mais que os outros meninos não queiram brincar com ele, não vão poder ignorar um partido que arrecadou 19 lugares parlamentares. Quando o grande vencedor conseguiu 32 desses lugares percebemos que a extrema-direita já se encontra no poder e que não há qualquer motivo para respirarmos de alívio.

Pós-verdade

Março 8, 2017

PictureNick Dong, Retirado de ICA San Jose Institute of Contemporary Art

Não tenho a certeza donde surgiu a expressão pós-verdade, mas o que parece plausível concluir é que ela implica um determinado grau de transparência anterior. Esta pressuposta transparência é em si mesmo um efeito da dita pós-verdade na medida em que ela é falsa. Um regime pós qualquer coisa – tal como pós-modernidade – estabelece uma relação de superação com o substantivo. A superação da modernidade contida na ideia de pós-modernidade, do comunismo na noção de pós-comunismo, e assim sucessivamente. Pós-verdade assume a superação de uma época em que a verdade fosse o seu elemento estruturante. Essa época nunca aconteceu. Por isso de onde retira a sua autoridade a expressão pós-verdade?

A pós-verdade começou com o advento da publicidade. Melhor, intensificou-se, visto que sempre houve formações ideológicas devedoras dessa mesma lógica. Mas a publicidade é o ápice da pós-verdade. A publicidade transforma o exercício da verdade e do contraditório numa mascarada. Nada na publicidade é verdade, e no entanto tudo deve ser assumido como sendo. Se alguma coisa, a linguagem política foi aprofundando a mesma mecânica da publicidade. Foi-lhe copiando os meios e os tiques. E assim se chega a Trump, por exemplo. Mas este não é o advento da pós-verdade, nem sequer a sua expressão mais acabada. É apenas uma das suas instâncias mais perigosas.

Agora bem, vivemos imersos na linguagem publicitária. De tal forma que dificilmente distinguimos o que é afectividade gerada pela publicidade do que é afectividade real, ou seja, afectividade que não seja mediada por imagens carregadas de estímulos hedonistas. A forma como nos ligamos aos objectos não pode mais ser pensada sem a constante presença da publicidade, e os quadros cognitivos que a formatam têm vindo gradualmente a ser aplicados nas pessoas.  Viveríamos, por conseguinte, imersos em pós-verdade, caso tivéssemos alguns vez vivido imersos em verdade. Dos tempos do cristianismo onde o Verbo era a verdade, passou-se rapidamente para a imposição do verbo como verdade. E nesse sentido a nossa relação com a verdade sempre foi traumática, ou seja, revivida entre o desejo e o pesadelo.

Em suma, a expressão pós-verdade é inconsequente. Não apenas a verdade nunca surgiu na sua inteireza como sempre teve sujeita a regimes determinados (pace Foucault). Coisas como a identidade entre objectividade e neutralidade, cara à ciência moderna, são já elas próprias emanações da pós-verdade, porque pressupõem a impossibilidade da descoincidência entre protocolos e objectos – a subjectivação dos argumentos e conclusões.

Na realidade, a actual retórica da pós-verdade tem por implicação a perniciosa noção de que há uma forma objectiva de a ela chegar. É precisamente neste sentido que ela é um exercício retórico, assente na capacidade de nos persuadirem que a comunicação pode ser um meio sem filtros, de objectividade inatacável, basta para isso seguir os protocolos comportamentais adequados. Portanto, é uma defesa da classe jornalística, de comunicadores, que na senda da sua própria unção pretendem convencer-nos que através dela a verdade é-nos devolvida pura, cristalina, inatacável. Os defeitos passam a ser extraídos de uma avaliação, de uma qualificação, do trabalho de comunicação: o mau trabalho distorce a verdade. Como se esta estivesse ali, pronta a ser contemplada, na medida necessária do bom uso dos instrumentos que a captam. Termo conveniente, a pós-verdade. Conveniente porque abafa a terrível constatação de que a verdade é construída. E nunca é demais gritá-lo: se a mentira é assumidamente construída, sublinhe-se que a verdade também o é!

It was always never ment to be

Fevereiro 27, 2017

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Os dois filmes que foram campeões dos óscares podem declinar-se da seguinte maneira: it was never ment to be/it was always ment to be. O primeiro corresponde a La La Land; o segundo a Moonlight. Duas histórias de amor, ambas com um rasto de melodramatismo de outros tempos; ambas com referências a um outro cinema, um cinema com traços clássicos que dificilmente já se encontra na central de produção de Hollywood. La La Land é a história de um desencontro amoroso, um enredo que estava fadado a acabar mal – um descaso que dificilmente resultaria. Ou melhor, que tinha tudo para acontecer, e fosse há cinquenta anos atrás, com certeza que aconteceria, mas que numa certa visão oblíqua faz lembrar o Some come running de Minnelli: um par que não era ment to be, e acaba por nunca vir a ser. Talvez o mais interessante do filme seja o seu namoro com um cinema clássico norte-americano, injectando-o sempre de formas novas e actuais, tal como a cena no planetário reencenando o par James Dean e Natalie Wood, mas desta feita com cores de Fred Astaire e Ginger Rogers. E convenhamos, Gosling e Stone não são grande bailarinos, bem longe dos pares clássicos dos musicais, como Astaire ou Kelly, e no entanto essa versão meio tosca dos passos de dança dos dois protagonistas cai bem na era dos facebooks, da vida tal como ela é, da naturalidade do corpo e da exposição.

São, num certo sentido, dois filmes puros. Moonlight, o grande vencedor da noite, é um exercício de contenção estilística. Poder-se-ia imaginar tantas maneiras de modificar o filme, estragando-o, que o mérito do realizador está praticamente na depuração do seu estilo cinemático. Desde a contenção na violência, passando pelo apenas sugerido do sexo, qualquer outro filme sobre negros e bairros degradados norte-americanos resvalaria facilmente para os clichés e obrigatoriedades que a necessidade pictográfica deste tipo de filmes costuma exigir. Em nenhum destes exageros cai Barry Jenkins. Por isso o filme é extremamente humano, apetece dizer. E se bem que se possam elevar as vozes do inconformismo estético ou do pós-modernismo estilístico contra a própria ideia de filme humano – com arrepios na espinha e esgares de horror e rejeição – não deixa por isso de o ser justificadamente e sem pedir perdão: muitíssimo humano. E é também nesse sentido que ele recupera os grandes planos, lentos e evocativos de um cinema mais demorado, onde as cenas não se sucediam com a vertigem da espectacularidade. Há também, para ser justo, uma certa contenção em La La Land. Da mesma forma poderíamos imaginar mil maneiras de infundir uma espectacularidade desenfreada no filme. Mas ele recusa-a. Também porque o seu fulcro é uma história de amor, onde os dois protagonistas se tornam o mais importante, e onde são eles que ocupam o ecran. Não tem nenhuma cena que fique na retina, nenhuma cena que se torne um clássico. Porque não pretende ter. Filmes sobre pessoas para pessoas – perdoe-se a frase feita -, mas há algo de um novo humanismo que espreita neste cinema.

E bem, it was never ment to be/ it was always ment to be, duas versões da vida e das relações humanas, ambas tingidas com a inevitabilidade das coisas certas. Em Moonlight o amor vence, em La La Land o amor perde. Quase que apetece dizer com Stendhal: o amor é o milagre da civilização.

Marcelo – o improvável coveiro da direita

Fevereiro 15, 2017

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Uma das coisas mais fascinantes da política nacional actual é observar como o Presidente da Repúblico Marcelo Rebelo de Sousa baralhou o equilíbrio tradicional de forças que dava conteúdo a expressões popularuchas tais como “não pôr os ovos todos no mesmo cesto” e quejandas. Se por distribuir ovos por cestos diferentes entendíamos pôr um dos lados do espectro político no governo deixando sempre o presidente como contrapeso das larguezas a que o executivo se poderia dar – forma irracional de gerir a res publica e cinicamente modelar do poder do povo – Marcelo veio baralhar as contas. Posto que Marcelo, um presidente eleito maioritariamente pela direita, se transformou no presidente deste governo. Muitas foram as apostas, como nas corridas de cavalos, que colocavam avultadas quantias na eleição de um presidente da direita para fazer empenar a geringonça. Mas, para surpresa de todos, não somente não a faz empenar, como lhe tem dado o alento necessário em períodos de avaria iminente. Marcelo tem sido justo, em minha opinião. Mas para além disso inaugura uma forma de política directamente personalizável que não apenas assenta na sua capacidade muito particular de gerar afectos com os seus constituintes, como em laços directos de preferência amical com o membro máximo do governo. E isto tem resultado.

O problema é que terreno deixa à direita para gerir a sua estratégia? Neste momento, a direita deixou de ter candidato presidencial. Qualquer um que apresente contra Marcelo perde certamente. Porém, a estratégia de terra queimada que tanto PSD como CDS têm vindo a colocar em prática não permite endossar a enfatuation de Marcelo pela geringonça. É um dilema tramado. E nele reside o desespero suicida em que a direita se alavancou para mostrar a sua presença na sociedade portuguesa. As sondagens mostram que quanto mais Passos espalha os seus maus fígados por aí, menos aceitação tem. Por exemplo, as pessoas não percebem com que outra intenção, para além da de instrumentalizar o poder a seu favor, persegue a direita um ministro das finanças que atingiu o menor défice de sempre em democracia e deu juros negativos nos empréstimos estatais. Querer derrubar um ministro assim, é o mesmo que querer derrubar o papa actual só porque ele coçou os testículos na missa. Mesmo que a direita quisesse recorrer para o presidente, este estaria indisposto. Alguém duvida que se lá tivesse Cavaco outro galo cantaria?

O que torna a direita de Passos – sobretudo esta – antagonista de Marcelo. Isso é uma posição insustentável para o PSD pelas próprias leis de disseminação do carisma. Como ficar contra o representante mais amado da república portuguesa sem concitar a raiva dos seus seguidores? E como tentar partilhar parte do carisma que este vai aspergindo por aí sem ceder a dar apoio a Costa e à sua geringonça? É cruel para uma direita que governou com um seu cacique durante quatro anos perder agora a sua vantagem com alguém saído do seu seio. É cruel e é um jogo que esta direita não estava habituada a jogar. Por isso passou a jogar sujo. Não há no actual panorama político nenhum acto da direita portuguesa que não esteja encharcado de rancor e revanchismo. Tornaram-se um bando de rancorosos sem ideias nem soluções – um bando de ressentidos. Cuidado, no entanto, porque Marcelo, que é justo, afastar-se-á tanto mais quanto vir que da sua direita só ressentimento é oferecido. E tanto mais ficará esta sem presidente nem possibilidade de fazer novamente o pleno.

Vergonha

Fevereiro 1, 2017

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Terá um historiador maior obrigação ética de ser fiel aos factos? É longa a discussão de natureza epistemológica que questiona a realidade dos factos – haverá factos, ou serão construções? Haverá alguma objectividade no trabalho do historiador que não seja imediatamente contaminada pela sua relação – subjectiva – com os pressupostos factos? E qual a influência do exercício de selecção que qualquer história obriga a fazer? Mesmo aquela que é relatada nas circunstâncias mais quotidianas; ou seja, o contar de histórias, ou de estórias, sem a pulsão para a a atenção correctiva ou para a vigilância linguística dentro das imposições, mais ou menos rígidas, do discurso científico? Mesmo essas são resultados de selecções. Mas este texto não é sobre questões epistemológicas que, mal ou bem, têm atormentado historiadores e afins ao longo dos tempos.

É sobre um historiador em particular e sobre a sua duvidosa ética de historiador. Rui Ramos, num acesso de má-fé pouco admissível num historiador com o seu reconhecimento, ensaiou comparar a actuação de Trump a Tsipras e mais largamente ao Syriza. Postulava na sua crónica semanal que ambos seriam exemplos de populismo e que ambos foram (ou seriam, no caso de Trump) vergados pelo ambiente institucional e a colecção de direitos e grupos de pressão que envolvem o exercício da governação. Esta comparação a todos os títulos cínica e despudorada encobre duas coisas.

Primeiro, a direita mais conservadora adquiriu um hábito recente de taxar Trump de populista. Note-se a cautela em assentar certas premissas num descomprometimento que evite uma identificação demasiado directa com “aquilo”. A dificuldade em nomear objectivamente o fascismo ou acto ditatorial decorre de um desconforto identificatório. Afinal “aquilo” é o que muitos destes opinadores e teóricos sustentam em segredo, mas que no actual estado das coisas éticas têm dificuldade em assumir publicamente. Rui Ramos necessita da comparação disparatada com Tsipras não para nos esclarecer, mas para esclarecer a sua posição: um comprometimento que tem que aparecer como descomprometido. O raciocínio instala-se numa casuística escorreita e tem um pendor maniqueísta que cai mal a um historiador. A casuística? Formula-se assim: se eu mostrar que ambos os extremos do espectro político partilham de convicções e actos semelhantes – sobretudo em substância – então a minha identificação com um dos extremos fica resguardada da crítica. A direita conservadora donde Rui Ramos é proveniente não quer admitir abertamente que entre Trump e Hillary (e já agora Obama) escolheriam Trump. É facto que os tiques abrutalhados de pato bravo de Trump colocam a elite bem-pensante, mesmo de direita, a uma certa distância. Mas o espírito é comungado, na medida em que certas reservas sobre a “cultura da esquerda” ainda assim predominam.

Segundo aspecto, Tsipras pode ser muita coisa, mas não retirou liberdades e garantias a ninguém, nem fez selecções perversas com base em categorias sociais determinadas. Os atributos e acções ditatoriais de Trump não têm comparação nas técnicas de arregimentação do Syriza. Para mais tendo em conta que este, pela voz de Tsipras ousou afrontar os poderosos – a europa e as suas instituições – enquanto Trump, como todos os ditadores, serve os poderosos contra os mais fracos. Os populismos não se equivalem para além de qualquer substância: essa é uma armadilha da intelectualidade de direita. Assim como o populismo de Obama não se encontra sequer no mesmo registo ético do de Trump. Porque se poderia dizer que Obama soube gerir eficazmente formas novas de populismo, naquilo que poderíamos designar como um populismo de esquerda. Se se quiserem critérios de destrinça no que ao primeiro assiste como um populismo agregador, integrador, redistributivo de bens económicos e simbólicos, persiste no segundo como um populismo culpabilizador, fracturante, violento e desagregador. Por aqui nos poderia igualmente servir a comparação entre Tsipras e Trump.

Terceiro aspecto, há uma convicção que dir-se-ia ingénua no poder do sistema de checks and balances dos USA. Esta convicção não é nunca cotejada com a história, e os exemplos contrários à sua eficácia abundam. Na realidade, o panorama político actual norte-americano é efectivamente expressão da possibilidade de sabotagem desse mesmo sistema; sobretudo quando aqueles a quem incumbe por ele zelarem – congresso, senado e presidência – estão apostados em o imobilizar, ou melhor, manipular. A força da sociedade civil foi frequentes vezes esmagada sob o poder dos estados autoritários – é a história da América Latina. Achar que os USA possuem uma espécie de excepcionalismo nesta matéria é boa conversa para consumo interno – para alimentar fascínios avulsos com o que significa ser americano – mas colide contra avaliações serenas dos acontecimentos. O tão elogiado sistema de checks and balances foi o que viu nascer no seu seio uma comissão de actividades anti-americanas, o patriot act, a defesa da tortura (agora de regresso), a congeminação de uma guerra (entre outras) à revelia desses mesmos poderes de checks and balances.

Vale a pena regressar ao Plot against America de Philip Roth. Através do contrafactual Roth mostra como poderíamos ter tido uma América diferente apenas e só graças a um resultado eleitoral: se Lindbergh, o conservador republicano com simpatias nazis tivesse ganho as eleições a Roosevelt. Os paralelos não são desprovidos de sentido. Também temos um conservador republicano com simpatias czaristas por Putin. E não me parece que o despedimento imediato da procuradora geral norte-americana apenas porque esta levantou dúvidas sobre as proibições das nacionalidades imigrantes que Trump decretou evidencie muita boa saúde do sistema de checks and balances.

Em suma, Rui Ramos faria bem em não manipular os acontecimentos históricos e não enveredar por comparações absurdas e implausíveis entre Trump e Tsipras. Não o mostra a uma boa luz. Qualquer dia temos Rui Ramos a justificar Marine Le Pen com o populismo de Lula da Silva.

O que aí vem

Janeiro 26, 2017

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Em entrevista à SICNotícias, Miguel Monjardim, o comentador de relações internacionais da estação, repetia a estafada versão segundo a qual os democratas não perceberam a razão da vitória de Trump, e que essa incompreensão traria certamente dificuldades para o programa político democrático. É mais do mesmo: a crítica do elitismo democrático e etc… A pergunta que lhe fizeram fora: – Que tipo de presidente será Trump? Pese embora a futurologia implicada no arriscar de uma resposta, a questão é objectiva e não admite diatribes inconsequentes.

Que tipo de presidente será Trump? Considero que já existem dados suficientes para responder com alguma assertividade à questão. Podemos começar por examinar que tipo de homem é Trump. É, para começar, um ignorante. Aqui não se encontra implicado nenhum elitismo, na medida em que um presidente tem que ser um conhecedor de coisas, digamos assim para não especificar um saber técnico ou humanista. Trump não tem nenhum. Os seus discursos são pateticamente infantis, e nisso aproxima-se das pop stars mais inconsequentes e ignorantes. É preciso temer o pior, porque o pior vem aí. Nigel Farage exulta com a subida de Trump ao poder chegando mesmo a usar a palavra revolução. Bem pode António Louçã escalpelizar as diferenças entre o tempo histórico de Hitler e a América de Trump – talvez para nos tranquilizar, talvez para enunciar a afinação do olhar de historiador – não é isso que torna Trump menos fascista. À pergunta, será Trump um novo Hitler?, devemos responder que ela não é a correcta. Trump é um fascista dos tempos de alta aceleração comunicacional. Ao invés de grandes manifestações de massas, arregimenta ideologicamente as suas hostes através do twitter, da televisão e das redes sociais. Em vez de longos e inflamados discursos, despeja o seu ódio em interjeições e curtas formulações. Em vez de organizações de massas – como os grandes partidos fascistas – Trump move-se nas autocracias internacionais do dinheiro.

As medidas que já promulgou fazem prever o pior para o que ainda aí vem. Tortura, indústrias poluidoras, corte unilateral com convénios internacionais, apoio incondicional a Israel e ao seu papel de potência hegemónica (militar) no médio-oriente, alienação e até hostilização da Europa, muros com o México, medidas radicais anti-imigração… Toda uma agenda que diversos presidentes republicanos norte-americanos gostariam de ter assumido, mas que por taticismo ou diplomacia, se foram contendo. Trump é a extrema-direita no poder, perfeitamente legitimada, a entrar-nos pelas janelas adentro. O corte com o TPP (Trans Pacific Partnership), dizem alguns iluminados – como o comentador de política internacional da antena 1 – é paradoxal, na medida em que este estava feito para retirar poder económico à China. Não há nada de paradoxal. O que Trump pretende é desbloquear as regras do emprego e contratação para níveis idênticos aos da China, algo a que o TPP colocava alguns freios. A administração Trump pretende a desregulação total do mercado laboral, à maneira da China, para com esta poder competir no dumping social e económico que é a sua prática: inexistência de sindicatos, total desprotecção laboral dos trabalhadores, salários de miséria. Bem pode Bernie Sanders congratular-se com a exigência de Trump “fabricar” mais empregos – a que custo serão estes fabricados?

O atropelo directo e sem vergonha dos direitos humanos evidenciado pelo endossar da tortura e pela rejeição do acolhimento de refugiados é apenas o princípio. Seguir-se-ão cortes severos no que resta do Estado-providência, nos apoios sociais aos mais desmunidos, numa política sem qualquer tipo de misericórdia perante a exclusão e dificuldades de inserção social de certos grupos. O cristianismo de Trump é de tal forma contaminado pelo seu neoliberalismo sem concessões que nem sequer a réstia de humanidade subjacente às práticas caritativas da extrema-direita conservadora subsiste.

Há pelo menos um paralelo com Hitler que pode ser traçado sem nos enredarmos em diferenças conjunturais históricas. O discurso da catástrofe, do inimigo within, de uma América esventrada por gangues e crime, da associação sistemática desse estado a grupos específicos, tais como imigrantes e muçulmanos, possui parecenças reconhecíveis.

Pode não ser Hitler, mas há que perceber porque recebe tanto apoio dos grupos neo-nazis deste e do outro lado do Atlântico.

A bicicleta sem rodas

Janeiro 19, 2017

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Estaremos à beira de confirmar o título de um precioso ensaio de Tony Judt – Europa: A Grande Ilusão? O problema dos nacionalismos é algo de estrutural no espaço europeu e não emergiu devido à crise dos refugiados. As fracturas são antigas. Algumas datam das divisões de Versalhes, que subsistem em tantos arranjos e clivagens institucionais. Outras são mais recentes, e prendem-se com o esmagamento económico ou com políticos populistas que ascenderam entretanto ao poder. O facto é que os construtores da Europa sempre conheceram, e temeram, este equilíbrio precário. Os norte-americanos estão unidos em torno da ideia de democracia e do liberalismo original dos founding fathers (independentemente da sua extensão de cinismo); mas o que une os europeus? A Comissão bem se esforçou por disseminar programas que consolidassem uma qualquer identificação; verdadeiros crash courses em identificação europeia foram experimentados ao longo destes anos, e os resultados estão à vista. Os europeus não falam a uma só voz. E não se trata da autonomia dos estados norte-americanos, que podem discordar e antagonizar-se como frequentemente fazem. Não, os europeus discordam da própria necessidade de pertencerem a uma coisa a que chamam Europa. A Europa é pouco solidária não porque as nações sejam egoístas, mas porque os seus habitantes não aderem à própria ideia de Europa. A extrema-direita está em franco crescimento não porque a Europa não a soube suster, mas porque os seus apoiantes nunca viram nenhum interesse em pertencer a uma coisa designada Europa. Enquanto complexo geográfico e cultural, a identificação é automática – historicamente automática. Enquanto projecto político e social a identificação é flébil.

A Europa construiu-se, para além disso, contra o mundo muçulmano. Houve intercâmbios, claro que sim, e uma relação de absoluta oposição é sempre um entorse da interpretação histórica. Todavia, os grandes impérios a Leste sempre delinearam as suas fronteiras orientais pela linha de separação com os territórios muçulmanos. Se o Leste era um território estranho para os cronistas do século XVII provenientes da Europa ocidental, que nele viam um mundo arquitectónico ortodoxo, não deixava também de ser a fronteira dos Habsburgos e as suas capitais a afirmação desse poder imperial contra o Otomano. Não será de estranhar que as novas fronteiras emerjam precisamente aí. Que os povos se unam com os seus governos num populismo fascizante na securitização das suas fronteiras. As suas identidades foram em tempos construídas contra esse mesmo inimigo.

A Europa não comandará qualquer adesão se for apenas a Europa das elites, feita para elas e para a mobilidade destas. É o que tem sido. Sobretudo o aprofundamento das vias de alta mobilidade e velocidade para as elites europeias para quem todo o projecto parece cada vez mais funcionar. Em países onde outrora o Estado-providência foi vigoroso assiste-se agora ao desmantelar das redes sociais de segurança, à sua substituição por mercados, à estratificação impiedosa do acesso a estes. Quem fica de fora não tem a misericórdia do projecto europeu. Surpreendente então que a extrema-direita cresça viçosa pela maioria dos países da Europa do norte? Uma extrema-direita que se encontra no poder actualmente nos USA e que fará tudo para provocar a implosão do projecto europeu.

Os avisos de Trump sobre os potenciais trânsfugas do espaço europeu constituem uma estratégia de guerrilha comunicacional, mas que terá um grande apelo no eleitorado de extrema-direita deste lado do Atlântico. Ter-se-á Trump encontrado com Marine Le Pen? O mais provável é ter-se de facto encontrado, a coberto do fernezim jornalístico e da opinião pública. Não por acaso surgem estas afirmações sobre Merkel e a Alemanha dos refugiados e os descontentes com a Europa. O timing é demasiado perfeito entre a ida de Le Pen aos USA e as declarações do presidente norte-americano, para ser mera coincidência.

A Europa estará assim sobre dois fogos: um interno, o outro externo. Do lado americano, o make american great é uma estratégia de afronta aos concorrentes dessa américa. O tão propalado isolacionismo de Trump, não é isolacionismo nenhum. Ele escolhe criteriosamente os seus amigos, e estes parecem ser preferencialmente a extrema-direita (onde quer que ela se encontre) e os plutocratas russos. A europa vai ficar entre o urso russo e a águia americana. Pela primeira vez na história corre o risco de ser alienada pelos dois lados.

No meio de tudo isto há um parceiro pouco convencional segundo as perspectivas de há duas décadas: a China. A aproximação da Europa à China tem-se feito por muitos e variados caminhos. Os negócios obviamente ocupam a maior parte deste novo espaço de intercâmbios, mas não o esgotam. Cada vez mais os estudantes chineses procuram as universidades europeias; a classe média-alta chinesa procura as históricas cidades europeias para se refugiar do caos das megaurbes natais, os seus reformados fazem planos para passar os anos da velhice em Lisboa ou Madrid, e as embaixadas estreitam relações entre o todo-poderoso estado chinês e os seus homólogos europeus. Enquanto Trump imprecava a UNO de António Guterres, a China anunciou de imediato cooperação total. Não quer isto dizer que a China é um parceiro imaculado, que funciona como simétrico dos USA. Longe disso – a China também é movida a dinheiro, porventura ainda mais do que os USA. Seja como for, uma mutação fundamental na relação internacional de forças e no lugar nela ocupado pela Europa, encontra-se em curso, como a lenta mas efectiva deslocação de placas tectónicas.

E contudo desenha-se cada vez mais uma Europa conservadora. A vitória de Van der Bellens na Áustria com o profundo suspiro de alívio de metade da Europa, mostra bem como o precipício está ao virar da esquina. E respire-se de alívio com contenção porque 46% dos eleitores austríacos votaram em Hofer, o líder da extrema-direita. A muitos provoca certamente arrepios, para muitos outros é um indicador da possibilidade real de chegar ao poder. Diz-se frequentemente que estes outros não querem a Europa e por isso não precisam do poder Europeu para nada; que se encontram concentrados nas suas nações e que por introversão só com a domesticidade das suas lutas se preocupam. Julgo que estarão enganados.

A extrema-direita quer o poder na Europa, ou seja quer o poder europeu e não apenas governar os respectivos países. O franco paradoxo de uma extrema-direita que se candidata a eleições para o parlamento europeu alicerçando as suas campanhas numa retórica anti-europeísta é mera ilusão. O exemplo dos Estados Unidos dá um novo fôlego à extrema-direita mais organizada em França, na Dinamarca, na Áustria, Alemanha, Holanda, Suécia, sem falar dos países de Leste, onde esta ou se encontra no poder ou faz alianças com os partidos do governo. Suponho que o conjunto destas forças olha para a subida da extrema-direita ao poder nos USA como um arrimo imprescindível para continuarem as suas lutas. Hoje, não parece assim tão rebuscado o panorama de um parlamento europeu maioritariamente de extrema-direita. Efectivamente não será para já; mas esta hipótese parece hoje mais viável do que alguma vez foi desde que se celebrou o tratado de Roma. Os anticorpos que a Europa saída da II Guerra produzia contra os fascismos foram-se delindo, melindrados pela evolução global ou esgotados pela desmoralização dos eleitorados. Não é um cenário assim tão rebuscado. E se ontem parecia impossível nos USA, e hoje a extrema-direita ocupa o poder no dito país fonte e causa da democracia mundial!, porque será assim tão estranho que possa vir a acontecer na Europa?