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Processos sumários

Maio 10, 2018

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Correctíssimo tudo o que diz Daniel Oliveira hoje no Expresso. Temo, contudo, que pregue para os convertidos. Estes processos de judicialização da política são rápidos, muito rápidos, e têm-se revelado profundamente eficazes. Julgo que é a única arma que resta à direita quando a esquerda a vence no campo da economia. Com dimensões diferentes, foi assim no Brasil, e continua a ser assim na Argentina. Casos emblemáticos que estão longe de esgotar a panóplia de contextos nacionais onde tal estratégia se reveste de eficácia. Para que tal aconteça duas coisas se combinam invariavelmente: uma justiça parcial e uma comunicação social que a traduz para a esfera pública de maneira uniforme e reiterada. Aconteceu no Brasil; e contínua ceifando vidas políticas na Argentina. Sendo certo que os contextos não são comparáveis, as estratégias são-no. Em Portugal assistimos desde há anos a uma prática do ministério público cujo critério não se entende e que parece pender mais para as direcções de ventos políticos do que para a aplicação da justiça. De tal ordem que quando Daniel Oliveira pede aquilo que é óbvio relativamente a certos casos, todos nós sabemos que esses casos não vão nunca ser investigados até às últimas consequências, porque nem sequer era suposto serem-no logo de início.

A comunicação social rende-se à esquerda quando vê que há uma toada da opinião pública que sustenta esta. Quando os ventos começam a mudar, e se há alguma razão no horizonte para que a esquerda seja abatida, então a comunicação social explora o facto até às últimas consequências. A Lava Jato e a maneira como se imprimiu na opinião pública brasileira que aquilo era um problema apenas do PT, quando dezenas de políticos das outras formações partidárias se encontravam envolvidos, é um exemplo acabado de como estas estratégias comunicacionais são bem elaboradas. O mesmo para a Argentina. Como é que um governo (do partido Cambiemos) cuja composição é totalmente de empresários, com vários envolvidos no escândalo Panamá Papers, com o presidente Macri à cabeça, e outros tantos com fortunas não declaradas em offshores, pode ter convencido a opinião pública que o governo kirchner era um bando de corruptos e malfeitores? A verdade é que pôde. Mesmo que o ministro da economia que agora se encontra a negociar os termos do programa de ajustamento com o FMI, tivesse sido acusado há poucas semanas atrás de fuga de capitais para offshores.

Os métodos são também assustadoramente idênticos. Tivemos em Portugal a baixeza da divulgação dos interrogatórios a José Sócrates que o jornalismo de qualidade logo aproveitou para expor na praça pública. Mas claro que só foi possível com a conivência do ministério público. Na Argentina as fotografias do registo prisional de Dovidio, um dos ex-ministros mais influentes no governo kirchner, foram exibidas vezes sem conta nas televisões nacionais. Ver Dovídio de fato prisional, com olhar vazio, e completamente derrotado, deve ter constituído um prato forte para muita gente na comunicação social controlada pelo governo Cambiemos. Não espanta por isso que haja muita barata de direita a sair dos seus buracos para se banquetear com o festim da corrupção do partido socialista. Uma energúmena como Manuela Moura Guedes, por exemplo. Mas outros se sucederão. O que importa é que o filão que a direita precisava para alijar a maioria de esquerda parece ter chegado. E não vale a pena dizer, como faz Daniel Oliveira, olhem também para os vossos, porque há muitos e bons (maus) exemplos entre as vossas hostes. Não. Uma vez começada a voragem pelos media não tem mais parança. Novamente o exemplo argentino. Que tremenda coincidência que na semana em que o país inicia as negociações para o programa de ajustamento com o FMI, os juízes finalmente formalizam a acusação a Cristina Kirshner por corrupção! É fantástico como o tempo da justiça se ajusta ao tempo da política.

Creio que em Portugal algo parecido se vai passar. O tempo da justiça tem vindo paulatinamente a reelaborar-se consoante a agenda de ataque político da oposição de direita. Uma vez mais, nada disto é possível sem a colaboração da comunicação social. É ela que escolhe os casos aos quais dar destaque e aqueles que apenas interessa assinalar de passagem. Por exemplo, a corrupção de Miguel Macedo, quase que passa desapercebida na espuma dos dias. Mas construir uma imagem de um partido político completamente minado pela corrupção vai ser o trabalho que a comunicação social vai ter que levar a cabo nos próximos tempos. Que estes processos dificilmente se virem contra a direita, é demonstrativo do quanto a comunicação social, e os seus agentes principais – os jornalistas – são cooptados por essa mesma direita. Apenas os Estados Unidos onde a comunicação social é de facto bipartidarizada oferece um campo de oposição simétrico. Está longe de ser o caso português; à imagem de países como o Brasil e a Argentina, onde a comunicação se encontra nas mãos da elite empresarial e política.

Todavia, em Portugal, falta ainda surgir um justiceiro. Um juiz Moro à Portuguesa. É verdade que o juiz Carlos Alexandre quis assumir esse papel. E durante um tempo perfilou-se como o actor indicado para uma tal urdidura. Juiz psd retinto, vindo das vascas das terras de Mação, território psd por excelência desde tempos imemoriais. As coisas entretanto complicaram-se porque o carisma de Carlos Alexandre deixava muito a desejar; tão-pouco era telegénico como um Moro, e menos ainda impressionava com a sua conduta de monge capuchinho.  Por isso, está para surgir a figura providencial. Quando ela for eleita, a tenaz perfeita pode conduzir o seu trabalho de esmagamento de forma imperturbável.

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Mais doce que cicuta

Maio 7, 2018

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Não há nada pior do que uma gaja ressabiada, seja por desilusão amorosa, por ter sofrido uma infidelidade ou por ter sido trocada. Nestas coisas das relações entre homens e mulheres, continuo a achar que, apesar da tentação uniformizadora das feministas, as separações possuem sentidos e percepções distintas para os dois sexos. Uma mulher que se sinta ludibriada pelo final de uma relação, lança todos os demónios que acumulou em múltiplos desabafos e aquilo que era do foro da intimidade fica de repente exposto ao julgamento público. Nada é poupado ao escrutínio exterior, seja pela partilha de informação delicada com amigas, amigos, familiares ou colegas de trabalho.

Este intróito, que uns dirão um tanto-ou-quanto misógino, vem a propósito do artigo de opinião de Fernanda Câncio sobre Sócrates, que foi seu companheiro, namorado crê-se, e com quem partilhou lar e comensalidade. É um artigo duríssimo. E muito embora o personagem José Sócrates não me inspire qualquer simpatia, julgo que o artigo de Câncio o singulariza de forma injustificada. Não é tanto de forma injusta, porque, como dito anteriormente, a justiça do acto nas mãos de uma mulher ressabiada ganha contornos demasiado vincados. Mas antes de maneira injustificada, no sentido em que sobre ele faz cair o opróbrio mais terrível perante algo que creio é um modus vivendi de muito boa gente.

Numa sondagem recente, aproximadamente 55% dos gestores e ceos das empresas portuguesas assumiam conhecer casos de corrupção. Ora se mais de metade os assumia, ou estamos perante um caso em que seriam todos os outros e não estes os corruptos, ou, o óbvio, muitos destes seriam corruptos. A corrupção, o favorecimento, a mentira, são constantes do mundo empresarial. Por que razão há uma complacência tão gigante com a corrupção na iniciativa privada e um escrutínio tão severo da coisa pública é tema para ruminação.

José Sócrates era obviamente um aldrabão. Mas que diabo – não era um serial killer! Por isso afirmações como as de Câncio sobre a incapacidade de distinguir o bem do mal, um ser desprovido de sentimentos morais, etc, primam pelo exagero quando não pela mera retórica do ressaibo. E esta intensidade insultuosa e indignada é tanto mais estranha quanto Câncio conviveu com o homem que aldrabou na sua licenciatura. Ora uma tal ocultação não a deixou logo de sobreaviso de que o homem seria um artífice da mentira? Pelos vistos não. Podemos assim aventar que a dureza de Câncio cumpre dois objectivos estratégicos. Dissociar-se da figura José Sócrates o mais que possa. Quanto mais dura for a crítica, quanto mais visceral, mais o “engano” em que Câncio caiu é visto como legitimamente ingénuo. Segundo, quanto mais o julgamento moral for violento e intransigente, mais a nossa própria pureza ressalta. Os métodos e retóricas da inquisição pretendiam precisamente isso: mostrar que o lado que julgava era absolutamente impoluto e por isso fora da alçada da possibilidade de ser julgado. Não digo que a Câncio seja o inquisidor mor sujeitando Sócrates ao castigo final. Digo apenas que o seu texto é o culminar de uma reacção de escândalo desproporcionada e hipócrita, cheia de aproveitamento político e com objectivos muito concretos. O texto de Câncio, em boa verdade, está redigido num tom pessoal, e portanto integra a terceira camada que cabe justamente à gaja ressabiada. Porém, a forma como em torno de Sócrates e de Pinho se tem construído uma retórica de “PS igual a partido de corruptos e reino da imoralidade” anuncia algo de tão perigoso quanto característico. Foram processos idênticos que levaram à prisão de Lula e à criminalização pela opinião pública do PT. Da mesma forma destruíram o kirchnerismo e o que restava dele na pessoa de Cristina Kirchner, na Argentina.

Sócrates pode ser um corrupto. Mas a própria acusação de Câncio é contraditória. Porque razão haveria uma implicação nefasta no acto de Sócrates rejeitar o dinheiro de comentador político da RTP apenas porque recebia um montante secreto de um amigo empresário? Não diz a bota com a perdigota. Porque afinal poderia ter acumulado os dois proventos. Até porque tantos e tão bons (ou maus) comentadores políticos que passam pela televisão e que se forram com o dinheiro dos partidos, das instituições públicas para as quais trabalham – Parlamento, câmaras, ministérios, universidades, etc – e ainda vão buscar a sua parte de leão a escritórios de advogados e consultoras. É um estado natural de promiscuidade entre res publica e interesses privados. Quando um dos casos é singularizado, há sempre razão para nos perguntarmos porque diabo aquele e não todos os outros?

O artigo de Câncio é profundamente pessoal. Tão pessoal que remata usando um “nossa” que soa a desabafo na primeira pessoa do singular [(…) a tragédia dele, que fez nossa, (…)] e não ao pronome possessivo na primeira pessoa do plural. A singularidade do caso Sócrates fica assim sublinhada pela singular reacção de Fernanda Câncio. O único problema é quando uma tal singularidade começa a ser usada para caracterizar todo um partido.

Meaningful relationships

Maio 5, 2018

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Dir-se-ia que depois do escândalo da Cambridge analytica, da cedência de dados de milhões de pessoas, o facebook de Zuckerberg sofreria um abalo demasiado grande para que voltasse a ser o que é. Equívoco tremendo, visto que não apenas a empresa facebook ganhou 13 biliões de dólares em bolsa logo a seguir ao escândalo, como Zuckerberg anuncia que vai incorporar no conceito uma plataforma de encontros amorosos.

A primeira interrogação que qualquer pessoa atilada colocaria é: haverá veículo mais sensível em termos de partilha de informação do que um site de encontros para que este esteja sob o controlo de uma empresa que cede os dados dos seus clientes? Pareceria então lógico que a última aposta do facebook após o escândalo que levou à convocação de Zuckerberg pelo congresso norte-americano fosse enveredar por sites de encontros amorosos. Em abono da verdade, o facebook já é utilizado como um site de encontro, de sedução e de engate. A transformação será pois de pouca monta. Mas é preocupante que a vida tenha voltado à sua normalidade corriqueira depois de sabermos que as nossas biografias, tiques, gostos e inclinações estavam a ser utilizadas para influenciar comportamentos eleitorais ou posicionamentos políticos. Nada disto parece ter afectado grandemente os biliões de aficionados do facebook. E agora aí está: Zuckerberg sobe a parada. Quer também a nossa vida sexual. É facto que ela já vinha sendo documentada, por vezes de formas mais directas outras indirectas, pela histeria narcísica facebookica. Porém, elevado a app de encontros, os registos de relações, tentativas de sedução, trocas de piropos, propostas escandalosas, ficarão guardados eternamente no cofre forte de informação da facebook. Dir-se-á – mas isso também o tinder e outros tantos sites de encontros. Certo. Contudo, apenas do facebook temos a certeza que os nossos dados foram partilhados com intenções obscuras. E têmo-la na sua factualidade de acontecimento.

Imaginem o poder de uma Cambridge analytica (agora em insolvência) que dispusesse dos dados de encontros de milhares de políticos ou personalidades públicas. O que não poderia fazer em matéria de chantagem, de exposição ou de revelação para os media? No entanto, a notícia foi recebida com grande entusiasmo, de tal forma que as acções do tinder – o site que liderava o jogo – caíram a pique e tudo indica que em pouco tempo será uma app anacrónica.

Quando o facebook acumular a nossa vida quotidiana, as nossas ligações sociais e a nossa vida sexual, será a máquina panóptica perfeita. Houve em tempos uma teoria que defendia que a informação recolhida era de tal forma complexa e que as redes tinham de tal forma configurações próprias que não era possível trabalhá-la. O caso Cambridge analytica desmentiu à saciedade um tal optimismo. Não apenas é possível acumular essa informação como usá-la de forma direccionada e intencional.

O movimento de recusa do facebook teve o tempo de um fogacho. Assim como veio ao mundo logo se apagou. Houve uns símbolos circulando na net que representavam a famosa mão do like invertida. Foi pouco e muito localizado. O facto é que numa sociedade da exposição, mais exposição não é um elemento dissuasor, nem sequer nos coíbe de nos entregarmos alegremente nos braços de um morfeu desmedido que tudo sabe e tudo pergunta. Isto porque não equacionamos exposição com controlo. Esta é para todos os efeitos a face real da exposição: o seu tremendo poder de controlo. Curioso então constatar que numa época em que somente a ideia de sermos controlados pelo Estado faz arrepiar muita consciência, não tenhamos a mesma aversão ao controlo pela multiplicidade de aparatos de exposição. A circulação da exposição é aparentemente equacionada com liberdade: comunicacional, emocional, expressiva. E essa é a grande ilusão criada pela hegemonia da exposição. É claro que aquilo que ela aparentemente nos oferece, é também aquilo que nos exige. Sem a nossa contribuição activa nenhum destes aparatos funcionaria. E o que é que ela nos exige? Tempo – exige-nos tempo. De dedicação, de utilização e sobretudo de ligação. O tempo de construir ligações é absolutamente essencial para o funcionamento da máquina “exposicional”. O que ela nos exige é que lhe dediquemos tempo até ao paroxismo. Por isso a sua multiplicação virtualmente infinita de contactos e comunicações tem a sua contrapartida em tempo. A aceleração do tempo que a máquina “exposicional” permite resulta paradoxalmente numa sua contracção total. Tempo panóptico que limita tudo e todos sob aparência de expansão infinita. Claro que tem ressonâncias com essa ideia fantástica, cunhada por Sloterdjick, que é a de cinética infinita. E repare-se como, segundo uma notícia do expresso, os trabalhadores do facebook têm o seu tempo controlado ao segundo, justificando cada paragem que fazem e cada soluço que dão. No mundo da máquina exposicional não pode haver distracções. Por isso não há tempos “mortos”. A exposição não admite cadáveres. E se chegam a existir, prontamente são desfeitos em ácido pela diligente operação de likes e contra-likes que os utilizadores do tempo panóptico dedicam à máquina. É claro que Zuckerberg quer uma coisa bela, e não um site de one night stands que não esteja à altura dos altos desígnios morais do facebook. Zuckerberg não quer apenas controlar as nossas vidas sexuais, quer que nos envolvamos em “meaningful relationships”. Foi o que disse na sua apresentação, previsivelmente para se distanciar do tinder. Não necessitou da publicidade negativa, porque o facebook promete uma revelação instantânea das nossas biografias. Por isso os utilizadores da máquina “exposicional” não vão perder tempo a apaixonar-se convivendo com… – vão apaixonar-se pelos perfis dos utilizadores do facebook na imediatez do tempo panóptico. No tempo panóptico, a absorção é de tal forma urgente que não há segundos a perder em aprendizagem emocional ou afectiva. O que queremos deve estar imediatamente exposto para que possamos escolher um produto acabado. Assim como os trabalhadores do facebook têm que justificar a pausa para ir à casa de banho porque cada segundo que se trabalha para a máquina exposicional é imperdível, também as nossas meaningful relations filtradas pela massiva informação facebookica querem-se o mais parcimoniosas possível. Leia-se o perfil de fio a pavio, registe-se os seus gostos mais eloquentes, veja-se e reveja-se a miríade de fotos publicadas, et voilá!, o princípe encantado surge decantado mesmo antes de qualquer proximidade física. Não se perde tempo, encurta-se a margem de erro, e até se pode justificar a escolha por um enfático like em todos os traços do pretendido. A semelhança entre isto e o trabalho, o acto de trabalhar, é aterradora.

Macron

Maio 2, 2018

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Quando Macron ganhou as eleições francesas, escrevi que este iria puxar o centro mais para a direita. Escrevi que uma Europa diferente se prenunciava no horizonte, com Schultz na Alemanha e Macron em França. Acertei na primeira; errei estrondosamente na segunda. A uma porque Schultz não ganhou na Alemanha, sendo antes o impulsionador de um governo Merkel reforçado. A outra, porque Macron é bem mais tenebroso do que inicialmente vaticinei.

Ver a entrevista que Macron deu à Fox antes de viajar para os Estados-Unidos em visita oficial é um exercício de tolerância bastante aguerrido ao cinismo político. Não admira que Trump e Macron sejam best buddies; partilham vários dos tiques do político tão mentiroso quanto ambicioso. A proximidade de Macron a Trump, como já foi dito por diversas pessoas, tem, do lado do presidente francês, a função de se ungir enquanto representante e interlocutor máximo da Europa. Macron quer ser uma espécie de rei europeu que tem acesso directo ao rei americano. Na entrevista à Fox, o nariz de Macron was so up the ass of Trump que podemos ver realmente a sua cabeça a desaparecer. Depois não se trata apenas de admiração (e o que haveria para admirar? O estilo, a educação, o brilhantismo, a oratória de Trump?) mas sim de mimetismo. Macron remata a entrevista dizendo que pretende Make France great again!, como diria o vosso presidente (sic). Isto é sick to the stomach. Num panorama de desconfiança e cautela perante o grande mogul americano, Macron singulariza-se por parecer o anão em bicos dos pés que quer chamar a atenção do homem que controla a fila para entrar no espectáculo. Mas seria grande o equívoco se pensássemos que Macron é um simples títere dos poderes transatlânticos. Macron quer de facto Make France great again. Quando é que a França foi grande? Quando foi um império colonial, por exemplo. Ou quando conquistou a Europa, de Portugal a Moscovo. Nestas ocasiões, a França viu-se grande dentro do mundo, e assim se mostrou para o mundo. Macron quererá repetir a proeza? Creio que sim. De uma forma ou outra, ou seja, com ou sem Merkel, o presidente francês quer guiar os destinos da Europa. Repare-se que Macron não disse que queria uma França mais justa, ou mais equilibrada socialmente, ou mais igualitária, ou mais próspera para todos – disse Make France great again!

Julgo que a Europa de Macron é um prolongamento da sua ideia para França. Primeiro, uma França que domina a Europa, agora sem a sombra tão presente do Reino Unido. Há duas maneiras de fazer isto. Uma, que está a ser correntemente tentada, é ter o Estados Unidos como aliado preferencial frente a uma Alemanha que não parece tão disposta a pactuar com os dislates prepotentes de Trump. A outra, que de certa maneira é o corolário da primeira, é afirmar a França no palco internacional, sobretudo num cenário de guerra ou de disputa geoestratégica. O Irão pode ser o motivo que Macron precisa para ganhar relevância. A posição de Europa sempre foi a de preservar o acordo nuclear com o Irão. Não havia qualquer intenção de rever este até que Macron juntou a sua voz à de Trump fazendo coro na litania de que se trata de um acordo incompleto. É certo que não é tão peremptório como Trump relativamente a rasgar o acordo. Porém, a simples suposição de que é um acordo incompleto leva exactamente à mesma conclusão: it’s a bad deal!, como tantas vezes reiterado por Trump. Ora, esta caixa de pandora é aberta quando o líder supremo iraniano surge, aparentemente, apoiado pelos russos. Já aqui disse que o principal parceiro comercial da indústria bélica francesa são os sauditas. O principal inimigo dos saudis é o Irão. Estão, de forma indirecta, sobretudo no Iémen, em guerra com os iranianos. Por isso a coincidência de uma visita francesa de Macron apoiando a revisão do acordo nuclear com o Irão com as acusações de Netanyahu na semana a seguir, não pode passar despercebida. Com efeito, apesar da memória dos povos actualmente ser o que é – ou seja, nula ou anulável – as parecenças entre o exercício de Netanyahu e a pantomina de Colin Powel com as armas de destruição maciça de Sadam copiam exactamente o mesmo modelo. Informação forjada, sem qualquer base verificável, mas vendida como uma certeza indubitável que necessita de se materializar em acções.

Os Estados-Unidos e Israel há muito que querem desestabilizar o Irão para lhe retirar a força na região. A França é um player com interesse directo nessa estratégia. Quando Trump bombardeou a Síria recentemente as sondagens acusaram de imediato um aumento de popularidade entre o eleitorado norte-americano. Trump precisa desesperadamente de uma guerra. Um conflito na Coreia era demasiado perigoso; e a China certamente que não o admitiria. Entretanto, qualquer razão que assistisse a uma acção bélica esfumou-se mediante o acordo entre as duas coreias. De pronto as atenções ocidentais se dirigiram para o Irão. A insistência de Trump em rasgar o acordo com o Irão configura uma vontade de precipitar a guerra, ou pelo menos de reacender as hostilidades provocando uma escalada.  Por isso devemos ver a actuação de Macron exactamente ao contrário das interpretações que esta tem suscitado. Há grande unanimidade em dizer que Macron se tem desdobrado em esforços para manter o acordo com o Irão. É exactamente o oposto. E vejam como uma das explícitas preocupações de Macron é conter “a influência [do Irão] na região, em particular na Síria, no Iraque, Líbano e Iémen”, conforme explicou numa conferência de imprensa na Austrália. Macron está a jogar um jogo duplo tendo prometido de antemão quer aos norte-americanos quer aos sauditas qual vai ser o desfecho.

Caminhamos a passos largos para um conflito na região. E tudo para que possamos fazer a América, e finalmente a França, Great Again.

Avicii death on arrive

Abril 23, 2018

Morreu o avicii. Fico contente quando um destes tipos morre. No outro dia morreu a grande “promessa” do rap Lil Peep, com vinte e um anos. Foi bom, porque assim ficou com menos tempo para fazer estragos. Avicii morre aos 28 anos; mas com 22 já amealhava qualquer coisa como 60 milhões de dólares por ano. É muito graveto para tão pouco. Um tarado de um velho companheiro da música electrónica, o famosa Petha Zouk, compara avicii a um “Bach ou Bethoven que andasse agora entre nós”. Uma tal afirmação só mostra que nunca ouviu nem um nem outro. Mas mostra outra coisa: a conta em que estas pessoas se têm… apesar da sua inerente mediocridade. Esse estatuto é-lhes dado pelo sucesso que granjeiam entre o público, e não por qualquer talento intrínseco. Avicii só tem uma música minimamente tolerável, o wake me up, que na forma actual de reciclagem cultural depressa foi aproveitada para jingle publicitário. O resto é insuportável. Dizer que um tipo que sabe bater numas teclas e fazer efeitos musicais dançantes é um Bach ou um Bethoven revela o grau de indistinção a que os produtos culturais estão sujeitos no mundo da fast food cultural contemporânea.

Avicii sabia seduzir os palcos dançantes com a sua música. Não era compositor. Por isso todos os comentários encomiásticos que lhe foram prodigalizados nos últimos dias – como se de uma revelação musical se tratasse – devem ser tomados como excessos que a idiotia dos mercados culturais produzem em doses tão informes quanto incaracterizáveis. Aqui o sublime pouco tem a ver com a experiência do belo absoluto de que falava Fichte. E menos ainda com a fascinação que assistia à leitura de uma poesia de Holderlin segundo a interpretação de Heidegger. É estranho por conseguinte que a bitola de apreciação cultural seja esta espécie de ser vegetativo que batia nas teclas e grunhia ao microfone. Avicii em boa verdade não era bom em nada: nem em compor nem a cantar. Os seus duetos inenarráveis, ou como agora se diz, fulano feature um outro tipo qualquer, exibiam a mediocridade das letras de meninos de 10 anos. Por exemplo, em Wiclef ft avicii podemos escutar It’s harder when you love beyond believe/but I’m fool to let you go/ so this is for you my love – um prodígio de métrica e de uso da metáfora poética.

Podemos sempre contestar uma tal apreciação, obstando: olha, tipos como o Ronaldo ou o Messi ganham milhões e só sabem jogar futebol! Que é o argumento mais bimbo que pode haver, isto porque tipos como o Ronaldo e o Messi são verdadeiros génios naquilo que fazem. Por isso nem sequer há comparação. Se no futebol sabemos perfeitamente distinguir o que é diamante do que é esterco, por que razão deixámos de ser capazes de o fazer quando se trata de cultura? Reparem, não se trata de uma ataque à cultura pop, porque há muita e boa música pop. Mas não posso deixar de ter a sensação que algo se perdeu, alguma capacidade de discernimento estético foi-se deslaçando ao ponto de não ter qualquer consistência. A forma como prestamos homenagem aos avicii e aos drake desta vida actual é pornográfica… é mesmo insultuosa. Porque não são merecedores dela. Ouçamos a área Lascia ch’io pianga de Haendel – que combinação majestosa entre música e letra, que elevação espiritual nos é transmitida por cada compasso. Fala-nos à humanidade! Essa é uma capacidade destabilizadora que a música devia ter. Mas quando foi que nos tornámos recipientes para confusão sonora e ritmos infantis? Quando nos infantilizámos. Por isso há um profundo momento de infantilização nesta homenagem ao medíocre avicii. Ninguém se lembraria de homenagear um tipo que ganhasse uma pazada de massa ao jogo, num casino de Macau, ou pelo menos ninguém que não fosse seu familiar próximo! O esforço é o mesmo. E é disso que se trata: deixámos de saber aferir, e do mesmo passo, apreciar, o esforço de construção que se coloca nas coisas ditas culturais. Só assim se compreende que passe na cabeça de alguém comparar um pedaço de estrume como o avicii com Bach.

James Comey

Abril 19, 2018

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Imaginemos um tipo que está muito perto de conseguir uma reforma multimilionária e na recta final o seu patrão lhe retira essa benesse. Que faz esse tipo se para isso tiver capacidade e recursos? Vinga-se. Comey vai ficar na história não como o director do FBI que levou a cabo as mais arriscadas e sensacionalistas investigações, mas como o director do FBI que conseguiu entalar dois presidentes – na realidade, um que nunca chegou a ser, mas que a isso se perfilava.

Comey tramou big time Hilary Clinton. Ele foi, muito provavelmente, a causa do descalabro da sua candidatura. Quer fazer o mesmo com Trump? Sim, sem dúvida. Contudo, não tem, ou não quer ter, o mesmo material que faria implodir o mandato de Trump assim como fez à candidatura de Hilary.

Comey é por isso simultaneamente o homem mais amado e mais odiado dos Estados Unidos. Diga-se de passagem que Comey é um cavalheiro. Existe nos antípodas do seu ex-patrão e presidente dos USA. Produz frases pensadas e reflectidas. Tem gestos pausados e bem desenhados. Impõe uma presença de filadelfiano, de homem nutrido nos bons colégios da east side. Um Eliot Ness para os tempos de Putin e do conluiu com a Rússia.

Comey é isso tudo, mas é também – e disso não se livra – um indivíduo esquivo e dúbio. As suas justificações para o que fez a Hilary em vésperas de eleições são canhestras e muito pouco convincentes. A ideia segundo  a qual não antecipava as consequências que um tal acto poderia ter, é risível e hipócrita. Ao denunciar as centenas de milhares de emails que a presidente tinha partilhado com Anthony Weiner saberia com certeza que estava a enterrar de uma vez por todas as chances de Hilary vir a ser presidente. Ninguém é assim tão inconsequente. E ninguém é assim tão mandatado pela norma, como Comey pretende fazer crer.

O que é então a Higher Loyalty de Comey? Julgo que é uma higher loyalty a si mesmo. Já que não foi a Hilary, destruindo a sua carreira política; e também não foi a Trump, sobre o qual pretende agora fomentar a discórdia e confusão – só pode ser a si mesmo.

Nunca saberemos o que levou Comey a enveredar pelo caminho que tomou em 2016. Pensaria de facto que o país estaria melhor nas mãos dos republicanos? Alguém o incitou a fazer o que fez prometendo-lhe prebendas futuras? Ou simplesmente agiu de forma autocongratulatória para que todos para ele olhassem? Teria ambições políticas? Não sabemos. O que sabemos é que as confissões que faz sobre Trump não possuem nem metade da gravidade das acusações que impenderam sobre Hilary. Comey leva a sua caravana pelos vários veículos de comunicação da terra do tio sam, naqueles périplos de vendas de best sellers a que todos os autores se sujeitam. E o que diz? Que o presidente é uma besta imoral… mas que de maneira nenhuma deve ser impugnado. Estranha equação quando a sua atitude para com Hilary foi tão draconiana.

Comey podia  perfeitamente ser o espião perfeito e jogar dos dois lados: republicanos e democratas. Jogar pela highest bid. Porém, jura que não; jura que apenas lhe interessam os valores da democracia, que vê sendo deturpados e esmagados, e das instituições que esta sustentam. Todavia, para quem apenas só vê os valores da democracia, o plano político das suas acções, contrariamente ao cinzentismo do by the book guy, não deixa de ser assinalável. Quer com a denúncia dos emails de Hilary quer com o livro sobre Trump, o ex-director do FBI não está a reparar entorses no sistema democrático – está a fazer política. E o poder que tem para o fazer lembra, apesar dos seus ademanes de gentleman em tudo contrastantes, o poder que em tempos teve um G. Edgar Hoover. Lembremos que Nixon afirmou que uma das razões pelas quais não despedia Hoover era porque temia as represálias, dado o poder que este possuía materializado em informação sobre todo e qualquer cidadão ilustre norte-americano. Trump não teve os mesmos pruridos com Comey. Obama, contudo, não lhe tocou. Dir-se-ia que Trump jogou forte, e que calculou que o dano que Comey lhe poderia fazer estando no lugar seria sempre maior do que aquele que lhe faria tirando-o de lá. O que significa que Comey sabe muito mais do que aquilo que revela no seu livro. Que Mueller anda a arrastar os pés por uma investigação que não vai dar em nada porque os tentáculos do GOP asfixiam toda a arquitectura institucional estado-unidense, vai-se tornando cada vez mais claro.

No meio de toda esta guerra, o surpreendente acontece. As sondagens dão uma vantagem tangencial aos democratas nas midterm elections que se avizinham. Ao invés da onda azul tão esperada por todos, uma brisazinha celeste subsiste, pairando a dúvida se o rubro trumpiano não a irá abafar de uma vez por todas.

Síria gate

Abril 16, 2018

Vamos mesmo engolir novamente as patranhas ao estilo weapons of mass destruction? Vamos mesmo reeditar o discurso do eixo do mal e de como temos que proteger as criancinhas dos outros? Vamos mesmos escorregar uma vez mais na hipócrita casca de banana do “ditador facínora” versus o Ocidente consciencioso? Parece que sim. Muito embora tudo em torno de Douma soe duvidoso, obscuro e mal contado. Os sírios juram a pés juntos que não foram utilizadas armas químicas… e bem, isso não seria grande prova já que os maiores massacres da história foram cometidos por pessoas que mais tarde juraram nunca os ter perpetrado. Mas mais estranho é a inexistência do lado Sírio na informação global que as grandes cadeias de televisão nos fornecem. Nem uma voz, um testemunho, um clip, o que seja. É um deserto de contraditório. Claro, pode sempre dizer-se que o acto é de tal forma horrendo que nem merece ser contraditado, sobretudo quando essa mesma negação viria de um governo, ou dos seus aliados, ditatorial e criminoso. Mas há o outro lado. O oportunismo com que a escalada ocidental na guerra da Síria surge logo após o significativo encontro dos três líderes que apoiam Assad: Putin, Erdogan e o líder supremo Ali Khamenei. Essa coincidência não nos devia deixar de sobreaviso?

Já vimos isto com Bush, junior; com um anão que na altura era o Aznar, com Barroso em bicos dos pés, porventura já a sonhar com lugares de alto lobista internacional, e com Blair, essa espécie de camaleão esquerdista invertido. Agora temos uma sequência igualmente interessante, talvez ainda mais tenebrosa. Bush, May e Macron. O anão francês veio para substituir o anão espanhol da época do Iraque. Mas os projectos neo-colonialistas dos dois primeiros são difíceis de aferir.

Porque razão nenhum deles diz – e da mesma forma, as grandes cadeias de televisão globais – que quem estava sitiado em Douma, bem assim como antes em Ghouta, era o ISIS e algumas outras facções jihadistas? Aqueles que quer Bush quer May tanto medo têm de aceitar como refugiados. E porque se vangloria Trump de ter acabado com o ISIS quando lhes oferece o sustentáculo necessário na Síria? Porque razão lançaram a ofensiva mesmo antes da deslocação da missão da OPW, o organismo que é suposto velar pela não utilização de armas químicas, que estava a ser preparada e tinha já autorização do governo Sírio? Teria feito diferença adiar o ataque aéreo e esperar pela análise da dita organização? Não seria isso o sensato, mais ainda, o único aceitável?

É incontestável que Assad é um ditador. Assim como era Sadam. Mas aqueles que estão a ser apoiados pelos esforços de desestabilização ocidental do regime de Assad são os mesmos carniceiros que nós assistimos, arrepiados, a decapitarem voluntários de organizações internacionais nos solos arenosos de Palmyra. O solo donde brotou o ISIS foi justamente o de Ghouta ocidental e o de Douma, ainda bastiões do jihadismo que se recusam a depor as armas. Que Macron proteja os interesses belicistas franceses ao proteger os interesses dos seus amigos sauditas, um dos maiores destinos de venda de armas da industria armamentista francesa, consegue-se perceber. Também ele quererá, em alguma parte do seu mandato, fazer a França great again. Que May era um fantoche de Trump e dos interesses da administração GOP, também já tínhamos percebido quando foi a primeira a estender a passadeira vermelha ao presidente norte-americano mostrando que o eixo atlântico era mais importante para velha Albion do que a sua recente relação com a Europa. Trump, era a verdadeira incógnita neste triunvirato. Até porque não lhe interessava nada a Síria, estava disposto a retirar as suas tropas nem há duas semanas, e para ele era assunto encerrado. Até que…

Percebe-se perfeitamente que nada melhor do que iludir as expectativas de todos aqueles que se encontravam em suspenso com a aproximação da investigação de Mueller aos degraus da Casa Branca do que declarar guerra aos russos por interposta nação. Este é um joguinho no qual Assad é verdadeiramente o seating duck. Assiste impotente a que lhe bombardeiem o país – o que resta deste, porque ele Assad tem dado conta do recado na destruição do resto – naquilo que com certeza é uma manobra concertada entre russos e americanos para anular a desconfiança em relação ao caso de conluio que tanto persegue a administração Trump.

Enfim, já vimos isto. Estamos a vê-lo uma vez mais. Aliados ocidentais assanhados para depor líderes no mundo árabe. De todas as vezes, o que se concluiu foi sempre pela destruição dos respectivos países intervencionados; pela desestruturação das suas estruturas de poder, com o resultado efectivo de criar zonas de vazio institucional e legal, terras de ninguém onde medra o terrorismo. Resta a fotografia que coloquei ao início deste post, com o suposto projéctil que alojava o armamento químico cuidadosamente deposto sobre uma cama, cuja cabeceira deixou intacta, os pés, pelo que se vê, inamovidos. Um projéctil lançado a vários quilómetros de altura e que caiu delicadamente numa cama síria algures em Douma. Esta é também a fotografia da política que se faz hoje; não tão diferente de todas as outras mentiras oficiais que nos foram sendo servidas para justificar grandes negociatas geo-estratégicas.