A bomba-relógio chamada desigualdade (racial) norte-americana

Luxury stores looted by rioters in the US after George Floyd killing

Os dois acontecimentos recentes que têm causado comoção na sociedade norte-americana envolvem dois homens afro-americanos. E nesse sentido poderiam ser interpretados como casos de racismo directo e sem apelações por parte dos brancos envolvidos neles. Contudo, o caldo onde fermenta a revolta a que estes dois acontecimentos deram respaldo é bem mais complexo e amplo.

O capitalismo autoritário imposto por Trump e pelo Tea Party nos últimos anos, apesar de ter operado aquilo que aparentava ser um milagre económico, mostrou a sua razão de ser assim como as suas maiores iniquidades durante a pandemia do covid-19. De milagre passou a pesadelo. E a razão é relativamente simples. O milagre estava sustentado numa flexibilização sem precedentes do mercado de trabalho, de uma diminuição do Estado – mas não nos sectores militares e de segurança – e consequente recuo na sua função de rede protectora. De um momento para o outro, a economia norte-americana atirou para o desemprego 40 milhões de pessoas. A voragem neoliberal da administração Trump, o modelo Paul Ryan de deixar o mercado fazer o que tem a fazer com a mínima intervenção do Estado, provocou o resultado que agora se encontra patente. Mas Trump não iniciou um programa de distribuição de dinheiro sem precedentes na economia norte-americana? Sim, é certo. Dinheiro que foi parar aos bolsos dos empresários que entretanto se tinham libertado de 40 milhões de empregados. O impensável aconteceu. Dois meses de recolhimento e não existe, na maior economia do mundo, um sistema de proteção suficientemente robusto que pudesse ter garantido o emprego destes milhões de pessoas. E não existe por opção política.

Por isso, os tumultos a que vamos assistindo por todo o país são o resultado de um caldeirão explosivo que apenas precisava de um rastilho. Muitas destas pessoas não têm nada a perder. Se o racismo emerge como transmissor do protesto e signo da indignação, as pilhagens e a destruição resultam da tempestade que se abateu sobre os mais pobres dos norte-americanos. Porque, afinal, quem são estes 40 milhões de desempregados que de um dia para o outro se viram sem emprego, e perversidade das perversidades – como o seguro de saúde se encontra associado ao facto de estar empregado -, sem acesso ao sistema de saúde em simultâneo?

Primeiro, temos os negros e os hispânicos. São os grupos que registam níveis de desemprego mais elevados – 16,4% e 18% respectivamente. Mas há um grupo que horroriza pela dimensão da perda e do sofrimento: os trabalhadores mais mal pagos e menos qualificados são aqueles onde o desemprego mais grassou – 6,8 milhões de pessoas. Para estes, com a moratória das rendas a chegar ao fim, e o negócio dos bancos a voltar, perdoe-se o pleonasmo, ao business as usual, vai ser uma devastação. Depois dos empregos, irão eventualmente perder as casas, e com isso as famílias, e por aí afora, numa espiral mortal que não surge como tendo fim aos olhos das suas vítimas.

Para estes, sair à rua, protestar, pilhar e destruir, é o único acto válido, arriscaria mesmo dizer, o único acto onde ainda se sentem reconhecidos.

Os protestos que alastram pelos Estados Unidos falam de racismo, é certo. Mas falam também, e mais audivelmente, de milhões de pessoas que foram abandonadas porque o sistema que insiste que a liberdade é mais importante do que a igualdade é um sistema perverso.

Porque o que mostram as imagens do vídeo de Amy Cooper, a mulher que ficou histérica porque um afro-americano lhe pediu para colocar uma trela no cão, não é apenas racismo. É uma sociedade em que alguns se sentem com o poder para fazer o que lhes dá na veneta – a liberdade – e onde para outros é suposto acatar aquilo que aos primeiros interessa impor. A liberdade sem ética, como há muito nos ensinaram kantianos de vários propósitos e inclinações, não é liberdade.

A liberdade sem ética, aquela defendida por Paul Ryan, é significada nos pequenos atos de abuso de saúde pública entre os apoiantes de Trump que se recusam a usar máscara. E como numa torção de consequências imprevisíveis, os manifestantes que colocaram as cidades americanas a ferro e fogo, escolhem igualmente a liberdade de não usar máscara perante um país que os abandonou. Parecem dizer que entre a miséria e o covid, que venha o diabo e escolha.

E é essa diferença também que se nota entre os protestos pacíficos em algumas capitais do mundo, inclusivamente na cidade de Nova Iorque, e os tumultos que atingem diversas outras cidades norte-americanas. A ironia da situação, se de ironia se tratasse, reside no facto de que uma administração que tratou o confinamento decorrente da proteção contra a pandemia de forma tão negligente, impor agora o recolher obrigatório em diversas cidades. Trump é de facto o palhaço perverso dos filmes do Stephen King. Desdenhou de uma pandemia, que exigia confinamento, e que destruiu o provimento de parte da população, e envia agora as tropas para a rua para que estas fiquem limpas de gente e de vozes.

Marxismo (in)cultural

CDS-PP considera que remodelação traduz-se numa "bloquização" do ...

Marx by Nuno Melo “As ideias da classe dominante são, em todas as épocas, as ideias dominantes, porque a classe que é a força material dominante da sociedade é, ao mesmo tempo, a sua força intelectual dominante”.

Às vezes tenho a sensação de que Pacheco Pereira vive numa caverna na Marmeleira e que parou de se actualizar – ele que anda sempre a exibir os seus périplos pelos media mais actuais – em 1970.

A propósito do seu texto no Público, a zurzir, e bem, a ignorância do Nuno Melo, cai na esparrela de apelar ao óbvio esquecendo-se de investigar para além das aparências. Em face da acusação de Nuno Melo segundo a qual seríamos vítimas passivas de marxismo cultural, meros cordeiros sacrificiais da arma mais insidiosa da esquerda, virgens (homens) atirados  às sevícias de bacantes insaciáveis da crítica esquerdista, saiu Pacheco Pereira a terreiro para dizer que o Melo não percebia nada de marxismo. E tem toda a razão. O problema é que nunca foi intenção de Nuno Melo perceber um pelo púbico (vulgo pentelho) que fosse de marxismo. Por isso é que o contra-ataque desferido através do “vocês nem sabem do que estão a falar” não tem qualquer interesse porque a acusação não tem qualquer pretensão de ser levada para o terreno argumentativo. Assim como o Raposo berra que somos vítimas da natureza; a trupe da direita neoconservadora berra que a sociedade encontra-se eivada de marxismo cultural.

É que o marxismo cultural é esse inimigo proteiforme que encaixa em qualquer coisa que a direita ou não gosta ou para a qual não possui argumentos – o que é o mais comum. Por isso o apender do cultural ao marxismo não é inocente. Desde logo, porque não é o marxismo nem Marx que se acoita lá debaixo. E isso a direita entende bem demais. Se assim fosse, bastava dar nomes aos bois, ou neste caso ao boi, e designá-lo com a propriedade das acusações indenegáveis, por marxismo! O truque está verdadeiramente no cultural.

E aqui, sob este chapéu tão difuso como inconsequente, encontram-se, para a direita, variadíssimas coisas. Alguns, mais avisados, são mais certeiros; outros, passeando a sua ignorância nos corredores parlamentares, dizem a primeira bujarda que lhes assoma ao espírito. Para os primeiros, esta ínvia categoria contém lá dentro foucaultianos de diverso pendor desconstrucionista; teóricos críticos de diversos labores (por isso é que encontramos por vezes Boaventura de Sousa Santos arrolado ao index!); judeus neo-marxistas que se acantonaram em Frankfurt (e veja-se como as publicações mais conservadoras como a Breitbart gostam de salientar a origem judaica desta clique); e finalmente, discursos contra a dominação de género, raça ou religião. Esta paleta tão multiforme recebe por comodidade ou labreguice a designação de marxismo cultural. Na boca de Bolsonaro, por exemplo, a denominação traduz labreguice; na boca de João Carlos Espada, implica comodidade. Em Nuno Melo, suponho, andará num qualquer ponto intermédio.

Não lhe interessa nada que entre teóricos críticos e foucaultianos haja um mundo de diferenças; nem tão-pouco que entre desconstrucionistas e racionalistas marxistas haja muros intransponíveis. Para simplificarmos as coisas, a direita estreitou a visão para que esta signifique qualquer ataque pressentido ao sacrossanto modelo capitalista e aos seus processos de dominação – que esta direita carinhosamente chama de “valores” – possa ser facilmente arrolado num floating signifier que sirva igualmente de sound bite propagandista. Por isso neste ataque sem quartel ao dito marxismo cultural convivem coisas tão esdrúxulas como Henrique Raposo a perorar que somos vítimas do fascismo da natureza (querendo com isto dizer as apropriações que desta fazem os ecologistas, suponho) e Nuno Melo a acusar Rui Tavares de doutrinar criancinhas em marxismo.

Para esta direita o mundo está óptimo e desde que continuem a escorrer os chorudos cheques das consultorias jurídicas a grandes empresas o resto deve pertencer a um bando de capados sem capacidade crítica ou reflexiva.

Exemplo emblemático dessa hipocrisia feita política chega-nos do Chega. Para André Ventura o povo devia fazer uma revolução por causa da celebração do 25 de Abril, ou, melhor ainda, colocar os ciganos em campos (de extermínio?) e esterilizá-los a todos. Mas nem uma palavra sobre os bónus dos gestores bancários ou da TAP em época de prejuízos. Para isto, subsiste apenas um silêncio cúmplice de capo de vão-de-escada.

No final de contas não se pode morder a mão dos donos.

Cercos

O Cerco de Jerusalém por Saladino (segundo cópia das crónicas de William of Tyre)

Parece incrível como é que passado dois meses de confinamento obrigatório a nossa economia encontra-se em desagregação. Numa rápida retrospectiva histórica houve cidades que tiveram sitiadas durante anos e até décadas! Lembremos algumas. A cidade de Tripoli, no que é actualmente o Líbano, esteve sitiada durante sete anos pelos cruzados. O cerco a Tessalónica, na actual Grécia, durou 8 anos! E no mesmo país, a cidade de Candia, conhecida actualmente como Heráklion, a capital de Creta, esteve sitiada pelos Otomanos durante 21 anos! E se os cruzados na sua primeira investida sitiaram Antioquia durante 7 meses antes desta se render, até o cerco de Lisboa que determinou a reconquista cristã em Portugal durou mais de 3 meses. Em todos estes casos as pessoas sitiadas passaram por situações de escassez tremenda – recorde-se aqui as descrições de Saramago sobre a fome durante o cerco de Lisboa.  Mas eram situações de guerra, em que as cidades eram constantemente acossadas por ataques, quer de forças humanas quer de maquinaria (catapultas, aríetes, etc).

A nossa civilização actual, passado um mês de estar sitiada em virtude do carinhosamente designado “inimigo invisível”, encontra-se em farrapos, em decomposição, em degenerescência efectiva. O que nos tornou tão fortes e tão frágeis simultaneamente?

O nível de conectividade é uma das respostas possíveis. Os dispositivos que nos ajudavam a acelerar sem limites são também aquilo que nos lança num abismo com a mesma rapidez. Porque todas as partes estão interligadas, numa tal frequência e intensidade, basta que cortemos uma delas e tudo se desmorona.

Uma outra hipótese é a de que ao contrário do que nos quiseram fazer crer os neoliberais de pacotilha de todos os azimutes, quem na realidade segura a sociedade é o Estado. Apesar dos cantos das sereias do sector privado e da sua indispensabilidade o que se verifica é que o Estado ainda constitui a grande rede de segurança e que sem ele o bem-dito sector privado perde por falta de comparência. É certo que Pedro Soares dos Santos garantiu que não faltaria comida na mesa dos portugueses. E porque faltaria quando este deve ser o negócio actual mais lucrativo, a par eventualmente do aluguer de conteúdos audiovisuais? Não foi com certeza um acto de grande abnegação da parte do novo patrão da Sonae.

E depois há aquilo que é obscenamente inadmissível, como os clubes de futebol a pedirem o apoio do Estado. Não bastava o Covões que organiza os grandes concertos nacionais, como o superbock e o Alive, a insinuar que deviam ter estatuto de utilidade pública, ainda vêm os três grandes estender a mão ao grande bodo estatal. Tem que haver algum patamar ético que seja infranqueável. Os nossos impostos não podem servir para pagar a clubes que gerem milhões de euros e que pagam fortunas a jogadores e direcções.

Neste quadro de inutilidade do sector privado primou a saúde. Por recusa, desinteresse ou simplesmente falta moral, o sector da saúde privada em Portugal mostrou toda a sua inutilidade quando se trata de um caso de força maior e de fazer face a uma epidemia generalizada no país. O sector da saúde privada não investiu um módico que fosse em equipamento que lhe permitisse complementar a batalha que se avizinhava contra o covid-19. Foi o SNS que se socorreu do material indispensável e socorreu o país e os seus habitantes. Esta crise pandémica mostrou bem que a saúde privada não serve o interesse das pessoas, mas sim a dos grupos de saúde e médicos multimilionários. Assim são os casos dos Estados Unidos e do Brasil. Um sistema de saúde público atrofiado em favor da amplificação sempre crescente do privado lançou o caos nas estruturas de saúde, mal preparadas e subfinanciadas. A associação entre emprego e seguro de saúde, a face de uma iniquidade que o retrocesso do obamacare veio colocar ainda mais a nu, deixou milhões de desempregados nos USA sem acesso ao sistema de saúde, entretanto lotado em algumas regiões do país. No Brasil algo de semelhante acontece. Apesar da qualidade do SUS, a sua desmobilização permanente a favor dos grupos privados – acelerada pelo governo Bolsonaro – tem provocado o caos e a sobrelotação do público.

Segue-se que perante a tibieza da reacção dos privados, que estes deviam obrigatoriamente financiar uma quota parte do sistema nacional de saúde. Não se trata de impostos, trata-se de uma quota directa de financiamento do SNS retirada dos lucros dos grupos de saúde privados. A sua resposta acanhada e mais que deficiente no caso desta pandemia só pode levar à conclusão da sua incapacidade patente de substituir o SNS. E no entanto, o sector privado tem-se revigorado à custa justamente da deslocação de meios – sobretudo humanos – retirados ao público. A sua responsabilidade social, e não apenas negocial, deveria ser exigida.

E eis que senão chega o descaramento total! No seu compêndio de cinismo semanal, a economista e cronista Helena Garrido chegou à conclusão de que tínhamos Estado a menos. Segundo ela, era preciso mais Estado para ressuscitar a economia e que a tendência para diminuir o mesmo, afinal, tinha sido mal calibrada. Se recuperarmos as crónicas de Helena Garrido dos tempos da troika passista não podemos deixar de ficar siderados como nelas se defendia exactamente o contrário.  Então, a litania era a “das gorduras do Estado”, “o do viver acima das nossas possibilidades”, “da reforma imprescindível do monstro público” e quejandas. Veja-se como o programa que o CDS anda a cozinhar, liderado por aquele xarroco aprendiz de populista, o Chicão, regressa à retórica da reforma do Estado. Preparam-se tempos interessantes, parafraseando os chineses.

Estes arautos do Estado mínimo depressa se converteram em encomiastas da estatização. Para pagar à TAP, para dar liquidez à economia e, no fundo, para fazer isto andar, eis que o Estado é reabilitado e ressurge em todo o seu esplendor pela boca dos mais insuspeitos dos cronistas.

Nos anos 30, sem dúvida reflectindo o New Deal norte-americano e o zeitgeist keyneseano que então se vivia, era comum dizer-se que as acções deviam ser coordenadas para benefício do sistema em geral. Hayekianos de diverso pendor inculcaram-nos que o benefício do sistema é atingido se deixarmos as vontades individuais funcionarem a seu bel-prazer. A história mostra abundantemente que tal é raro acontecer, se alguma vez. Apesar do contrassenso óbvio – não há empresa, instituição, clube desportivo, jogo, o que quer que seja de socialmente organizado, que assim funcione – parece que nos deixámos encantar pela visão de uma cataláxia. Este termo, recuperado por Hayek para significar a obtenção de uma ordem espontânea, referente, tudo indica, em exclusividade aos mercados, prometia que a liberdade ditaria as melhores soluções de mercado. A crise do covid-19 veio mostrar, se tal fosse necessário, que sem uma coordenação univocamente orientada a ordem espontânea pode ser catastrófica.

Encruzilhadas

The Marketing Crossroads – Time to Evaluate and Plan | Juggernaut ...

É fácil, e quase oportuno, criticar quem constrói um relato que associa a acção do covid a uma intervenção divina. Como dizia o escritor Afonso Reis Cabral ainda no outro dia, é quase risível aquela posição que pretende inculcar-nos que o vírus é uma lição da natureza que assumiria o lugar da divindade para nos castigar. Reis Cabral comparava esta interpretação aos relatos fantasiosos da Idade Média para os quais a peste seria um castigo divino.

Não devemos aceitar esta versão metafísica e, em todo o caso, animista, segundo a qual estaríamos a ser sujeitos a uma lição da natureza pelos maus tratos que lhe temos vindo a infligir. Porém, podemos retirar algumas lições que não pretendendo partilhar da obsessão animista, nela, porventura, resvalam.

Uma das previsões mais curiosas (quando comparada com a actualidade) dos efeitos da mudança climática estimava que o produto bruto da economia mundial seria reduzido em 7% se não conseguíssemos travar o aquecimento global. As razões eram diversas: desde catástrofes ambientais, como incêndios ou furacões, até à devastação das secas em alguns lugares do planeta e a fome que daí decorreria. Se lermos o que por aí se publicou nas guerras das alterações climáticas – praticamente esquecidas na era do covid – a resposta dos sectores mais conservadores, leia-se de direita e extrema-direita, era invariavelmente que 7% não significava nada e que valia a pena correr o risco de continuar pela senda da superprodução e da correspondente vertigem do aumento das emissões de carbono. Hoje, o FMI grita que assistiremos a uma contracção de economia mundial na ordem dos 3%, a maior desde a grande depressão e que estamos às portas de uma hecatombe nunca antes vivida. Mas não necessitaríamos precisamente de reduzir nesta ordem o crescimento da economia para evitar uma catástrofe climática? E o que faz com que há meses atrás o banco JPMorgan, num dos seus relatórios, afirmasse que se podia facilmente lidar com uma redução de 7% da economia, apesar dos riscos e das catástrofes que atingiriam milhões de pessoas, e que se generalize o pânico perante uma redução de 3%?

Paulo Portas, no seu comentário tão cheio de informação quanto de enviesamento, mostrou através dos números fornecidos pela cibs (e como conseguiu ele estes números??) que os movimentos de dinheiro electrónico tinham caído drasticamente. A hipótese aventada pelo comentarista foi a de que teríamos receio de ir aos multibancos digitar os nossos códigos. E se mais simplesmente o efeito se devesse a não consumirmos? A percebermos, em confinamento, que o consumo que fazemos é excessivo e repleto de coisas inúteis? Ao estarmos afastados das catedrais do consumo – dos centros comerciais, das ruas da moda cheias de lojas da moda, etc – verificamos que não necessitamos da maioria daquelas coisas. Que consumimos num impulso cego. Que o fazemos mecanicamente porque há uma pulsão consumista entre o desejo de novidade e a exposição ritualista aos objectos de consumo. Porque nos nossos dias laborais, nas grandes cidades onde habitamos, nos encontramos sistematicamente sujeitos a estímulos para o consumo; estímulos esses que transportamos para os períodos de lazer. A conclusão é que quando retirados desse cenário, quase obrigatório, quase patológico, essa pulsão desaparece.

É certo que existe a possibilidade de quando libertados deste jugo sanitário os nossos comportamentos rebentem ainda mais ferozes e persistentes como se de uma válvula de segurança momentaneamente aberta se tratasse. Mas eu não deixo de suspeitar que grande parte da quebra nos padrões de consumo se justifica porque dele não precisamos. Em rigor, há todo o consumo presencial que foi deslocado para o online. Porém, e ainda segundo os dados de Paulo Portas, esta deslocação continuava a não cobrir a diferença que a queda no consumo representa. Em suma, novos padrões de vida significam novas escolhas e prioridades.

Tais escolhas e prioridades estão muito longe ainda de ser totalmente compreendidas. Veja-se por exemplo o teletrabalho, e esta seria a segunda lição a retirar desta experiência. Tenho-me cruzado com relatos que afirmam a melhoria de produtividade bem assim de estado espírito em processo de teletrabalho. Invariavelmente as pessoas referem o bullying que deixaram de sofrer por parte das chefias directas, a acalmia dos seus ritmos diários de deslocação para os empregos, a maior concentração que a vida doméstica e isolada lhes permite. Em última análise, o teletrabalho revelou como a nossa experiência laboral não tem que ser conotada com o sacrifício cristão; que não tem que ser assumida como uma qualquer subida quotidiana do gólgota. E de facto, o trabalho e o ambiente em que este decorre deveria estar inerme a tudo o que nos sugasse as energias para caminhos não essenciais. Porém, se este é o lado bom do teletrabalho, ele contém também um potencial distópico que não é despiciendo. Desde logo as situações de teletrabalho constituem situações de monitorização permanente. O chamado tempo morto, caso se queira anulá-lo, pode perfeitamente ser controlado a partir dos servidores centrais que ligam os trabalhadores à base. O teletrabalho pode virtualmente não respeitar balizas de períodos laborais, ou seja, pode não obedecer a um horário delimitado. E finalmente, o teletrabalho pode (não tendo que ser necessariamente assim) precarizar ainda mais o vínculo laboral ao transformar o trabalhador num ente virtual sem ocupação dum espaço físico.

Por outro lado, e tendo em conta que os sectores que potencialmente se podem converter ao teletrabalho possuem as suas sedes nos centros das cidades, ele permitiria descongestionar esses mesmos centros. Permitiria, como se tem verificado com a paragem forçada, despoluir os centros das cidades cujo efeito, se já se apresenta visível em cidades médias como Lisboa, imagine-se como seria em Londres, Nova Iorque ou São Paulo. Contudo, há um reverso da medalha. A seiva dos centros das cidades actuais resulta justamente de deslocações quotidianas maciças de pessoas para o centro. Imagine-se o que seria Lisboa sem a ocupação laboral diária: o que seria do comércio, das actividades públicas, da cultura? Mas aqui abre-se nova oportunidade. E se os centros das cidades deixassem de ser os hubs empresariais e passassem a ser os lugares onde se habita? Sabemos que essa tem sido uma experiência cada vez mais procurada; infelizmente tem estado acessível apenas aos mais ricos. Mais uma encruzilhada. Sem turismo que inunde os centros das cidades – e isso está longe de ser exclusivo de Lisboa – os seus espaços e localizações deveriam tornar-se progressivamente mais acessíveis. Existirá de facto esta possibilidade de regressar à cidade dos bairros, mas desta vez sem ser um mimetismo apoiado em estruturas fortemente turistificadas ou de luxo?

Se é um lugar comum dizer que as crises transformam as sociedades e abrem novos caminhos, está longe de estar escrito na pedra que estes sejam sempre, ou sequer frequentemente, os melhores. A história está cheia de exemplos de crises que foram ultrapassadas caindo-se em situações piores ou onde os problemas anteriores, ao invés de encontrarem soluções, se agudizaram. Estamos porventura perante um período desses que exige que as perguntas certas tenham respostas justas.

Vai ficar tudo bem?

Vai Ficar Tudo Bem' | TVI lança vídeo emotivo

Alguns alimentam a esperança de que o mundo irá recomeçar dentro de momentos…nas mesmas condições em que o deixámos antes da pandemia. Creio que é uma falsa esperança. O mundo que virá depois da crise pandémica, será um mundo de múltiplas crises. Por isso, devemos considerar prematuro, quando não ingénuo, as declarações sobre um novo mundo que se avizinha – um mundo melhor, de solidariedade, dos afectos e do reencontro humanitário. A resposta mais cínica é, claro está: – Não, não vai ficar tudo bem.

Desde logo porque isto é o mundo, povoado de pessoas, seres humanos, que nunca variaram muito a sua natureza desde tempos imemoriais – e isto apesar de Marx nos querer convencer que um dia isso acontecerá. O primeiro sinal preocupante é dado pelos bancos. E por bancos entendamos os do FMI (ou seja os bancos americanos), os do BCE (ou seja, os alemães e os franceses, e em menor medida, os holandeses) e os nacionais (os daqui do burgo por exemplo). Começando pelo FMI, nunca a fila de mãos estendidas para os bancos americanos foi tão grande. O que significa que se mais não houver de novo na economia norte-americana, uma coisa é pelo menos certa: o endividamento mundial vai servir-lhe de colateral. Que é como quem diz de garantia. Dos bancos alemães podemos dizer a mesma coisa. Nunca o crédito foi tanto e em condições tão desequilibradas como será agora. Aliás, essa é a única razão pela qual o atrasado mental do ministro das finanças holandês quer impossibilitar um acordo que conduzisse à criação dos chamados eurobonds (ou, actualmente, coronabonds). Suspeita-se que os alemães estejam por trás, embora fazendo-se passar de brandos e inocentes cordeirinhos que estão muito incomodados com a falta de solidariedade dos holandeses. Na realidade, quer alemães, como finlandeses e os malfadados holandeses, têm todo o interesse que a retoma passe pelo mecanismo de estabilidade porque equivale a pedir emprestado o dinheiro aos seus bancos a juros nada benéficos para os devedores.  E finalmente, dos nossos bancos, dos bancos nacionais, haverá crédito para todos os gostos, não se sabe bem em que condições. Em resumo, uma economia da dívida a uma escala colossal.

Ninguém nos bancos irá ficar pobre. Bem pelo contrário. Os bancos, que foram salvos das imparidades através de titânicos programas de bail-out (resgate) irão fazer aquilo em que são especialistas, emprestar dinheiro e com ele especular. Note-se que nenhum banco disse que iria dar dinheiro, ou injectar dinheiro nas economias, sem as contrapartidas necessárias. Para a actividade bancária o covid-19 é uma bênção caída dos céus. Como diz o Krugman, como o consumo ficou on hold vai haver dinheiro a rodos para emprestar. E os bancos lá vão estar para aplicar os seus juros. O BCE vai abrir a torneira do dinheiro, mas como este não pode emprestar directamente aos governos nacionais, será aos maiores bancos europeus que irá emprestar. E estes por sua vez irão distribuí-lo a juros usurários.

No mercado de trabalho algo de semelhante se irá passar, mas com as carreiras laborais. No último livro de Zizek, Pandemic, regista-se que a China neste momento encontra-se a instigar (como é como quem diz a obrigar) as pessoas a trabalharem aos sábados e domingos. A grande recuperação do império do Oriente passa pela total anulação dos direitos laborais…mais ainda do que vinha a ser efectuado. Nós sabemos muito pouco da China. O que sabemos vem filtrado pela censura do Estado e das autoridades regionais. Por exemplo, dificilmente é crível o número de mortos divulgado pela China como vítimas da pandemia. Mas uma coisa é certa, a China funciona como diapasão actual para o mundo do trabalho. Esta instigação chinesa será replicada por inúmeras economias e actividades, à escala micro e macro. Expediente que irá colocar o trabalhador no papel de vítima da chantagem, quer da recuperação da economia, quer da viabilidade do seu posto de trabalho. Um exemplo prosaico pode servir de ilustração. Numa conversa ouvida algures numa esquina de Campo d’Ourique dizia o empregador que já abrira falência e que se encontrava a denunciar os 27 contratos que tinha a seu cargo. Estes 27 aceitarão piores condições de emprego, dando-se a oportunidade, para reaverem os seus postos de trabalho. Multipliquem isso pelas 400 mil empresas que se encontram actualmente em lay off e vejam o desequilíbrio de forças que em resultado das circunstâncias se instituirá entre empregadores e trabalho.

Um terceiro aspecto não menos consequente é a massagem ideológica a que todos nos estamos a sujeitar. O apparatus publicitário foi rápido a agarrar a oportunidade e como grande máquina ideológica que é (talvez a maior da contemporaneidade) debita incessantemente a sua formatação. De repente passámos a ser todos iguais; todos unidos na solidariedade humana contra o inimigo invisível. Todos partilhamos da casa das estrelas de televisão e telenovela. Todos fazemos parte desse reduto de intimidade a que as nossas casas dão forma. Os diversos programas online, desde reality shows como programas que possuíam audiência antes da pandemia, veiculam a mesma imagem: a de que no íntimo somos todos iguais. Mas não somos. Passar o confinamento obrigatório numa vivenda com jardim e piscina não é o mesmo que fazê-lo num T1 em Rio de Mouro. Para os ricos, com as suas reservas (algumas infindáveis tendo por horizonte o espaço de uma vida humana) a pandemia representa um curto interregno nas suas vidas de outra maneira atarefadas. Passear pelo centro de Lisboa é instrutivo. De repente há lugares para estacionar à noite, porque os ricos colocaram os seus bólides dentro das suas garagens. O trânsito entre a Lapa e as Amoreiras é pontuado por esparsos carros de alta gama que se deslocam para ir à padaria ou ao mercado. Sugere umas férias aldeãs dentro da própria cidade, com os jardins a ficarem despovoados e o comércio fechado. Não é por espreitarmos para dentro da casa uns dos outros que estamos menos desiguais. Essa pode ser uma fantasia que ajudará a encobrir os maiores abusos que se avizinham.

Finalmente, o cortejo de heroísmos e panegíricos aos nossos “soldados”. Devo dizer que não compro estes encómios babados a quem nos salva a vida. E é preciso antecipar que eles terão uma contrapartida social e económica no futuro. Primeiro, porque se há heróis nesta história eles são os políticos e os decisores dos vários serviços da administração que lidam directamente com a crise. Quem queria estar num lugar estratégico para a vida de milhões e navegar à vista sem qualquer cartografia reconhecível? Quem quereria tomar decisões que podem precipitar um país no caos e na morte ou serem felizes e atenuarem os males (já que anulá-los parece que não constitui alternativa)? Os enfermeiros? Os médicos? Sim, o trabalho é absolutamente meritório. Mas é isso que se lhes pede e que sempre se pediu: salvar vidas. Os procedimentos estão lá; o know-how dentro das limitações também; se a ruptura é atingida, como foi o caso da Itália ou dos Estados Unidos, as culpas a serem assacadas é ao Estado, aos seus representantes, e às más decisões por eles tomadas. Aliás, há quem ainda ache, munido de uma dose considerável de cinismo, que a exposição mediática de alguns decisores é questão de vaidade. Pense-se um pouco em como os jornalistas – eventualmente a única profissão fora do sector da saúde que se irá engrandecer – se transformaram em sanguessugas, na vigilância de um passo em falso de um político, de um decisor público no sistema de saúde, acoitados como velociraptores à espera de carne fresca para colocar em paragonas! Esta função de escrutínio que os jornalistas reclamam para si mesmo não tem qualquer efeito equilibrador e serve apenas para manter a grande máquina noticiosa em funcionamento acelerado (a única que acelerou em vez de cair na inércia).

Mas voltando aos grupos profissionais, será muito difícil, passada a crise, não atender às reivindicações, por mais absurdas, de médicos e enfermeiros. Aquela espécie de harpia do corpo dos enfermeiros, de nome Ana Rita Cavaco, já veio colocar as fauces à mostra dizendo que os enfermeiros não são respeitados a nível nacional. Serviu-lhe de grua a declaração do primeiro-ministro Boris Johnson sobre a indispensabilidade do enfermeiro português que o assistiu. Fôssemos nós menos parolos e uma tal afirmação teria soado aquelas paternalistas menções que os lords britânicos faziam relativamente aos seus súbditos indígenas na imperial Índia britânica: “Sem o meu escriturário Ravi Murthi a minha casa não teria futuro!” – quase que escuto. Assim o indispensável português, o caretaker da imperial Britânia, sublinhando que o sul está cá para cuidar dos velhos abastados do norte. Fora esta tergiversação, não nos enganemos, médicos e enfermeiros vão ser dos grupos mais reivindicativos numa conjuntura de penúria. E a nós não restará senão cumprir com o exigido. Quem se atreverá a negar a “coroa” aos heróis nacionais?

Chegados aqui, seria bom que nos debruçássemos com ponderação sobre a histeria que anuncia um novo humanismo. Em períodos de escassez, reza a história, as partes mais fragilizadas ficam ainda mais débeis; os desequilíbrios de poder tendem a pronunciar-se; o açambarcamento das oportunidades a consolidar-se. De alguma maneira, a corrida para a vantagem comparativa – o que guia o mundo e os mercados desde que o capitalismo ascendeu a modelo global – já teve início. Pôr a economia a funcionar quanto antes saindo da paralisia a que o vírus nos condenou representa uma vantagem perante todos aqueles que não conseguiram ainda sair dos picos das crises. As grandes potências, tais como os Estados Unidos ou a China, sabem perfeitamente que os elos de dependência e o lado para que estes penderão no futuro próximo são determinados por dias ou semanas de inércia. Quem conseguir enxotar a paralisia antes dos outros é quem firmará uma posição de predominância nos mercados globais. Não há solidariedade, nem comunismo, nem corresponsabilidade, nesta corrida. Trata-se, uma vez mais, da competição desenfreada que nos trouxe aqui e com a qual tudo indica pouco aprendemos.

O dia em que a terra parou

Temperaturas elevadas podem travar coronavírus - Ciência

É o título de um filme da década de 50 do século passado cujo remake mais recente teve como protagonista Keanu Reeves. O enredo tem as marcas de um outro tempo, um tempo onde as ameaças vinham de fora, neste caso do espaço infinito.

Quando olharmos com alguma distância para os dias actuais iremos recordar que estes foram os meses em que a terra parou – mas a ameaça era bem doméstica. Volvidos 4 meses do anúncio da epidemia na China, todos os países, mas literalmente todos, têm casos de infecção pelo covid-19.

Os países têm parado sequencialmente. Alguns protelam a decisão (caso da Rússia e do Brasil); outros avançam para ela aos primeiros sinais (caso de Portugal ou da Argentina). No entanto, paira no ar uma imensa apreensão. Vários sofrem por antecipação a hecatombe que se adivinha, enquanto outros deixam os filhos estampar arcos-íris nas janelas, reproduzidos em Twitters virais, a dizerem “vai ficar tudo bem”.

Não há memória de uma coisa assim. E até a comparação com a designada “economia de guerra” parece ficar bem aquém daquilo pelo qual estamos a passar. Numa economia de guerra há produção, concentrada em determinados sectores, e se alguma coisa, há uma reorientação do aparelho produtivo para produtos específicos, sobretudo armamento. Há também uma dinâmica colectiva onde uns são preparados para a frente de batalha e outros ficam nos bastidores a tratar das provisões dos primeiros. É certo que as comparações abundam: os profissionais de saúde são os nossos soldados e o material de que necessitam começa a tornar-se prioritário na reorganização de nichos do sistema produtivo. Tirando isso é todo um mundo que se encontra em confinamento obrigatório nas suas casas. Nada tem a ver com a mobilização gerada pelo contexto de guerra. A nossa guerra é assistir passivamente ao desenrolar da contaminação e como numa distopia de magnitude demencial cerrar os dentes e esperar pelo melhor.

Mas se a nossa vida parou por tempo indefinido, podemos no entanto ter a certeza de que, parafraseando aquele inefável momento em que Liza Minelli canta as suas angústias no New York New York, o mundo não para de rodar.  E neste movimento perpétuo teremos que estar atentos ao que aí vem, ao que se prepara, ao que alguns já congeminam. Ficando pelo nosso burgo e pelos problemas à escala nacional, não deixa de ser curioso como um conjunto de organizações, representantes dos grupos profissionais mais variados, se tem vindo a mobilizar para aquilo que se assemelha a um bodo aos pobres. De repente ninguém tem dinheiro. Aquelas confederações como a CAP ou a CIP, tão aguerridas em tempos de paz a combater o Estado e a limitar a sua intromissão na iniciativa privada, exigem do Estado, ou seja, de todos nós, um saco sem fundo de recursos. Chegámos ao ridículo de ver a ordem dos dentistas exigir dinheiro do Estado porque, dizem eles, as suas actividades estão paradas. Ora, não é preciso ser ministro da economia para saber que as clínicas privadas, sejam de dentistas sejam de outras especialidades, dão milhões de lucro. Onde está esse dinheiro? O mesmo para a CAP, onde estão os milhões das zonas vinícolas, das grandes explorações agrícolas, dos grandes latifundiários que enfeitam a nossa província com mansões e carros de luxo? E a CIP? Onde estão os milhões dos Amorins e Sonaes desta terra? O que eu quero dizer com isto é que circunstâncias excepcionais exigem medidas excepcionais. O dinheiro destas pessoas, o dinheiro das grandes fortunas ou mesmo das mais pequenas tem que ser obrigado a reentrar na economia.

Alberto Tórres, o muy lucido presidente da Argentina, afirmou recentemente que o coronavírus nos devia levar a reflectir que o tempo do êxito individual e de ganar plata (sic) deveria chegar ao fim – trata-se de instituir o tempo da solidariedade. Aqui a palavra não deve ser confundida com filantropia: caso em que Bill Gates decide retirar 100 milhões da sua colossal fortuna de 90 biliões de dólares para as necessidades impostas pela pandemia nos Estados Unidos. O que Tórres tem em mente é uma associação diferente, um contrato social de uma outra natureza. E neste sentido, as economias privadas devem ser chamadas a sustentar os alicerces da economia que sofrerão nos próximos tempos um desgaste inaudito. Não é admissível que os dentistas não se mutualizem para assegurar os seus postos de trabalho. Não pode ser o Estado a acorrer a todas as lacunas e dificuldades porque iremos passar. Não é admissível que os grandes agricultores não se organizem para suster a desgraça dos mais pequenos. E também não é admissível que os empresários se preparem para sugar os fundos do Estado sem porem nada deles.

É certo que 70% do tecido empresarial português é constituído por pequenas e médias empresas. Mais uma razão. Algumas destas empresas dão lucros muito significativos com custos exíguos. Não podemos ficar presos nesta chantagem de que as empresas não possuem dimensão suficiente. É justamente por isso que é viável exigir que as economias dos seus responsáveis entrem no plano de recuperação. Ou seja, isto não deve ser dado como opção, nem deixado ao voluntarismo do empresário, mantendo o ajuste com a lógica da iniciativa individual que nos guiou até agora. O dinheiro que estava a ser canalizado para andares de luxo, carros de alta gama, e património familiar deve ser obrigatoriamente direcionado para assegurar postos de trabalho. Como diz Tórres, não é mais tempo de ganar plata.

Não me interessa o que dizem os economistas. Os economistas são os mentores deste modelo insano que enriquece uns tantos e empobrece todos os outros. Por isso, a proposta da CIP de transformar garantias do Estado em subsídios a fundo perdido deveria ser avaliada caso a caso. Fazer chover dinheiro pode ser uma boa estratégia, mas desresponsabiliza os muitos que não querem perder os privilégios adquiridos em tempos de vacas gordas. Muitos estarão a pensar: eu não vou diminuir o meu nível de vida e espero que o Estado cubra o prejuízo. Muitos estarão já a deslocar o dinheiro para off shores e contas na Suíça, porque mais vale prevenir que remediar.

A reconstrução da sociedade tem de ser feita noutros moldes. Os avisos do papa podem soar muito caridosos, mas não passam, como sempre, de boas palavras sem qualquer efeito real. Os governos terão que se colocar ao lado daqueles que precisam e não dos ricos, como parece ser o timbre desde que a reaganomics ocupou o mundo. Saindo da Europa para a América Latina, aí o potencial de devastação é gigante. São milhões de pessoas cujos trabalhos – não se pode falar de empregos – são constituídos por biscates, ganchos, pequenos serviços. Toda uma economia informal incapacitada pela exigência de distância social. A desigualdade escandalosa da maioria de países como o Brasil, a Argentina, Colômbia, o Perú ou o Panamá, para ficarmos apenas pelos mais graves, terá de ser contrariada pelos governos, pela força se for preciso. Os ricos têm de deixar de viver nos seus castelos rodeados de favelas e villas e serem chamados a contribuir. Não basta dizer que são eles que dão o emprego. Essa justificação deixou de ser suficiente. Precisam de dar mais. Precisam, na realidade, de perder.

O Estado que pague a crise por inteiro?

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Como em qualquer crise os primeiros a sofrer os impactos da mesma são os mais pobres e precários. No caso da crise que presentemente atravessamos os impactos poderão ser catastróficos. Por isso julgo que seria importante distribuir estes mesmos impactos de forma mais justa e equilibrada.

Os mais ricos possuem reservas que lhes permitem suportar por tempos indefinidos uma paragem global da economia. São aqueles também que encheram as despensas e as arrecadações porque podem – porque têm dinheiro para açambarcar os produtos nos supermercados e porque têm grandes despensas e arrecadações. Mas para além disso, as suas reservas monetárias permitem-lhes não ter qualquer pressão para aquilo que se adivinha ser o ponto zero: quando as economias de muitas famílias chegarem ao limite.

Uma das coisas que devia ser imediatamente decretada é a suspensão do pagamento de todas as rendas quer de espaços comerciais quer habitacionais. Nisto inclua-se prestações bancárias e leasings comerciais. Há semanas saía uma notícia que dizia que o esforço para pagar a habitação ascendia a 56% do orçamento familiar da média das famílias portuguesas. Este é um esforço incomportável quando não se tem rendimento. Da mesma forma, não é aceitável que centros comerciais continuem a lucrar opiparamente com as rendas multimilionárias dos seus lojistas quando toda a actividade comercial se encontra congelada. Os únicos negócios que parecem vir a subsistir e a prosperar são as farmácias e os supermercados.

Da parte de empregadores e patrões deve-se também exigir um esforço adicional. Não é admissível que um sector como a restauração e a hotelaria que tem retirado lucros milionários desde o boom do turismo em Portugal venha exigir ao governo que intervenha dando dinheiro. Onde estão as fortunas acumuladas dos donos dos bares e restaurantes da moda? Onde estão as contas multimilionárias dos donos dos alojamentos e hotéis que enchem os centros das grandes cidades nacionais? Falta vergonha a esta gente da AHRESP! É tempo de irmos às contas de alguns senhores e obrigarmos a cederem parte dos rendimentos acumulados que lhes serviram durante o tempo das vacas gordas para engrossar os seus patrimónios: em apartamentos de luxo, carros de luxo, vidas de luxo. Isto pode parecer aquele ataque populista “dos ricos que paguem a crise”. Na verdade é um repto à justiça progressivamente enviesada pelo sistema em que vivemos. Um sistema que desequilibra quase tudo para o lado do capital em detrimento do lado do trabalho. Ouvir eminentes chefes de cozinha a vangloriarem-se de terem dispensado 75% do seu pessoal assegurando assim as condições sanitárias do protocolo de combate ao vírus e nem nos perguntarmos o que acontece então a estas pessoas? – isso é um exemplo de insensibilidade social descarada. Ouvir um tão conhecido quanto ordinário chefe multimilionário dizer que o governo não tem tomates para fechar os restaurantes sem lhe perguntarmos o que está a fazer para acautelar a vida dos seus empregados – agora dispensados – e das suas famílias, é desequilibrar a balança dos valores indispensáveis à dignidade humana.

A AHRESP quer que o governo dê 1000 euros por cada empregado, sensivelmente o equivalente ao ordenado mínimo mais prestações sociais. Pois eu acho que o governo deveria garantir as prestações sociais e obrigar os empregadores a manterem os ordenados. No geral estes postos de trabalho são precários e mal pagos. Incompreensivelmente, dado que é dos sectores que mais dinheiro dá actualmente em Portugal. Parece óbvio que este dinheiro está a encher os bolsos de alguns. Por isso, seria óbvio também, que numa altura de máxima fragilidade social, esses “alguns” fossem chamados a contribuir mais.

O argumento é o do peso da carga fiscal no funcionamento das empresas. Argumento useiro e vezeiro que não leva em conta que esta é mais que reposta pelos baixíssimos ordenados. Houve recentemente um pacto tácito entre governo e confederações patronais: os impostos mantinham-se, e o ordenado mínimo subia menos (bem menos) do que era possível. Pois bem, a crise está à porta e vai adensar-se de tal maneira que a palavra catástrofe já assoma aos lábios de muita gente. Esta não deve ser suportada apenas e só pelo Estado: o saco que leva porrada diariamente em virtude dos ensejos libertários dos cidadãos, mas que depressa é convocado quando a coisa está a correr mal. Creio que numa situação como a actual, quem tem mais deve contribuir com mais.

É tempo de repor justiça social.