O Estado que pague a crise por inteiro?

Image result for presidente da ahresp

Como em qualquer crise os primeiros a sofrer os impactos da mesma são os mais pobres e precários. No caso da crise que presentemente atravessamos os impactos poderão ser catastróficos. Por isso julgo que seria importante distribuir estes mesmos impactos de forma mais justa e equilibrada.

Os mais ricos possuem reservas que lhes permitem suportar por tempos indefinidos uma paragem global da economia. São aqueles também que encheram as despensas e as arrecadações porque podem – porque têm dinheiro para açambarcar os produtos nos supermercados e porque têm grandes despensas e arrecadações. Mas para além disso, as suas reservas monetárias permitem-lhes não ter qualquer pressão para aquilo que se adivinha ser o ponto zero: quando as economias de muitas famílias chegarem ao limite.

Uma das coisas que devia ser imediatamente decretada é a suspensão do pagamento de todas as rendas quer de espaços comerciais quer habitacionais. Nisto inclua-se prestações bancárias e leasings comerciais. Há semanas saía uma notícia que dizia que o esforço para pagar a habitação ascendia a 56% do orçamento familiar da média das famílias portuguesas. Este é um esforço incomportável quando não se tem rendimento. Da mesma forma, não é aceitável que centros comerciais continuem a lucrar opiparamente com as rendas multimilionárias dos seus lojistas quando toda a actividade comercial se encontra congelada. Os únicos negócios que parecem vir a subsistir e a prosperar são as farmácias e os supermercados.

Da parte de empregadores e patrões deve-se também exigir um esforço adicional. Não é admissível que um sector como a restauração e a hotelaria que tem retirado lucros milionários desde o boom do turismo em Portugal venha exigir ao governo que intervenha dando dinheiro. Onde estão as fortunas acumuladas dos donos dos bares e restaurantes da moda? Onde estão as contas multimilionárias dos donos dos alojamentos e hotéis que enchem os centros das grandes cidades nacionais? Falta vergonha a esta gente da AHRESP! É tempo de irmos às contas de alguns senhores e obrigarmos a cederem parte dos rendimentos acumulados que lhes serviram durante o tempo das vacas gordas para engrossar os seus patrimónios: em apartamentos de luxo, carros de luxo, vidas de luxo. Isto pode parecer aquele ataque populista “dos ricos que paguem a crise”. Na verdade é um repto à justiça progressivamente enviesada pelo sistema em que vivemos. Um sistema que desequilibra quase tudo para o lado do capital em detrimento do lado do trabalho. Ouvir eminentes chefes de cozinha a vangloriarem-se de terem dispensado 75% do seu pessoal assegurando assim as condições sanitárias do protocolo de combate ao vírus e nem nos perguntarmos o que acontece então a estas pessoas? – isso é um exemplo de insensibilidade social descarada. Ouvir um tão conhecido quanto ordinário chefe multimilionário dizer que o governo não tem tomates para fechar os restaurantes sem lhe perguntarmos o que está a fazer para acautelar a vida dos seus empregados – agora dispensados – e das suas famílias, é desequilibrar a balança dos valores indispensáveis à dignidade humana.

A AHRESP quer que o governo dê 1000 euros por cada empregado, sensivelmente o equivalente ao ordenado mínimo mais prestações sociais. Pois eu acho que o governo deveria garantir as prestações sociais e obrigar os empregadores a manterem os ordenados. No geral estes postos de trabalho são precários e mal pagos. Incompreensivelmente, dado que é dos sectores que mais dinheiro dá actualmente em Portugal. Parece óbvio que este dinheiro está a encher os bolsos de alguns. Por isso, seria óbvio também, que numa altura de máxima fragilidade social, esses “alguns” fossem chamados a contribuir mais.

O argumento é o do peso da carga fiscal no funcionamento das empresas. Argumento useiro e vezeiro que não leva em conta que esta é mais que reposta pelos baixíssimos ordenados. Houve recentemente um pacto tácito entre governo e confederações patronais: os impostos mantinham-se, e o ordenado mínimo subia menos (bem menos) do que era possível. Pois bem, a crise está à porta e vai adensar-se de tal maneira que a palavra catástrofe já assoma aos lábios de muita gente. Esta não deve ser suportada apenas e só pelo Estado: o saco que leva porrada diariamente em virtude dos ensejos libertários dos cidadãos, mas que depressa é convocado quando a coisa está a correr mal. Creio que numa situação como a actual, quem tem mais deve contribuir com mais.

É tempo de repor justiça social.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s