E se de repente alguém lhe oferecesse flores?

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(cena do filme Oblivion)

O artigo de Miguel Sousa Tavares oferece-nos uma utopia ao jeito da melhor ficção científica na qual o mundo da tecnologia dá lugar ao reencontro com a vida. Os exemplos são inúmeros: desde o antigo Last woman on earth até aos mais recentes Oblivion ou Elysium, o tema é recorrente. Para Sousa Tavares a disseminação do vírus covid-19 tem por efeito um recuo benéfico de todo o excesso que torna as nossas vidas insuportáveis. Diz ele: “não é possível continuar a assentar um futuro sustentável numa fórmula que se traduz em mais, mais e sempre mais, de tudo: mais população, mais queima de resíduos fósseis, mais emissões poluentes, mais contaminação dos oceanos, mais desflorestação, mais incêndios, mais aviões nos céus, mais turismo de massas, mais agricultura intensiva, mais cidades megalómanas. É difícil não concordar com este elenco. O problema é que aquilo que MST omite na sua lista é eventualmente aquilo que sustenta a impossibilidade de mudar de vida assim mudando o mundo.

Por uma razão que não é imediatamente perceptível, MST escusa-se a acrescentar à sua lista “mais produção, mais consumo, mais dinheiro”. Omissão estranha. Pois esta é a tríade que faz funcionar todas as outras – é ela que activa por igual, até ao paroxismo, os outros elementos mencionados. A razão pela qual estas três dimensões não integram a lista pode até estar ligada a um paradoxo implícito na cabeça de MST que lhe terá assomado ao espírito, se bem que de forma inconsciente: chama-se a impossibilidade (quando não proibição) de parar o crescimento económico. Terá talvez MST pensado por momentos que dizer isto equivaleria a ser vergastado ou por vegan ou pior por socialista radical. Basicamente, o seu enunciado poderia ser reformulado da seguinte maneira: “não é possível continuar a assentar um futuro sustentável numa fórmula que se traduz em mais, mais e sempre mais…economia! Nesta pequena palavra está lá tudo contido. Trata-se no fundo de resgatar o mundo aos ditames (não éticos!) da economia.

É preciso fazer dinheiro, para que as pessoas tenham emprego, para que possam fazer mais dinheiro, e assim sucessivamente. A China conseguiu em pouco espaço de tempo forçar esta tendência em todo o seu esplendor. Era justamente quando se discutia uma vida menos dependente do trabalho que surge a China a mostrar que só há trabalho na vida. No momento (por volta dos anos 80) em que se começavam a pensar os primeiros modelos de empregabilidade generalizada através da redução do tempo de trabalho, chega a China e impõe que se deve trabalhar 24 sobre 24 horas. E assim deixámos para trás as ilusões de uma utopia humanizadora e passámos a dedicarmo-nos ao trabalhinho – porque a nossa política é o trabalhinho! Não nos açoitem pelo turismo de massa. Num mundo em que a interrupção do trabalho é celebrada como um solstício de verão numa tribo primitiva, não deve haver grandes dificuldades em perceber a obsessão com as férias de sonho!

O que impede MST de completar o seu elenco é a dificuldade em estar dentro e fora em simultâneo. Algo que não o atormenta só a ele, mas que eu diria é extensível a todos nós. Gostamos demasiado das bendições do consumismo para que as rejeitemos por princípio.

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