E agora, para algo completamente diferente – o pânico!

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Há indesmentíveis parecenças entre italianos e portugueses. Não é apenas partilharmos da mesma base da dieta alimentar, como o azeite, os queijos, as azeitonas, etc., mas são traços de carácter, porventura transplantados pela nossa convivência secular.

Lá como cá, perante as primeiras ameaças do covid-19, era tudo uma grande chocarrice – os colegas faziam piadas com a (suposta) paranóia dos menos incautos; o machismo latino proferia enunciados de nunca descer à vileza de usar máscaras – o disparate! – os serviços públicos e privados assobiavam para o alto, dizendo reconfortados: isso só acontece nos outros lados. Na televisão então, um cortejo de opinantes personagens a mofarem do pânico e a provarem-nos que o covid-19… – o quê? O covid-19? Isso não passa de uma simples gripe! Naqueles programas onde três ou quatro caras larocas são pagas para que se pronunciem sobre tudo e mais um par de botas, dizia-se que a pior coisa do covid-19 era o pânico! Tudo o resto era ilusão.

Porém, lá como cá, quando acontece, quando a coisa zombada se torna realidade, cai o pânico mais absoluto e destribado. E começou.

Nos supermercados os bons dos portugueses que olhavam com desdém a mariquice dos chineses a usarem máscara, começaram a açambarcar comida. É ver contas de 200 e 300 euros a serem pagas por mães que já antecipam um qualquer inverno nuclear com os filhos no lar paterno e sem irem à escola. Certos produtos a deixarem apenas as etiquetas com os seus nomes identificativos nas prateleiras das lojas.

Aos poucos o fenómeno covid-19 vai ganhando contornos. A informação que circulava a conta-gotas, dado que cautelas e caldos de galinha são bons conselheiros, vai-se espraiando mostrando com que verdadeiras linhas se cose a epidemia. Ficamos a saber que sim, o covid-19 é bem mais mortal que a gripe sazonal; que há uma probabilidade de 80% da humanidade vir a ficar infectada nos próximos anos; que as vítimas, embora prevaleça o teste da juventude, são também ceifadas fora da coorte dos idosos; que o vírus dissemina-se a uma velocidade bem maior do que o do gripe normal, com a agravante dos seus sintomas só se anunciarem muito depois. Registe-se apenas a blague cometida por inúmeros comentadores de atribuírem uma mortalidade ao vírus sazonal da gripe de 1% quando na realidade ela cifra-se em 0,1%. Compare-se agora com a tx de mortalidade de 3% em alguns locais do mundo (em particular Itália) e temos uma tx de mortalidade real 30 vezes superior à da gripe sazonal!

Paulatinamente, a bonomia latina que assevera que isso só acontece aos outros é substituída pela preocupação canina pela própria família. Outro traço vincado dos italianos – o familismo que tão fortes e esturdias raízes plantou no seio de fenómenos como a máfia. Lá como cá, a solidariedade entre privado e público é mínima ou inexistente. Melhor ilustração não há do que a entrevista feita ao presidente das instituições de saúde privada que garantiu aos portugueses que poderiam contar com a solidariedade destas instituições dado que tem 5.000 camas disponíveis. A pagar claro! Ou seja, afiançou que podiam contar com ele e o seu rancho para garantirem 5.000 negócios mais! É de se tirar o chapéu a tanta abnegação.

E lá como cá, o Estado leva com o ónus. Porque o Estado é ladrão na maior parte dos dias…excepto quando é o único a providenciar recursos essenciais à vida. Associações patronais e de comerciantes exigem a intervenção do Estado sob pena do descalabro! Lá como cá, os privados compram ouro e dólares para garantirem os seus activos perante a diluição bolsista; o Estado que pague o pato que é para isso que ele lá está.

A única coisa que espero sinceramente é que cá não cheguemos ao patamar de crise que se vive actualmente por lá. Espero.

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