Da estúpida necessidade de um referendo

(escultura de Mark Collen)

As pessoas aprendem. As instituições aprendem. Os colectivos aprendem. E nesse sentido é notório como o movimento que integra a visão pela insubstituibilidade da vida humana, representado na esfera pública fundamentalmente pela igreja católica e seus correlegionários, aprendeu com o debate sobre o aborto.

Desde logo, veja-se como a discussão se deslocou da substância de argumentar contra a eutanásia para a substância da necessidade do referendo. Várias são as vozes – se exceptuarmos Cavaco, com o tacto de um elefante numa loja de porcelanas – que invocam a necessidade do referendo invertendo os termos do problema: não é o objecto do referendo que necessita ser justificado, é o referendo enquanto objecto que ganha privilégio. Vemos assim proliferarem declarações sobre os usos e necessidades da prática da democracia representativa mostrando que nada é mais livre do que dar a palavra às pessoas. Da liberdade de escolher o que individualmente posso fazer com a minha vida, passa-se para a liberdade de opinar sobre esse mesmo assunto. É um subterfúgio interessante, um truque se quisermos, que carece de sustentação. Porquanto muito pouca coisa é referendada na actividade normal de governo, a insistência no referendo sobre a eutanásia não pode ser baseada na imprescindibilidade do instituto do referendo para a boa condução da democracia. Na realidade, este subterfúgio é estratégico mediante a fraqueza dos argumentos apresentados contra a legislação da eutanásia. Se para o aborto a argumentação fluía mais confortável na medida em que se podia brandir a impossibilidade de escolha do nascituro como razão forte para o seu impedimento, fica sem capacidade justificativa este discurso quando o actor que assim é convocado não só tem capacidade de escolha como o que se pretende é dar-lhe o direito a escolher. Por isso é que a oposição à eutanásia é duma fragilidade significativa quando comparada com o aborto. Muito embora os grupos e a estrutura do argumento sejam semelhantes, o pomo da discórdia no aborto, a saber, a incapacidade de um ser vivo poder escolher, é anulado na questão da eutanásia.

Daqui reside uma confusão que desmonta facilmente o argumento da necessidade de ampliar os cuidados paliativos. Possam ou não ser estes melhorados, continuo a ter a escolha de não querer viver sob determinadas condições. Se, para o movimento pro vida, o sentido da vida é gravemente afectado – e com ele um qualquer cimento social que nunca é bem identificado – pela “banalização da morte”, ele pode igualmente ser maculado para quem considere que as condições em que se encontra deixaram de fazer sentido. Não há de facto maneira de resolver de uma vez por todas a atribuição de sentido objectiva vs subjectiva da vida. Não há maneira de dizer que aquilo que é do interesse da sociedade se deve sobrepor à minha vontade quando esta não interfere na esfera de liberdade de outrem. Apenas num totalitarismo platónico a nossa subjectividade deve ser vergada à objectiva vontade do todo social. Os católicos podem achar que aprovar a eutanásia viola a sua representação do que deve ser uma vida digna, mas não têm de maneira nenhuma o direito de imporem essa representação a quem considera que a sua subjectividade se sobrepõem à crença de um colectivo. Neste preciso sentido é a imposição de uma determinada mundividência que macula verdadeiramente o sentido da vida, e não a possibilidade de eu escolher se me revejo ou não nessa interpretação.

O caso Marega

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Não quero parecer o André Ventura. Não tenho qualquer apetência para aquelas justificações de chico-esperto que quadram tão bem num eleitorado que se revê na chica-espertice. Segundo Ventura o poder político grita racismo por contraste com o povo português naturalmente tolerante e esforçado. E veja-se como Ventura cada vez tem menos pruridos em mostrar exactamente donde vem e onde quer chegar. Diz ele: não podemos fazer o discurso dos coitadinhos das minorias em detrimento do povo trabalhador e pagador de impostos! O que pressupõe que as minorias – sejam lá elas quais forem – não trabalham nem pagam impostos. Para o Ventura os únicos que trabalham são os polícias e os bombeiros. Por isso incito da próxima vez que o Ventura for a um centro comercial ser servido por um afrodescendente que lhe atirem com um balde de merda para cima.

Dito isto, quero centrar-me no essencial do caso Marega. Primeiro, actualmente é complicado ser racista no futebol. É como querer ser racista na NBA. Quase todos os clubes, se exceptuarmos alguns clubes de leste onde a variedade pós-colonial não chegou, têm jogadores negros. Donde nos teremos que perguntar porquê aqueles alvos do racismo e não outros? Por exemplo, a Alemanha de extrema-direita nunca registou casos de racismo contra Koman ou Alaba ou Dembelé; jogadores do Bayern e do Borussia respectivamente. Se Balotelli foi alvo de insultos racistas, o mesmo não se pode dizer de Quadrado da Juventus ou Sadiq do Roma. A França racista não regista ataques a Mbappé, Evra ou Kouassi, para varrermos diferentes gerações. Como poderia ser possível ser racista enquanto adepto do Lille cujos jogadores são quase todos negros? Por isso, regresso à questão que coloquei no início do parágrafo: porquê estes e não outros?

Balotelli é um jogador desprezível, arrogante, mal-educado. Dani Alves, vítima do célebre episódio das bananas, nem sequer negro é, quando comparado por exemplo com um jogador dos Camarões ou do Mali. Koulibali, o defesa do Nápoles, não é propriamente um jogador de low profile e por diversas vezes manisfestou atitudes que se podem considerar repreensíveis. E chegamos a Marega.

Marega é o profissional da simulação de faltas, de fingir penaltis e de se atirar para o chão, com o corpo que parece um bulldozer, ao mínimo toque. É portanto um jogador que concita o pior nas equipas que defrontam o Porto. Julgo que os adeptos do Guimarães teriam inclusivamente muita dificuldade em ser racistas quando o seu plantel integra um número muito considerável de negros. Se é facto que as coisas na vida não são geométricas e que o que mais a caracteriza é a ambiguidade, seria como fazer a quadratura do círculo: ser racista em relação a Marega e não ser em relação a Junior Tallo ou a Sacko?

Resumindo, o insulto é racista, disso não restam dúvidas. Mas não se trata de existir racismo no futebol. O anti-semitismo não distinguia os nossos judeus dos judeus dos outros – todos os judeus eram inferiores e por isso descartáveis. O racismo da América colónia não admitia excepções entre negros superiores e inferiores. A inferiorização fazia parte do sistema cultural e simbólico que sustentava a exploração. O que se passa nos estádios de futebol tem uma natureza diferente. E nesse sentido, e infelizmente concordando com André Ventura, não é um efeito do racismo estrutural da sociedade portuguesa, que está em disputa se existe ou não. São insultos racistas que singularizam, que é justamente o contrário do que faz o racismo enquanto fenómeno estrutural que é generalizar. Por isso, conclua-se, quando olharmos para estes casos tomemos em consideração quem deles está a ser vítima.

Eu thanatos II

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Sobre a eutanásia escrevi o essencial aqui. Nada se modificou entretanto, com a excepção de uma força ultraliberal que entrou no parlamento e que, coerentemente, defende o direito de podermos dispor da nossa vida. Essa força – a iniciativa liberal – mostra que estamos em presença de um cds menos igreja. Mas há a igreja conservadora que emerge novamente pela voz de ninguém mais do que a múmia de Boliqueime – Cavaco Silva. Custa a crer que este homem dominou os destinos da nação durante tantos anos. Chamar a eutanásia a “coisa mais grave que alguma vez foi votada no parlamento” é não somente falta de honestidade, como de carácter. Cavaco Silva, que deu todo o respaldo à ofensiva passista aos nossos direitos, considera a eutanásia “a coisa mais grave” alguma vez decidida pelos deputados da nação.

O discurso contra a eutanásia coze-se pelas mesmas linhas do discurso contra o aborto. Em ambos se invoca uma putativa defesa da vida que encobre o facto de nenhum dos actos ser obrigatório. Trata-se, isso sim, de legislar sobre a liberdade de dispor do nosso próprio corpo. Ambos se tingem dessa tonalidade apocalíptica que aponta para o fim das coisas tal como as conhecemos caso aceitemos legislar sobre as suas opções. O aborto deve servir de exemplo para a discussão da eutanásia. Liberalizou-se o aborto e, contrariamente ao que profetizava a igreja conservadora representada na esfera pública por movimentos como o pro-vida, o apocalipse não desceu sobre a humanidade. Actualmente ninguém se lembra que o aborto se encontra perfeitamente enquadrado na legislação; e não se lembra justamente porque foi normalizado. Ou seja, contrariamente às previsões de catástrofe iminente, o número de abortos não aumentou, as mulheres fazem-nos em condições medicamente assistidas, e ninguém anda a esconder-se em vãos de escadas. São sempre os actos transgressivos que colidem com a censura social. Normalizem-se estes, e eles passam a integrar comodamente a estrutura de valores. Com a eutanásia passar-se-á a mesma coisa.

A falha de carácter de Cavaco Silva fica completamente exposta quando se pensa que este homem que era fanático pelos custos do Estado, propõe fazer um referendo que vai custar milhões ao erário público, para legislar um acto que não é universal – apenas o seu direito passará a ser.

Parasitas

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Depois de ter Cannes a seus pés, chegou a vez de Hollywood entronizar o realizador Bong Joon-Ho. Dizem-se várias coisas sobre este prémio. Que representa a abertura ao mercado asiático; que Hollywood finalmente está a ficar menos chauvinista, etc. A verdade é que sempre houve pruridos com sobrepor o prémio de Cannes e o melhor filme de Hollywood. Por exemplo, em 1976, Scorcese ganha Cannes com o Taxi Driver, mas não ganha o melhor filme em Hollywood (apenas a nomeação). Haveria realmente um competidor à altura de Taxi Driver nesse ano? Para Hollywood sim – foi Rocky, com o afamado Silvester Stalone. O puro desconchavo de dar o oscar de melhor filme a uma mediocridade como Rocky no ano de Taxi Driver mostra que a oscarização nada tem que ver com qualidade cinematográfica.

Mas este ano, e perante a magreza de propostas que saíram de Hollywood, prevaleceu o bom senso e o julgamento estético. Não havia nada à altura de Parasitas. Nem as propostas de Tarantino, nem de Sam Mendes, conseguiam ofuscar aquilo que era patentemente visível: uma pobreza de produção cinematográfica saída dos fornos de Hollywood.

Creio, no  entanto, que para além disso, outras razões se impuseram. O prémio dado a Parasitas prende-se com um novo espírito hollywoodiano que podemos designar como um esquerdismo liberal das elites. Sim, aquilo que Trump passa a vida a criticar nos seus comícios. Julgo mesmo que o que mais apelou para as boas-graças da academia foi a ambiguidade de Parasitas.

Desde logo porque a grande questão que se coloca ao filme de Bong Joon-Ho é a de saber quem são os parasitas? Neste sentido o filme é demasiado inteligente, não sabemos se propositadamente ou por acaso. O traço fundamental de parasitas é que ele pode suscitar uma identificação dos dois lados da barreira da luta de classes. Ele pode suscitar uma identificação pela parte dos ricos e bem-sucedidos, na protecção do que é seu e das suas famílias. Porém, e da mesma forma, ele pode suscitar uma identificação da parte dos despossuídos da terra. Para a consciência de Hollywood isto tem duas leituras: primeiro há uma identificação com o lugar de classe para sempre ameaçado pelas classes perigosas. Até porque o velho tema do século XIX das classes perigosas se insinua no filme do realizador coreano. Os ricos, na sua pacatez benevolente são perturbados por insidiosos oportunistas que se querem valer da sua riqueza sem para isso nada terem contribuído.

Mas há, inversamente, um apelo à solidariedade com os desvalidos que assenta que nem uma luva na consciência social dos ricos de Hollywood. A desumanização a que os pobres de parasitas são sujeitos sob risco de não sobreviverem toca a corda da solidariedade universal tão ao jeito das campanhas das estrelas de Hollywood. E isto representa apenas cinismo e não mais que cinismo? No ano de empeachment a Trump, de uma verdadeira comoção intelectual por parte das elites de Hollywood contra os abusos de poder associados ao governo republicano, Parasitas coloca as coisas em perspectiva. E qual é essa perspectiva? A noção clara de que uns se servem dos outros e que a velha problemática da exploração, ao estilo marxista, regressa enfeitada de novas roupagens. Seria estulto dizer que se trata de um filme marxista. Parasitas não é um filme marxista como o é, por exemplo, o Godard do Filme socialismo. E não se trata de uma questão de falta de garra ou de amplitude intelectual e política. A visão asiática, se compreendermos esta como algo novo que já surgia em Shoplifters, que arrecadou a Palma de Ouro de Cannes em 2018, é algo distinto: uma mistura de humanismo do quotidiano com consciência social… mas sem o véu da teoria.

Shoplifters é melhor filme que parasitas, mas não ganhou o melhor filme de Hollywood. Tematicamente, os filmes cruzam-se. Quer num quer noutro, a ideia de querer pertencer, ou melhor, de pessoas que não têm lugar, estrutura a narrativa. Não estamos longe das personagens de Mike Leigh cujo falhanço é a única relação real que possuem com a vida. Mas Parasitas e Shoplifters partilham ainda outra coisa: nós sabemos que em ambos as vidas daqueles que habitam centralmente os filmes são mentira. E aqui a crítica não é feita aos ricos, numa suposta denúncia de uma vida de aparências que esconde as fracturas da infelicidade e incompletude humana. Esse é um tema caro ao cinema de Hollywood dos anos 30 e 40 e podemos encontrá-lo com grande insistência na escrita de Fitzgerald. Nos dois exemplos asiáticos a relação é a inversa: são os pobres que fingem vidas.

O que significa que se trata exactamente do contrário do marxismo, na medida em que negam o postulado da necessidade de quebra com a falsa consciência. Existir na sociedade actual, para alguns, apenas pode ser feito nos interstícios, nos subterrâneos, nas sombras. Contraste-se a luminosidade da casa da rica família coreana com a cave onde vivem os pobres que se enche de dejectos após uma inundação.

Nesta visão asiática não há uma identificação colectiva, um sujeito se quisermos, algo que perpassa em alguma cinematografia de Ken Loach. O núcleo de solidariedade é invariavelmente a família. De tal forma que, em Parasitas, são as famílias que se digladiam; são as famílias que constituem ameaças iminentes umas das outras. E é pela humilhação do laço familiar que tudo se precipita na cena final.

Parasitas – um filme a rever.