Iran schock and awe

Image result for demonstrations in tehran after plane crash

Se há algo de trágico-cómico no conflito com o Irão – que não chegou a ser – é a demonstração plena da fragilidade do país dos ayatollas. Depois de nos encherem os ouvidos com o perigo terrível que era o poderio militar do Irão, de como este país dispunha de um exército ímpar na região, ou de como o seu regime facínora militarizava a sociedade, com que demonstração de força ficámos? Com o abate de um avião cheio de passageiros iranianos que faz estremecer o regime como nunca antes se vira no reinado dos ayatollas. Posto que este desastre é a revelação da fraqueza iraniana. Tanto externa como interna. O Irão como um demónio armado até aos dentes é uma imagem que interessa aos norte-americanos disseminar para consumo externo; mas interessa igualmente aos ayatollas manter para consumo interno. Num acto inglório de belicismo desorganizado, ambas as imagens se quebraram. Facto é que de uma potência bélica não se espera que o seu primeiro acto de guerra seja derrubar um dos seus aviões. Isso parece mais algo saído do soldado schweick caso a sua época fosse apetrechada com mísseis e drones.

A tragédia, que não pode ter outro nome, é por isso tanto uma tragédia para os familiares das vítimas como para o regime. Do lado das vítimas, mesmo os cidadãos canadianos eram quase todos iranianos, com dupla nacionalidade, na sua maioria, académicos, professores, investigadores, ou seja, gente altamente qualificada. Do lado dos iranianos, não existe informação, mas foram as principais vítimas. Os ucranianos contam-se pelo pessoal da tripulação, e depois acrescentam-se quatro britânicos, alguns de ascendência iraniana, também. Do ponto de vista militar foi um tremendo desastre.

O regime sabe isso. Tenta agora disfarçar o facto fazendo declarações altissonantes, prometendo punição exemplar e, dir-se-ia, divina. O problema é que a brecha já se encontra aberta. As pessoas que se manifestam nas ruas de Teerão, não querem apenas justiça pelo erro militar, querem justiça pela mentira com que têm sido alimentadas por um regime que não tem a força que apregoa ter. Querem justiça pelos sacrifícios que fizeram para alimentar essa mentira. E querem justiça porque estão cansadas pelo regime iraniano se encontrar fora do mundo. Mas se este acontecimento despoletou uma mistura de ira e cansaço na população, a desconfiança perante o regime não é de agora.

Quando em 2005 estive em Teerão, as mil e uma maneiras de minar as estratégias de controlo do regime aconteciam com a practicidade da esperteza de comerciantes. Se o regime proibia a internet, era certo e sabido, que nas traseiras de diversas lojas havia um computador ligado à www, cuja utilização era permitida mediante a negociação de um preço. Se o regime angariava jovens às portas das escolas para as suas manifestações contra Israel e a favor do Hesbolah, era fácil encontrar algum destes jovens a dizer que ia, mas com a plena consciência que aquilo não lhe interessava para nada. Ou seja, um conjunto de estratégias silenciosas, sub-reptícias, internas, por vezes, que minavam sistematicamente a pretensão a um poder total. De tal forma que, se era verdade que havia polícia secreta que vigiava, também era facto que a população os denunciava em restaurantes e cafés. Ou seja, as micro-resistências há muito estavam presentes na sociedade iraniana. Mas o que a estas foi concedido nas últimas semanas, foi a justificação para se tornarem macro-resistências, movimentos de massas que, tal como nas primaveras árabes, revolucionem a sociedade.

É facto que nenhuma das primaveras árabes teve o desfecho ambicionado. Do Iémen ao Egipto, da Tunísia à Síria, os movimentos de rebelião foram ou esmagados ou transformaram-se em soluções políticas ainda mais despóticas do que as anteriores. Nenhuma delas deu frutos viçosos ou cravos vermelhos. Há poucas razões para antecipar um desfecho distinto no caso iraniano. Desde logo, porque se o regime iraniano tem menos poder militar do que aquilo que gosta de apregoar, o mesmo não pode ser dito do seu poder económico e de influência na região, sobretudo no que concerne ao domínio sobre grande parte da comunidade shiita. Mas economicamente o poder do Irão não se encontra apenas nas suas imensas reservas petrolíferas; o Irão possui as segundas maiores reservas de gás natural do mundo. É muito provável que juntamente com os russos sejam eles a dar as cartas no futuro energético do mundo.

Internamente as manifestações multiplicam-se. É justamente quando a maior abertura do governo de Rouhani permitia uma agenda mais reformista que, num efeito toqueviliano, se preparam as condições para a sublevação. A confissão do erro e as desculpas públicas por algumas das patentes militares da guarda revolucionário mostram que o regime precisa de encontrar outras bases de legitimidade que não sejam apenas a imposição religiosa.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s