E Jesus (não) desceu à terra

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Jesus foi canonizado. Há quem diga que há muito o merecia. Mas também é certo que o homem passa de santo a sacana, de besta a bestial, num ápice. Entrementes, levou a Libertadores e o brasileirão de uma assentada. E isso, como era esperado, ou Jesus não fosse Jesus, encheu-lhe o ego. No entanto, é certo que a entrevista que deu em conferência de imprensa logo a seguir à vitória foi, em termos jesuíticos, conservadora e contida. Haverá um jesuitismo recente em Jesus. Claro que não! Jesus foi igual a ele próprio, mas com mais subtileza.

Bem pode Jesus dizer que a Libertadores é a Champions que só se está a enganar a si mesmo. Não, não é Jesus, e tu bem o sabes. Não é a mesma coisa jogar contra o LDU Quito ou o Emelec do que jogar com uma Juventus ou um Borusia de Dortmund. Assim como o Flamengo e o River Plate estão a anos de luz de um Man City ou de um Barcelona. A dificuldade das competições é incomensurável.

Mas se ficarmos pela Libertadores, bem pode Jesus fazer a prece aos peixinhos sobre os treinadores portugueses, porque na realidade são os argentinos que têm limpado a competição. E para sermos sérios, o Flamengo não jogou nada, ou no léxico de Jesus, não jogou bola! Levou um baile do River Plate que mostrou que jogava bem mais futebol do que a equipa de Jesus. O estranho, bizarro, atípico golo que deu a vitória ao Flamengo foi aquilo que se chama uma vaca do tamanho de um comboio. Ou seja, Jesus deveria ter tido a humildade de admitir pelo menos, por breves segundos que fossem, que o River jogou bem mais bola do que o seu Flamengo.

Mas Jesus é Jesus. E com ele um rebanho de idiotas que veio para a televisão tecer loas ao treinador maravilha como se tivéssemos descoberto as américas uma segunda vez. É que se de um lado estava Jorge Jesus que já treinou esses clubes estratosféricos como o Amora, o Benfica ou o Sporting, do outro estava Gallardo que já treinou o Mónaco ou o PSG. De facto, no campeonato da bazófia ninguém ganha a Jesus. Ou não? De comentadores jornalistas, a antigas glórias do futebol comentaristas, houve unanimidade na presunção e bebedeiras de água benta. Se por um lado, Jesus “despertou o monstro adormecido” que era o Flamengo; já chegou ao Brasil com “toda a sua competência” e “introduziu um novo espírito no futebol” brasileiro. Mais respeitinho, que é bonito. O Flamengo foi a pátria de um Ronaldinho ou de um Romário e  da geração maravilha que ganhou o campeonato do mundo em 1982 onde figuravam nomes como Zico ou Júnior. Sem dúvida que se não fosse por Jesus ninguém conheceria o Flamengo.

Claro que fiquei contente pelo Flamengo. O River ganhou o ano passado a Libertadores e juntamente com o Boca Juniors são uma espécie de Benfica/Porto que limpam tudo o que há para limpar entre portas. Contudo, há o factor Jesus que ao contrário do que a carneirada portuguesa diz, estraga a pintura toda. Jesus nunca foi para um grande porque ninguém tem pachorra para aquela pose de idiota. Treinadores a sério como um Guardiola ou um Klopp não precisam daquilo para nada. Só a taradice portuguesa e a megalomania de um Bruno de Carvalho é que colocou Jesus entre os dez mais bem pagos treinadores da Europa aos comandos do… Sporting. Achar que Jesus chegou à América e ensinou os índios a jogar futebol é de uma mesquinhez presunçosa que só se usa em Portugal. Só comparável a vencer a Libertadores com a bandeira portuguesa às costas – o homem é uma rematada besta.

A quantidade de idiotas que desfilou ontem pelas televisões a dizer bacoradas sobre a valia superlativa dos treinadores portugueses… Já Mourinho, regressado ao campeonato da bazófia, prometeu a cup ao Totenham já para o ano seguinte, para no fim de semana contíguo às suas declarações se ver à rasca para ganhar ao West Ham. Será que ainda não perceberam que esse registo está esgotado?

Jesus continua: – Foi uma vitória do povo português. Sério? Imaginam o Rafinha quando ganhou a Bundesliga pelo Bayern Munchen a dizer que foi uma vitória do povo brasileiro? Não, ninguém imagina. Apenas as luminárias futebolisticamente cantantes da nossa amada pátria acham que a vitória do Flamengo equivaleu a uma vitória do povo português. Continuamos parvos e colonialistas anacrónicos. Alguém se lembrou de dizer a Jesus que o Flamengo já ganhara uma vez, em anos pretéritos, a famigerada libertadores? E pasme-se com um treinador brasileiro. Somos bisonhamente provincianos, e chafurdamos no provincianismo com um gosto labrosta.

A final da Libertadores de dia 23 de 2019 vai ficar para a história como o dia em que o anão Flamengo bateu o gigante River. Não foi com astúcia; tão-pouco com coragem. Foi com uma sorte desgraçada! Porém, notem os adeptos do Flamengo o seguinte: de Jesus espera-se tudo e o seu contrário. Hoje está no Flamengo, amanhã pode estar no clube rival. Não tem problema nenhum com isso, porque Jesus tem a ética de um cágado. Na Europa, o único que lhe vai abrir as portas será o Porto. E com certeza é isso que já se prepara nos bastidores.

Parabéns ao Flamengo que não tendo ganhado com justiça – bem longe disso – fez uma festa tão linda que só por isso merece o prémio. Tenho no entanto pena duma coisa: o aproveitamento feito por Bolsonaro da vitória do seu Flamengo foi assustador. Desde os caças que escoltaram o avião da equipa rubro-negra dando as boas-vindas em nome da força aérea até à sessão de fotografias com a polícia de choque do Rio de Janeiro no mesmo dia da chegada, é tudo muito aterrador.

Parabéns ao Fla! Mas vitória do povo português? Ó Jesus – vai-te foder!

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