O Livre e as causas perdidas

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Se há um corredor na assembleia da república que se chama Passos perdidos, poderíamos ironizar e dizer que a primeira deputada do Livre a ter assento parlamentar é a mulher das causas perdidas.

Parece que as posições e intervenções de Joacine Moreira têm causado algum incómodo no seio do Livre. Já não é só André Ventura a indignar-se contra a saia do assistente de Katar Moreira, é também um inconfessado mal-estar que se faz sentir no interior do próprio Livre. E não se pense que é por causa da gaguez de Joacine, aquele handicap que tanto importunou João Miguel Tavares, ou da energúmena saia. Não. Dizem as más línguas jornalísticas que a reacção surge porque não concordam com a agenda proposta por Joacine. E o que é esta agenda afinal de contas? Segundo a crítica, um excessivo enfoque nas questões do feminismo e do racismo.

Para ser honesto, prefiro ver esta insistência não como uma obsessão de agenda política, mas antes como um espaço cinzento de ignorância discursiva. A questão não seria: a Joacine está apostada em impor a sua agenda pessoal? Passaria a ser: e se a Joacine não soubesse falar de mais nada?

É comum na academia as pessoas fazerem das suas mundividências as suas agendas de investigação e bem assim a sua identidade no espaço académico. Esta focagem excessiva nos ossos de um ofício reduzido a um quinhão de pensamento que corresponde à nossa tão diminuída como mesquinha visão de académicos passa a ser o sinalizador no campo académico. Ele passa também a esconder uma profunda ignorância sobre tudo o resto. A coberto dos benefícios retóricos da especialização, da publicitação granjeada por ser autoridade numa só matéria, das possibilidades disseminadoras que a opinião publicada tem na pública, engendra-se uma mundividência como única possibilidade de diálogo e estreita-se o espaço epistemológico a essa arbitrariedade. E aqui é que está o problema: é que ela é arbitrária – ela escolhe canalizar o seu foco para um tema determinado.

Por isso a omissão de Joacine na questão palestiniana é sobretudo uma omissão ignorante. A Palestina não pertence ao espaço de especialização de Joacine e logo ela não tem nada a dizer sobre o tema. Mesmo que em retrospectiva afirme que sabia muito bem como tomar posição, não o fez porque esta não se encontra reflectida na sua agenda político-académica.

Não digo que questões como racismo e feminismo sejam de somenos. Não são. Mas não esgotam o mundo. Da mesma forma, a ruptura de Mamadou Ba com o BE reflecte precisamente esta concentração num fulcro problemático deixando tudo o resto para a qualidade duvidosa de epifenómeno. Pois se Mamadou Ba rompeu com o BE por causa da celeuma em torno do comportamento da polícia no bairro da Amora, no Seixal, significa que nada mais no BE possui capacidade identificatória com o antigo assessor político. O que é estranho.

Certamente que as pessoas levam para os partidos fragmentos das suas experiências de vida e do seu activismo. Essas experiências multifacetadas enriquecem a militância. Se num partido como o PSD a militância é enriquecida pela partilha de experiências empresariais e de negócio, formatando assim a ideologia do próprio partido, é natural que num partido de esquerda a militância seja enriquecida pela imersão nas causas sociais e no activismo. Porém, um partido não é, nem pode ser, um polo de activismo tout court. Sobretudo quando este tem assento parlamentar, as suas obrigações e responsabilidades tornam-se extensíveis à gama de problemas sociais, económicos, culturais, políticos que se encontra subjacente a um governo nacional. Partir do princípio que problemas como o racismo ou a desigualdade de género esgotam este leque infindo de questões é perfeitamente reducionista.

E Jesus (não) desceu à terra

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Jesus foi canonizado. Há quem diga que há muito o merecia. Mas também é certo que o homem passa de santo a sacana, de besta a bestial, num ápice. Entrementes, levou a Libertadores e o brasileirão de uma assentada. E isso, como era esperado, ou Jesus não fosse Jesus, encheu-lhe o ego. No entanto, é certo que a entrevista que deu em conferência de imprensa logo a seguir à vitória foi, em termos jesuíticos, conservadora e contida. Haverá um jesuitismo recente em Jesus. Claro que não! Jesus foi igual a ele próprio, mas com mais subtileza.

Bem pode Jesus dizer que a Libertadores é a Champions que só se está a enganar a si mesmo. Não, não é Jesus, e tu bem o sabes. Não é a mesma coisa jogar contra o LDU Quito ou o Emelec do que jogar com uma Juventus ou um Borusia de Dortmund. Assim como o Flamengo e o River Plate estão a anos de luz de um Man City ou de um Barcelona. A dificuldade das competições é incomensurável.

Mas se ficarmos pela Libertadores, bem pode Jesus fazer a prece aos peixinhos sobre os treinadores portugueses, porque na realidade são os argentinos que têm limpado a competição. E para sermos sérios, o Flamengo não jogou nada, ou no léxico de Jesus, não jogou bola! Levou um baile do River Plate que mostrou que jogava bem mais futebol do que a equipa de Jesus. O estranho, bizarro, atípico golo que deu a vitória ao Flamengo foi aquilo que se chama uma vaca do tamanho de um comboio. Ou seja, Jesus deveria ter tido a humildade de admitir pelo menos, por breves segundos que fossem, que o River jogou bem mais bola do que o seu Flamengo.

Mas Jesus é Jesus. E com ele um rebanho de idiotas que veio para a televisão tecer loas ao treinador maravilha como se tivéssemos descoberto as américas uma segunda vez. É que se de um lado estava Jorge Jesus que já treinou esses clubes estratosféricos como o Amora, o Benfica ou o Sporting, do outro estava Gallardo que já treinou o Mónaco ou o PSG. De facto, no campeonato da bazófia ninguém ganha a Jesus. Ou não? De comentadores jornalistas, a antigas glórias do futebol comentaristas, houve unanimidade na presunção e bebedeiras de água benta. Se por um lado, Jesus “despertou o monstro adormecido” que era o Flamengo; já chegou ao Brasil com “toda a sua competência” e “introduziu um novo espírito no futebol” brasileiro. Mais respeitinho, que é bonito. O Flamengo foi a pátria de um Ronaldinho ou de um Romário e  da geração maravilha que ganhou o campeonato do mundo em 1982 onde figuravam nomes como Zico ou Júnior. Sem dúvida que se não fosse por Jesus ninguém conheceria o Flamengo.

Claro que fiquei contente pelo Flamengo. O River ganhou o ano passado a Libertadores e juntamente com o Boca Juniors são uma espécie de Benfica/Porto que limpam tudo o que há para limpar entre portas. Contudo, há o factor Jesus que ao contrário do que a carneirada portuguesa diz, estraga a pintura toda. Jesus nunca foi para um grande porque ninguém tem pachorra para aquela pose de idiota. Treinadores a sério como um Guardiola ou um Klopp não precisam daquilo para nada. Só a taradice portuguesa e a megalomania de um Bruno de Carvalho é que colocou Jesus entre os dez mais bem pagos treinadores da Europa aos comandos do… Sporting. Achar que Jesus chegou à América e ensinou os índios a jogar futebol é de uma mesquinhez presunçosa que só se usa em Portugal. Só comparável a vencer a Libertadores com a bandeira portuguesa às costas – o homem é uma rematada besta.

A quantidade de idiotas que desfilou ontem pelas televisões a dizer bacoradas sobre a valia superlativa dos treinadores portugueses… Já Mourinho, regressado ao campeonato da bazófia, prometeu a cup ao Totenham já para o ano seguinte, para no fim de semana contíguo às suas declarações se ver à rasca para ganhar ao West Ham. Será que ainda não perceberam que esse registo está esgotado?

Jesus continua: – Foi uma vitória do povo português. Sério? Imaginam o Rafinha quando ganhou a Bundesliga pelo Bayern Munchen a dizer que foi uma vitória do povo brasileiro? Não, ninguém imagina. Apenas as luminárias futebolisticamente cantantes da nossa amada pátria acham que a vitória do Flamengo equivaleu a uma vitória do povo português. Continuamos parvos e colonialistas anacrónicos. Alguém se lembrou de dizer a Jesus que o Flamengo já ganhara uma vez, em anos pretéritos, a famigerada libertadores? E pasme-se com um treinador brasileiro. Somos bisonhamente provincianos, e chafurdamos no provincianismo com um gosto labrosta.

A final da Libertadores de dia 23 de 2019 vai ficar para a história como o dia em que o anão Flamengo bateu o gigante River. Não foi com astúcia; tão-pouco com coragem. Foi com uma sorte desgraçada! Porém, notem os adeptos do Flamengo o seguinte: de Jesus espera-se tudo e o seu contrário. Hoje está no Flamengo, amanhã pode estar no clube rival. Não tem problema nenhum com isso, porque Jesus tem a ética de um cágado. Na Europa, o único que lhe vai abrir as portas será o Porto. E com certeza é isso que já se prepara nos bastidores.

Parabéns ao Flamengo que não tendo ganhado com justiça – bem longe disso – fez uma festa tão linda que só por isso merece o prémio. Tenho no entanto pena duma coisa: o aproveitamento feito por Bolsonaro da vitória do seu Flamengo foi assustador. Desde os caças que escoltaram o avião da equipa rubro-negra dando as boas-vindas em nome da força aérea até à sessão de fotografias com a polícia de choque do Rio de Janeiro no mesmo dia da chegada, é tudo muito aterrador.

Parabéns ao Fla! Mas vitória do povo português? Ó Jesus – vai-te foder!

Numa ânsia colectiva de tudo fecundar/

 

Morreu José Mário Branco. Mas o José Mário Branco já tinha morrido há uns tempos. Assim como o Sérgio. Em vez deles apareceram os músicos de excepção, os arranjadores ímpares, os experimentalistas únicos, “o homem que passou o tempo a lançar sementes” e outros encómios que são prodigalizados na hora dos grandes homens entregarem os ossos à terra. Ela que faça deles o que quiser. Mas a sua morte já tinha sido celebrada. Quando o José Mário Branco passou a orquestrar Sei de um rio, e deixou de dizer Que se foda o futuro! E não é que o José Mário Branco não nos tivesse brindado, através do Camané, com umas das mais lindas melodias em fado cantado. Mas era um José Mário preocupado com o futuro – demasiado preocupado com o futuro.

E assim a desilusão. O inconformismo do José Mário foi dando lugar ao seu lugar na terra, como o esqueleto que ainda pousa o seu peso sobre ela e procura encostar-se a um lugar agradável. E quem o poderia censurar. Mais do que ele fez era difícil. O José Mário Branco inconformado com o estado das coisas, aquele que os manda para o caralho no FMI, esse primou pela ausência em data de exéquias e epitáfios.

Vieram os historiadores da música, os especialistas no nacional-cancionetismo, os oráculos da composição medieval. Porém, nenhum deles disse que esta merda se tornara insuportável. Que depois do final da última grande ilusão, este pasto requentado que nos é servido não tem substituto. Afinal o José Mário Branco já o tinha profetizado: – Deixa-te de políticas, que a tua política é o trabalhinho! A cantiga deixara de ser uma arma, e O Astro – vejam bem há quanto tempo andava também por aqui o FMI – entrava pela porta das traseiras. E é engraçado que comendo nós merda, continuamos a ouvir uns cabrões cheios de guito com a lengalenga da produtividade para não serem esmifrados nuns míseros 35 euros. É a produtividadezinha! – então como agora.

A cantiga já não era uma arma: vieram os Anjos a Ágata o Rui Veloso e as intermináveis tardes de domingo nos canais de televisão. Aquele lixo telegénico amontoado semana após semana. E as coisas multiplicaram-se. E na sua multiplicação, definharam, cada qual em múltiplos iguais, reproduzindo mediocridade e definhamento. E por isso o José Mário Branco pôde dizer, ainda com 37 anos, que queria ficar sozinho. Mas não queria. Na realidade queria que as suas companhias fossem outras – outro mundo, outros horizontes. Tanta ilusão alimentada para resultar em tamanha desilusão.

Que diria o José Mário Branco das carcaças senis que pululam nas televisões se não andasse de braço dado a fabricar fados com a canção da moda? Do Miguel Sousa Tavares preocupado com o englobamento das rendas e rendimentos de capitais porque diz acabaria com o mercado de arrendamento e com a poupança de quem tem dinheiro. Eis algo absolutamente extraordinário: não se taxa porque se extrai dinheiro a quem o tem! E eu a julgar que essa era justamente a precisa definição de taxação. O Haiti já não é aqui, mas o fmi ainda está por aí.

Adeus José Mário Branco. Falta ir o Sérgio e fecha-se um episódio da história de Portugal. Hoje até o mofo ultraconservador do Observador te tece loas quando, fosse esse o caso, gostaria de te ver bater com os ossos na prisão.

Por qué no resistes, España?

(retirado de El País, 12/11/2019)

Com as eleições espanholas do passado domingo ficou provado que no chamado espectro da direita moderada se acoitam em boa verdade as forças mais reacionárias e extremas desse mesmo quadrante. Não surge, creio, como propriamente uma novidade para grande parte dos espanhóis. Com efeito, durante o governo de Aznar, há muito que tais tendências eram notórias – um franquismo reciclado de patriotismo moderno era sobejamente audível. O governo de Rajoy travou de alguma maneira esta inclinação; mas ela nunca deixou de estar em fermento no seio dessa mesma direita que se dizia moderada. O mesmo com o CDS em terras de Portugal. Apresentando-se sempre como parte da direita dita moderada, o que mostra a sua implosão? A distribuição por forças radicais de direita do seu eleitorado.

A direita moderada de Rivera que deu corpo à experiência política chamada Ciudadanos afinal não era mais do que um tubo de ensaio para o eleitorado do Vox, o partido assumidamente de extrema-direita. Nem isto nos deve surpreender, ou não tivesse sido esse mesmo Ciudadanos que se apressou a firmar uma aliança com o Vox na Andaluzia. É certo que lá se encontrava o Partido Popular de Casado, mas quem deu o primeiro passo vou ninguém mais do que Rivera. Há uma certa justiça poética no desfecho eleitoral com o quase desaparecimento do partido de Rivera e com a retirada da cena política pelo próprio. Seria essa a sensação, caso não estivéssemos perante a experiência que colocou a extrema-direita num governo pós-franquista. Mas como disse, o rescender a franquismo de certas forças e tendências nunca incomodou a direita espanhola. O casamento estava aprazado; só faltava o momento certo.

Os espanhóis que deram os números estrondosos ao Vox saíram quer do Ciudadanos quer do PP. A questão catalã obviamente que motivou esta translação. Mas o facto mais fundamental é que a direita moderada não existe.

E isso foi fundamentalmente entendido por Sánchez. Depois de titubear numa dança patética com os Ciudadanos que nunca tiveram a mínima intenção de sustentar um governo PSOE, finalmente vê a luz. Certamente que a dureza dos factos, a evidência do falhanço retumbante da sua estratégia, obrigou-o a olhar directamente para essa mesma luz. Afinal, Sanchéz convencido que sairia reforçado destas eleições, saiu ainda mais debilitado. Por isso o abraço entre Pedro Sanchéz e Pablo Iglesias de Unidas Podemos possui um duplo significado. Por um lado, mostra que Sanchéz percebeu (finalmente) que sem se coligar à esquerda o seu PSOE desapareceria. Também António Costa, sem a geringonça, teria condenado o PS a uma imensa travessia no deserto. Por outro lado, mostra que a única forma de conter o parasitismo eleitoral da extrema-direita é mostrar a acção de um governo forte de esquerda. Se este resulta, como se viu em Portugal, a direita pouco ou nada tem para oferecer.

É claro que há forças dentro do PSOE extremamente incomodadas com o pacto de governo entre os socialistas e Unidas Podemos. Lá como cá, os Francisco Assis defendem igualmente a preferência por alianças com a dita direita moderada – ou seja: aquela que não existe.

Mas a lição vale agora pela inversa. Se Portugal mostrou que através da geringonça era possível uma concórdia das esquerdas; Espanha mostra actualmente a Costa e ao seu PS que é possível governos de coligação à esquerda. Seguramente, a ideia de ter Pablo Iglesias como vice-presidente do executivo nacional deve ser como facas espetadas no coração de Abascal ou de Casado. É um bofetada de luva branca naqueles que se apressaram a dizer em noite eleitoral que Sanchéz deveria fazer as malas.

Há perigos. O PSOE possui tendências bem mais excêntricas do que o PS português. O PSOE tem uma tradição de blocos centrais que o PS nacional não tem. Invariavelmente, contudo, os blocos centrais sempre prejudicaram o PSOE.

Em Espanha as elites possuem um papel ainda mais marcado do que em Portugal. O corte com o franquismo não foi efectuado da mesma maneira que com o salazarismo. Fraga y Ibarre quando forma o seu Alianza Popular, o embrião do PP actual, trazia consigo sete ministros dos governos de Franco. Impensável no Portugal democrático. Aquilo que a direita designou como o “franquismo sociológico” está de regresso com Abascal e o Vox. É contra este movimento insidioso que sempre lá se encontrou nos bastidores políticos da direita espanhola que a nova aliança entre Sanchéz e Iglesias deve posicionar-se. A luta tem que ser feita à esquerda e não com soluções pífias e dúbias como os Macrons que abrem o flanco à extrema-direita com o seu posicionamento pretensamente não ideológico, i.e., para além da esquerda e da direita – o espaço próprio do populismo.

Que possam medrar as intenções de Iglesias e Sanchéz e que o seu governo resista aos ventos e marés que se prevêem encapelados.