A saia da prima

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Grande comoção que se gerou pela saia do assessor de Joacine Katar. Pessoalmente, acho uma atrasadísse mental um gajo ir de saia para o parlamento. E bem pode o assessor Rafael Martins dizer que em Oxford não se faz tanto alarido por uma saia – basta ver a fotografia compostinha que o investigador tem na sua página de Oxford para o desmentir. A CML disse que D. Afonso Henriques usava saia. E noutras publicações asseverou-se que para os romanos, usar calças era crime. Tudo certo. Mas no tempo da saia do D. Afonso Henriques dava-se porrada e violavam-se as mulheres por dá cá aquela palha; e no tempo dos romanos, lançavam-se cristãos aos leões para serem devorados como espectáculo para a populaça. Tudo certo, portanto. Talvez Rafael Martins se tenha deixado empolgar pelo facto de pertencer ao departamento de História Medieval da prestigiada universidade britânica.

Seja como for, aparecer de saia no parlamento é uma provocação de beto infantil. É um anarquismo dos costumes que não serve para nada e que é infirmado com certeza noutros corredores onde Rafael se movimenta. Mas tem consequências. E essas já começam a fazer-se sentir. Um assessor de saia, que acompanha uma deputada gaga, é prato cheio para a direita populista de Ventura. Rafael não fez rigorosamente nada pela causa trans-pan-cis, o que seja; mas fez muito pelo tempo de antena de Ventura. Quer isto dizer que a esquerda deve estar refém dos sobressaltos e achaques do sô Ventura? Não. Mas deve evitar dar combustível para a carboração do populismo nascente.

Don’t cry for them Argentina

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Da esquerda para a direita: Bolsonaro e Maurício Macri, presidente da Argentina 

O macrismo deixou um mar de destroços. Pobreza (35,4% e atingir os 40% até final do ano); desemprego acima de 20%; desnutrição infantil a níveis de alguns países africanos. Como foi isso possível?

Já aqui falei que a Argentina é um país em que todos colaboram para a sua implosão económica. Um país não pode sobreviver quando tem o equivalente a duas vezes o seu PIB fora de fronteiras. Mas para isto não contribuem apenas os grandes grupos económicos, que são para todos os efeitos os principais perpetradores da sangria. O problema é que desde o pequeno comerciante ao profissional liberal não há quem não tenha dinheiro no estrangeiro. Dólares obviamente. O ciclo é diabólico. Se se junta pesos suficientes para trocar por dólares acto contínuo coloca-se esse montante no estrangeiro. A saída da moeda faz desvalorizar o peso. E quando o peso desvaloriza ganham-se fortunas quando se troca as poupanças em dólares de regresso ao peso. Mas em vez de reter os pesos valorizando a moeda nacional pela compra, o único intuito é rapidamente comprar mais dólares afundando novamente a relação cambial do peso. Chamaríamos a isto uma micropolítica do enriquecimento ilícito.

Outra coisa foi a ultraliberalização da Argentina levada a cabo pelo macrismo nos últimos 4 anos. E 4 anos foi o necessário para deixar o país novamente preso por um cabelo. O fantasma do corralito espreita a qualquer esquina onde haja um cambista. A implosão económica é real. E se bem que acompanha uma generalizada implosão da América Latina – as sempre veias abertas do continente – ainda não se expressa por violência nas ruas. Isto porque os argentinos são um povo essencialmente criativo e de inegável apuramento estético.

Se assim não fosse, como compreender que em vez de pedras e cocktails molotovs nas ruas de Buenos Aires, haja performances políticas decalcadas de bem orquestradas campanhas ao sabão em pó? A que me refiro? À campanha levada a cabo pelo colectivo político peronista Les Jóvenes (os jovens) que levaram ao metro de Buenos Aires performances estudadas de telefonemas onde se queixam da situação do país. Todos articulados para tornar a performance grandiosa: num metro inteiro são escutados por multidões. Sim, porque outra coisa seria levar a cabo uma campanha desta no metro de lisboa, onde durante quase todo o dia só andam turistas e jovens estudantes sonolentos. Para quem andou no metro de Buenos Aires sabe que em duas horas de percurso pode chegar a contactar com várias dezenas de milhares de pessoas. O alcance de uma tal campanha não pecará com certeza por falta de público.

Outras performances têm sido realizadas em Buenos Aires: flash mobs contra o macrismo, graffitis com mensagens políticas e outras actuações mais avulsas. O que possuem em comum é que ocorrem em paralelo com as acções tradicionais, tais como manifestações e greves. O facto de um terço da população votante argentina se encontrar no intervalo entre os 16 e os 30 anos não é alheio a estas novas expressões da campanha política. Se os seus pais vão para as manifestações da CGT (a confederación general del trabajo) a maior confederação sindical argentina, os seus filhos, formados na performatividade dos youtubers e nas mensagens rápidas do instagram, deliciam-se com performances de rua, danças e outras expressões do reinado apropriadamente descrito como da subpolítica.

Se os peronistas querem captar este eleitorado indeciso às vésperas das eleições para reforçarem o candidato presumivelmente vencedor (assim mostram as 24 sondagens realizadas) Alberto Férnandez, é porque foram estes mesmos jovens que sustentaram a onda macrista há quatro anos atrás. Também aqui o Cambiemos, o partido de Macri, se apresentou com grande parafernália colorida, o melhor da técnica e das redes sociais, para passar a mensagem da mudança. É claro que não necessitava da rua como os peronistas, porque afinal de contas as televisões e os principais jornais nacionais estão a seu soldo. Aliás, o trabalho de desgaste contra Cristina Kirchner só teve a intensidade que revelou porque as televisões do regime se articularam para fazer uma barreira de fogo à deputada peronista. Teria havido um desfecho muito idêntico ao do Brasil caso a classe média argentina não fosse ainda peronista e não a facção traiçoeira da emancipação social que se revelou ser no Brasil. Se Lula cai pela traição da classe média brasileira orquestrada pelos media; Cristina segura-se pelo apoio da classe média argentina contra a operação mediática. Duas formas de organização social e suporte estrutural do justicialismo político, ou seja, da intervenção do poder judicial na definição dos destinos políticos destes dois países.

O peronismo uniu-se na argentina porque a destruição estrutural do macrismo assim o exigia. Um pouco como cá a geringonça emergiu para estancar a sangria social dos tempos de Passos e Relvas. Creio que estes e Macri teriam muito em comum na forma como vêem a sociedade, com a diferença que o argentino acumulou uma fortuna colossal. Tirando essa minudência, ambos crêem que é preciso libertar os ricos do jugo do controlo estatal, dar-lhes rédea solta para investirem, e que  mais cedo ou mais tarde isso beneficiará a sociedade. Se já não lemos a Bíblia a pensar que Job foi tragado pela baleia, porque lemos Adam Smith como se fosse o décimo primeiro mandamento? Mistério que algum economista ortodoxo algum dia esclarecerá. Não será com certeza contra a evidência que os ricos invariavelmente enriquecem e que o trabalho que sustenta esse enriquecimento invariavelmente empobrece quem dele vive. Santo Marx que tão mal aproveitado foste para as manipulações soviéticas e chinesa!

Na Argentina passou-se isso mesmo: os ricos engordaram gargantuescamente; os pobres aumentaram indecentemente. Que grande parte da sociedade argentina trabalhe “en el negro”, ou seja, no sistema informal, apenas significa que aquilo que está à tona não é suficiente para sustentar uma família. Os esquemas paralelos medram numa sociedade em que a fuga ao estado e aos seus mecanismos de controlo é o bê-à-bá da acumulação de capital. E mais uma vez insisto, não se trata apenas dos grandes grupos económicos como grande parte da esquerda – designadamente a argentina – gosta de pensar. Estes são esquemas capilares, aceites por todos como inscritos na natureza das coisas. Quer isto dizer que o Estado é perfeitamente ineficiente na Argentina, que o primado da lei é minado pela anarquia das vontades e dos esquemas individuais? Nem tanto. Mas quer dizer que o Estado, descapitalizado, esvaziado dos seus recursos pelas “obrigatórias” reformas estruturais das agendas neoliberais, possui de facto dificuldades de penetração na sociedade argentina. Mas desenganem-se aqueles que pensam que estamos perante um Estado fraco. O Estado legado pelo peronismo foi o organismo que permitiu que a economia subsistisse e crescesse mesmo que sustentada em salários de miséria e precariedade. A imensa máquina de subsidiação que foi o Estado peronista (não sei se terá condições de o voltar a ser) funcionou como o tampão contra a derrocada social. Nos tempos dos Kirchner, tanto de Nestor como depois da sua mulher Cristina que lhe sucedeu, a água, a electricidade e o gás eram subsidiados; até os bilhetes de futebol eram subsidiados! O macrismo pretendeu, à boa maneira das reengenharias sociais e das doutrinas do choque, desestruturar sem um período transitório, todo este edifício…mantendo contudo salários de miséria para tornar, diz a cartilha, a economia mais competitiva. É certo que estes mecanismos sobreviveram ainda no início da era macri. Porém, a economia não cresceu, e os subsídios foram retirados na mesma. A única coisa que cresceu foi a inflação, situando-se actualmente ao nível dos 53% anuais, a mais alta da América Latina, logo a seguir à Venezuela.

Espada ou parede?

 

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O PS está entalado entre a sede de poder da direita e o rancor da esquerda. Prevejo que os próximos anos não vão ser de salutar coabitação com nenhum dos quadrantes. Por um lado, uma esquerda que se vê remetida para o papel de oposição porque o PS determinou que a agenda de reformas possíveis segundo o tenor da esquerda tinha encontrado os seus limites. Por outro, um PSD que quer secar o PS na sua própria cama de Procusto. Qual Teseu dos tempos actuais, o castigo a infligir a este PS da estabilidade será cortar-lhe as pernas enquanto assiste calmamente ao corte da cabeça por parte do quadrante oposto. Bem pode o PS espernear por estabilidade que tal ajuste não lhe vai ser concedido. Ao deitar fora o bebé com a água do banho no formato geringonça, o PS termina uma experiência que definiu a salvação dos partidos socialistas numa conjuntura de crise crónica dos mesmos. Os exemplos da França, Espanha, Grécia ou Áustria são suficientes para relembrar que o processo de desgaste dos socialistas tem razões estruturais similares. A geringonça foi justamente o que travou esse processo. Mais do que concitar um realinhamento segundo uma ajuda de esquerda, a geringonça impediu o desgaste provindo dos dois quadrantes – esquerda e direita – que é sistematicamente o que destrói os partidos socialistas na Europa. O PS não tendo obtido uma maioria absoluta nestas eleições, não a obterá mais. Isto porque se nas condições económicas em que a geringonça deixa o país, o PS não recolhe os favores da maioria, como será numa conjuntura menos favorável?  E ela aproxima-se – política e economicamente.

Por isso não é de somenos o enterro da geringonça. Ao contrário do que diz Ricardo Paes Mamede acho que a geringonça não serviu o seu propósito e já está – porque o propósito desta era bem mais amplo do que aquele que o PS acabou por lhe imprimir. Ao ficarmos todos com a sensação que a geringonça foi apenas um projecto instrumental o que aqui se mata não é apenas a concórdia das esquerdas, é a imaginação sociopolítica da alternativa. A geringonça prometeu que a TINA (there is no alternative!) era apenas uma imposição ideológica. Ao mostrar que sim, que havia uma alternativa, rompeu essa camisa de forças ideológica e permitiu-nos pensar fora do modelo TINA. Se ofereceu aquilo que prometeu? De certo não o fez em toda a sua plenitude. Mas a possibilidade de cruzar operação política, pragmática do espaço da política (discursivo) com o campo político (definições e posições de poder) no interior de uma lógica de esquerda constitui sem dúvida uma das brisas mais salutares dos últimos decénios em matéria de transformação política.

O Bebé e a água do banho não eram portanto pouca coisa.

Reflexo disso mesmo são os vermes que começam a sair debaixo das pedras, mas dentro do próprio PS. Um deles, talvez o mais significativo, é Francisco Assis. O ex-deputado Assis sempre teve um complexo passista com a geringonça. Como Passos também julgava que vinha aí o diabo. O diabo não veio, e como com Passos, as pessoas no seu quotidiano acabaram por não lembrar os nomes nem deste nem de Assis. E estava bem – porque quer um quer outro não são necessários para nada. Com esta solução minoritária, Assis parece querer fazer o seu grande comeback. No público escreve um artigo em que expressa o seu profundo alívio pelo final da geringonça. Assis é o pior que o PS tem para mostrar; e quando os assis começam a vir à tona, algo está necessariamente mal. Mas Assis não é culpado de nada individualmente. Assis é um sintoma de um PS que deixou de estar com a esquerda.

Trump ou a aparência do Caos

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Há quem compare Trump ao Joker do filme do Nolan (não o mais recente); aquele que é interpretado pelo saudoso Heath Ledger. Para esses, Trump é a epítome do Caos, não se ententendo uma linha na sua actuação atribiliária e imprevisível. Tal como o Joker do Nolan cujo único intento era semear a anarquia e a violência, também Trump não seria mais do que um Juggernauth desgovernado que atropelasse tudo e todos, inclusivamente a sua entourage. Prova disso, seria a retirada das tropas americanas do Norte da Síria deixando caminho livre para os turcos de Erdogan massacrarem os Curdos.

Creio que há mais método em Trump do que aquilo que aparenta. Julgo também que estamos a assistir ao regresso da guerra fria entre os Estados Unidos e a Rússia. E que esta tem se desenrolado através de formas pouco perceptíveis e aparentemente desconexas. Mas só aparentemente.

Trump enfrenta um empeachment porque as suas conversas com o presidente da Ucrânia foram reveladas. Aí encontram-se evidenciadas as pressões de Trump a um líder estrangeiro no sentido da interferência directa nas eleições norte-americanas. A moeda de troca era contudo armar os ucranianos contra os Russos. Ora é plausível suspeitar que pressões destas façam parte do pão nosso de cada dia da diplomacia mundial sobretudo quando se trata de grandes potências. Porquê então a divulgação por um wisthleblower desta conversa em particular? A quem prejudicava ela objectivamente? Os russos, óbvio!

Já se percebeu que desde Snowden os únicos segredos que saem cá para fora são os dos Estados Unidos. Numa espécie de branqueamento não intencional, perante a sujeira norte-americana, o governo Russo e Chinês surgem como imaculadas virgens da política mundial. Só a ingenuidade mais tonta pode acreditar que assim é; sobretudo quando se trata de ditaduras que governam com mão de ferro os seus países. Também já se percebeu – só não o faz quem não quer – que os russos têm um pipeline informativo para dentro do regime norte-americano, eventualmente inaugurado com a campanha de desinformação contra Hillary. O exemplo da Ucrânia foi mais uma demonstração dessa capacidade.

Mas como poderia Trump hostilizar os russos sem os antagonizar directamente? Mexendo na Síria claro está. Trump sabia bem que a entrada dos Turcos no Curdistão sírio iria provocar uma reacção da parte de Assad e este por sua vez é apoiado pelos russos. O massacre dos curdos que está em desenvolvimento é, na gíria militar, colateral damages. O principal alvo são os russos e o seu apoio a Assad. Trump deixou os turcos fazer o trabalhinho de antagonização dos russos não envolvendo as suas tropas, antes retirando-as do teatro de guerra. Isto não parece nada ser de um homem imprevisível cujos desígnios são inescrutáveis. O que se passa naquele território é o princípio de uma guerra fria entre russos e americanos que tal como a anterior põe e dispõe de povos terceiros sem qualquer preocupação pelo rasto de morte que deixa para trás apenas para definir posições estratégicas no jogo de influências das duas potências militares. Quem perde são os curdos. Por um lado, os Turcos avançam sobre o Norte da Síria que estava há algum tempo sobre governo curdo. Por outro, os Sírios reentram em território que era na prática curdo e começam a sua anexação.

Quando há uns tempos atrás falei com um curdo sobre a possibilidade de Erdogan avançar sobre os territórios curdos que ficam ou na Síria ou no Iraque ele respondeu-me desdenhosamente que tinham o apoio dos americanos e por isso ninguém seria louco o suficiente para se meter com eles. Esqueceu-se que em questões de geopolítica a luta de autodeterminação dos povos só interessa enquanto sustentar jogadas que beneficiem política ou economicamente as estratégias das grandes potências.

A próxima jogada será dos russos – veremos sob que forma e onde irá ela surgir.

As cascavéis a matarem-se.

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O tiro ao alvo a Rui Rio é digno dos pergaminhos mais democráticos de uma associação de oportunistas: PSD – Pusilânimes, sádicos, disfóricos. Comecemos pela última. O psd encontra o seu modelo comportamental nos adeptos do sporting. Um dia são a glória da nação e o seu líder é o exemplo máxima de grandeza. No dia seguinte o líder é um nojo e deve ser abatido sem hesitação nem piedade. A sportinguização do PSD está em andamento e se o exemplo vale como escola, mudanças de treinador a meio da época nunca deram grandes resultados. E as alternativas não são de molde a entusiasmar ninguém. Com toda a franqueza, alguém acha que Montenegro tem mais carisma do que Rio? Alguém vê Miguel Morgado a falar para as massas no mercado do bulhão?

Depois apareceu a múmia de Boliqueime. Dantes quando as coisas corriam mal ressuscitavam o fantasma de Sá Carneiro. Agora que já poucos se lembram quem foi Sá Carneiro, e numa alusão directa ao fascínio actual pelos mortos-vivos, emerge Cavaco do seu sarcófago para dar umas orientações veladas às hostes. E veio a terreiro queimar o Rio.

Há uma cena no Mississipi Burning onde os polícias lançam os membros da KKK uns contra os outros espalhando intrigas sobre cada um deles. Aqueles que se sentiam lesados pelas intrigas atacaram e como no dilema do prisioneiro “as cascavéis começam a suicidarem-se” como diz Gene Hackman. O que é interessante é que Rio parece mais aquela serpente de que fala Joaquin Phoenix no papel de Imperador no Gladiador (voltarei num próximo post a Phoenix, mas na pele de Joker) que se mantém estática no fundo do mar enquanto os peixes vêm mordiscá-la. É que por estranho que pareça, Rio que tem sido enxovalhado nas últimas semanas por pessoas do calibre de um Relvas, não contra-ataca. Remeteu-se a um profundo silêncio medidativo ou está simplesmente como a serpente do imperador à espera de atacar quando menos esperarem?

Rio já provou no passado que é um político resiliente. Quando desafiado, ganhou a aprovação das bases do PSD e venceu a contestação interna. Mas o jogo então era outro. Primeiro, a possibilidade de um bloco central subsistia ainda no horizonte político do PSD. E nesse sentido Rio era o homem mais preparado para estabelecer pontes com o PS de Costa. Segundo, Rio parecia ser o economista tecnocrata que devolveria a alma tecnicista do PSD cujo paroxismo foi encontrado em Cavaco e nessa espécie de reverência provinciana que o país dedicou a um economista medíocre. Nesse sentido, para uma significante parte das bases do PSD, Rio surgiria como a reinvenção cavaquista que necessitávamos para pôr cobro aos desmandos da esquerda. De tal forma foi a identificação entre a persona Rio e a lenda Cavaco que o primeiro, em campanha por Viseu, prometeu ressuscitar o cavaquistão.

Mas, como dizia, o jogo agora é outro. O bloco central não persiste mais enquanto possibilidade política. A morte da geringonça é também a morte de um PSD alinhado com o centro. Para derrotar o PS, os sociais-democratas apenas de nome terão que radicalizar os discursos e posicionamentos. O tom conciliatório de Rio não serve para a abordagem que se segue.

Vae Victis (Ai dos vencidos!)

 

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Sem ponta de ironia, é com alguma tristeza que vejo o CDS caminhar para a dissolução. O CDS, no seu formato tradicional, continha ainda assim as forças centrífugas e de extrema-direita que lá se encontravam. Se há coisa que a pulverização à direita mostra neste resultado eleitoral é o facto de no adn do CDS-PP se encontrarem pelo menos três grandes tendências. Os liberais tatcheristas que dão pelo nome de iniciativa liberal. Aqui temos os betos ultraliberais que têm o “a sociedade não existe” de Tatcher como o santo e a senha do seu presbitério ideológico. São uns liberais muito alternativos que não usam gravata nem fato e que se apresentam como o grande movimento de ruptura, mas que não passam de uma sopa de reaganomics com violência estrutural thatcherista (por conseguinte, tendo como seus founding fathers o santo Reagan e a Madre Tatcher – algures deve estar por lá o Carrapatoso e uma qualquer task force do Observador). Vê-los a urrar que querem acabar com o socialismo em Portugal é todo um programa copiado do pior do Tea Party e da sua máquina de propaganda.

A outra secção é mais tenebrosa. Encabeçada por um ex-psd desafecto da moleza dos intentos ainda assim demasiado sociais do seu partido de origem, o Chega assume o seu património de extrema-direita que pela primeira vez coloca uma lança no Parlamento da nação desde que temos democracia. Não será tanto assim. Porque nitidamente o Chega desloca algum do eleitorado do CDS-PP que já se revia nas obtusas palavras de ordem de André Ventura e no programa cavernícula que pretendem que seja a expressão da voz do povo. Estavam era abafados. E é aqui que se derrama alguma melancolia pelo velho CDS sobre o meu estro sonhador. A parte dita de democracia cristã, com a influência dos sectores mais conservadores da igreja católica portuguesa, é certo, servia contudo de tampão a estas tendências esdrúxulas que sempre medraram dentro do CDS. Cristas era, apesar de tudo, a imagem desta tradição. Quando Paulo Portas quis fazer propaganda eleitoral com o discurso anti-imigração que tão bons resultados dava por essa Europa fora, foi justamente esta tradição, representada por homens como Freitas e Basílio Horta que travou a sofreguidão do então empossado líder. Ora, a caixa de pandora está aberta e produziu dois monstrinhos: o iniciativa liberal e o Chega. Nenhum deles pede meças aos resquícios de doutrina social da igreja que ainda vegetavam no CDS-PP. Podem dizer-me: mas já nada disso existia na época de Portas. Não é verdade. A entourage de Portas era ainda assim beata que chegasse para que contivesse as reais opções internas do CDS-PP. Cristas é a última representante dessa tendência.

Sem religião que os segure, Ventura e Cotrim, um caceteiro, o outro mais para o lado dos CEOs da City – a descontração do grande capital – abrem a direita à direita do centro cristão donde nasceu o CDS. É para mim a novidade mais perturbante destas eleições. Não devemos ser condescendentes com André Ventura, como ouvi alguns comentaristas a fazer. Ventura terá doravante um megafone nacional para a sua mensagem de ódio e de sensacionalismo. Fará tudo para o explorar. Quanto mais bombásticas forem as suas afirmações, maior possibilidade terão estas de abrir os telejornais. Vejam como a sua primeira intervenção foi dizer que vai lutar pela diminuição do número de deputados. Se tem assim tanto empenho, porque não começa por desistir ele próprio de ir para o Parlamento. A mim por exemplo dá-me engulhos que os meus impostos sirvam para pagar semelhante personagem.

Portanto podemos esperar para os próximos anos um nunca acabar de barbaridades sensacionalistas que lhe dêem tempo de antena. Dir-me-ão, mas a esquerda também tem novas vozes e nesse sentido o jogo encontra-se equilibrado. As propostas da esquerda não suscitam a comoção que populistas desbragados como Ventura geralmente conseguem. A iniciativa liberal preocupa-me menos, porque eu não acredito que o Cotrim ponha os pés no parlamento mais do que três meses. Ali não se faz dinheiro, e para esta gente tempo, mesmo o da república, é para fazer dinheiro.

Se me parece que o CDS-PP tem os dias contados e que vamos assistir ao seu lento estertor, já a CDU coloca problemas distintos. Desde logo, apesar de uma tendência para o seu emagrecimento que se tem vindo a consolidar, a CDU possui ainda alguns recursos estratégicos. Contudo, qualquer um deles coloca perigos. O primeiro é fazer oposição a um possível acordo entre o PS e o BE. No caso de uma tal solução governativa se verificar, a CDU fica de fora, como aliás pretende, e a partir desse lugar exterior poderia fazer oposição de rua, mobilizando eventualmente os professores e outras classes profissionais. O problema é que estaria a erigir o BE à posição de inimigo directo; e o BE reagiria, porque a discussão do espaço do seu eleitorado dirigir-se-ia inevitavelmente para o espaço político da CDU. Ora o BE se quer crescer terá que ir para o governo. E isso será com certeza uma das exigências do bloco para facilitar uma solução governativa com a actual minoria. Não creio que o bloco vá pedir uma pasta menor; eventualmente lançará a bisca para a economia. E duvido que o PS esteja disposto a dar-lha, mais interessado que estará em oferecer coisas de cariz social e menores, como a pasta da desigualdade e quejandos. Chegaremos por conseguinte a um impasse. Ficando o BE fora da solução governativa, só lhe resta para crescer discutir o eleitorado com a CDU. E porque não com o PS? Porque tudo indica que o PS tenha consolidado a sua posição, e que a hipotética sangria que o BE representava para o espaço socialista tenha atingido os seus limites. Por isso, deverá o BE voltar-se para a sua esquerda, ou seja, para a CDU. Por seu turno, a CDU não poderá sobreviver sem roubar eleitores ao BE. Está numa situação catch 22, mas cujos resultados não variam muito independentemente das vias encontradas. Fora da solução governativa, e ficando nela o BE – cenário A – terá que fazer oposição directa não apenas ao PS, mas também ao BE. Ficando quer o BE quer a CDU fora da solução governativa – cenário B – terão que começar a digladearem-se pelo espaço político.

O PS terá que ter cuidado com as negociações que se seguirão, pois poderá ficar ensandwichado entre uma direita revanchista e uma esquerda que alienada da sua condição governativa que dava pelo nome de geringonça não tenha outro recurso que não seja o de fazer uma oposição feroz. Possamos nós viver em tempos interessantes, parafraseando o provérbio chinês.

Queimar pontes

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Um dos aspectos curiosos do manifesto pela geringonça é que ele só pode representar ou o voto no BE ou no PCP. Não há voto na geringonça como pretendem os seus signatários. É uma figura de estilo defender a geringonça enquanto opção eleitoral.

A esquerda tem uma dificuldade tremenda em construir pontes, mas é extremamente hábil a queimá-las. Assim tem sido o pendor da campanha eleitoral.

Os partidos à esquerda do PS basearam a sua campanha na crítica ao PS para evitarem quer a maioria absoluta quer a própria dissolução, como é o caso do PCP. O PS, por seu turno, como quer uma maioria absoluta, baseou a sua campanha a demonstrar que para nada precisava dos partidos à sua esquerda, chegando mesmo a aludir ao facto de lhes ter feito um favor ao torná-los companheiros desta legislatura que agora finda.

Ambos estão equivocados. Do lado dos primeiros, as críticas são absurdas provindas como provêm de alguém que colaborou intensivamente nas várias políticas e medidas. Do lado do segundo, a arrogância é má conselheira, dando-se o caso de o PS apenas ter sido governo porque chegou a um entendimento com a esquerda. António Costa, no seu afã da maioria absoluta, parece ter esquecido que foi o PS que precisou do acordo dos outros partidos da esquerda para ser governo; quer o PCP, quer o BE, podiam muito bem continuar a ser oposição, porque era isso que estruturalmente tinham sido até a essa data.

Houve, por conseguinte, um entendimento táctico para alijar a direita do poder. Esse entendimento encontra-se actualmente controvertido. Primeiro, porque a batalha parece ser entre a esquerda e não contra a direita. Que é feito daquelas áreas de consenso que construíram a possibilidade do acordo? Porque não são estas a ser esgrimidas contra as opções da direita? Por um lado porque a direita, quer na pessoa de Rio, quer de Cristas e em certa medida de Santana e a sua aliança, não dizem exactamente ao que vêm, estratégia consabida quando se encontram demasiado tempo afastados do poder. O seu discurso ganhou as cores de um reformismo social aveludado, com umas tintas de estado-providência e de combate à horrenda corrupção. Desapareceu o neoliberalismo dos seus antecessores, a homenagem ao deus mercado, a satisfação moral com a crescente desigualdade social. Contudo, nós, os avisados, bem sabemos que estas três feras se encontram lá em hibernação apenas à espera de serem chamadas a actuar, numa qualquer primavera marcelista dos tempos actuais da direita. Por outro lado, e relativamente à esquerda, a cisão parece ter sido consumada no seu interior, fazendo-nos recuar aos tempos pré-geringonça, atirando-nos assim para o velho e ineficaz paradigma.

Poderão os partidos de esquerda ser tão cegamente solipsistas que destruam em pouco tempo aquilo que laboriosamente foi construído? Por exemplo, nunca se viu o PSD a hostilizar directamente o CDS, e tão-pouco a inversa. Há entre aqueles partidos um pacto tácito  que leva a assumir que a união das direitas é mais fundamental do que tendências refractárias no seu seio. O Aliança, que ousou quebrar com essa tradição, corre o risco de desaparecer ainda mal saiu do berço. Repetir-se-á a história dos pontapés na incubadora que tanto amofinou o governo de Santana em tempos de confusão política? Mas tirando essa singularidade, a direita do psd e do cds guardaram as pistolas e recusam terçar armas guardando todos os cartuchos para a possível maioria absoluta do PS.

Que faz a esquerda? Quebra-se. Hostiliza-se. Mobiliza-se no sentido de impossibilitar um novo pacto de regime.

Com efeito, após as ondas de choque do caso tancos e eventualmente de mais maravilhas que o ministério público achará por bem revelar ao longo da semana de campanha (o correio da manhã parece que já tem algumas na manga), a maioria absoluta tornou-se bastante improvável. Uma vez mais o PS vê-se relegado a partido de segundo escalão que não merece a confiança total dos portugueses. Contudo, aquilo que ainda há poucas semanas surgia como solução – a geringonça – está provavelmente colocada em causa. O que atirará o PS para os braços de uma carta anónima chamada PAN caso a correlação de forças assim o permita. E isto decorre do simples facto de dificilmente conseguirmos imaginar um encontro sereno entre um António Costa e um Jerónimo de Sousa que passou a campanha a dizer mal do PS e a associá-lo ao PSD. Da mesma forma, temo que actualmente esteja inviabilizado um franco aperto de mão entre Catarina Martins e Costa, depois deste último ter sugerido que não necessitava do BE para governar.

Os apelos ao centro que temos ouvido nos últimos dias por parte de Rio são elucidativos da estratégia que o PSD quer colocar no terreno para se guindar novamente ao poder. Com Passos e os passistas, mas antes destes também, o PSD nunca se apresentou como partido do centro. Ensaia agora esta nova versão, de um partido de moderação, deixando para trás a pele de cobra de partido da imposição e da “suspensão da democracia”, a velha atoarda de Manuela Ferreira Leite que lhe valeu o perder qualquer estima junto dos portugueses.

Ora uma tal inflexão traz gato e rabo de fora. O PSD quer aproximar-se do PS, mas não para reeditar um bloco central, o que de qualquer das formas seria a certidão de óbito do PS, mas sim para reclamar uma nova AD. Tão certo quanto Rio tiver a possibilidade de se coligar com o CDS para inviabilizar um governo PS. É que o BE já não é o aliado potencial e de confiança que era há quatro anos atrás. E se nos lembrarmos do que acontece em Espanha com o Podemos não será assim tão remota a possibilidade do bloqueio para uma nova governação vir justamente dos partidos da geringonça. As pontes que se queimam demoram muito tempo a reconstruir.