A cabala

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Num país em que a justiça se arrasta a passo de caracol para a maioria dos cidadãos é estranhamente célere e “oportuna” a julgar o PS. Recordam-se quando o ministério publico quis assassinar a grande esperança do PS, o então secretário de estado Paulo Pedroso? E como arrastou Ferro Rodrigues minando assim a confiança dos eleitores por suposta ligação ao escabroso caso de pedofilia da Casa Pia? De Paulo Pedroso não mais ouvimos falar, o seu assassinato politico foi consumado com requintes romanos. Ferro teve que penar para sacudir a imagem de pedófilo inveterado do seu capote político. O desfecho é conhecido: o ministério público não conseguiu provar nada nem sobre um nem sobre outro. A esperança que o PS depositava em Pedroso de este poder a almejar voos mais altos – inclusivamente a liderança do partido – foi inexoravelmente destruída na sequência das acusações tornadas públicas. A mossa feita ao PS foi tremenda e, na altura, a contenção dos danos exigiu energias e esforços hercúleos.

Actualmente este caso está mais ou menos esquecido. O Ministério publico continuou a sua conduta abertamente escandalosa, mas desta fez tendo por alvo Sócrates. Não defendo Sócrates de maneira nenhuma, e dificilmente poria as mãos no fogo por ele. Mas a manipulação que o seu caso sofreu às mãos do ministério publico devia exigir de cada um de nós uma pausa para reflexão. O PSD de Passos Coelho denotava grande ansiedade para que o caso Sócrates coincidisse com a campanha eleitoral e prejudicasse uma vez mais o PS. E foi exactamente o que aconteceu. Na altura, Costa geriu com grande mestria os acontecimentos, pautando a sua conduta por um afastamento estudado do estigma socratista e pela frase que agora repete à saciedade: da política o que é da política, da justiça o que é da justiça. Um pretor romano não expressaria melhor uma sua convicção. Só que por esse tempo os intentos do ministério público foram gorados. A raiva à troika passista, ou ao passismo troikista, era de tal ordem, que não havia acusação a um antigo líder do ps que fizesse oscilar sentimentos e inflectir escolhas. O momento actual é diferente.

Não precisamos de ter um trumpismo ou um putinismo – o nosso ministério público assume o papel de ambos. É uma instituição inquinada no seio da nação. Já deu provas mais do que suficientes que, ao contrário de muitos que são elevados à condição de arguidos,  que não é de confiança, e que a ninguém inspira confiança. Que os seus casos são manipulados, que a maneira como a informação é lançada para o público é estratégica e controlada por vontades extrajudiciais, que, enfim, não serve para administrar justiça, mas para comprar justiceiros posto ao serviço do sectarismo e negociatas partidárias. Não suscitaria tantas dúvidas se o seu método fosse estocástico. Infelizmente (mas não certamente para alguns) o afã condenatório funciona criteriosamente contra o PS, e nos momentos chave da vida deste partido. Costa bem pode apelar à vaidade do corpo de magistrados do ministério público, mostrando-se respeitoso com os seus elementos, como fez, aliás de maneira demasiado reverente, no debate com Rui Rio. Mas o ministério público, instrumentalizado que está politicamente não se compadece com encómios banais. E por isso com precisão surpreendente desferiu mais um golpe nas costas abertas do PS. É caso para parafrasear Jorge Coelho numa frase que o celebrizou noutro contexto político: – Quem se mete com o ministério publico leva!

O zelo com que foram cumpridos os prazos no caso de Tancos e como a acusação é deduzida no início da campanha eleitoral é digno de admiração. Facto é que um tal acto prejudica objectivamente o PS e muito provavelmente vai ser o assunto chave da campanha. Quando a direita nas pessoas de Rio e Cristas não tem nada para oferecer ao país, eis que chega a benesse que com grande probabilidade tirará a maioria absoluta ao PS e quem sabe se não terá consequências maiores.

Baldwin vs Greta

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(Greta Thunberg no barco que a levou a Nova Iorque)

Lendo a carta que James Baldwin escreveu à sua “irmã” Angela Davis começo a perceber como a forma intelectual de olhar o mundo está actualmente esmagada. As palavras de Baldwin são de uma beleza arguta e cortante. São de uma beleza e verdade intemporais; e esta combinação, tão cara aos gregos clássicos – o belo e o verdadeiro – perdeu-se inexoravelmente.

Do que Baldwin disse sobre a América podemos facilmente estender o seu núcleo para os restantes povos e países. Diz Baldwin:

One way of gauging a nation’s health, or of discerning what it really considers to be its interests—or to what extent it can be considered as a nation as distinguished from a coalition of special interests—is to examine those people it elects to represent or protect it.

Quão verdade e contemporânea é esta afirmação proferida em 1970. Países que elegem um Trump, um Salvini, um Órban ou um Putin, estão, na concepção de Baldwin, incapacitados para serem salvos. Não existe salvação possível para a América de Trump e para os seus eleitores; tão-pouco para a Itália de Salvini. Foram as pessoas que os elegeram. Foram as pessoas que neles se reflectiram e neles viram potenciais representantes das suas mais profundas e acarinhadas ideias. Não foi um faux-pas, um deslize momentâneo, ou sequer uma tentativa-erro que mostra a experiência como aquilo que ela é realmente: uma tentativa de imitar o mundo matando a sua imprevisibilidade. Foi uma deliberada vontade de se verem representados por um porta-voz das suas ansiedades e dos seus desejos.  E estes são invariavelmente pequenos quando medidos pela grandiosidade das palavras de Baldwin.

Claro que estou ainda sobre os efeitos de I’m not your negro – esse documentário cuja voz de Samuel L. Jackson empresta a gravitas dos grandes momentos históricos. Mas felizmente que não podemos ficar presos a demasiado peso moral. É preciso ser imponderável. E para isso temos o documentário Tony, como o mais visto documentário português de sempre. Tony, assim com um Y de Freixo de Espada à Cinta, como o carreira deveria ser, esperávamos, transmudado para career. A beleza dos pequenos momentos. Dos gregos não saberíamos que parte ir buscar para relacionar com a efeméride da estreia do filme que retrata a vida do Tony Carreira – a parte da verdade não seria com certeza dado estarmos em presença de uma charlatão que fez dinheiro (muito!) à custa do plágio e da credulidade de terceiros. Mas tem, como qualquer vigarista que se preze nos dias de hoje, o justo prémio: uma homenagem à sua imensa aura artística reproduzida em formato documental.

Se não parecesse demasiado escandaloso, porventura até imoral, eu diria aos produtores de tal criação: I’m not your negro.

E com esta boutade regresso a Baldwin, que era onde me queria centrar. Quando Baldwin escreve ou fala, sentimos que algo de poderoso se ergue por detrás das suas ideias. Sabemos que estamos a aprender a articular sentidos, grandezas morais, posições políticas. Um tal bouquet dá demasiado trabalho à geração da fast food communication.

Actualmente temos uma jovem sueca que se aproveita de todos os truques da boa publicidade para salvar o planeta. Greta Thunberg, de seu nome, não sabe articular um discurso minimamente interessante. Também não precisa para dizer platitudes como temos que salvar o planeta e etc. O que é simultaneamente interessante e aterrador é que esta é o porta-voz de uma geração. Greta atravessa o atlântico num iate para mostrar ao mundo que se podem evitar meios poluentes como o avião. O patético da situação faria rir desbragadamente se não fosse o retrato final de uma geração. Esta geração prefere selfies a ideias; prefere desportos radicais a pensamentos radicalizados. Greta Thunberg é a imagem de um mundo que só tem imagem.

Bem sei: por cada ataque a Greta levanta-se uma multidão moral que acusa “o que fizeste tu hoje para separar os plásticos do lixo comum?”. E esta voz, embora mal calibrada, diz uma verdade essencial. Greta na realidade está tão focada nos plásticos que não nos dá a ver o lixo comum. E não o pode fazer porque o seu discurso é anti-intelectual por definição e excelência. Porquanto Greta não diz nada sobre a origem nem do plástico nem do lixo comum.

É certo: aponta o dedo aos usos e abusos que os homens da minha geração infligem sobre a geração dela. E num dedo acusador em riste, singulariza – tu, velho, porque não me dás a juventude que eu sempre sonhei? A juventude com que Greta sonha ninguém a percebe muito bem. Todos concordamos que o caminho para a catástrofe ambiental está a ser percorrido com certeza e temeridades desconcertantes. Como os Lemures que se juntam em grupos e se precipitam para o mar num gesto suicida colectivo, nós, a humanidade, caminhamos alegremente para a catástrofe. Mas Greta não percebe o fundamental da sua incoerência que é no fundo o resultado da sua mediocridade intelectual. Greta vai de barco para a cimeira do clima nos Estados Unidos, para evitar o meio de transporte ultrapoluente chamado avião. Mas donde pensa Greta que vem o ferro que constitui a quilha do navio onde navega de consciência tranquila? Porventura de alguma mina da Rússia, da China ou do Brasil, onde milhares de homens trabalham para extrair ferro para o barco de Greta e os outros milhões de barcos que por aí navegam; e, estendendo o raciocínio, para os biliões de utensílios de ferro, desde os nossos automóveis aos corrimões que nos amparam o peso nas escadas dos hospitais. A cadeia de produção-consumo atingiu um tal nível, uma tal dimensão, que não é possível fazer-lhe a crítica (apenas) através dos hábitos poluidores. Na medida em que, à escala actual, qualquer acto de produção é por definição poluidor.

Isto tem um nome. Chama-se economia de mercado. Longe de mim estar a verberar as benesses da economia de mercado, os seus confortos, as suas prerrogativas de bem-estar e diversão. Certamente que podemos evoluir com a técnica. Podemos construir carros eléctricos e substituir a gasolina. Mas como vamos construir biliões de carros eléctricos, o problema mantém-se.

Por isso, o que falta a Greta é uma crítica real à sociedade de consumo. A geração de Greta, na realidade, quer consumir sem ter a consciência pesada. Quer abolir a carne de vaca nas cantinas universitárias para melhor se poder empaturrar de hambúrgueres no macdonalds; quer separar criteriosamente o lixo para reciclagem, para depois encherem os lugares de divertimento nocturno semanalmente produzindo lixo em larga escala; quer andar de barco, mas vive obcecada por viajar pelo mundo, principal combustível da indústria do turismo e das viagens internacionais. O que quero dizer é que a geração de Greta é tão ou mais hipócrita do que as anteriores e que não é com choradeiras televisivas que salvarão o planeta.

Não concordo com a frase: – Não há planeta B. Claro que há! Nem que seja um calhau sem vida a vogar na sua rota em torno do sol, cujo significado será tão inexistente para a ordem cósmica do universo como sempre foi até hoje. O que não há é uma humanidade B! Nós traçámos este caminho: por orgulho, por comodismo, por cegueira. Não é um caminho meramente ambiental. É um caminho moral, de hábitos e de necessidades, de desejos e saciedades. Quem achar que salvará o planeta tirando as beatas da rua (que está certo) ou proibindo carne de vaca nas cantinas (que é ridículo) estará por sua conta e risco. Fazer disto uma questão entre Gretas ambientalistas e cientistas munidos de gráficos de clima é de uma puerilidade confrangedora.

Julgo que o destino está traçado. Assim como Méliès achou prescientemente que o homem aterraria no olho da Lua, também acho que futurólogos de diverso jaez e escrevedores de ficção científica acertaram de alguma forma. Haverá soluções para os ricos – veja-se como o mundo do bio é quatro a cinco vezes mais caro do que o “poluidor” e como se prepara este para ser o grande negócio do futuro – enquanto uma maioria da humanidade perecerá ou viverá francamente mal. De resto, este não será um padrão a que a história da humanidade não nos tenha habituado.