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As lágrimas amargas da direita conservadora

Julho 16, 2019

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Eu confesso que o estado mental da gente do Observador me parece preocupante. E isto vem a propósito das respostas, sensivelmente em uníssono, à reacção gerada pelo artigo de Fátima Bonifácio.

Tenho o maior respeito por conservadores inteligentes. Dharendorf era um conservador inteligente – e um brilhante pensador. Popper, era um conservador inteligente – embora estivesse enganado em diversas coisas. Leo Strauss é um conservador muitíssimo inteligente. E ninguém lhe retira esse mérito. Agora a cáfila que se acoita no salário do Dr. (?) Relvas é que são uma cambada de asnos de bradar aos céus! E refira-se que a transmutação animalesca de camelos para asnos nem lhes fica mal. Num arremedo das metamorfoses de Ovídio trata-se de observar a passagem da teimosia dos camelos para a estultícia (teórica e romanesca) dos asnos: e eles conservam, em doses mutáveis, significativas quantidades de ambas.

Por exemplo, será admissível berrar pela liberdade de expressão quando são os próprios a botarem palavra, mas quando esta os contraria, ou os amofina, ou chama os bois pelos nomes, aqui del rei!, que vem a polícia do pensamento? Um liberal que se prezasse, perante a iniquidade estúpida do texto de Fátima Bonifácio, querendo defendê-lo, sairia à liça com argumentos; bons argumentos de preferência. Não argumentos estúpidos. Como faz o João Pedro Marques, quando diz “a pobreza é um problema, não a cor da pele” e tergiversa contra a discriminação positiva. Mas depreendemos que se assim for o sr. é contra quotas para mulheres, ou deficientes, porque elas seguem a mesma lógica da discriminação positiva. Então que o defenda. Que diga abertamente que considera que a lei da paridade é uma barbaridade, e que ter deficientes na função pública é um entorse ao livre funcionamento da sociedade.

A Mariana Ferreira, entre uma jantarada no Loco e uma saída com os amigos betos ao Urban Tejo decide escrever um texto onde assevera que as quotas são um dispositivo terrível porque “estamos a competir com alunos cuja média de ingresso reflicta unicamente o seu trabalho, dedicação e capacidades intelectuais”. Sério? E o dinheiro dos pais? E as explicações? E as aulas de piano desde tenra idade? E as habilitações académicas dos pais que fomentam o interesse pela aprendizagem segundo o código escolar? Nada disso interessa? Talvez porque os pretos do bairro social não possuem nem trabalho, nem dedicação, e muito menos capacidades intelectuais! Conclua-se que esta gente (a do Observador) é deveras asinina!

E a piéce de résistance pertence ao inefável Alberto Gonçalves. Soi-disant sociólogo, eterno crítico de Boaventura Sousa Santos – mas o que já deu ao mundo o Gonçalves? Ah espera, um pseudo-livro de propaganda anti-esquerdista contra a geringonça! – diz-nos que não sabe bem se a Fátima Bonifácio é racista. Mas quem a critica, esses sim são com certeza racistas!…e fascistas! Porque quem diz que o outro é fascista é com certeza mais fascista ainda! O nível de infantilidade da prosa do Gonçalves reflecte com grande fidedignidade aquele jogo das crianças “quem diz é quem é!”. E é ele que quer terçar armas com o Boaventura? O nível de argumentação é de deficientes mentais, porque escasseiam argumentos perante o texto de Fátima Bonifácio. E isso até corresponde à impossibilidade de justificar o injustificável. E a estratégia de Alberto Gonçalves é justamente essa: em vez de defender os argumentos da professora, encarniça-se contra os seus detractores. Mas vejamos, se há processos por difamação porque prejudicam objectivamente os nomes e vidas de pessoas, porque não poderá haver processos por discriminação porque esta prejudica objectivamente a identidade e vida de grupos? Alberto Gonçalves não tem resposta, porque no geral do seu arrazoado (e é corrente nos seus escritos) nunca coloca as interrogações pertinentes.

Finalmente, Rui Ramos. Este quer correr tudo e todos a pingalim. Desmonta da sua sela devidamente arreada no lombo do Estado e invectiva a massa ignara que morde as canelas da aristocracia iluminada. O artigo de Rui Ramos é duplamente interessante. Não somente insulta quem teve a ousadia de chamar racista a Fátima Bonifácio, como afirma uma entidade mirífica designada por “os portugueses” que pelos vistos não tem negros nem ciganos. Parece-me pouco e mau para um historiador.

Pedro Picoito emerge assim como o mais sensato dos plumitivos. Depois de se posicionar contra as quotas, como um bom liberal faria (mas não explicita se é contra a lei da paridade, e se não é, o que as distingue então das quotas étnicas?) critica a justo título a generalização, o que era afinal o âmago do artigo de Fátima Bonifácio, e não as quotas.  Curiosamente remata o artigo acusando a esquerda de “fechar os olhos aos problemas”. Afinal há problemas…e serão da mesma natureza dos identificados pela professora Fátima Bonifácio? Porque o paradoxo está em que as medidas propostas pela esquerda visam precisamente debelar os problemas. O problema, passo a redundância, é que a natureza dos mesmos parece assumir conteúdos diferentes à esquerda e à direita. À esquerda é a segregação e a desigualdade. E à direita? Será que Pedro Picoito também está muito incomodado com os “desordeiros” dos ciganos que não respeitam as filas ou com os gangs de negros que lançam as suas ondas racistas por onde passam? Se esta for a sua concepção dos problemas, bem pode o Picoito ombrear com a professora na sua gesta pela pureza rácica.

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