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DEMS para o povo!

Julho 10, 2019

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O exagerado número de candidatos à liderança do partido democrata norteamericano é sinal de clarificação ou de desnorte? Inclino-me para a segunda hipótese. Nunca a convenção democrática viu tantos – e tão obscuros – candidatos. Nunca as questões triviais que os norteamericanos têm por adquirido foram tão convulsionadas. E creio bem que nunca os candidatos foram tão escrutinados pela comunicação social. Veja-se por exemplo o escândalo (na realidade mais um burburinho) que visou Kamala Harris. A candidata negra que se posicionava nas sondagens como sendo a mais provável a ser eleita, teve um deslize ao afirmar que ouvia Tupac quando andava na universidade. A FOX, criteriosa em assuntos de política, logo denunciou o anacronismo: como podia Kamala ouvir Tupac na universidade se ele ainda não existia enquanto cantor? Escândalo! A candidata estava a mentir! Mas pior do que o bruá que se levantou em torno de tal minudência, foi a forma como Kamala se justificou. Ao invés de dizer, Ok, no big deal, fiz confusão… – deu uma entrevista em que falava de Tupac como o seu herói. O problema é que o que dizia parecia directamente saído da wikipedia e não possuía qualquer ligação afectiva. Kamala não apenas estava a mentir como a apelar, através do seu amor por Tupac, a uma geração de negros que com ele se revê.

Mas qual é a diferença com Trump então? Trump mente descaradamente. Kamala mentiu num trejeito de pandering for the black constituency. São iguais? De todo – Trump mente e nem tenta dizer que não mentiu. Kamala mentiu e embrulhou-se em desculpas preparadas para passar a mensagem que estava a dizer a verdade. A diferença? Há uma autenticidade, por paradoxal que seja, na mentira de Trump; há uma falsificação na mentira de Kamala.

Fora este fait divers, que mostra que as linguagens da política não se instalam no campo da verdade argumentativa, mas antes no da retórica marketizada, a sanha dos candidatos na competição pelo podium do mais igualitário e redistribuidor tem marcado os debates dos democratas.

Na minha opinião a estratégia democrática incorre num erro de perspectiva. Os seus candidatos estão convencidos que os norteamericanos querem igualdade. O problema é que não se questionam sobre o que realmente significa igualdade nas nossas sociedades actuais. O exemplo da Grécia é flagrante. Depois de um esforço hercúleo para que pela primeira vez ganhasse um governo de esquerda com uma agenda economicamente progressiva, os gregos, que sempre negaram uma maioria absoluta ao Syriza, oferecem-na agora à direita conservadora da Nova Democracia. Acho que é possível retirar algumas ilações desta debacle da esquerda. Primeiro, temos que recusar o “circulo de giz caucasiano” em que a esquerda sempre fecha a interpretação das suas derrotas. Sem surpresa, a reacção é: não se fez o suficiente! O partido, na realidade, traiu as legítimas aspirações do eleitorado!

Algo disto perpassa na campanha democrática nos Estados Unidos. Há uma reacção segundo a qual a era Obama não foi suficientemente longe. Ela está nas palavras de Bernie Sanders, de Ocasio Cortez (que não sendo candidata tem uma presença fortíssima na comunicação social) de Beto O’Rourke, de Kamala Harris e até de Bill di Blasio. O que todos estes candidatos propõe é um aprofundamento da capacidade redistributiva do Estado. Algo que será designado até à exaustão pelos republicanos, de socialismo. É óbvio que não se trata de socialismo; embora a retórica inflamada de um Sanders possa até conter algumas das suas intonações. Facto é que os democratas estão mais à esquerda do que alguma vez me recordo. Nem com Obama; e seguramente, com Clinton, uma frente de esquerda tão aguerrida surgiu no firmamento liberal norteamericano. O problema é que a ideologia do sonho americano e o seu lastro traumático está longe de estar resolvida. De que se trata? Esta ideologia encantatória prediz que se trabalharmos muito, nos esforçarmos e formos muito empreendedores o sucesso é garantido. Ela prediz que o sucesso é o fio de prumo da igualdade – não que a igualdade é a condição de justiça do viver em comum. Ou seja, todos podemos alcançar o sucesso e nesse sentido todos estamos em condições igualitárias de o fazer. Se não ocorre, a culpa é do próprio.

Esta internalização da culpa do falhanço tem efeitos directos na dignidade individual. A forma como as pessoas são dignas ou deixam de ser dignas tem pouco a ver com o seu estatuto moral. Prende-se sobretudo a esta estrutura psíquica do sucesso. É por isso que Trump pode ser admirado independentemente de ser um estadista repugnante.

Significa que o quadro ético que envolvia a noção de igualdade liberal se quebrou. A igualdade não é mais percepcionada da maneira como queriam os liberais, i.e., igualdade de direitos num quadro de liberdade. A igualdade burguesa, imbuída do espírito de pertença a uma cidadania, não é mais operativa, ou tão-pouco celebrada. O manto que cobria esta mentira, retirado por Marx há praticamente dois séculos, não resiste mais. Mas as pessoas não podem viver de desilusão – as sour grapes não podem ser tudo aquilo que existe no horizonte de sentido dos indivíduos e que lhes é permitido ambicionar. Uma outra ilusão veio substituir o encómio dos direitos iguais para todos. A igualdade através do dinheiro. Se tens dinheiro, és igual, porque podes obter os mesmos produtos e consumir ao mesmo nível, reza este novo credo. Logo, o que tens que fazer, pelo o que tens que lutar, é pela obtenção de dinheiro. Porém, como o dinheiro se concebe como um jogo de soma nula – para alguém ganhar alguém tem que o perder – este é um equilíbrio que nunca pode ser atingido como era a abstracção dos direitos iguais para todo e qualquer um. É certo que o dinheiro foi pensado como a medida objectivável por excelência, designadamente por Simmel, o homem que forneceu a cartilha para a teoria da racionalização da escola de Frankfurt (com Weber). Creio contudo que Simmel percebeu mal a natureza da sociedade de consumo, e que o dinheiro é porventura o maior investidor de emoções e afectividades de que há conhecimento. Isto pela simples razão que é ele que liga qualquer intenção a um afecto, ele constitui o único e actual mediador entre a vontade e o gozo efectivo traduzido em emotividade.

Dito isto, os padrões de compreensão dos indivíduos actuais sobre a questão da igualdade não coincidem com a ideia genérica da esquerda segundo a qual a justiça encontra-se numa maior redistribuição. Aliás, o sonho americano, como bem documentou Norbert Bellah no Habits of the heart, reveste-se de ambiguidades inextirpáveis; sobretudo, o seu individualismo cavalgante e esmagador, que Bellah incita-nos a rejeitar para bem do nosso regresso ao seio ancestral da comunidade. Algo deste pensamento liberal de esquerda sobreviveu e é agora reactivado pelos candidatos democratas. A lógica de que estamos melhor em comunhão com os outros no que numa corrida solitária contra todos marca o discurso de pendor comunitarista destes candidatos. Mas para quem falam? Decerto não para um público cuja escala cultural de valores associa a dignidade da pessoa ao ter dinheiro. O valor moral da pessoa não é mais distinguível das suas posses, algo com que a teologia católica sempre batalhou, mas que a doutrina protestante baralhou os termos.

É preciso ter presente que isto não sendo propriamente novo – afinal sempre o estatuto dignificou o seu detentor – assumiu novas modalidades, nomeadamente a deslocação desse mesmo estatuto da sua rigidez estratificada para a ilusão de que qualquer um pode dele usufruir. A sociedade de consumo destrói o planeta porque associou o valor intrínseco da pessoa à sua capacidade de aquisição. Os nossos julgamentos quotidianos, e ipso facto, as nossas auto-imagens, prendem-se com o poder aquisitivo. Numa tal economia do valor moral, a noção de redistribuição, de um mínimo para o máximo de pessoas, emerge como ruído, como provocação, como cataclismo expectante…

Os gregos que votaram Nova Democracia estão piamente convictos na eficácia (ou na realidade!) do sonho americano e que este pode ser transplantado para as praias da Hélada. Este é o problema da esquerda: como desmobilizar o sonho americano quando este se tornou o único mapa ideológico onde enquadrar os grandes dramas e ambições da vida?

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