Bem-vindo à Trumplândia

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É engraçado como Zizek insiste que Trump foi uma epifania no interior da mediania política do establishment liberal norteamericano. Num artigo intitulado “Bem-vindo à guerra civil” teima que a sua intuição de radicalização nas hostes dos democratas estava correcta e como o “clima de guerra civil” no seu interior pode levar a uma clarificação. Como se o problema fosse o da falta de representatividade de um eleitorado pobre que estivesse apenas à espera da voz suficientemente radical de esquerda para se erguer contra o capitalismo. Como se a clarificação que Zizek vê ocorrer entre os democratas tivesse uma qualquer correspondência necessária na clarificação das vontades do eleitorado. Esta ideia de que o eleitorado das classes baixas está apenas à espera da representação fidedigna é de uma ingenuidade tocante. Primeiro, como pode Zizek sustentar tamanha ilusão quando foi justamente o eleitorado da rust belt que votou Trump? A solução fácil é dizer que este eleitorado não se encontrava representado pelo establishment democrata liberal – que é o argumento central de Trump! –, mas quando assim for, rapidamente irá ver a luz – que é o argumento tolo de Zizek!

Zizek que é profundo conhecedor de filosofia política é pouco conhecedor de ciência política. A ordem de preferência dos eleitores não tem que ser racional no seu efeito agregado. É porque Zizek nunca fala em preferências nas escolhas eleitorais que lhe permite sobrevoar – seria o termo mais acertado – que existe um comportamento hierarquizante nas escolhas sociais. Estes eleitores não votaram simplesmente em Trump – votaram na ordem de preferências apresentada por este. E qual é esta? O regresso da hegemonia norteamericana, contido no slogan MAGA!; a política de proteccionismo cultural, inscrita na perseguição feroz aos imigrantes; a limpeza do “sistema” traduzida num discurso anti-político e anti-parlamento. In a nut Shell esta é base de sustentação da ideologia Trump!

Contrariamente ao que Zizek diz ser o acto falhado da esquerda liberal, ou seja, a sua preocupação ingente com os temas do género, da raça e da sexualidade, foi justamente esta combinação de temas e as suas preocupações liberais centrais que levaram à queda de Trump. O presidente não viu a sua popularidade afectada pela sua política militarista ou económica, mas sim pelos seus escândalos sexuais, o seu machismo e racismo. Esses foram os pontos que verdadeiramente atingiram Trump – e continuam a fazê-lo. Por isso, e completamente contra Zizek, não é a crítica da ordem capitalista global que está a fazer estremecer Trump. É ao invés, a agenda das políticas de identidade, aquilo que Zizek tanto despreza.

O segundo aspecto da cegueira política de Zizek prende-se com a posição de Trump no concerto da nova geopolítica mundial. Zizek bem pode vangloriar-se que apoiar Trump era o passo correcto para acordar a esquerda para as questões essenciais: a luta de classes. Mas isto é esquecer que não existe tal coisa como um Trump isolado no seu castelo norteamericano. Levar Trump ao poder foi fazer regredir em décadas o clima de concórdia que Obama havia conseguido. Foi permitir o regresso dos falcões da era Bush, ainda mais acirrados e com rédea mais livre para espalhar a sua retórica da “dangerous nation”. Não perceber que o projecto MAGA provinha essencialmente de uma inconformidade com o multilateralismo do mundo contemporâneo é ser mais do que cego – é ser ignorante. A política de blocos reafirma-se numa belicosidade que já era estranha à linguagem da diplomacia norteamericana. Para quem pensava que Hillary Clinton era um falcão pronta a assaltar a política do médio-oriente com as garras em riste como a lança de Marte, sirva-se agora da escalada contra o Irão promovida por Trump e os seus bed fellows da Arábia Saudita. Para quem pensava que Trump ia promover um isolacionismo benéfico para a harmonia  entre os povos, remire-se no plano de Kuschner para os territórios palestinianos, e o eminente apagamento dos mesmos. Para quem achava que os democratas do establishment tinham duas faces, como Janus, em matéria de política internacional, atente nas guerras comerciais impelidas pelo proteccionismo trumpista e o seu total desrespeito pelas consequências ambientais.

Por isso a opção Trump de Zizek é absurda; caverniculamente montada num hegelianismo reificado e relapsamente instalada na mesma crítica ao “establishment” que tantos votos rendeu a Trump.

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