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Populismo mach 3

Junho 24, 2019

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Deng Cheng Wen – The Blind Leading , 2007

Nem todo o populismo se expressa por enfáticas proclamações de líderes como Le Pen ou Salvini. Há um populismo mais insidioso, quotidianamente banal, que abre o caminho para o mais retumbante e organizado politicamente. Penso por exemplo na propaganda da Iniciativa liberal, que de forma menos efusiva e labrosta que o “basta de roubalheira” de André Ventura promete acabar com “o sistema”. Este sistema, que não possui origem identificável nem limites denunciáveis, elabora-se enquanto perigo, poluição, quer no discurso de um Trump quer nas intervenções ignorantes de Octávio Machado. Quem não se recorda da obsessão com o sistema que Octávio Machado exprimia sempre que abria a boca? Nunca ninguém compreendeu o que era o sistema, para além do facto de Machado andar a mando de um bandido chamado Bruno de Carvalho, esse sim, cultor de “um sistema” de máfia e compadrio.

Entre o sistema do anedótico Octávio Machado, da Iniciativa Liberal e de Trump há um fio condutor que os liga. Aparentemente díspares nos seus contornos e objectos de denúncia, o sistema emerge propositadamente como uma ameaça instalada de difícil localização. Sabemos que para Trump o sistema eram os políticos de Washington. Reivindicação algo tormentosa na medida em que atacando o sistema, Trump se alcandorou aos pináculos do mesmo, tornando-se no presidente do sistema. Paradoxo com o qual se pode ou não conviver mal.

A iniciativa liberal quer acabar com o sistema, que não será o mesmo que atormenta Machado, mas cuja obsessão indistinta partilha matizes. O sistema da iniciativa liberal é como o polvo vermelho dos pesadelos portistas. Ambos agem de forma traiçoeira e fora de controlo. Para a iniciativa liberal o sistema, presume-se, é qualquer coisa que se instalou na política; qualquer coisa de nefasto  que deve ser erradicado. Mas não é a locupletação dos gestores da TAP que se amanharam com prémios de milhões de euros em ano de prejuízos da companhia – milhões que são nossos, dos contribuintes. Um tal acto de vontade indómita seria olhada pela iniciativa liberal com a devida vénia pelo uso das capacidades individuais e do livre arbítrio. O problema está no sistema. Como este nunca é definido, o que se encontra fora deste assombrador sistema é aceite com a benevolência da cegueira ética e da impossibilidade de retoricar o que o olhar não pretende abarcar.

Mesmo um tipo inteligente como Ricardo Araújo Pereira faz semanalmente um favor à retórica dos políticos incapazes e do sistema corrupto. Veja-se a sua rábula do cidadão mosca. O cidadão mosca, o super-herói português, apresenta a sua valentia como decorrente do facto de andar no cocó, seja qual for o governo. O governo x – cocó! O governo y – cocó! – afirma o cidadão mosca na sua rábula de revolta. Quão próximo estamos do discurso segundo o qual os políticos são todos os mesmos e querem é tacho? Não estamos apenas próximos, estamos a reproduzi-lo, com laivos humorísticos. Aliás, é interessante analisar o programa de RAP. Contrariamente aos seus congéneres transatlânticos, tais como o programa de Stephen Colbert ou o Late Show com o Trevor Noah, RAP não escolhe lados; ou melhor, não o faz de forma tão ostensiva como os anteriores apresentadores. RAP pretende situar-se num espaço de neutralidade da política: um espaço onde apenas o humor conte. Ora é justamente este espaço de neutralidade da política que é ocupado pelo populismo. Pela simples razão que ele só existe na sua formulação populista. Não há espaço de neutralidade política no político. Por conseguinte, RAP, inegavelmente com muita piada, tem um palco onde repercute em ondas populistas as suas bocas e tiradas. Não sei se foi por obrigação contratual, se qualquer coisa como exigência de equidade na cacetada e derrisão estava nas cláusulas do contrato. O facto é que se trata de uma posição perigosa. É-o porque não distingue lados, nem facções, o mesmo é dizer, torna a opinião indistinta. Ora um dos segredos do populismo é justamente vender-se como o equilibrador que surge do exterior; o de inventar uma posição exterior não contaminada, algo de pristino donde se possa arvorar um julgamento final – algo divino. A pureza é por isso uma constante da retórica populista. É certo que RAP é suficientemente flexível e arguto para gozar com ele próprio, e com os seus parceiros de humor. Não obstante este savoir faire humorístico de olhar para as próprias falhas como gargantuescos e risíveis enigmas, RAP tem-se aproximado mais de um Fernando Rocha do que aquilo que estaria disposto a admitir. A lógica de todo o político é risível, logo digno a abater, diminui a política naquilo que ela possa ter de sério: o que está para além do político x ou y.

Outra instância de populismo recente que passa por ser informação: a forma como foi noticiada a reforma de Constâncio. Em grandes parangonas, o Correio da Manhã deu a conhecer aos portugueses que o ex-governador do Banco de Portugal auferia de 27 mil euros de reforma. Escandaloso, de certo, quando se pensa nos 22% de trabalhadores por conta de outrem que recebem o ordenado mínimo mensal (dados da pordata). As pessoas escandalizaram-se; e a vox populi, aquela hidra que emerge nas redes sociais e nas caixas de comentários, mostrou as fauces, cuspindo contra a roubalheira dos políticos e a vergonha que isto é! Só que no mesmo dia saíram os rendimentos dos jogadores de futebol mais bem pagos de sempre: Messi e Ronaldo. Na ordem dos 70 a 90 milhões anuais. Ninguém se escandalizou. Quanto muito, um franzir do cenho por reflexo invejoso. Mas nada mais. Dentro do sistema, do pensamento do sistema, tais números são revoltantes e escandalosos. Porém, encontram-se automaticamente justificados, num mundo onde se ganha pelo mérito. O que a indistinção do “sistema” enquanto corrupto e corruptor primordial traduz é a incapacidade, ou indisponibilidade, de reconhecer o mérito do político que a esfera pública exibe. Isto é problemático… e simultaneamente falso. É problemático porque revela uma menorização da actividade política que não quadra com a sua necessidade institucional. Em democracia, as instituições são regidas por orientações públicas, e essas mesmas orientações são definidas por critérios políticos. Poderíamos então chamar ao exercício de selectividade que opera dentro de um campo de contingências, um exercício político. Ninguém que o exerça se exime de responsabilidades, mas por isso mesmo é preciso que alguém o assuma. É falso, porque, corolário da primeira, exercer uma tal responsabilidade não é para todos, nem todos estão dispostos a fazê-lo. A distanciação do comum dos cidadãos do exercício da política, quer através do voto, quer da militância, não traduz apenas uma apatia generalizada como resposta ao falhanço dos políticos em cuidar das vidas dos homens e mulheres seus constituintes. Ela revela sobretudo uma hierarquia de facilidades: consumir é menos trabalhoso do que optar dentro da linguagem da política. Não por acaso a grande revolução das campanhas eleitorais trazido pelo contexto norteamericano é justamente a sua individualização. Ou seja, os candidatos pedem literalmente o voto em pessoa ao eleitor. Este é o paradigma da individualização absoluta da escolha política; uma lógica em que é o cidadão que se sente o escolhido e não este que exerce o direito de escolha sobre algo que lhe é superior. Note-se que esta é lógica através da qual procede a escolha comercial, consumista. A grande invenção do marketing é fazer-nos pensar que fomos nós a ser escolhidos pela marca, a marca fala directamente para nós, para as nossas necessidades e desejos. O marketing político individualizou totalmente a relação política.

Que possam então medrar contratendências num tal panorama não nos deve surpreender. Desde logo, o populismo, com a sua crítica virulenta a tudo o que é político, ao “sistema”, deixa um espaço vazio para ser preenchido com figuras extra-políticas: os imigrantes, o islão, o “sistema”. Esta alquimia é facilmente descoberta, no sentido propriamente etimológico de destapar algo que estava coberto, oculto, quando são denunciadas as estreitas ligações entre a extrema-direita e um outro sistema, o neoliberal, que pretende minar a democracia e os seus alicerces institucionais a partir de dentro. Como no caso austríaco abordado no último post, as associações entre a extrema-direita populista e o mercado neoliberal e as suas normas não é fortuita. Com efeito, ocorre amiúde que estas sejam o real sustentáculo de todo o programa populista que não pretende mais do que desviar as atenções do principal com a poeira do acessório.

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