Guerra dos cornos

Tento aproximar-me daquele block buster televisivo chamado Guerra dos tronos. Não consigo. Que pastelada indecente, que seca sensaborona, que horas de diálogos para encher chouriços!

Sofro, como poucos de nós, daquela aversão à estupidez fantasiosa que já vem dos tempos do tolkien e do senhor dos pincéis. E o problema não é a fantasia; logo eu que sou fanático pela ficção científica. O problema é que estes dois produtos da nossa cultura, que têm de permeio umas cinco dezenas de anos, são os dois maiores pastelões que deus ao mundo deitou. Porque razão concitam tanta admiração e respeito é em si mesmo um enigma.

Os dragões andavam pelo mundo dos Grimm e fazia sentido que assim fosse: a iconografia medieval estava cheia de grifos e dragões, homens com pés gigantes (onde a figura do hobbit retira inspiração), sereias e melusinas, etc. A espaços vão sendo disseminadas nos contos dos Grimm…e bruxas claro, montes de bruxas. Evoluímos desde os tempos do Grimm. Curiosamente, o imaginário medieval – que era usado fora de época pelos irmãos – perdurou. Tolkien usou-o abundantemente, com referências oblíquas à Inglaterra do século XX e à condição geopolítica das potências da época. A guerra dos tronos recupera-o com mais ou menos zombies, mas o essencial, a estrutura feudal da guerra de todos contra todos, como um estado de natureza hobbesiano, permanece.

Actualmente, os nossos dias carecem de fantasia – explicação possível para esta obsessão com Tolkien e R.R. Martin. Só que não me parece. Com efeito, dificilmente podemos imaginar uma época em que a fantasia tenha penetrado de formas tão profundas e diferenciadas a estrutura cultural. Desde o universo Manga ao Marvel, é um aluvião de cenários futuristas, fantasistas, utópicos e distópicos que seria estranho pensarmo-nos como seres à míngua de fantasia. É certo que um grego da idade clássica vivia imerso em mitologia e que a natureza apenas tinha tradução através deste universo simbólico. Temos, apesar de tudo, um distanciamento lógico-empírico das múltiplas fantasias com que somos assoberbados.

Mas eis que chega a guerra dos tronos. Podia até ser uma recriação histórica, à maneira da série “Os Vikings” (bem melhor, para todos os efeitos). Porém, escolheu converter-se em adereço medieval, com mortos-vivos e gente com poderes mediúnicos, sobretudo que dormem com irmãos e irmãs (excepto os mortos-vivos que em todo o caso poderiam fazê-lo sem peso na consciência).

Ricardo Araújo Pereira resumiu numa fórmula genial o enredo de a Guerra dos Tronos: os maias, mas sem drama. Também ele apresentava sérias reservas quanto ao fascínio e correspondente entrega que esta série, aparentemente, suscita. Mas naquilo que parece ser um dos finais – pode-se saltar 70 episódios que não se ganha ou perde nada, donde a Guerra dos Tronos longe de ser uma criação genial segue no fundamental a estrutura da soap opera ou da telenovela brasileira -, mas dizia, num dos finais, na última temporada, um tipo que tem o poder de ressuscitar os mortos é morto com uma faquinha. Isto corresponde ao paradigma de “não sei mais o que fazer com esta merda, mas qualquer coisa serve para enganar os papalvos, porque de qualquer dos modos eles querem é tudo a estrelejar!”.

É assim que G.R.R. Martin descobriu a fórmula para fazer fortuna e convencer toda a gente que era genial. Repare-se que em Martin o engodo é um modus operandi, senão veja-se a explicação imbecil que ele dá para usar justamente as mesmas iniciais do seu mestre confesso – J.R.R. Tolkien! Em vez de afirmar que se tratou desde o início de um publicity stunt, não, inventa uma história sobre uma parte da família ser protestante, a outra católica… Alto lá! Mas quem é que ele pensa que engana?

Esta continuidade tola entre Tolkien e Martin deve de facto suscitar-nos muitas interrogações. Havendo pouco de genial quer num quer no outro; sendo um e o outro réplicas da mesma fórmula – dragões, exércitos do mal, e feiticeiros num ambiente vagamente medieval – como é que esta coisa sobrevive ao transcorrer dos séculos?

Nunca avaliámos correctamente este nosso fascínio pela Dark Age. Creio que algo terá que ver com as transformações estruturais nas sociedades onde vivemos (ou na extensa sociedade global onde vivemos). O esoterismo sobreviveu por debaixo das finas carapaças de empirismo lógico que nos levam ao dentista que comprovadamente nos tira a dor de dentes ao invés de consultarmos um feiticeiro. Mas ele encontra-se nas suas formas mais subtis e insidiosas no regresso à astrologia, ao fascínio com os sonhos, à actividade divinatória, às mezinhas, etc etc. Este fascínio esotérico regressa porque em tempos ele substituiu, ou melhor dizendo, ele consistia nas formas cognitivas de mapear o mundo e dele retirar sentido. Por exemplo, o regresso aos sonhos. Quantos de nós ficamos embevecidos com o que acabámos de sonhar, vendo nisso propriedades místicas de leitura de futuros possíveis ou de ensinamentos de actos e relações passadas? E no entanto este fascínio com os sonhos como material de conduta e de programação da acção é tão velho quanto o livro de Artemidoro, A chave dos sonhos.  É certo que o Dr. Freud deu-nos a chave do autoconhecimento na sua interpretação dos sonhos. Mas o tempo dos augúrios nas vísceras e dos sonhos de morte dos feiticeiros da tribo teriam, pensávamos nós, passado. Era falso. Com toda a armadura de racionalidade com que a modernidade se revestiu, o esoterismo sobreviveu nos interstícios da contingência e da impossibilidade (afinal o que havia sido a principal promessa moderna) de controlarmos os nossos destinos. O mundo da magia surge assim como o ersatz a este inconformismo. Sem pensarmos muito sobre a coisa, mesmo após de resmas de folhas a explicarem como trabalhamos o material associativo e dissociativo, mesmo assim, dizia, enveredamos pela explicação mais esotericamente irracional que esteja à mão e ficamos embevecidos a ver as cartomantes a lerem o nosso futuro no livro aberto da nossa incompreensão. Fazem-se fortunas com aquilo que consiste basicamente em boa intuição e ainda melhor atenção aos sinais individuais. Citando Adorno no seu estudo profundamente crítico da astrologia: “A tendência para o ocultismo é um sintoma da regressão na consciência”; e ele próprio associou o fascínio acrítico com a astrologia com o autoritarismo. E não é curioso que justamente o esoterismo e o ocultismo irrompam em simultâneo com as tendências mais autoritárias? Quando entregamos as nossas democracias a déspotas iluminados feitos à medida para o século XXI é também quando nos embevecemos com o mundo da magia medieval. Ambos possuem algo de expressão de força, de violência, de virtudes guerreiras, de morte e recomeço, de opressão e, last but not the least, de salvação heróica numa figura providencial.

Algo disso sobrevive no fascínio labrosta com a Guerra dos Tronos.

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