Vox populi

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Tudo indica que o PSOE possa governar sozinho, assumindo (ou mendigando, conforme a perspectiva) pactos de coligação pontuais com forças políticas que não lhe sejam totalmente adversas.

Contudo, mais importante do que assinalar a proverbial incapacidade de os socialistas conseguirem uma maioria absoluta desde Gonzalez, será porventura notar as parecenças com a situação portuguesa à beira igualmente de um plebiscito. A direita fragmentada mostra as diversas faces que por lá se acoitavam. Assim como em Espanha conviviam no PP voxianos e ciudadanos a coberto da capa popular, também em Portugal o PSD está longe de ser o partido social-democrata em que um dia Pacheco Pereira acreditou militar.

Tenho poucas dúvidas que a chegada do VOX ao poder congressional vai dar ânimo a proto-forças como o Chega ou o Aliança. Muitos da direita extrema olham esperançados pelos desenvolvimentos espanhóis. Muito embora as situações não sejam totalmente replicáveis. Não há, actualmente, em Portugal um sentimento nacionalista como aquele que permaneceu em Espanha. Este último teve sempre o respaldo de franquistas não contaminados pela democratização republicana espanhola. Por outro lado, as tendências separatistas catalãs só vieram exacerbar estas tendências latentes.

Há em Espanha, em estado de congelamento criogénico, uma tendência falangista que não encontra o seu homólogo em Portugal. O nacionalismo português encontra-se mais simbolicamente concentrado na figura providencial do presidente Marcelo do que no orgulho pela história pátria e na recuperação das velhas glórias. O nacionalismo do presidente Marcelo é um nacionalismo ecuménico, de encontro das diferenças e agregador das dissenções. O nacionalismo espanhol é violento e afirmativo. O falangismo que se acoitava no PP de Aznar metamorfoseou-se tanto no Vox (sobretudo neste) como no Ciudadanos. Apesar das naturais diferenças, a simetria com a situação portuguesa não pode passar despercebida. Também aqui temos uma metamorfose do PSD em Chega e Aliança, em que o primeiro dir-se-ia o equivalente da extrema-direita Vox.

Não se consegue ainda perceber quem é que o Chega consegue atrair. Um partido talhado à medida dos gillets jeunes nacionais só mostrará verdadeiramente a sua face quando percebermos quem recruta para os seus quadros. Por exemplo o Vox tem uma definição mais exemplar a esse propósito. Dele fazem parte militares de carreira saudosistas do franquismo, médios empresários, quadros intelectuais do ensino, mas sobretudo o que parece já ser um padrão nos movimentos de extrema-direita mais consequentes, possui uma forte implantação na esfera da comunicação. É aí, como tem de aprender todo o bom populista, que se devem concentrar os esforços.

A articulação entre as forças de direita portuguesas na esfera comunicacional é ainda débil. O que não significa que não possam aprender e reforçar essa presença e a sua eficácia. Os périplos de Steve Bannon pelos países que caem às mãos do populismo de extrema-direita são disso mesmo vivo exemplo. Brasil, Hungria, Inglaterra, Itália, em todos Steve Bannon tem marcado presença levando a boa-nova da revolução populista informativa. Se resultou nos USA com um canhestro como Trump, porque não resultaria no Brasil com Bolsonaro, ou em Espanha com Abascal? No Brasil já resultou para gáudio da revolução cinzenta. Chamo-lhe cinzenta por oposição à rosa que levou arremedos de social-democracia a diversos países da América Latina. Essa pequena revolução encontra-se a ser esmagada na maioria dos lugares. E não por acaso, Bannon assentou arraiais em Itália, instalando-se palacianamente no país que ele firmemente acredita poderá derrubar a União Europeia.

Mas regressando à simetria Portugal-Espanha. Ao Ciudadanos corresponderia o Aliança (talvez com os liberais) e ao Vox corresponderia o Chega (talvez com o PNR). Logo aqui a direita portuguesa se encontra mais fragmentada que a Espanhola. Goste-se ou não da extrema-direita, André Ventura não é Abascal e Santana Lopes parece o retrato de Dorian Gray do próprio Rivera após ter sido ferido de Morte. Visto que nos movimentos de extrema-direita as ideias são escassas e pouco articuladas não podemos negligenciar as suas figuras principais como atractores do eleitorado. Em Portugal essa figura ainda não surgiu. Cristas gostaria de ter o impacto de uma Marine Le Pen; mas o CDS não é a Front National – e ainda bem – mantendo temas e articulações políticas fora da sua agenda, como no go areas. O mais significativo é sem dúvida a imigração. A retórica anti-imigração não pode nunca surgir no CDS com a mesma virulência com que aparece no Vox, pela simples razão da implicação no CDS nas inúmeras políticas migratórias ao longo da história da democracia. Mas pode em André Ventura, fosse este um candidato mais apelativo.

De todo modo esta tendência de fragmentação da direita é o resultado directo do recrudescimento da esquerda e não a sua implosão. Também me parece errado falar da implosão dos partidos tradicionais de direita, como seria o caso do PP espanhol – assistimos antes a uma clarificação.

Por exemplo, a radicalização da direita exibe aquilo que afinal sempre lá esteve. Ribeiro e Castro explicava ainda ontem que não podemos rotular de extrema-direita os movimentos de…extrema-direita. Segundo este ex-deputado do Parlamento Europeu, o Vox não é de extrema-direita e Orban também não. Proponho uma linha clara para terminar com a discussão: partidos que apoiem abertamente linhas nacionalistas que tiveram os seus fundamentos em movimentos fascistas são por definição de extrema-direita. A defesa do franquismo por alguns elementos do Vox deixa poucas dúvidas sobre isso. Da mesma forma, a defesa de Órban como simplesmente um político que quer uma Europa diferente, falha o essencial. No discurso de Órban, para além das costumeiras diatribes contra a imigração, ressalta o ódio à globalização multicultural (algo com que poderia estar acompanhado por Zizek) e, de forma sub-reptícia, a essa figura prototípica da globalização, o judeu. Neste caso, trata-se de Soros. Tal como o Vox, Órban critica a Europa de Merkel e Soros. Curiosamente, ele que veio justamente da Soros Foundation.

O que esta discordância, contradição exemplar, mostra é que a extrema-direita tem que ser lida como querendo outra coisa. Devemos olhar para estes movimentos e tentar perceber o que querem exactamente e que não estão a dizer. Por isso, convites como o de Ribeiro e Castro a branquear essa mesma extrema-direita são perigosos. E mais perigoso é um vira-casaca como Francisco Assis concordar genericamente que devemos ter cuidado com as classificações políticas. Este é o eurodeputado que o PS catapultou para o Parlamento Europeu.

Regressando a Portugal e ao futuro dos possíveis Voxes. Há um gáudio indisfarçável em alguma direita pelos sucessos da extrema em variados contextos nacionais europeus. Paulo Portas, no jornal da TVI, recuperou o argumento de Ribeiro e Castro pintando-o de tonalidades ainda mais capciosas: a tese da simetria entre os extremos. Para Portas, para falarmos de extrema-direita teríamos que falar de extrema-esquerda para o Podemos. Mas teríamos? Se a separação lógica das águas for justamente aquilo que eu assinalava atrás, ou seja, a proximidade ideológica ou afectiva a regimes autoritários de antanho, então nada mais descabido do que chamar extrema-esquerda ao Podemos ou ao Bloco de Esquerda! Onde está o trotskismo no segundo? Onde está o leninismo no primeiro? Ambos os partidos estão absolutamente pacificados em relação quer a uma sociedade de consumo capitalista, que tentam apenas corrigir, ou à pertença à União Europeia. O que existe então de extremo neles? Com honestidade, nada.

Diferente é a situação da extrema-direita. Não somente a sua proximidade a uma matriz ideológica autoritária é real como os seus temas são apropriadamente classificados de extremistas. Primeiro, a xenofobia radical que passa na mensagem destes partidos. Quer Abascal, como Salvini, como Órban, são radicalmente anti-imigração não por qualquer razão lógica que ao menos pudesse ser debatível, mas por puro proteccionismo cultural. Um tal proteccionismo cultural varia desde a muralha cristã que tem que ser erguida contra o bárbaro invasor (Órban) até à questão racial mais atávica (Salvini e Partido Nacionalista Alemão). Mais uma vez o âmago deste discurso é a contradição. O exemplo de Trump e o seu discurso radicalmente anti-imigração é clássico, quando ele próprio é oriundo de famílias imigrantes.

O segundo aspecto da radicalidade destes discursos é a reivindicação de acabar com os impostos. Há, como já referi noutros posts, em qualquer destes personagens um ódio ao Estado Social que não encontra o seu equivalente no Estado cultural. Ao fim do primeiro, contrapõe-se o reforço do segundo. Convivem assim o neoliberalismo mais desabrido com o conservadorismo mais paroquial. Se virmos bem (e muito contra Zizek) não é a esquerda que insiste na fragmentação identitária – é a direita, e em particular a extrema-direita. Os mais insistentes no particularismo identitário não são os grupos de esquerda, mas sim a extrema-direita. Podíamos dizer, terceira e porventura maior contradição, que os protestos sistemáticos dos intelectuais da direita contra as políticas de identidade deveriam ser assestados a eles próprios. A paranóia identitária está do lado deles. A defesa da identidade cristã, da história pátria, da unidade nacional contra os perigos da globalização – essa sim é a verdadeira política de identidade! Infelizmente não possui nenhum dos aspectos emancipatórios da outra, a política política de identidade (a iteração do termo política não é uma gralha).

E onde é que isto nos deixa? Que o recrudescimento da extrema-direita é uma realidade. Mais preocupante ainda é a sua implantação no eleitorado mais jovem que faz cair por terra aquela tese tão apressada quanto pateta segundo a qual seria o velho operariado desafeiçoado dos partidos tradicionais que estaria a alimentar estes movimentos. Não é. E as estratégias de implantação nas redes sociais mostram à saciedade que os alvos do populismo estão bem definidos e entre eles encontra-se maioritariamente os jovens.

Que esta extrema-direita está apostada em minar a Europa por dentro. Bannon, por exemplo, instiga à sua corrosão na linha da destruição de um concorrente com o poderio económico (mas não militar) dos USA. E porque não a China? Porque a teoria do third player implica que o confronto directo entre dois gigantes, tal como na guerra fria, seja o estrategicamente preferível, contra um terceiro que se imiscui na lógica de criação de um inimigo. Países como a Áustria, Itália, Hungria, Polónia, só para citar alguns onde a extrema-direita está no poder, pouco teriam a ver com a geopolítica dos USA não se desse o caso de os seus interesses económicos coincidirem. Ou seja, a implantação daquilo que a filósofa brasileira Marilena Chauí chamou de Totalitarismo neoliberal.

Talvez a maior mentira seja mesmo como a coberto da retórica xenófoba o que se pretende passar, em termos reais, é um totalitarismo neoliberal. Neoliberal nos princípios económicos (também aqui na sua radicalidade) e totalitário na distorção democrática.

A montanha e o rato

Anunciado como o debate do século (o XXI bem-entendido) o embate entre Zizek e Peterson ficou aquém do esperado. Ou esperava-se realmente que alguma coisa de interessante saísse daquele encontro? Tal como no wresttling todos sabemos que é a brincar, uma pantomina, mas mesmo assim escolhemos ficar a ver porque a performance é engraçada. Creio que, salvo uma criança retardada mental norteamericana, ninguém acredita que o wresttling é uma luta a sério. Assim também com o debate que opôs Slavoj Zizek e Jordan Peterson. O primeiro, uma mega-star da filosofia e do pensamento contemporâneo; o segundo, um ícone da direita conservadora, mas sabe-se lá bem porquê!

A estratégia de Peterson foi, para sermos simpáticos, dinaussárica. Só um burro da direita conservadora (ao nível de um André Ventura ou de um Henrique Raposo) poderia pensar que dar porrada no Manifesto Comunista de Marx iria importunar minimamente Zizek. Ele que tenta fazer um híbrido entre Marx, Hegel e Lacan para complementar justamente aquilo que está em falta em Marx. Em termos muito simplórios, a Marx vai buscar a crítica da ideologia, a Hegel a negação da negação e a Lacan o sintoma e o núcleo vazio do sujeito. Daqui faz uma sopa que provoca câimbras mentais a qualquer um que se debruce sobre o seus livros sérios de filosofia (sobretudo, the ticklish subject, tarrowing with the negative, Less than nothing (a sua opus magnum hegeliana). Por isso, se a ultraestrela da alt-right mundial não sabe melhor do que ir buscar o Manifesto para infirmar as previsões marxistas, devia ficar em casa a dormir.

Mas se Peterson queria fazer uma crítica ao Manifesto e às suas teses, não era Zizek que deveria buscar, mas os próprios marxistas. A tese segundo a qual a economia é o motor da humanidade, implícita na relação de dependência da superstrutura com a infraestrutura, foi rebatida diversas vezes, e mais recentemente Marxistas como Elster ou John Roemer, um, cientista político, o outro economista, complexificaram essa relação com a própria introdução de uma multiplicidade racional, i.e., um complexo de motivações que embora passíveis de serem lidas em termos de racionalidade de maneira nenhuma se esgotam numa estrita racionalidade económica. Em abono da verdade, o próprio Marx estava longe de afirmar uma tal redução e o seu pensamento só tem sentido dentro de uma análise do capitalismo enquanto sistema histórico sui generis.

A outra inutilidade argumentativa, chamemos-lhe assim, que Peterson trouxe à colação foi a ideia segunda a qual era preciso rebater o simplismo do esquema da luta de classes que opõe proletariado e burguesia. Aqui o desconhecimento ainda foi mais penoso. Não apenas o próprio Marx introduz muitas e variadas modificações no esquema que apresenta no Manifesto, em particular no 18 de Brumário, quanto aquilo que era percepcionado como uma impossibilidade estrutural por varíadissímos pensadores no espectro do marxismo, foi reformulado por uma geração de 60 que compreendia autores como Poulantzas, Miliband, Bachrach e Baratz, Althusser, Balibar. Bastava para tanto ter lido o Lire le Capital de Althusser e Balibar para perceber que o inconformismo com as afirmações do manifesto comunista e a sua teleologia histórica germinava sobretudo no seio dos próprios marxistas. Até porque os conservadores fugiam do Manifesto como do diabo da cruz. Basta para tal lembrar que durante anos a fio nas menos que democráticas sociedades ocidentais era livro proscrito que tinha que ser lido na clandestinidade – deste e do outro lado do atlântico.

Muito embora Peterson diz que fez uma releitura do Manifesto que, segundo relata, teria lido quando tinha 18 anos, não podemos deixar de suspeitar que o seu espanto labrosta pelo conteúdo do mesmo se deve à sua primeira incursão na obra. Ora um académico com a história académica de Peterson abeirar-se do Manifesto aos 58 anos, deve ter o bom-senso de o deixar sossegado na estante donde, tudo indica, ele nunca o retirou. E é claro que a ideia segundo a qual a economia não é o único nem o principal eixo da opressão atravessa todo o trabalho de Bourdieu, quiçá o maior e mais original reformulador do binarismo simplista da luta de classes de acordo com o Manifesto. Poderá Peterson ter passado ao lado dessa imensa produção teórica? E se sim, que está a fazer ao desafiar Zizek para um debate?

Infelizmente, para mal dos nossos pecados, Zizek está tão cheio de si mesmo que o resultado é invariavelmente dar porrada na esquerda – aquela cuja pertença ele reivindica. Ou não exactamente: trata-se de uma esquerda imaginária que tanto Zizek e Peterson inventaram e cujo caderno de encargos, na leitura dos dois, é a política de identidade.  Não admira, por conseguinte, que se tenham encontrado os dois à esquina a tocar a concertina. Zizek já deveria ter provado do seu próprio veneno quando apoiou Trump na esperança de uma qualquer reacção extremada contra o establishment liberal. Seria totalmente descerebrado se em retrospectiva continuasse a dar respaldo a tal movimento. Trump saiu muito pior do que se imaginava. Uma lição para todos os comunistas que sempre atacaram a social-democracia na esperança de encontrar o fim do capitalismo ao chutarem uma pedra. Mas pior do que isso é que Zizek não disse coisa com coisa, fez dos seus argumentos uma confusão a despropósito e mostrou à saciedade (julgo que não deliberadamente) que a discussão filosófica não segue os mesmos protocolos hipotético-dedutivos da maioria das ciências. É pena. Zizek fez um desserviço à esquerda e à filosofia. Matou dois coelhos de uma só cajadada…onde devia tê-los deixado saltar pelos campos. Não posso concordar por isso com aqueles que se babaram com o Zizek das anedotas e dos puns. Note-se que Zizek é, geralmente (há excepções), organizado naquilo que escreve. Quando fala contudo não se dá ao trabalho de compor um argumento no estilo axiomático que se pratica em Harvard. Parte do fascínio que ele provoca advém disso mesmo: da sua postura pública, errática, rebelde; e aí Peterson acertou na mouche: Zizek é o personagem Zizek. Tal como era costume em Portugal ter uma cópia do Memorial do Convento na prateleira para inglês ver, também a maioria conhece de Zizek as suas intervenções youtubicas. Nesse sentido, a lógica escorreita de Peterson contrastou, para melhor, com a aleatoriedade de Zizek. O que começa a dar azo que se questione se, bem para além da sua imensa erudição, este último terá de facto alguma coisa para dizer. Foi cansativo, sobretudo para Peterson (pareceu-me) seguir as contorções do discurso de Zizek. É claro que para o fim Zizek esclareceu Peterson sobre a riqueza, e a consequente complexidade, de Marx sugerindo a leitura, justamente, do 18 de Brumário e da Crítica da Economia Política. O espanto de Peterson perante as leituras de Marx nestas duas obras speaks volumes da sua ignorância como diriam os anglosaxónicos. Que um homem possa pegar num debate tentando rebater o Marxismo sem ter lido as duas mais importantes obras de Marx explicita bastante a natureza do debate e os charlatães da nova direita que temos pela frente. Na nossa pequeníssima dimensão, homens como o João Pereira Coitadinho ou o Henrique Raposo, passeiam a sua imensa ignorância com a jactância de intelectuais orgânicos da alt-right do Portugal dos pequeninos. Que isto tenha, no caso do primeiro, expressão no Brasil só mostra como o debate está viciado pela assimetria na distribuição de lugares de enunciação.

Peterson ficou perdido perante a renúncia de Zizek do Marxismo tradicional. Sugeriu-lhe que em vez de Marxismo ele advogasse um Zizekismo. Sem perceber que Zizek já é o Zizekismo!

Para concluir, os dois, quer Zizek quer Peterson, estão presos aos mecanismos da cultura de marca, das ted talks e das conversas de auto-ajuda. O conhecimento que tinham da obra um do outro era inexistente (melhor seria dizer, o desconhecimento). Ambos estão tão absorvidos em si próprios que nem se deram ao trabalho de ir à liça contrariando as posições alheias, baseados nos trabalhos do oponente, na sua produção, na sua polemização. Um debate é uma situação onde se apresentam argumentos que se não contrariam ao menos tomam em conta o pensamento do interlocutor. Quando se desconhece o que pensa o interlocutor não pode haver debate: há monólogos. E foi isso que se verificou. Duas figuras monologantes que expressam mais a situação cultural actual de solipsismo viral hedonista do qualquer coisa que se aproximasse do “debate do século”.

 

Nem herói nem criminoso – mercador.

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O chorrilho de disparates que Carreira da Silva despeja sobre a figura do herói no Público de terça feira faz temer pela sua sanidade mental e cultura geral. Comecemos pela ideia peregrina de que um herói é “impoluto”. Nunca o foi. E basta o mínimo de conhecimento da produção cultural universal para rapidamente chegar a essa conclusão. Mas fiquemos pelo universo Marvel, a referência actual àquela que seria uma mitologização dos velhos termos da dicotomia moral: a luta entre o bem e o mal. Poucos são os heróis “impolutos”. Não apenas existe sempre um âmago traumático na biografia do herói que o transporta para o “larger-than-life” das figuras prototípicas do universo literário anglo-saxão (Beowulf, Falstaff, Ahab, Gatsby, Kane); como esse é justamente a explicação para a sua heroicidade, ou seja, para o seu desprezo pela morte, o que o separa dos restantes mortais. Nada no herói corresponde por conseguinte à figura descrita por Carreira da Silva.

Para além do simplismo com que aborda o tema, evitando aquilo que é o núcleo da heroicidade, ou seja, a sua fundamental ambiguidade, o raciocínio do sociólogo é extremamente inadequado, ao ver a heroicidade como a batalha entre o bem e o mal, em que estes termos encontram-se perfeitamente delineados na sua distinção. Veja-se por exemplo Antígona. Heroína ou vilã? Para Creonte é uma vilã porque usurpa a lei que deve estar acima dos desejos e sentimentos individuais. Todavia, Antígona representa a superação individual, o sacrifício por uma verdade mais ampla que a lei humana, uma vontade inabalável pela virtude do amor. Escorreito este dupla esquema de heroicidade? Longe disso. Como então dizer uma patetice deste calibre “Isto porque um herói quer-se absolutamente impoluto. Qualquer mancha nessa imagem, que em qualquer de um de nós comuns mortais seria rapidamente desculpável, desfigura-o sem apelo nem agravo.” Revela uma falta de reflexão sobre o assunto incomodativa.

Batman. Segundo exemplo do herói dual. Nada em Batman é impoluto. O facto de Bruce Wayne ser a figura pública que incita ao maior desprezo e enxovalho, um alter-ego que apenas exorta à censura dos cidadãos de Gotham, não implica que Batman não seja igualmente vilipendiado. Por razões diversas, quer a máscara quer o verdadeiro, que é o mascarado, numa inversão fundamental da ideia de persona, são rejeitados pela sociedade mais alargada. O herói é uma figura sacrificial que não inspira no geral bons sentimentos, mas concentra em si a impotência da sociedade relativamente às figuras do mal. Tal como no sacrifício é a sociedade que se resgata através do herói; e é por isso que ele necessita de ser mais do que humano, para ter a capacidade de absorver, sem quebrar, o trauma da impotência social perante as suas próprias perversões.

É por isso também que Cristo não é um herói. Cristo morre para salvar a humanidade. Mas faz o caminho inverso: necessita de regressar à condição humana para cumprir a missão divina. Cristo, esse sim, é humano demasiado humano.

E agora falemos a sério da questão do Rui Pinto, bem para além de todas as banalidades que se possam dizer sobre a sua heróicidade ou vilania. O que encanita no Rui Pinto é só ter revelado segredos de alguns e não de outros. No caso português é estranhíssimo que nunca se revelem informações dos outros dois clubes rivais do Benfica, o Porto e o Sporting. Mais estranho ainda é como é que um javardo como Francisco J. Gomes tinha acesso em primeira mão à informação roubada pelo menino Pinto. Como é que o menino se deu ao trabalho de uma tal concentração sobre o Benfica e uma tal displicência relativamente a todos os outros. São as mesma questões que surgem muito logicamente no caso Snowden: porquê só os americanos, e não os russos? O mesmo para Assange: porquê Hilary e não os republicanos? E são essas questões que permanecem sem resposta que induzem a suspeita de que se trata de trabalhos encomendados.

Nem heróis nem vilões – mercadores, à procura de guita, muita guita.

Países paralelos

Foto: António José/Lusa

Se há exemplo acabado de dois países que vivem em paralelo é o último artigo de Miguel Sousa Tavares no Expresso. Para MST é fútil esgatanhar-se por um lugar ao sol na função pública, nomeadamente de secretário de Estado ou subsecretário, porque não compensa o esforço de ir trabalhar por “quatro mil ou cinco mil euros brutos” (sic). Num país cujo ordenado médio base, segundo a pordata, se cifra em 943 euros, afirmar o que afirma MST é obsceno. Mas mostra sobretudo que em Portugal existem dois países – um da elite; outro dos restantes. Esse é no fundo o problema político português. O distanciamento da elite da vida comum da maioria dos cidadãos constitui-se enquanto problema da política na medida em que possui reflexos muito tangíveis nas opções de política nacional.

No país real, não onde MST vive, as famílias desunham-se por garantir futuro e pecúlio na função pública porque ela representa ainda assim o lugar seguro por inerência. Até Rangel, que não obstante ganhar fortunas nos escritórios de advogados, foi para o parlamento europeu porque não apenas este garante uma reforma choruda com dois mandatos que sejam como representa um acréscimo significativo de pecúlio. Seria necessário escrutinar, como foi frequentemente aventado, as ligações familiares nos gabinetes da comissão europeia e do parlamento europeu, o super-estado que zela pelos destinos dos europeus. Sem dúvida que os resultados seriam de estarrecer.

A prática de locupletação de familiares através dos canais do estado apresenta não apenas um problema ético, como sobretudo um problema técnico. Afinal um concurso é um processo que não envolve apenas o ministro ou secretário de estado e o proponente ao lugar. Envolve um júri, um trabalho de cotejo das várias candidaturas, a ponderação das biografias e das carreiras, enfim, todo um processo selectivo que está implícito na abertura de um concurso e que não existe no sistema de recrutamento directo em que o patrão diz simplesmente “quero o zé manel para o lugar x!”. Por conseguinte, mais do que o problema ético da co-optação directa de familiares apresenta-se o problema procedimental da completa falta de fidedignidade  do designado procedimento concursal. Porque se é assim que funciona quando se trata de ministros e secretários de estado – com total opacidade e enviesamento – porque não será nos micro-espaços de decisão, tais como gabinetes, direcções gerais, etc? A resposta toda a gente a conhece. Sim, é exactamente da mesma forma que a coisa se processa. E a coisa, ao contrário do filme de Carpenter, até tem um nome: nepotismo. O problema é que contrariamente às virgens ofendidas do PSD e CDS o tal nepotismo não se encontra acantonado num sector ou força política é verdadeiramente o modus operandi do recrutamento. Acredito que haja disseminado pela sociedade portuguesa um profundo sentimento de injustiça que é alimentado desde tenra idade. A idade com que o novel trabalhador confrontando-se com o mercado de trabalho conclui rapidamente que o processo está viciado. Que conhecer alguém é bem mais importante do que a indistinção da competência técnica ou da vontade. É óbvio que esta estrutura de favoritismo só interessa em trabalhos diferenciados. Para trabalhar no Pingo Doce ter ou não conhecimentos no sítio certo é pouco recompensador.

Esta estrutura de afinidades, de familismos vários, mina a confiança nas instituições. Talvez seja a principal causa de esta mesma confiança apresentar valores tão baixos na sociedade portuguesa. Os portugueses sabem que entre eles e as instituições há uma teia de favores, de favoritismos, de preferências, que frustram o exercício simples da cidadania. Este é, curiosamente, o segredo de polichinelo da sociedade portuguesa. Todos o conhecem; mas todos vivem esperançados que um dia possam ser alvo da sua mão benevolente e providencial. De tal forma é um não dito que o próprio MST no seu artigo perde a coragem de dizer aquilo que está à vista de toda a gente: que ele próprio foi beneficiado por este esquema de favores na sua entrada para o Estado. Veja-se como tem o cuidado de sublinhar que de todos, ele seria o único que não estaria ali por favor. Sempre é assim: se por cada favorecido houvesse o exercício de autoconsciência que revelasse o ocorrido, o sistema ruiria pela base. Porque apenas pode funcionar com a conivência do beneficiado. Com o seu silêncio. Porque é este que constrói a sua viabilidade contrastante, ou seja, eu estou neste lugar por oposição a todos os outros que não possuem a mesma vantagem estrutural no sistema de favores. Não dito que firma contudo uma norma informal, um direito costumeiro. A primeira coisa que os pais se perguntam mutuamente quando os filhos se lançam no mercado de trabalho é – quem tu conheces?, de tal forma somos caldeados por esta exigência cultural. Chamar-lhe uma cultura seria no entanto dizer que ela não teria uma existência na materialidade. Quando é justamente o contrário que acontece. Há uma materialidade de encontros, de cafés tomados com o sr. Director para que conheça fulano, de idas à tourada com a personalidade “y”. Recordo ainda de como poderia facilitar uma carreira acompanhar o sr. padre Milícias à tourada! Mas histórias destas repetem-se por qualquer organização.

Onde ficamos então? Pela noção algo turva de que a confiança é mais importante do que a competência técnica? Pela ideia de que por detrás da modernidade dos procedimentos encontra-se o ancilosado das práticas tradicionais pré-modernas? Pela noção algo platónica de que se trata de um ethos português e como tal não há nada a fazer? Ou entendemos uma tal prática como aquilo que ela verdadeiramente é: um exercício discricionário de poder por parte de elites que defendem o status quo mais conveniente? Em boa verdade, os processos de transparência absoluta, de padrões éticos inatacáveis, são quanto mim bem mais obscuros e aterrorizadores do que os velhos compadrios. E a razão é simples: estes processos de transparência total só existem em sistemas totalitários. O que caracteriza os sistemas normais (no sentido de norma estatística) são as zonas cinzentas, as torções, os subterfúgios, os lapsos e espaços por preencher. E assim é quer nas relações entre humanos quer nas suas mentes.

Famílias bem mais preocupantes

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Enquanto nos entretemos com o escândalo das famílias do governo, a comunicação social vai dando soluços conservadores e preocupantes. Esta sim, talvez a maior família, a mais bem resguardada e mais escandalosamente nepotista. E com muito maiores consequências do que as cunhas governamentais para o agregado familiar.

Falo concretamente da entrada de David Dinis para a direcção do Expresso. David Dinis, militante do cds-pp, tem no seu currículo um invejável tirocínio no melhor do conservadorismo alt-right à portuguesa. De editor de política do Sol, passando pela direcção do público, com a mãozinha de José Manuel Fernandes, a director do Observador e da TSF, chega agora à direcção do expresso. Esta transladação nos meandros da comunicação social revela, a meu ver, o seguinte: uma mudança estratégica no expresso que preparando-se para as batalhas eleitorais que se avizinham pretende afirmar-se mais à direita, doravante, quase certamente acoitando o que de melhor a alt-right produz ideologicamente. Regressaremos talvez aos tempos em que homens iluminados como Carrapatoso tinham lugar cativo nas páginas do Público. Também não será surpreendente se assistirmos a algumas múmias do Observador a poisarem nas páginas do Expresso. Estamos por conseguinte a presenciar uma translação ideológica que será de todo o interesse seguir nos próximos tempos.

Com a ajuda de Luis Delgado, o grande tycoon da hipocritamente intitulada Trust in News, o panorama da comunicação social fica inteiramente nas mãos da alt-right portuguesa. Todo? Não. Há uma pequena aldeia chamada Público que resiste à devastação. E isto muito embora pertencer este ao grupo sonaecom, um vértice do conglomerado sonae.

Esta família preocupa-me bem mais do que a fulana que é casada com sicrano e que se acoitaram os dois numa subsecretaria de Estado. Ao pé do cogumelo ideológico que paira sobre a comunicação social portuguesa isto é peanuts. Todavia, desta família não se fala muito. Uma família onde todos são comadres e compadres ideológicos e os grandes negócios dão cobertura ao que se convencionou chamar “jornalismo de investigação”. Podíamos começar por investigar a concentração que sofre a nosso tecido comunicacional. Nos Estados Unidos, país onde a promiscuidade entre negócios e comunicação social é o ar que se respira, temos contudo uma divisão que eu chamaria libertária no sentido em que os founding fathers usaram a expressão. Embora se trate de dois grupos entrincheirados, a verdade é que o pluralismo informativo funciona em clave de oposição radical. Fox e CNN existem nos antípodas noticiosos, ideológicos, programáticos. New York Times e Washington Post (para não falar de publicações como o New Yorker) encontram-se no espaço político diametralmente oposto ao Washington Examiner ou ao Breitbart. Ou seja, a escolha é real.

Podemos defender que o jornalismo português é mais plural na medida em que dá voz a diversos sectores políticos e opinativos, geralmente nas mesmas publicações. Poderia ser, não fosse o caso da equitatividade de vozes encontrar-se longe de ser adquirida. Há uma razão simples para isso: o seu condicionamento editorial por parte das cúpulas. É que por detrás de uma aparência de pluralismo, a agenda mediática é definida por quem manda. O Observador, diga-se em abono da verdade, assumiu o estilo norteamericano adoptando uma linha parcial sem contemplações. Tal lógica não seria criticável caso houvesse poder económico para sustentar um jornal com uma linha de sinal contrário. Isso não existe no panorama português, porque não há interesse da parte dos verdadeiros senhores da comunicação social.

O espaço noticioso português ainda não se encontra inquinado como o brasileiro ou o argentino, onde os principais jornais e televisões pertencem a uma elite alinhada politicamente e sem qualquer complexo em demonstrá-lo através dos canais comunicativos que possuem. Mas se continuam a pulular Davids Dinis pode ser que se chegue aí. Em tempo de guerra não se limpam armas e a direita já percebeu que não ganhando na economia vai ter que ganhar na opinião. E a sua especialidade tem sido a da poluição.