Familismo

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Em tempos foi teoricamente plausível aventar que existia um fenómeno nas sociedades mediterrânicas que se designava por familismo. A este associavam-se um conjunto de comportamentos que iam desde a honra até à endogamia. O tal familismo possuía razões históricas, antropológicas e sociológicas e, pasme-se, era visto como sinónimo de atraso social (pace Banfield).

Actualmente o que mais surpreende é o facto de uma sociedade em que os processos se pretendem transparentes e escrutinados; em que abundam os dispositivos de registo e de rastreio; em que os sistemas periciais cada vez se encontram mais articulados, estejamos a regressar ao modus operandi do familismo. E bem para além das sociedades mediterrânicas, que pese embora a teoria, nunca foram o úbere familista que quiseram mostrar. Devemos parar para pensar quando sistemas de recrutamento construídos para detectar a mínima incongruência são facilmente minados pelo capital social familiar.

Do capital social sempre se demonstrou ter mais influência do que as supostamente pristinas regras do mercado ou do que os procedimentos regulados de recrutamento (pace Granovetter). Mas o regresso do familismo torna a lógica do capital social ainda mais estrita. Trump distribui cargos de importância governamental superlativa pelos filhos e genros. Bolsonaro, no outro hemisfério, do discurso moralizador da política passou a oferecer prebendas governamentais a toda a família. E seria fácil multiplicarmos exemplos por países como a Rússia, a China, ou a Hungria. Não há verdadeiramente uma linha comum a estes exemplos que não seja o facto de o familismo se confundir com a distribuição de posições de poder.

A um nível mais básico, o familismo é o santo e senha da organização privada – não a meritocracia como por aí se quer fazer crer. Em cada grande grupo económico, em cada grande ou média fortuna, aparece a família judiciosamente distribuída pelos lugares estratégicos. Pickety mostrou que o capital se acumula por herança e que o mito do self made man não passa disso mesmo: um mito.

Vivemos em época de aparências. Somos aparentemente lindos no instagram e facebook. Somos aparentemente dignos de atenção nas revistas e spots televisivos. Somos aparentemente brilhantes nos curricula e sucessivos dispositivos de venda da individualidade. Somos, enfim, aparentemente democráticos na distribuição do poder de governo. No fundo estamos todos mais ou menos conscientes que isto não passa de aparências, senão não faríamos um esforço tão grande, quotidiano, para “aparentarmos” nas múltiplas arenas em que participamos.

O escândalo com o familismo do PS tem um tanto de cínico. O assalto ao palácio de inverno é um ritual que acontece a cada mudança política, a cada soluço do status quo governativo. O que me parece sempre caricato é que aqueles que dizem menos preocupar-se com o Estado, que afirmam mesmo a sua dispensabilidade, são geralmente os mais encarniçados no seu assalto oportunista. Não há obviamente razões válidas, meritocráticas (seja lá o que isso for) para transformar a estrutura do Estado numa árvore genealógica. Mas tão-pouco há para transformá-la numa camarilha, num confraternização de comensais, num contubérnio de extracção partidária. Contudo é sempre isso que se verifica.

Em tempos quando a palavra meritocracia ainda não poluía o nosso arco hermenêutico, o recrutamento de familiares não apenas era visto como natural, mas sobretudo como obrigatório. De que outra forma se poderia assegurar que as coisas ficassem nas mãos do mesmo grupo? Os colectivos evoluíram, complexificaram-se, mas o familismo persistiu.

É facto que ninguém entende muito bem porque é que um belo dia o chefe de uma área numa empresa é um dos filhos do patrão. Mas é assim que as coisas acontecem. A nossa obsessão com a coisa pública, a res publica, não nos permite actualmente avaliar as condicionantes e abusos da esfera privada, que são muitos mais e com consequências maiores para a nossa vida quotidiana. Contudo, à boa cínica maneira do Iluminismo escocês, onde as virtudes privadas são sempre transformadas em benefícios públicos, não consideramos esses comportamentos escandalosos. Por exemplo, alguém rasgou as vestes porque Mariana Canotilho foi eleita juíza do tribunal constitucional? Que eu saiba não. E no entanto o seu apelido carrega a indelével marca do familismo. Nas universidades a mesma coisa: maridos e mulheres, filhos e pais, um não acabar de carreiras construídas – e facilitadas – pelo sangue e afinidade.

É na governação que as coisas se complicam. Desde logo, porque estamos saturados de escutar que “eles querem é tacho”. Independentemente de não haver cotejo empírico da tacharia noutras organizações e instituições que permitisse concluir que assim é. Mas a vox populi é tão audível que o familismo quando identificado, surge como o reforço daquele significado vazio “eles querem é tacho”. As campainhas morais vibram de ultraje. O “problema ético” irrompe vigoroso pelas janelas escancaradas da democracia. E todavia devemos perguntar-nos se não é justamente a meritocracia que é uma mentira? Se não é a ideia de meritocracia que esconde todas as afinidades, compadrios, ajustes e homogamias sociais que correm e multiplicam-se bem diante dos nossos olhos. Facilmente chegaríamos à conclusão que sim.

Para mim meter a mulher ou o compincha do partido são igualmente censuráveis, caso a lógica ditasse que as relações nas instituições são transparentes e cristalinas. Com uma agravante, com a mulher pode sempre haver merda enquanto com o compincha de partido o elo da dádiva é muito mais forte.

 

Coisas de mulheres

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Há qualquer coisa de intelectualmente medíocre nas formas mais extremadas de feminismo. A paranóia com o patriarcalismo é uma delas. Como se as estruturas patriarcais fossem o alfa e ómega da desigualdade e injustiça humanas. As feministas parecem acreditar que sim. E reparem que na sua luta sem quartel não procuram mais do que substituir o ismo do patriarcalismo pelo ismo do feminismo. Os ismos, analisadas bem as coisas, encontram-se. Porquê?

Sabemos que a coisa toma dimensões ridículas quando somos instigados por Isabel do Carmo a abolir a expressão filho da puta. E porque não cabrão? Ou cara de caralho? Que tem a puta de mais ofensivo do que o cabrão? E o que dizer de vai levar no cu? Uma ofensa daninha para toda a comunidade homossexual, não? Devia ser abolido também. Aliás, todos os palavrões deviam ser abolidos, porque de uma forma ou outra atingem sempre um qualquer grupo. Tornava a língua bem mais aborrecida, no entanto. O que era uma pena. Sobretudo quando a linguagem das feministas de quarta geração é aborrecida até ao tiro nos miolos.

Paradoxalmente, porque estamos nos antípodas do universo discursivo anterior, Maria Vieira começa a sua defesa recente, e pública, dizendo “será que a Maria Vieira só por ser uma mulher conservadora…”. Joga de imediato a carta da classificação, algo que ela friamente odiaria, pelo mesmo ódio que nutre contra as feministas de quarta geração. Mas mesmo uma assumida “patriota nacionalista” e apoiante de “Trump e Bolsonaro” como se apresenta, puxa do trunfozinho da categoria mulher. E isto porque se sente injustiçada mediante a reverência que a imprensa presta aos dois wonder boys da comédia portuguesa: Ricardo e Bruno. Não Maria, não tem nada a ver com condição feminina. É mesmo porque tu és estúpida e eles não são.

O problema é que até uma mulher inteligente como Isabel do Carmo se torna risível quando se mostra muito ofendida pela existência do termo filho da puta. O que seria, por exemplo, dessa bela expressão popular “ponham as putas no governo que os filhos delas já lá estão?”. Aqui se elabora toda uma crítica de classe e contra o poder onde se estriba o mais estridente do populismo. O feminismo, no seu estado mais desenfreado, procura uma purificação que não existe nas coisas do mundo. Um lugar sem arestas, sem zonas cinzentas, sem fugas. Aliás, os movimentos lgbtis e afins apresentam uma fúria classificadora que é inteiramente contrária a qualquer sentimento de liberdade. Esta vontade de arrolar, categorizar, colocar o rótulo, é produto de uma paranóia classificatória que apenas encontramos em regimes de verdade que se pretendem transparentes…à obsessão.

Recentemente assisti a uma cena confrangedora que envolvia feministas. Numa manifestação do 8M, algumas mulheres expulsavam os homens da principal praça da cidade porque, diziam, a praça lhes pertencia naquele exacto momento. A histeria estava no auge. Bem sei, histeria é uma categoria que se aplica facilmente ao feminismo e, por maioria de razão, deve ser evitada quando estes assuntos são discutidos. Todavia, não há outra forma de descrever o que se passava, senão uma histeria colectiva que tinha assolado algumas das manifestantes. O melhor do anti-semitismo (ou seja, o seu pior) não poderia encontrar mais ajustada reformulação! O homem, como por alquimia ideológica, passava a ser o elemento impuro que literalmente emporcalhava a praça.

Estou ciente que a maioria das feministas não se comporta desta maneira. Mas a ideia segundo a qual a presença do homem é simbolicamente opressiva atravessa algumas destas indignações, como os exemplos das duas figuras públicas que dei atrás. Esta preocupação com a identidade da mulher, construída sempre contra algo para que forje o seu lugar político, deixou de ter um centro. Ou seja, se no feminismo da década de 70, caldeado pelas injunções de De Beauvoir sobre a mulher “tornar-se mulher” havia uma crítica radical ao poder falocêntrico, actualmente há uma busca extremada pela identidade feminina, pelo ser mulher enquanto afirmação da essência do feminino. É neste essencialismo que se encontram tendências emancipatórias e conservadoras. É por este essencialismo que Isabel do Carmo pode brandir as mesmas bandeiras que a ultraconservadora Maria Vieira. É em virtude deste essencialismo que a categoria mulher ganhou prioridade ontológica sobre qualquer outra relação.

No entanto, esta vaga de feminismo (ou pós-feminismo, como algumas lhe chamam) é feita de ambiguidades e indefinições. Por exemplo, o destaque que se dá às mulheres empreendedoras, com prémios, com a imagem destas representada nos anúncios, com as múltiplas invocações ao sucesso destas mulheres, que função tem? Este não é um feminismo do destino colectivo de uma classe. É um feminismo individualizado, singularizado pelas mesmas razões estruturais que assiste o reconhecimento nas sociedades contemporâneas, absorvido na voraz lógica da distinção e do distintivo…e na concorrência.

Há por conseguinte dois mundos que se digladiam. Dois universos paralelos no multiverso das lutas pela identidade (esta saiu bonita!). De um lado, uma economia de identidades, que já nada deve à velha, rançosa, política de identidade. Do outro, a mulher sofrida e maltratada, a da violência masculina e da opressão fálica. É no fundo um combate de titãs. Da primeira sabemos dizer que é um sistema estrelar: mulheres engalanadas que se projectam no espaço simbólico do destaque e admiração comunicacional. Da segunda, dizemos que se trata de misoginia popular: mulheres vítimas de um homem envergonhado por perder paulatinamente o seu lugar de amo e senhor. Porque esta é a reacção, a simétrica do excesso de feminino. Não significa que se esteja de acordo ou sequer que sirva de desculpabilização aos actos iníquos perpetrados contra mulheres. Mas é nesta deslocação tectónica de lugares de género que actualmente se joga o fundamental. E esse fundamental é “o poder”. Nada mais do que isso: o poder cru e limpo, material e imaterial, conquistado e imposto. O poder é a palavra de ordem. As mulheres que expulsavam os homens da praça estavam a exercer poder. Em rigor há algo de vingança nesse acto, um revanchismo maniqueísta que procura ressarcir anos de opressão. Nele se inscreve uma representação muito particular. A mulher representada sem falhas, empoderada contra tudo e contra todos, autopropulsionada na vida sem mais nada que não seja o seu espírito empreendedor e criativo. Em suma, uma fiel representação da individualização no espaço moral do neoliberalismo.

É certo que Isabel do Carmo não navega exactamente estas águas. Diz com mais modéstia, mas com subterrânea idêntica ambição, que a mulher tem que pertencer a um universo imaculado. Doravante, tudo o que seja menos que o lugar da virgem Maria em calças de CEO da fortune500 é pouco para a mulher emancipada. Um buldózer de vontade que deixou de ter fraquezas e cujas falhas só podem ser assacadas ao seu lugar estrutural. Como poderia ser de outra maneira, se esta mulher só não é a Christine Lagarde porque não a deixaram ser!

Podemos auscultar o mesmo arrivismo sedento de sangue do pregão neoliberal da hipercriatividade, dos livros de auto-ajuda, dos coachings de capacidades pessoais. Tu podes ter o mundo! Para a mulher, habituada a ser o mundo dos outros, isto deve soar ao canto das sereias.

Fucking news?

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Não entendo esta loucura com o conceito de fake news. E digo bem: o conceito – na medida em que o facto fake news é tão velho quanto os massacres dos cristãos às mãos do imperador Nero. O exagero ganhou proporções patéticas. Boaventura arrola as fake news a um dos seus “modos de ignorância” dentro do esquema dialéctico que sempre corteja. Sousa Tavares, invectivando as redes sociais, identifica as fake news como o fim da democracia. Mas eu confesso-me baralhado. Porque fake news foi o que sempre existiu a coberto de uma coisa que cinicamente se chamava (e chama) política. Maquiavel no Príncipe: “Governar é fazer crer”. Eis o enunciado mais completo daquilo que actualmente designamos por fake news. O que foi descoberto pelo watergate se não um imenso complô para disseminar fake news? O que foi a tomada nazi do poder após o incêndio do Reichstag senão um efeito eficientíssimo das fake news? E se quisermos recuar a essa pérola da nossa história que convencionámos chamar por idade média, que são as perseguições e subsequente extermínio dos cátaros senão um movimento impulsionado por fake news? Não apenas a igreja católica romana pôs a circular acusações de bruxaria como terá inventado o assassinato de um delegado do papa para promover o genocídio mais emblemático anterior às cruzadas.

Em suma, que diferença há entre estes momentos históricos e a sua emergência e as fake news actuais? Eu diria que nenhuma.  Há um lado – o de Sousa Tavares – que vê no jornalismo um campo de pureza inatacável, um domínio sem inércia de cotejo de informação que apenas reflecte a justa busca pela verdade. Ora esta representação do jornalismo é quando muito uma farsa, em última instância, ou é ingénua ou cínica. O jornalismo sempre foi um campo de relações de poder, onde se joga em grande medida as oscilações das forças em concorrência na democracia. Porém, pretender que este é sempre equidistante e verídico, é simplesmente absurdo. Na maioria dos países, os jornais são controlados pelos grandes grupos económicos. No Brasil, o jornalismo fez mais pelo desgaste e ulterior queda dos governos PT do que qualquer crise económica. Na Argentina, o jornalismo vive uma missão de enterrar o peronismo até aos seus últimos vestígios. E nos USA, foi a fox que colocou Trump no poder – não o twitter. Por conseguinte, a visão do jornalismo, e do jornalista, como paladino da verdade não possui correspondência nos factos. Recordamos todos (ou talvez não) quando José Manuel Fernandes era director do Público como o orquestrou para dar cobertura a esse monumento de fake news que foi a guerra do Iraque!

E chegamos a Boaventura e ao terceiro modo de ignorância as fake news. Neste caso, considero o articulação lógica ainda mais empobrecedora da discussão. Isto porque em última análise, fenómenos como a ascensão da extrema-direita em Itália, no Brasil, nos USA, no UK, se explicariam pelo efeito destruidor das fake news. Enquanto insistirmos em explicar os movimentos tectónicos no território da política actual pelas fake news continuamos a falhar o alvo. Existe já uma predisposição para as fake news; e manipuladores – que sempre existiram em qualquer época histórica – servem-se dessa percepção para carrear os seus projectos. Claro que o que é necessário explicar é donde vem essa mesma predisposição?  Creio que a causalidade se encontra invertida: procura-se sempre explicar as atitudes pelo efeito das fake news. Elas possuem obviamente eficácia – sempre possuíram como mostram os exemplos anteriormente citados. Mas não são a causa primeira dos acontecimentos.

Contra Sousa Tavares, o facto de plataformas como o twitter e o facebook disseminarem fake news com maior velocidade, não diz nada sobre a natureza destas plataformas. Assim como a utilização do Público durante o reinado José Manuel Fernandes para dar cobertura às artimanhas de Barroso, nada diz da essência e função do jornalismo. Medium is the message, recorrendo ao facilitismo macluhaniano (seja lá o que isso for) levar-nos-ia a colocar-nos em alerta relativamente às transformações geradas por estes meios. Não aos seus conteúdos. É claro que a asserção de MacLuhan é discutível. Porém, não é negligenciável que as transformações destes meios sejam de tal forma avassaladoras que o tornarem-se meios de circulação de fake news seja apenas epifenomenal. E se o meio “rede social” criar, como queria MacLuhan, uma estrutura perceptiva que é particularmente ajustada às fake news? E se a transformação tecnológica já estiver a influenciar as próprias estruturas cognitivas moldando-as a uma apetência particular para a velocidade e sintetização das fake news? Não seríamos então vítimas passivas da iniquidade de sectores obscuros criadores de fake news, mas antes buscadores activos para quem o impacto das fake news alimentaria a sede sintetizadora das novas, e ajustadas, estruturas cognitivas.

De minimis non curat praetor (o juiz não se preocupa com minudências)

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Idealmente, a justiça deveria ser aplicada abstraída de convicções pessoais. O direito impermeabiliza-se contra a crítica ao operar a alquimia da separação entre o juiz e a justiça. Operação sempre incompleta. Não apenas porque banalmente se diria que o juiz afinal é humano demasiado humano, mas porque a linguagem da justiça (no sentido institucional e técnico) não possui um léxico total da acção humana. Que quer isto dizer? Por exemplo, um juiz que julga um caso de racismo servir-se-á da definição jurídica de discriminação, mas terá que encontrar fora da esfera do jurídico a definição de racismo, fenómeno que é do social e não do jurídico. Esta busca é no fundamental discricionária. Não existe um road map para o juiz que não sejam as suas intuições ou experiências práticas. E é dessas que ele se serve.

O caso do juiz Neto de Moura é emblemático. Desculpabiliza a violência doméstica porque desta possui uma definição que já não é operativa. Dir-se-á, o problema é que o juiz tem uma mentalidade ultramontana, não é culpa do direito. Pode até ser. Mas o facto é que o direito, a lei, sofre por definição de maior inércia do que as linguagens do social. A enunciação e compreensão do social é sempre mais veloz do que o regime discursivo do direito. Assim é porque, como bem diz Latour, nada de especialmente distinto existe entre o direito da cúria romana e a aplicação do direito actualmente.

Um juiz teria que ser um homem do renascimento para poder ter uma visão de tal forma abarcante que confrontasse dialecticamente as várias versões disponíveis dos fenómenos que são exteriores ao direito. Mas como um juiz não é um tal homem do renascimento, serve-se de um short cut que é tomar a linguagem do direito como o enunciado absoluto que representa o que lhe é exterior. Assim, nenhum juiz procurará informar-se sobre as múltiplas definições de violência doméstica, os inúmeros trabalhos, visões, comentários críticos sobre o fenómeno violência doméstica. Não o faz porque lhe é humanamente impossível. Multipliquemos esta necessidade por uma infinidade de fenómenos sobre os quais ele se debruça na sua actividade e teríamos que um juiz precisaria de ser um supercomputador para cotejar todas as referências e distintos enunciados em oferta para formar, em ultima ratio, a imagem justa.

Significa por conseguinte que um juiz tem que estar sempre ferido pelo preconceito? Em certa medida sim. Agora esse mesmo preconceito não tem que necessariamente ser a versão mais conservadora e atávica da enunciação de um fenómeno. Mas será sempre parcial, muitas vezes erróneo, e frequentemente ignorante.

Penoso

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Não creio que se possa estar sempre a fazer experiências com um plantel. Bruno Lage parece acreditar que sim. Mas por vezes a estrela que nos acompanha deixa de brilhar. E esse dia chegou hoje em Zagreb. Foi penoso ver o Benfica a jogar. Certo: ficou cedo sem a sua principal referência na área. Porém, quem se lembra de ir para um jogo de liga europa apenas com um nove de raiz? Jonas não podia? Não foi opção de Lage porque carga “d’águia”?

Ver ontem o Porto a dar uma lição de futebol, táctico, posicional, guerreiro, e depois comparar com um Benfica amorfo, sem fazer a mínima ideia para onde passar as bolas, lento a decidir e com total incapacidade de definir lances de perigo, dá que pensar. E o Dínamo é das equipas mais fraquinhas desta Liga Europa. E a prova é que bem que podia ter limpo os encarnados por mais um ou dois golos e ficou por um magro tento de penalti.

Foi tudo mau de mais. Jogadores pouco rotinados como Krovinovic falharam uma imensidão de passes; Florêncio não acrescentou nada na partida; Gedson ausentou-se em parte incerta; e o felix, talvez deslumbrado pelos 200 milhões com que já o rotulam pareceu um tonto dentro das quatro linhas. Não foi apenas o termos perdido. Perder pode sempre acontecer. Foi o falhanço completo do futebol praticado que não augura nada de bom.

Ontem a Roma foi cilindrada pelo Porto. Hoje o seu treinador estava na rua. Creio que ficou à vista de toda gente a forma canhestra como a Roma defrontou o Porto (apesar de ter ficado um penalti por marcar a favor dos italianos). Penoso de ver também.

Um pouco disso respigou para o jogo entre Dínamo e Benfica. Nada está perdido? Claro que não. Na segunda volta as coisas poderão mudar drasticamente. Mas o futebol praticado pelo Benfica foi de uma magreza desesperante. E com consistência: do princípio ao fim foi desastrado. Há jogadas incompreensíveis; passes incompreensíveis. Krovinovic numa jogada de ataque que podia ter passado para os companheiros remata contra as pernas do defesa adversário e isto apesar de ter uma floresta de centrais à sua frente. Uma coisa desgarrada, sem lógica, sem fio de jogo. A novidade de alguns jogadores não surtiu o mesmo efeito do jogo contra o Galatasaray. E vistas bem as coisas este Dínamo é mais acessível do que o clube turco. O que se viu foi falta de fulgor físico. O que é estranho dado que a equipa tinha pelo menos seis jogadores novos por relação à partida com o Porto no fim de semana passado. Onde está o sangue jovem a correr pelas veias das novidades benfiquistas?

Se Lage quiser ir mais longe nesta liga europa é bom que deixe de experimentalismos tontos e passe a jogar com o que dá certezas.