Enfermeiros

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Daqui a uns tempos olhar-se-á com maior isenção para as ditas greves cirúrgicas dos enfermeiros. Com a distância alguns elementos que são pouco nítidos durante a refrega, ganharão contornos. Analisar-se-á sem a paixão do combate político ou da chicana aquele que é porventura o acontecimento mais singular da história dos protestos laborais em Portugal: um protesto sem tréguas por privilégios indevidos.

A OCDE publicou um relatório económico que entre outras coisas salientava os baixos salários dos enfermeiros portugueses, sobretudo quando comparados com os colegas luxemburgueses ou alemães. Não comparava todavia os baixos salários dos auxiliares de saúde, da limpeza e outras profissões menores que sustentam o nosso sistema de saúde (menores em grau académico, bem entendido). Se o tivesse feito, não seriam os ordenados dos enfermeiros que soariam a escândalo, mas sim a miséria de todos os outros. Os media, incapazes de fazer outra coisa que não seja mastigar sound bites, logo destacaram o espaço dedicado aos enfermeiros. E o país sentiu-se revoltado com as condições de penúria em que este corpo profissional parece viver. Parece é a palavra a reter.

Um enfermeiro tem três dias de folga por semana. É um folga merecida, dado que o trabalho é de uma exigência extrema, com turnos de 24 horas e condições de stress muito apreciáveis. O problema é que a maioria dos enfermeiros portugueses não usa essas folgas para descansar, mas sim para trabalhar no privado. O ordenado líquido do enfermeiro quando contabilizado apenas o rendimento que aufere a partir do sector público é assim enganador. O mesmo se passa com os médicos. Aliás, estes dois corpos profissionais são dos menos escrutinados que existem em Portugal. Ninguém sabe onde e como trabalham. Como e quando transitam do público para o privado. E tantas vezes tudo no mesmo dia, quando não em espaço de horas. Por isso, as horas de espera intermináveis nas salas dos hospitais, as consultas postergadas ad aeternum, as listas de espera infinitas. Todos estes fenómenos são fruto de uma total discricionariedade do funcionamento paralelo entre os dois sistemas e as transumâncias sistemáticas dos seus agentes.

Curiosamente, por mais programas prós e contras que se façam, um tal tema nunca vem à liça. A razão é relativamente simples: é que anda meio mundo em Portugal a fazer o mesmo, embora, eventualmente com menor frequência e intensidade. A transumância, os ganchos, as perninhas, são uma espécie de modelo estrutural português. Os arquitectos nas câmaras municipais assinam projectos para os privados; o mesmo acontece com engenheiros civis e ambientais. Os advogados que trabalham para o Estado desdobram-se em subvenções privadas, e a inversa é também verdadeira, com os do privado a beneficiarem de avenças públicas. Os professores universitários, a mesma coisa. É uma imensa rede de benefícios paralelos entre os sistemas públicos e privados que não é controlada e que dá azo a todo o tipo de abusos.

No sistema de saúde, como se trata da vida e da morte, o problema agudiza-se. O cansaço de um enfermeiro num bloco operatório não possui a mesma dimensão de um risco torto de um arquitecto. Quer isto dizer que os enfermeiros são uma casta de privilegiados a quem não devemos prestar atenção? Não. Mas quer dizer que o seu protesto possui algo de francamente desonesto. Desonestidade que se prolonga pelas modalidades de sustentação da greve, com o crowd funding que não é controlado por ninguém, e que pode muito bem ter motivações políticas mais do que laborais.

Por isso a ladeira que Francisco Louçã vê como perigosa de descer, já foi descida. Não são as pressões governamentais e jurídicas que impendem sobre a greve dos enfermeiros que colocam em causa o direito à greve. É esta modalidade particular de greve e os obscuros meios da sua gestão e continuidade, que o fazem. Ela abre um precedente preocupante. Doravante, qualquer grupo poderoso acicatado por forças políticas específicas e sustentado por agentes dessas mesmas forças (monetariamente, claro está) pode colocar em risco sectores vitais do funcionamento do Estado. Se o espírito da greve tem como premissa causar danos a uma das partes, ele tem que ser suportado com uma quota parte do sacrifício, sem o qual torna-se não uma solução extraordinária, mas um acto reflexo. A greve cirúrgica dos enfermeiros é, nas acertadas palavras do primeiro ministro, uma greve selvagem, que nada tem de cirúrgica. É uma greve para além da razoabilidade não constitutiva de nenhuma luta por direitos laborais, pela manutenção ou alargamento destes. Pelo contrário, é um braço de ferro por privilégios aproveitando-se da posição de força que detêm.

Houve um facto que mobilizou os enfermeiros nesta legislatura como nunca antes tinha ocorrido. Os enfermeiros saíram em massa do país nos tempos da troika. Disseminaram-se por países como a Alemanha, a Inglaterra, a Suíça, onde os ordenados são francamente superiores. Mas não apenas os dos enfermeiros, e sim de qualquer outra classe profissional (à excepção dos professores que são razoavelmente bem pagos quando comparados com os seus pares destes países). Independentemente desse elemento, a representação que chegava aos enfermeiros em solo nacional era constituída por ordenados opíparos, belas casas e um nível de vida que dificilmente poderiam ambicionar em solo pátrio. Tratava-se, evidentemente, de uma comparação injusta, porque nenhum outro funcionário público possui um tal grau de privilégio. Todavia, funcionou como ansiedade de estatuto (status ansiety, na interessante definição do filósofo Alain de Botton) e essa mesma ansiedade, nascida da comparação irrazoável com os companheiros emigrados, está a provocar uma irredutível batalha da parte deste corpo profissional.  E é aqui que quer as modalidades quer as reivindicações são irrealistas. Quer enfermeiros quer médicos (um caso de estudo perfeito) reivindicam horários menores. O que é estranho, sabendo-se que muitos cumprem bem mais horas no privado do que as actuais 35 do público. Para o caso dos médicos uma das reivindicações mais bizarras é a da reforma antecipada por convergência com as profissões de risco e de maior desgaste. É certo que a profissão de médico envolve uma altíssima responsabilidade e tem um desgaste muito para além de muitas outras profissões no funcionalismo público. No entanto, são milhares os médicos reformados a darem consultas nos privados, ou por sua conta ou a trabalharem para outrem. Para que querem então os médicos uma reforma antecipada?

O caso dos enfermeiros é ainda mais paradigmático. Mesmo tendo obtido do governo um programa para a estratificação da carreira, prosseguem na sua gesta. Esta parecia ser a principal reivindicação dos enfermeiros. Mas estando esta satisfeita, logo outras lhe sucederam, algumas absurdas. Como já foi notado, reivindicar um aumento de 30% nos salários e reforma aos 57 anos não é admissível em Portugal, onde a idade da reforma cresce anualmente em virtude do aumento sistemático da esperança média de vida e onde os aumentos salariais – quando os há – nem sequer cobrem a inflação. Há, francamente, uma certa obscenidade na natureza destas reivindicações num país como o nosso.

O papel da bastonária da ordem é também exemplificativo da estranha modalidade que esta greve está a assumir. A permanente intervenção da ordem em assuntos de natureza sindical mostra à saciedade que há manipulação política nesta greve, que os seus objectivos não são meramente laborais. O sistema de crowd funding propicia desconfiança: afinal se os enfermeiros possuem rendimentos tão baixos, onde foram buscar 700 mil euros para sustentar uma greve que não tem fim à vista? Nada disto é transparente e as razões para levar o protesto até às últimas consequências estão longe de ser compreensíveis.

Certo, a profissão de enfermeiro é exigente. Mas ninguém é obrigado a ir para enfermeiro. Pensar-se-ia que o enfermeiro enveredava por esta carreira profissional por vocação. O mesmo para os médicos. Não significa que não possam ou não devam reivindicar melhores condições de trabalho – esse é um direito que assiste a todos. Contudo, quando se pensa que tantos trabalhos em Portugal são torturantes e desgastantes e pagos com ordenados de miséria, somos levados a achar que os enfermeiros se batem por privilégios, não por direitos.

Combate de afectos

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Miguel Sousa Tavares tem uma posição que lhe permite dar-se ao luxo de criticar o que lhe dá na veneta. Em rigor, deveria ter começado a frase por dizer Miguel Sousa Tavares granjeou uma posição… dado que foi um estatuto construído, com provas dadas, com o aplauso do público. A sua crítica é a mais das vezes acutilante e consequente. E a ele costumamos permitir quase tudo, porque é geralmente bem fundamentado. Sereno, confronta os grupos de pressão e os corporativismos pátrios. Ele sabe que é intocável e que a sua imagem de jornalista e comentador independente o precede em qualquer julgamento.

Mas eis que confronta Rita Pereira e cai o carmo e a trindade! MST pode morder as canelas aos enfermeiros, dar porrada nos professores, enxovalhar os líderes benfiquistas  – e nada! Porém, tocando em Rita Pereira, a fashion star vesga do momento, é um deus nos acuda e aqui del rei! Moura Guedes, em mais um exercício de histrionismo disfarçado de jornalismo, vem para o espaço público atacar Sousa Tavares porque este ousou dizer que a exposição de Rita Pereira era exibicionismo. Os meninos da comunicação hitech nos seus pequenos feudos radiofónicos e youtúbicos vieram a terreiro defender a sua dama – as redes sociais! – como se se tratasse da sua própria mãe.

E o que provocou esta agitação na esfera pública portuguesa? O facto de MST ter ousado dizer que as redes sociais acoitavam um monte de gente exibicionista servidas a frio para uma ainda maior multidão de voyeurs. Por mais estranho que pareça, aquilo que para todos deveria parecer por esta altura banal, causou grande crispação na sociedade portuguesa. Quem assistir ao momento televisivo apercebe-se que MST está a fazer um esforço hercúleo para não desancar a bela Rita. Seja por respeito ao vedetismo, seja por honrar os tempos em que engatava suecas – estas mais louras, de tons mais flavos – no Horta 2 nas imediações de Lagos. A verdade é que MST pega no assunto com pinças quando a Rita merecia ser surrada intelectualmente. Não se trata de mais uma incursão no universo da violência sobre a mulher. A vontade é justificada, porque mal a criatura abriu a boca se percebeu que a mulher não tem nada naquele cérebro, é um poço de vaidade, um reflexo macaqueado do star system hollywodiano, uma pécora da imagem narcísica e por aí afora. Rita Pereira, em abono da verdade, só é a imagem: como actriz não vale nada e quando abre a boca, ficámos a saber neste confronto, pedimos-lhe encarecidamente que se volte a remeter ao silêncio.

Porém, e é aqui que Miguel S. Tavares mostra ser uma pessoa com poucas leituras, ser só a imagem na actualidade é o que importa. Por conseguinte, está longe de ser de somenos, um epifenómeno dos espaços e comportamentos de sociabilidade. Bem pelo contrário: ser só a imagem é o fenómeno mais consequente. E por isso Miguel S. Tavares deveria ter insistido no argumento, extremá-lo, colocar a nu a fragilidade e cinismo daquele edifício autocontemplativo.

Rita quer dar a conhecer à plebe a “verdadeira Rita”. Mas não há verdadeira Rita para além da imagem criteriosamente construída de Rita. Facto é que precisa de um gestor de imagem, que pelo menos sempre tinha um cérebro, para a acompanhar na sua gesta de vender a “verdadeira Rita”. Rita vende aos pacóvios  “a verdadeira Rita”, mas para isso precisa de um gestor de imagem e um especialista em comunicação e, presume-se, em redes sociais.

Claro que Sousa Tavares não foi tão longe. Ele move-se nos mesmos meios; para ele a imagem e a construção da mesma são igualmente consubstanciais ao seu modus vivendi. Podíamos inclusivamente perguntar se é actualmente possível sair deste ciclo. Creio que não. Mas é possível desmascarar os cínicos e labrostas que vêm propagandear o seu “verdadeiro eu” como se fosse uma esmola aos pobres.

Não é por conseguinte apenas uma questão de exibicionismo com a sua contrapartida de voyeurismo. É um fenómeno mais vasto cujos impactos vão bem para além da mera esfera comunicacional. Trata-se, no fundo, da incorporação dos processos produtivos na própria esfera do pessoal; na transformação dos afectos, dos desejos, das emoções em veículo de criação de lucro. Enfim, da subjectivação do trabalho, em que os mundos da vida dos sujeitos não se distinguem das ferramentas de produção.

Por isso a “verdadeira Rita” não é mais do que um prolongamento da falsa. E a primeira é tão judiciosamente controlada, preparada, estudada, como a que actua. Ambas visam aquela coisa muito crua, muito mesquinha, torpe até: vender. Conhecer a “verdadeira Rita” equivale a vender a falsa multiplicando o seu valor de troca em universos simbólicos sucessivos. Por outras palavras, a “verdadeira Rita” sabe que os seguidores nas redes sociais trazem proventos para a sua carreira artística, como numa câmara de ecos, em que cada um reforçasse o seguinte.

Não interessa saber se Rita é uma exibicionista. Miguel é, à sua maneira, um exibicionista também. No mundo da marketização da identidade pessoal só se pode ser exibicionista. E para cada exibicionista a sua legião de voyeurs. O que encanita é quando os mecanismos que aceleram esse exibicionismo – sendo as redes sociais apenas uma das formas possíveis – são apresentados na placidez da demonstração interior. Quando em bom rigor não são mais do que multiplicadores de dinheiro.

Cair de Maduro

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Maduro, tal como alguns ditadores que o precederam – penso concretamente em Sadam ou Kadhafi – só pode usar a táctica da fuga para frente. O ditador sabe que se o seu governo cair nas ruas o perseguirão, provavelmente julgando-o e matando-o, e à sua família; o mesmo para os seus correlegionários. Por isso, dificilmente uma solução política equilibrada e pacífica poderá resultar do caos em que mergulhou a Venezuela.

A Venezuela é um país destruído. Económica, demográfica, socialmente debilitado. Maduro já não tem nenhum projecto para a Venezuela – a única coisa que procura é salvar a própria pele. O exército é constituído por cliques cooptadas e endoutrinadas ideologicamente pelo espírito da revolução chavista. Mas já nada disso existe na Venezuela. É uma terra queimada, com milhares e milhares de refugiados a desaguarem nas cidades vizinhas – do Panamá a Lima, de Manaus a Buenos Aires. Um cortejo de miséria e desespero a fugir das terras do faraó. E este está, qual potestade no seu lugar etéreo, indiferente a todo o sofrimento do seu povo.

Maduro não quer cair, porque sabe que a queda equivale à sua morte. Não por qualquer apego mais elevado a uma utopia ou um projecto socialista que não pudesse abdicar por fé ou por razão. Mas simplesmente porque é Maduro, e porque a teia de interesses que criou em seu redor não quer renunciar ao poder acumulado.

A posição da esquerda portuguesa é assaz curiosa. Dizem que Gaidó é um fantoche da política externa norteamericana e, residualmente, europeia. Talvez seja. Porém é um fantoche com o apoio popular – e isso faz toda a diferença. Não é líquido que se possa falar de eleições livres na Venezuela. Tanto quanto se pode falar de eleições livres na Turquia ou na Rússia. Dizer que o processo deve começar do zero, negligencia que não há um ponto zero onde começar. Outrossim, há um regime autoritário instalado, com uma sociedade civil minada e desactivada por um militarismo capilar e abrangente. Serão estas as condições óptimas para realizar eleições livres? Duvido.

Há muitos traços em Gaidó que colocam qualquer um de sobreaviso. A sua religiosidade conservadora, a fazer lembrar Bolsonaro; a sua estreita ligação com a Igreja Católica venezuelana – Gaidó vem dos movimentos estudantis católicos –, a sua oposição a Chávez desde cedo – constituem sinais de que se trata de mais um terramoto conservador que chega a mais um país da América Latina. O problema é que um tal raciocínio deixou de ser relevante. Quando a alternativa é um presidente que quer mudar a constituição para se autoperpetuar no poder, como tentou Maduro, então não há que ter contemplações sobre o que significa realmente o “espírito da revolução”.  O messianismo dos discursos de Maduro; o provincianismo das conquistas tecnológicas para o povo; o patriotismo exacerbado – são traços típicos do autoritarismo ditatorial.

A Venezuela não difere muito da Angola de Eduardo dos Santos, com um presidente que açambarcou as riquezas do país e as distribuiu criteriosamente pelos seus apaniguados. Um presidente que não teve qualquer solução para os milhões de imigrantes que deixaram o país porque não sobreviviam.

É tempo de Maduro sair. Caso não fosse um ditador assumiria a derrota estrondosa do que quer que seja que quis impor como modelo para o seu país. É provável que Gaidó tenha o apoio dos Estados Unidos. Ninguém no seu perfeito juízo incitaria a uma revolução pacífica num país como a Venezuela sem estar respaldado por uma grande potência. O conspiracionismo que molda as declarações da esquerda tem os dias contados. Não vejo qualquer diferença actualmente entre ser um fantoche dos Estados Unidos ou da Rússia. E se Putin apoia Maduro podemos ter a certeza que não será pelas razões mais nobres.