Governar o ingovernável

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Do outro lado do Atlântico a evidência de um paradoxo. O government shut down do presidente Trump não preocupa grandemente uma considerável parte da América, tirando os lesados, ou seja, os trabalhadores da máquina do Estado. Para os republicanos a medida nem sequer é draconiana e isto porque é a consequência lógica levada ao extremo da ideia do small government. Desde os tempos de Reagan que os republicanos não têm mais nada para oferecer, se exceptuarmos a revolução conservadora e religiosa nos valores da sociedade norteamericana. O small government foi a bandeira política de Reagan nos 80 e lançou as bases para a desestruturação neoliberal que se lhe seguiu. O shut down de Trump é a mesma lógica levada às últimas consequências. Se o Estado é dispensável – excepto na segurança e na regulação da violência – então quebrar a sua máquina é de facto a intenção do programa político republicano. Com efeito, as reacções à inculcação ideológica da ideia de um estado dispensável é o que verdadeiramente representa a base conservadora de Trump – quer este seja representado como o Moloch dos centros políticos de Washington quer pela elite liberal.

Em França, a professia harendtiana está em vias de se cumprir. Os gillets jaunes mostram realmente ao que vêm: implementar a agenda e lógicas de actuação da front national.

Devemos pasmar com a reverência de Macron perante as reivindicações de um movimento que não tem mais nada para oferecer para além de uma retórica fascizante? Nem por isso. Afinal os líderes ditos “alternativos”, não se inscrevendo em nenhuma das forças tradicionais, rapidamente mostram um pendor irresistível para alianças com a extrema-direita. Foi assim na Áustria, em que o jovem primeiro ministro se apressou a chamar a extrema-direita para o seu governo; foi assim na Dinamarca; e outros casos haverá ou estão em  vias de acontecer. O que esta sucessão mostra é que entre as posturas ditas “fora do sistema”, como se apresentaram Macron e Trump por exemplo, encontra-se o pior do sistema.

A ideia de Macron de praticar uma democracia directa não nos deve enganar. O modelo dos cahiers de doléances da revolução francesa era ainda assim um expediente articulado com uma definição de uma totalidade política. Esta descrevia a sociedade na sua especificidade de ordens, de hierarquias draconianas e injustiças. Olhando para a primeira tentativa de Macron de falar com o “povo” o que encontramos? O “povo” queixa-se dos limites de velocidade e da insegurança na estrada! Por si só poderia ser anedótico, mas o que a expressão de tais doléances expressa é que estas são perfeitamente individualizadoras e não estão articuladas com nenhuma ordem de justiça. Macron vai aprender que a democracia directa na era do facebook resulta num exercício de narcisismos vários sem qualquer implicação com um pensamento das cisões, desigualdades e injustiças actuais. Este sistema de democracia directa representa ainda uma outra coisa, própria dos indivíduos reticulares e dos mecanismos de apresentação do facebook: a ideia de que qualquer opinião se equivale. Macron vai fazer o seu périplo real munido de uma caixa de doléances ouvindo o “povo”. Mas o povo é uma ilusão de óptica produzida pelo movimento. Bombardear o Estado com pedidos infinitos e de escala infinitesimal tem apenas por objectivo o bloqueio dessa mesma máquina. Na sua versão original, o povo, ou o terceiro estado, pediu as coisas mais absurdas, sendo para espanto de todos (ou nem por isso) o menos articulado dos estados nas suas reivindicações. Mas sabemos também que com esta consulta directa ao seu “povo”, Luís XVI abriu a caixa de pandora que havia  de o engolir.

Não especularíamos muito se disséssemos que a intenção dos gillets jaunes é inundar o Estado com reivindicações absurdas para que este quebre. Em ambos os casos, lançar o caos no Estado através das suas próprias ferramentas decisórias constitui o objectivo. E isto é em si mesmo interessante porque enquanto o “povo” se lança na senda do small government, este último consolida as suas estruturas autoritárias em formas que se encontram fora do campo (hors-champ, como diriam os politólogos franceses) da democracia. O pendor autoritário das outrora maiores democracias do mundo – como o Brasil ou os Estados Unidos – rivaliza com a consolidação do capitalismo autoritário nas antigas potências imperiais, como sejam a Rússia e a China. Este é um fenómeno que merece aprofundado escrutínio. Enquanto as reivindicações do “povo” se tornam irrealistas ou residuais no jogo e equilíbrio de poderes – o que afecta afinal o quotidiano das pessoas que o parlamento tenha mais 50 ou menos 50 deputados? Ou que entrem mais 1.000 refugiados em países com 80 milhões de habitantes como a Alemanha? – as estruturas próprias do autoritarismo cristalizam em torno dessas mesmas instituições que o “povo” pretende ver destruídas. Mas este autoritarismo está repleto de paradoxos e alçapões. Por exemplo, de que vale perseguir a educação sexual nas escolas, argumentando, como faz o filósofo Olavo Carvalho, que ela ensina às crianças o que é “boquete e pica na bunda”, se a internet está apinhada de “boquete e pica na bunda”? Que interessa censurar os professores brasileiros sobre o pretexto de uma contrarevolução anti-marxismo cultural se qualquer criança com o celular pode aceder a imagens de boquetes e pica na bunda no oceano de pornografia que a internet oferece? Que interessa dizer que o criacionismo é que é a verdade, quando toda a ciência dos genes, que permite justamente combater o cancro, se alicerça nos princípios do evolucionismo? A quem recorrem os criacionistas quando têm um cancro?

Este combate ideológico é uma cortina de fundo para uma deslocação mais tenebrosa: uma reorganização das elites que reclamam para si as velhas posições aristocráticas no seio de uma democracia envilecida. É esta aristocracia mundial, que nunca foi tão rica nem tão poderosa, mas que sempre existiu e se reorganizou após cada desestruturação, que governa actualmente o mundo. Bem para além de qualquer mecanismo legitimador. O que é mais interessante é que, dos Estados Unidos ao Brasil, da Rússia à China, da Inglaterra à Argentina, o mirífico “povo”, contrariamente ao terceiro estado do tempo dos originais cahiers de doléances, parece oferecer todo o suporte ao projecto de reconquista hegemónica da superelite económica.