Amarelo para todos os gostos?

 

Image result for coletes amarelos portugal

Há nos coletes amarelos uma violência soreliana. Em que sentido? Na sua mescla indesmentível de violência revolucionária e conservantismo moralista. Caso seja aplacado, o movimento que espalhou o terror pelas ruas francesas penderá certamente para a extrema-direita. Os seus membros, quando entrevistados, mimetizam o discurso da base que elegeu Trump: a higienização da política, o controlo do parlamento e dos parlamentares, a sobrecarga dos impostos. Subjacente a estes aspectos perpassa um discurso contra o decadentismo da república que foi precisamente o mesmo que elevou Trump aos pináculos do poder. Não é, por conseguinte, apenas na prática que os gillets jaunes se encontram com a extrema-direita – é também na teoria e nas suas visões políticas. A afinidade entre os métodos de uma violência contra a república e os seus símbolos – parlamentares, políticos, etc – e a orgânica do início dos movimentos fascistas é por demais evidente.

 É com estupefacção que vimos, daqui deste pequeno rectângulo, gente irada porque o ordenado mínimo é de 1300 euros. É apenas um dos mais altos da Europa, se excluirmos esse paraíso da opulência cidadã que se chama Luxemburgo. A ideia de que há políticos a mais é também reiterada pelos furibundos gillets jaunes. Uma linguagem própria dos fascismos regressada dos mortos pela mão de Trump e dos seus acólitos. Por isso é natural a capitalização que Marine Le Pen está a retirar das insurreições parisienses (e outras). Os discursos partilham afinidades e a possibilidade de mobilizar um descontentamento desta natureza – e particularmente por ser desta natureza – deve parecer aos lepenistas como uma segunda vida para a sua front national.

Não acredito na tese segundo a qual é preciso radicalizar a luta para que a verdadeira cara do poder seja exposta. Tese propriamente soreliana que é adoptada por alguma esquerda (Zizek à cabeça). E, não acredito, porque por vezes as formas de radicalização são formas de poder tão ou mais terríficas quanto as que se encontram estruturalmente cristalizadas. Se os totalitarismos do século XX nos ensinaram alguma coisa (pace Harendt) foi que a impossibilidade de articulação de uma ideia política com a acção abre o espaço para o movimento. E este pode assumir as mais insidiosas formas.

E em Portugal? Líderes de outros protestos tais como “O que se lixe a troika” e os “Precários inflexíveis” salientam, e bem, a natureza inorgânica dos coletes amarelos portugueses. Todavia, as mesmas temáticas dos gillets jaunes perpassam pela sua agenda contestatária: políticos a mais, corrupção, salários mínimos. Seja qual for o prisma através do qual se olhe estas reivindicações uma coisa é certa: elas estão longe de constituir uma agenda de esquerda. Alexandre Abreu, no Expresso, concitava a esquerda para que não fique à margem deste protesto social. Quando o Nacional Socialismo começou a dar os seus primeiros passos, muita gente da então esquerda alemã permaneceu na ambiguidade de aderir incondicionalmente a um movimento que assumia tais contornos populares. Sabemos como se pagou essa ambiguidade: com perseguição e morte nos campos de concentração. Por isso a esquerda não deve nem associar-se nem capitalizar de um movimento cujos principais agravos são haver políticos a mais e estes serem corruptos. Uma agenda antipartidarista que possui diversos pontos de contacto com o discurso reaccionário que destruiu a Alemanha de Weimar. Se a história nos ensina alguma coisa – e eu acho que ensina – é que movimentos que se dizem em defesa do povo sem qualificar a natureza da luta desse mesmo povo são perigosos. Bolsonaro venceu com uma agenda antipartido e antipolítico. Ele próprio um político de carreira. Tais movimentos precisam de uma figura providencial que reitere as suas palavras de ordem e soundbites; são totalmente avessos a uma articulação lógica das suas ideias, a um questionamento dos seus princípios, a uma teorização das suas finalidades. O que os move? Viver um dia como leão do que 100 anos como um cordeiro, nas belas palavras de Mussolini retwitadas por Trump.

Apesar da crítica dos comentadores oficiais ao líder do PSD, Rui Rio no seu discurso de Natal aproveita judiciosamente o momento. O soundbite de um governo que mente, que vende gato por lebre, veste que nem uma luva os agravos desarticulados dos nossos coletes amarelos. As greves dos enfermeiros, orquestradas pela bastonária, militante do PSD, com as suas quotizações à la anos da Tatcher, são uma controversão do princípio da greve e uma acção de guerrilha de um grupo privilegiado. Mas estas pequenas escaramuças convergem todas, não para a tempestade perfeita, mas para um vendaval desestabilizador. A direita começa a praticar aquilo que melhor sabe fazer: minar a esquerda através de uma retórica antipolítica. O tema da corrupção é obviamente dos mais interessantes, sobretudo porque deixa passar em claro uma corrupção endémica, a da esfera dos negócios, com os banqueiros a esbulharem milhões ao erário público, as grandes companhias como o facebook a fazerem fortunas incalculáveis através de esquemas ardilosos de venda de dados, para apontar baterias exclusivamente aos políticos. Qualquer discurso que demonize a figura do político sem lhe colocar substância, sabemos sempre de onde vem.

Os coletes amarelos chegaram a Portugal. Vamos ver como Portugal reage.

Libertadores

Image result for copa libertadores 2018

E o River levou a taça. Enzo Perez de boa memória no Glorioso!, ergueu o troféu no meio da euforia do Santiago Bernabéu.

Os hinchas acorreram a Madrid para assistir à final, e assim a capital espanhola vestiu-se por uns dias de cores argentinas. Houve quem notasse sérios sintomas de pós-colonialidade no acontecimento: afinal de contas os argentinos regressavam à potência colonial de outrora para acompanhar as suas duas principais equipas. O dérbi latino-americano da década jogado na velha Madrid que em tempos enviou os seus barcos para a entrada do Rio de La Plata para esmagar os insurrectos.

Não é surpreendente que os hinchas depositados em Madrid nas vésperas da final se regozijassem com a segurança que viviam esses dias. Em contraste com o clima de violência que rodeou a final em Buenos Aires, a capital espanhola pareceria um paraíso ao turista argentino. A insegurança de uns não reflecte a insegurança de todos. Os milhares que vivem em La Boca que não têm dinheiro para pagar uma casa condigna teriam apreciado poder deslocar-se ao estádio do River para assistir à “sua” final. Mas a capacidade monetária para pagar uma viagem à Europa não assiste a todos.  Para os pobres de La Boca a violência teria sido pagar essa viagem. É por isso natural que o público que se deslocou a Madrid e que se sentia seguro fosse sobretudo gente de posses. Os outros ficaram a espalhar o seu fervor clubístico pelos cafés e bares das diversas capitais das províncias argentinas.

Se é verdade que a copa libertadores chamou pela primeira vez na sua história a atenção de milhões por esse mundo fora, também não deixa de ser de registo que retiraram à América-Latina a sua festa máxima do futebol. É certo: os chineses ficaram embevecidos com os craques argentinos a jogarem num palco mundial. Mas os argentinos de carne e osso só se puderam encantar pela televisão.

Podem obstar: mas as finais dos campeonatos europeus podem ser em Berlim ou em Moscovo se for caso disso. É um facto. Mas ainda assim é na Europa. O que seria uma final da champions no Perú? Como reagiriam os europeus?

A mansidão com que a decisão do comité da uefa foi aceite diz mais do espírito argentino do que à partida se possa pensar. Afinal de contas os argentinos imaginam-se como os últimos europeus da América-Latina; a sobrevivência do adn europeu no meio da crioulização que abafou o remanescente de brancura ariana nos outros países do continente. Teria parecido então um regresso natural ao seio europeu, agora que estão ultrapassadas as convulsões revolucionários e o mundo global permite-nos pensar como cidadãos do mundo. Não houve por conseguinte uma grande comoção. Os argentinos aceitaram o molde onde os colocaram: violentos e incivilizados; incapazes de organizar pacificamente uma ocasião desta natureza. E viram como seu destino indiscutível a civilizada europa. Foi como um reencontro com a sua fiel e especular imagem de Paris da América-Latina. Será na verdade que os mecanismos da pós-colonialidade funcionaram de formas subreptícias e fantasmáticas?

Se bem que a Europa foi provincializada em muitas das suas velhas dimensões, o futebol não é uma delas. No reino do futebol, a Europa continua a ser o centro do mundo. E ao reclamar para si a taça libertadores exerceu uma vez mais esse direito como querendo reescrever a história no único legado em que ainda pode efectivamente pensar-se como central. Assim, em plena revolução de descentramento da Europa, outrora senhora do Weltgeizt (espírito do Mundo), segundo Hegel, vem ela reclamar uma centralidade perdida há muito. Esta personificação da Europa é algo que percorreu os caminhos da modernidade Iluminista em diversas frentes. Entre elas a da Europa civilizadora, senhora de aquém e além mar, domesticadora de pulsões primevas e tribais. Não poderemos ver neste assomo paternalista da parte da uefa o recriar dessa função? Não vieram os indomesticados argentinos levar um banho de civilização à cidade do Escorial assim como em tempos os indígenas eram trazidos à presença dos reis?

É certo que a relação de subordinação actual sofre de muitos e variados matizes. Os milhões que os jogadores e clubes ganharam com a transplantação do jogo mais aguardado de sempre na Argentina temperam qualquer visão radical de subalternidade. E no entanto algo da missão civilizadora de tempos coloniais se inscreve nesta transplantação geográfica. Porque se a razão foi a impossibilidade de controlar a violência que lhe estava associada em Buenos Aires, porque não realizá-la no Chile? Ou no Perú? Nada havia de irredutível na violência latino-americana assim como nos foi representada. Basta lembrar que o ano passado a segunda-mão da copa foi realizada em Lanús, província de Buenos Aires e não houve qualquer ocorrência que a ameaçasse.

A hiperbolização dos acontecimentos perto do estádio do River leva a crer que a solução encontrada já havia sido pensada. O lastro de magia que os grandes jogadores argentinos deixam pelos estádios europeus poderia ser replicado, com benefícios, caso se providenciasse um palco mundial para as duas maiores equipas da Argentina. Porém, o futebol argentino está longe de ser o que era. E a razão para que assim suceda é a mesma estrutura pós-colonial que ditou que a final da copa libertadores fosse trazida para a Europa. A rapina a que os clubes argentinos são sujeitos anualmente pelos grandes –  e ricos – clubes europeus nunca teve uma expressão como a que assume actualmente. Se as grandes promessas são como teletransportadas na idade de 13, 14 anos para os pastos verdejantes da globalização futebolística, como poderia ser de outra forma? Daí vermos Tevez ou Enzo Perez a capitanearem equipas quando já deram tudo o que havia para dar nos maiores clubes europeus. Todos os jogadores que se encontravam este domingo no Santiago Bernabéu, se ainda não saíram da Argentina, já não vão sair. Quando muito transitarão para grandes clubes brasileiros ou chilenos. Para eles o sonho de ingressarem no carnaval rutilante dos salários na ordem dos milhões não se irá mais concretizar. Por isso aceitaram jogar a partida da sua vida no centro do futebol europeu. Para eles foi a oportunidade que ou nunca tiveram ou, como Tevez e Enzo, não mais vão ter.