Poder e massa (século xxi) parte 2

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Homem na encruzilhada… de Diego Rivera

Os republicanos, nos Estados Unidos, começaram a perder terreno não em virtude dos atropelos aos direitos por estes gradualmente perpetrado; tão-pouco pela desregulação selvagem da economia; ou sequer pela inversão total das políticas redistributivas. Estas são questões que quadram na lógica social dos direitos sociais. Onde os republicanos começaram a perder terreno foi na esfera dos afectos. Esfera propriamente privada que suscita comoções populares quando invadida e exposta como pública. É aqui que devemos pausar e retornar à questão inicial do porquê do fascínio com a “autenticidade” dos reality shows. A princesa Diana não era política, e no entanto comandava mais vontades e concitava mais admiração do que qualquer figura política. Tão-pouco o fascínio que esta suscitava se devia à sua pertença na realeza. Se assim fosse não teria mantido os índices de popularidade que teve mesmo depois de sair do domínio da vida da monarquia britânica. Não era por conseguinte uma relação de legitimação que estava em causa. Tratava-se de um investimento afectivo, libidinal até se quisermos. O mesmo se passa com Trump e com Bolsonaro.

Acontece que a esquerda articula a sua mensagem na ordem dos direitos, ou seja, da legitimação contratual. Mas na sociedade dos likes as adesões são instantâneas e afectivas. É por isso errado ver a questão quer pelo lado da anomia – a desagregação da normatividade – quer pelo da classe – os excluídos que não se identificam com a democracia. Pessoas como Bolsonaro ou Trump cativam o eleitorado porque justamente não se dirigem a ele como eleitorado, mas sim como audiência. O voto passa então a ser uma guerra de audiências e não o plebiscito de ideias e programas.

A lógica das audiências nada tem a ver com o que é “bom”. Não há uma axiologia na guerra de audiências. Nesta guerra ganha a espectacularidade. É por isso que o discurso da esquerda se mostra particularmente impreparado. Ele mantém-se (e ainda bem que assim é) axiológico. Porém, numa época pós-axiológica – que não deve ser confundida com uma pós-ideologia – o que importa não é estabelecer valores numa hierarquia, mas sim organizar a emotividade.

As fotografias de Bolsonaro com os dedos em formato de cano de uma pistola, bem podem ter irritado a esquerda intelectual, mas criaram uma identificação imediata com o público. Afinal de contas a maioria de nós tira selfies a fazer gestos estúpidos com as mãos. No facebook chovem likes se publicamos uma fotografia em pose. Ou seja, implicitamente identificamo-nos com aquele modelo de apresentação do “eu”. Viver como uma estrela, com ostentação, mostrando a distância que nos separa de todos os outros, é apreciado, admirado, desejado. Por isso as atitudes autocráticas de Trump não surgem aos olhos do público como obscenas porque elas seguem o padrão das “estrelas”. A esquerda faz mal em procurar em Trump um estadista. O público não quer um estadista: quer uma estrela.

Isto não é propriamente novidade. Reagan não era um estadista – era uma estrela. E até Palin, antes de cair em desgraça, surgiu sobretudo como uma estrela, visto que o falhanço enquanto estadista estava exposto para toda gente ver. Trump refina apenas o princípio subjacente a estas experiências. De tal forma que num famoso debate com Hilary Clinton que antecedeu as eleições de 2016 sugere que deveria ter ganho um emy e que só por que o sistema está “rigged” (viciado) não o obteve. Utilizou rigorosamente o mesmo tipo de raciocínio que fez quando popularizou a expressão “drain the swamp!” – o sistema político de Washington estava “rigged”.

Há, nos dias que correm, uma correspondência muito estreita entre a autocracia e o universo simbólico do star system. Putin, na Rússia, engendrou um culto de personalidade de pendor religioso. Altares com a sua efígie são montados em diversos locais de Moscovo, curiosamente os mesmos locais simbolicamente associados aos vultos do velho comunismo.  A sua vida privada, de forma controlada, é passeada pelas revistas e órgãos de comunicação afectos ao presidente (que são praticamente todos).

As afinidades entre Trump e Putin não ficam pelos tiques autocráticos – extravasam para a capacidade de transferir o modelo do homem de negócios à gestão política. E este tem, actualmente, uma particularidade: o sucesso.

O sucesso não é uma característica política. O sucesso não funciona por legitimação; não é um aspecto contractual. Recordam-se como Habermas associava a legitimidade à verdade? O sucesso é uma máquina autoexplicativa. Não necessita da verdade para nada. É por isso que o relapso raciocínio da esquerda está errado. O que diz a esquerda?

Atribui uma espécie de falsa consciência aos votantes da extrema-direita. De Trump a Bolsonaro, a esquerda quis explicar o indizível através da noção de que as pessoas eram enganadas. Ou por fake news no watsap ou por bots: a tecnologia das notícias falsas serve para justificar o comportamento eleitoral que não encontra enquadramento na racionalidade política da esquerda. Quer seja pela influência das fake news quer pelo lugar de classe (Marx) a lógica é sempre a de atribuir a comportamentos aparentemente irracionais uma qualquer obnubilação ideológica.

Julgo que nada é mais falso do que a noção de falsa consciência aplicada aos tempos actuais. As pessoas possuem um acesso à informação como nunca antes existiu. Que esta é manipulada, disso não restam dúvidas. Mas mesmo na manipulação, os enquadramentos são tão diversos que permitem ter uma imagem geral e relativamente completa do crivo ideológico pelo qual passam os assuntos. Sendo certo que muita gente não se dará ao trabalho de fazer esse cotejo – porque é algo trabalhoso! – também é verdade que as adesões respondem a motivações individuais, por vezes momentâneas, e não a uma qualquer agenda inculcada da qual o alvo não possua capacidade de apreciação e julgamento. E onde nos deixa isto tudo?

Tenho para mim que nos encontramos no território das identificações e desidentificações. É neste jogo que actualmente se faz o que quer que seja que passe por política. Casos tão diversos como Bruno de Carvalho e Trump, ganharam e perderam pela oscilação entre identificação e desidentificação. A crise da Venezuela, com milhares de imigrantes a serem vertidos nas fronteiras do Brasil diariamente a aparecerem na televisão, fez mais pela eleição de Bolsonaro do que qualquer programa político que este pudesse apresentar. Trump cai porque as mulheres se desidentificaram com o seu estilo machista e truculento. Nada de essencial mudou nas orientações governativas de Trump de 2016 para 2018 – pelo contrário: estas foram seguidas diligentemente e com o beneplácito de uma economia a crescer como poucas vezes aconteceu. O que ditou as suas perdas (não se pode falar de derrota) foi a crescente desidentificação com a figura do presidente.

Identificação/desidentificação existem num campo ortogonal à legitimação. Weber associava esta última à validade, ou seja, à justificação do mando, na sua linguagem – da dominação. Porém, as opções actuais dos grandes líderes mundiais são injustificáveis, no preciso sentido em que ninguém lhes pede justificação, ninguém se interessa mais por aquilo que se convencionou chamar accountability. É certo, os parlamentos funcionam, há uma pluralidade de partidos, geralmente reduzida a uma dicotomia, e há a imprensa. O problema é que não se distinguem mais os assuntos legitimamente accountables daqueles que não o são, ou só muito tangencialmente o serão. Assim Trump não começa em perda por causa da sua política de impostos; antes pelos seus hábitos privados com porn stars e prostitutas. Lula não é julgado pelo bolsa família ou pelas quotas no ensino público para alunos carenciados – mas sim pelos supostos subornos do apartamento do Guarujá. Chega a ser patético que uma população inteira se levante em armas contra um presidente pelo caso do apartamento num país em que os golpes, a plutocracia, o peculato, fazem parte do quotidiano. E no entanto a população saiu para a rua em polvorosa a exigir a prisão do presidente. Quem todos os dias convive com uma ostentação pornográfica em certas partes das cidades brasileiras convivendo paredes-meias com a miséria mais atroz ficaria seguramente impávido perante a minudência do apartamento de Lula. São estas contradições que já não são da política (cont.)

Poder e massas (século xxi) parte 1

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A famosa frase de Toqueville (frase a rescender a púlpito e beatice, claro está) reza assim “America is great because she is good, and if America ever ceases to be good, she will cease to be great”. A América é tudo menos boa, e nunca o foi na largueza do seu tempo histórico. Glosando a personificação aplicada diligentemente por Toqueville à sua amada América, ela não tem sido senão vingativa, violenta, prepotente, intolerante e injusta – e isto desde os tempos em que a colónia passou a país. Um retrato do seu actual presidente, portanto. Ou não fosse isso que os americanos tanto amam em Donald Trump – uma fiel imagem das próprias características da pátria.

Ainda não tivemos oportunidade de perceber quem são as pessoas que se mobilizam para votar em ditadores, prepotentes, imbecis e fascistas. No Brasil, como nos Estados Unidos, há um movimento que confere esperança ao conservadorismo fascista que se avizinha. Como diria Órban, um governo do povo, para o povo, pelo povo… esquecendo sempre de mencionar as elites oligárquicas e plutocratas que o sustentam.

A onda azul não se verificou; ou ficou muito aquém das expectativas. Há uma América do interior que se revê em absoluto na figura e método de Trump. Que o reforçou no Senado e em número de governadores eleitos. Tal como no Brasil, e em contextos que se vão multiplicando por esse mundo fora, enfrentamos um eleitorado que não está nada interessado nos pilares da democracia. Essa distanciação da ideia democrática deve-se em larga medida ao facto de não sermos mais cidadãos, mas sermos sobretudo consumidores. Esqueçam por conseguinte a litania da falta de reflexo dos problemas reais nos discursos dos políticos; da desindustrialização que leva as pessoas a procurarem soluções radicais; dos esquecidos pelo poder de Washington, etc. Não são esses que votam Trump; e não foi com certeza quem votou Bolsonaro.

Podíamos inclusivamente cair no erro de pensar que a democracia foi sequestrada pelo grande capital, como é o discurso de alguma esquerda revoltada. Sendo um tal diagnóstico correcto ou incorrecto, o facto é que não tem qualquer peso na opção dos eleitores. Para estes, as soluções democráticas não são necessariamente as melhores.

A democracia tornou-se um termo vazio. Não por causa do capital, tão-pouco dos mercados – tornou-se vazio pelo mau uso que os principais visados da sua estrutura de oportunidades – o povo de Órban! – dela fazem.

Seria necessário perceber os mapas cognitivos que estão em acção actualmente. Gente como Zizek ou Jameson afirmam que não existe mais mapa cognitivo. Existe. O que não existe é mapa cognitivo no sentido emancipatório desejado pelos dois autores. Mas isso é mero wishfull thinking.

Os mapas cognitivos actuais devem ser lidos através dos parâmetros de apreciação dos reality shows. Devemos perguntarmo-nos por que razão a vida das celebridades interessa tanto a cada vez mais pessoas? Por que razão a situação comportamental “autêntica” nos fascina cada vez mais?

Porque nos comportamos como consumidores e não como cidadãos, os nossos padrões avaliativos, os critérios pelos quais se pautam as escolhas, nada têm a ver com a percepção liberal da participação do indivíduo na comunidade social. Aliás, estão tão afastados dessa condição – situação própria da cidadania – que é difícil falar de um cidadão para além do laço formal que liga alguém a um todo nacional. O espaço da cidadania é o espaço da legitimidade, da soberania, ou seja, o espaço da contratualidade e dos direitos. Os indivíduos actuais não se revêem mais neste espaço. Por isso é fútil o desejo expresso por Boaventura Sousa Santos de inventar uma nova contratualidade. O espaço actual não é político no sentido pristino do termo. Ou melhor, é directamente político no seu sentido mais primitivo. Linguagem dos afectos e das adesões bem menos do que dos direitos e das obrigações. Trump percebeu isso. Os discursos carregados de uma linguagem dos afectos contrastam com o rigor lógico dos discursos, por exemplo, de Obama. Bolsonaro seguiu a mesma cartilha – ou não fosse Steve Bannon o seu conselheiro. Como é que na sociedade dos Likes, de adesões tão imediatas quanto efémeras, poderia ser de outra maneira?