Bolsonaro

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Nos últimos tempos tenho falado com brasileiros, em Portugal e no estrangeiro. Brasileiros da classe trabalhadora ou empreendedora; não os brasileiros académicos ou de altas habilitações. A paixão por Bolsonaro é evidente.

Há dois aspectos que sobressaem nesta paixão. Primeiro, o fascínio pela ordem. Bolsonaro é interpretado como a promessa da ordem, da segurança, do pôr cobro ao desmando normativo em que, putativamente, se encontra o Brasil. Segundo, e corolário do anterior, a militarização. Cresceu recentemente no Brasil a noção de que a militarização da sociedade – da tropa ao cidadão comum – é a salvação para as demais esferas sociais: do trabalho à família, da educação à religião. Parece estranho, mas atente-se no facto de no programa do Hulk, show com uma audiência colossal, quem chegou à final do concurso de soletração animado pelo apresentador ser proveniente de colégios militares. Ora esta façanha foi interpretada por largos sectores da sociedade brasileira como a virtude evidente da educação militar. Com o seu quê de massagem ideológica para as consciências, o resultado do concurso prova afinal aquilo que tantos brasileiros e tantas brasileiras acreditavam: a virtude da militarização da socialização. Os temas da pobreza, da exclusão, da desigualdade escandalosa empalidecem perante a força bruta da ordem prometida pela disciplina militar.

Perguntava-se alguém se o Brasil poderia ter 44 milhões de fascistas. Sim, pode. Assim como a Europa teve muitos milhões no período do entre-guerras. É certo que nem a Alemanha nazi teria uma tal concentração. Mas reunidas as potências do eixo, estaríamos seguramente muito perto de um número assim.

Que as pessoas deixaram de acreditar na democracia tornou-se óbvio. Que esse descrédito se explica em grande medida pela sistemática destruição ideológica do Estado, é uma hipótese viável. Sem Estado não há democracia. Contudo, se acreditarmos que o Estado é intrinsecamente corrupto, ineficiente e subjugador das liberdades individuais, então a democracia deixa de ter casa.

Vários comentadores acabaram por enjeitar as comparações entre Bolsonaro e Trump. Fazem mal. Bolsonaro é um Trump à escala brasileira. Como o seu congénere norte-americano, é um mentiroso. E faz da mentira e da demagogia as suas armas principais. Tal como Trump, inicialmente incensado por muitos como a voz dos desprotegidos, também Bolsonaro fala pela voz do povo – mas o que diz é o contrário do que faz, e do que sempre fez. Outra característica que é mimetizada de Trump é a tendência para se vitimizar bem assim como ao campo ideológico dos seus apoiantes. O mais emblemático exemplo desta postura encontra-se num quadro com a bd Charlie Brown onde a cada uma das afirmações o interlocutor responde com uma acusação dos ditos movimentos sociais. Assim, “eu sou gay, eu sou heterossexual – então és homofóbico”, funciona como a caricatura daquilo que dizem ser a intolerância de esquerda. Muita gente afina por este diapasão; não é preciso ir muito longe, e os exemplos podem ser respigados na profunda desonestidade intelectual dos cronistas do Observador. Este mecanismo é usado vezes sem conta pela direita conservadora, escondendo os seus tiques de intolerância sob um manto de vitimização. Uma vez mais os quadrinhos da campanha do Bolsonaro: “eu sou de esquerda, eu sou de direita – então és fascista”. O significado último desta suposta montra de intolerância é o de a esquerda funcionar por rotulações, enquanto a direita, supostamente, possui o espírito fenomenologicamente sofisticado da especificidade das coisas. É óbvio que esta interpretação cai pela base quando o candidato Bolsonaro rotula qualquer política social de “socialista” e qualquer contraste com as suas opiniões (cavernículas) de “politicamente correcto”.

Esta direita, extrema, ou simplesmente ultraconservadora, possui um guião. Podemos inclusivamente auscultar na sua crispação contra o designado “politicamente correcto” alguns dos tiques e mecanismos do antissemitismo. Em certa medida, o politicamente correcto é o judeu actual. Numa época em que a nação é, mesmo para os arautos de um certo nacionalismo que nem eles próprios acreditam, um campo de diluição, demasiado fluído para que compreenda agitações étnicas ideologicamente construídas ou baseadas numa suposta pureza de pertença grupal. Isso, no mundo globalizado, é difícil de definir; mesmo que as alusões à pátria se façam altissonantes. Ninguém mais sabe muito bem o que ela seja. Mas o politicamente correcto tem os elementos que constituem as grandes ameaças na figura do judeu. E é por isso também que há uma figura do politicamente correcto. São eles: a sua afinidade esquerdista, a sua transversalidade nacional, a sua exigência de justiça. Os lugares ocupados pelo judeu na cúspide do antissemitismo do início do século passado.

O elemento fundamental desta lógica é o corruptor. Lembremos que também o judeu corrompia: a pureza da raça, as tradições nacionais, a religião oficial. Seja como for o pânico da corrupção pressupõe sempre que há um lado impoluto. Um dos maiores méritos da extrema-direita actual, de Trump a Bolsonaro, foi ter convencido as pessoas que apenas há uma esfera de corrupção. Assim quer o pântano de Washington como os baderneiros do PT são filtrados pela mesma lógica. Alguém (Walters) designou recentemente esse mecanismo como de antipolítica. Uma política que se faz contra alguma coisa. No caso da anticorrupção a entorse ideológica é de tal forma eficaz que indica espaços de que são efectivamente de corrupção e outros que passam por ser comportamentos normais. Assim, pagar para serem lançadas milhões de mensagens falsas pelo watsapp, um acto eminentemente corruptor do jogo democrático, não é arrolado ao anátema lançado por esta onda de purificação dos apoiantes de Bolsonaro. Trump usar esquemas fraudulentos para lesar o Estado e acumular fortuna não passa pelo crivo purificador dos amantes da anticorrupção. São exemplos de comportamentos banais e banalizados pelos novos evangélicos anticorrupção. O PSD em Portugal, caso tivesse ganhado as eleições, teria explorado o caso Sócrates até à medula. Não há nada de racional nesta ambiguidade: que uns recebam o opróbrio de corrupção e outros nem sequer figurem na galeria de actos perversos. Mas também não existia nada de racional no antissemitismo e na ideia segundo a qual um grupo de pessoas que professava uma religião específica inquinava toda a história de uma nação.

E sim é verdade: existem mesmo 44 milhões de fascistas no Brasil.

Contra a literatura-bloom

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(pintura de Strindberg)

Três obras literárias que exploram os meandros da depressão. Melhor dito, mergulham na literalidade da depressão, descrevem-na, exibem-na na sua experiência quotidiana, sentem-na literariamente. Hoje em dia não há exemplos semelhantes. Não há sangue. Na literatura-bloom (Gonçalo M. Tavares), ou seja, a literatura exangue, não há vida. Assim não há sofrimento: apenas trocadilhos inteligentes, referências intertextuais, brincadeiras lógicas. A literatura-bloom está adaptada aos académicos; aos pós-modernos cínicos e descomprometidos. E o mundo actual está cheio de literatura-bloom.

Por isso os mergulhos na depressão a que farei referência são tão impressionantes. O primeiro mergulho é O Inferno de Strindberg. Uma sequência de experiências paranóicas e de visões da insuportabilidade do mundo. Visões, angústias, uma impossibilidade do si mesmo – demonstrações óbvias da constrição depressiva.

O segundo mergulho é Os Cadernos de Malte Laurids Brigge de Rilke. Morte, insanidade, paranóia, entretecidos em finos liames de observação naturalista e prosa poética. Proust, a quem Rilke venerava, não chegou exactamente a cortejar da mesma forma a queda … Se bem que o último volume da Recherche exibe todos os tiques da inadaptação sexual e dificuldade de aceitação do mundo. Rilke ou Brigge lidam com a morte como uma presença obsessiva, e dela tecem um encadeado de imagens saturadas de beleza poética e de minúcia maníaca.

Finalmente, Pessoa e o Livro do desassossego. A página 109 (da edição que eu tenho) explica tudo. Dificilmente se obteria uma melhor descrição da depressão. A indefinição do eu; o questionar sistemático do lugar e do espaço desse mesmo eu; a indiferença magoada perante as coisas e o tempo.

Reflexões sobre a identidade individual? Certamente. Mas julgo que estaríamos errados se reduzíssemos qualquer destas obras a tergiversações sobre a identidade , próprias do complexo moderno de experimentalismo com o eu. Mergulhos na consciência, como Proust e a minudência descritiva dos objectos e dos acontecimentos.

O homem sem qualidades é um mergulho na consciência, ou no vazio dessa mesma consciência, obrigando Ulrich a deambular na sua busca indolente por uma identidade. E se bem que em qualquer dos três – Stringberg, Rilke, Pessoa – o stream of conscience dos modernos guie a sua pena, não podemos reduzir estas aflorações do abismo a idiossincrasias deslocadas.

A morte, a companheira fiel de cada um deles, essa presença-ausência que lhes dobra as palavras e as força a caminhar na sua sombra, é um signo distintivo. E o que distingue está para além da idiossincrasia quando considerada como absoluto. É certo que qualquer destas obras é idiossincrática; tanto quanto podemos falar de uma singularidade inimitável de cada um dos seus autores. Mas a companhia da depressão, ou mais propriamente o eflúvio negativo que infla as suas frases instala-se para além da idiossincrasia. São depressivos na exacta medida em que vivem uma relação que oscila entre a contemplação narcísica e a insuportabilidade do seu ser. Este conflito interno é vivido não de forma mística (e aí eu estaria em desacordo com a tese do misticismo rilkeano) mas sim doentia. O misticismo instalar-se-ia na doença. Seria aliás a única forma eficaz de lidar com ela. O swendborgerismo para Stringberg, o misticismo clássico para Rilke, o misticismo nacionalista para Pessoa. Sim, é tudo verdade. Todavia, dir-se-ia que foi a modalidade de tradução que encontraram para transmitir a sua angústia existencial. Existencialistas então? Nem todos os existencialistas são uns depressivos. Sartre não era certamente; Camus tão-pouco. E Faulkner o pai dos existencialistas novelescos não apresenta traços de depressão.

A famosa frase de Pessoa, Uma constipação da alma, é mais explícita do que milhares de páginas escritas por psicólogos. Aliás, no excerto onde essa frase se encontra, reside uma das mais perfeitas descrições do estado depressivo: Há sensações que são sonos, que ocupam como uma névoa toda a extensão do espírito, que não deixam pensar, que não deixam agir, que não deixam claramente ser (…) Não é tédio o que se sente. Não é mágoa o que se sente. É uma vontade de dormir com outra personalidade (…). E por aí afora. Conheço poucas descrições que vistam tão bem como esta o sentimento da depressão. Em Rilke, na sua única obra em prosa, é o medo que assola os passos do poeta, as suas observações, o seu spleen, tão baudelaireano, mas tão desencantado ao contrário do seu percursor – tropeça em medos vários, como a morte que ele diligentemente segue nos passos de um velho doente que persegue pelas ruas de paris. Strindberg vive numa obsessão permanente. Visões, ruídos, paredes que o esmagam – um sem fim de aflições que estão bem para além da simplicidade profiláctica da constipação da alma. Mas que tornam o seu quotidiano insuportável, pesado, transfigurado ao limite da impossibilidade.

Qualquer destes escritores (génios!) ultrapassou à sua maneira estes estados de angústia-pânico-medo-desindentificação. Dir-se-ia que o seu melhor trabalho viria posteriormente. As suas crises foram por conseguinte aplacadas por obras de uma inventividade extraordinária. Rilke, estaria ainda para escrever as Elegias e os Sonetos; Strindberg, escreveria mais tarde O Sonho ou Miss Julie. Pessoa espraiou a sua criatividade por miríades de vozes, e assim o continuou a fazer, não tendo verdadeiramente um período limite – até porque a única obra publicada em vida foi Mensagem, o resto foram colaborações em revistas e outras publicações.

É um facto que a sua vida real se afastou a mais das vezes dos protótipos sonambulísticos que descreveram nestas obras. Da mesma forma que os anónimos depressivos actuais levam, na sua grande maioria, a sua vida adiante. Nas obras mencionadas, a depressão é exposta, desentranhada através da escrita. Ainda não havia nome para estes estados de alma. Mas o que mostram é que não se compadeciam com a literatura-bloom.

Esta não é uma mensagem de optimismo sobre a depressão, patrocionada pelo espírito de auto-ajuda e pelo manual motivacional para idiotas. É uma cogitação anti-literatura-bloom. O buraco entediante em que o génio literário actual nos enfiou. A brincadeira desafecta que hoje em dia concorre para o Nobel.  A menos-vida que se sentam actualmente a escrever. Os três grandes depressivos literários davam-nos a vida. Mesmo que ela fosse negra e opressiva.

A máquina de fazer bebés

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A abertura da máquina hamlet de Heiner Muller: Aqui vem o fantasma que me gerou, com o machado ainda no crânio. Quem gerou o fantasma mee#too? Reflictamos: os conservadores norte-americanos. Vêem-se agora a braços com uma vingança infinita. O desespero do congressista republicano na audiência a Ford: – Vós, democratas, não terão pedras onde se acoitarem, nem buracos para fugirem: serão vítimas da vossa própria perfídia! Curiosamente, os inventores da perfídia foram os conservadores republicanos, ou não? Corria o ano de 1998 quando Clinton confirmou o seu caso extramatrimonial com Lewinsky. Outras mulheres, anteriormente, já tinham vindo a terreiro com acusações de violação e de abuso sexual. Mas foi Lewinsky que fez cair o presidente. Não foi a primeira vez que se ouviu falar de escandâlos sexuais envolvendo altas figuras políticas. Porém, a perseguição movida a Clinton foi de tal maneira encarniçada que fez desabar as fundações do partido democrático, com consequências que ainda hoje são exploradas pelos republicanos na sua guerra de propaganda. Por isso o espanto do congressista republicano contra a pretensa orquestração das mulheres que acusam Brett Kavanaugh é um caso claro de “com ferros matas com ferros morres”.

O jogo, contudo, está desgovernado. A máquina que traz à tona os fantasmas de abusos sexuais e violações (reais ou não) é autopropulsionada. Ganhou vida própria. E nesse sentido, tornou-se incontrolável. Qualquer coisa serve: desde as bebedeiras de Kavanaugh, até aos impropérios dos seus amigos, chegando ao cúmulo de surgirem acusações de abusos pelas frases escritas por adolescentes no livro de curso! Deixou de haver fronteiras discerníveis entre o que é uma conduta apropriada e o que pode ser atentatório da liberdade de outrem.

Reparem que não me interessa minimamente o futuro de Kavanaugh, de todo o modo um juiz ultraconservador colocado estrategicamente pelos republicanos no supremo para assegurarem a sua hegemonia até ao dia do juízo final. Mas assim como soam a falso as declarações do juiz, mascaradas que estão num misto de hipocrisia e de atabalhoamento, a máquina de acusação por abuso deixou de possuir baias entre o que é aceitável e o que é histeria colectiva.

Por exemplo, o mais recente caso envolvendo Ronaldo e a norte-americana Magoya tinge-se das cores do ridículo e capcioso. Uma vez mais os relatos são caricaturais. As mulheres acedem a tudo, ou a quase tudo, e depois quando tudo acontece dizem-se violadas. Como não há peritagem que resista aos anos que entretanto passaram, a culpa pode viajar a velocidades estonteantes que não há forma de a confirmar ou infirmar. O certo é que na maioria dos casos estas mulheres aceitam dinheiro para se calarem, para não denunciarem, ou seja, para não acusarem. O que diz muito da qualidade moral de cada uma delas. Parece então que quando necessitam de mais dinheiro, recuperam a potencial acusação do baú das memórias (forjadas?) e contra-atacam no sentido mais mercenário do termo. Magoya remeteu-se ao silêncio durante anos, supostamente enquanto o dinheiro lhe durou ou não lhe fazia falta. Regressa agora com a acusação a Ronaldo porque, aventamos, precisa de dinheiro, de mais dinheiro. Encontrou dois jornalistas oportunistas no Der Spiegel que por seu turno viram em Magoya a hipótese de se catapultarem para o estrelato internacional. Uma conjugação de factores, portanto, que reforça sistematicamente o mecanismo da culpa sem presunção de inocência, e que desliza sobre pressupostos tanto mistificadores como alarmistas.

O movimento metoo# deu força e cobertura a estas aparições. Qualquer destas mulheres – Magoya no caso de Ronaldo; Ford, no caso de Kavanaugh – exibem a sua aura de pureza fabricada nos seus testemunhos e queixumes. Porém, é difícil emprestar-lhes muito crédito. Os seus depoimentos estão cheios de contradições; e ninguém acredita na sua santidade quando temos sistematicamente mulheres que se envolvem em festas e outros rituais e depois, só depois, se arrependem. Não se trata de reeditar o velho tema da violação por culpa da mulher, variadamente declinado em “estava mesmo a pedi-las” ou outras formulações. Contudo, não podemos deixar de lado uma certa sensação de desconforto quando invariavelmente estas mulheres aderem activamente a certos comportamentos. Magoya aceitou um convite para uma festa num quarto de hotel com Ronaldo e mais pessoas. Isto soa a orgia. Qualquer pessoa, por mais inocente que seja, sabe ler estes sinais. Quer dizer que por aceitar ir a um quarto de hotel está a pedir para ser violada? De todo – mas significa que as condutas que aí se desenrolarem possuem fronteiras muito pouco claras e facilmente manipuláveis.

A histeria é de tal ordem que até Lewinsky da qual se concluiu sempre ter tido sexo consensual com Clinton, veio agora desdizer-se argumentando que pelo diferencial de poder não saberia bem dizer se teria de facto sido consensual. Esta é a justificação mais elástica que pode existir. Curiosamente (e terrificamente) é a simétrica daquela que é utilizada nos países onde é impossível provar uma violação, como a generalidade dos países árabes. Os seus sistemas jurídicos são blindados pelas suas formulações excessivamente patriarcais contra acusações de violação. Se aqui se torna improvável que algum acto seja considerado uma violação (desde logo porque o ónus da prova recai por inteiro sobre a vítima) no mundo do metoo# torna-se improvável que algo não seja uma violação (ou abuso sexual). Qualquer contacto físico que envolva seres em posições de poder diferenciadas pode ser facilmente arrolado ao abuso sexual – sejam dadas as condições suficientes. E se não for no imediato, pode sempre ser recuperado posteriormente e interpretado através da lente da anti-falocracia que estabelece que o poder submete as suas vítimas para além de qualquer escolha, e que este é irremediavelmente masculino.