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Serena

Setembro 13, 2018

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As linguagens do antirracismo têm uma elasticidade que por vezes me deixam pasmado. A estas aliam-se as do feminismo, e em geral as de qualquer política de identidade. Quando são agregadas, monta-se um cocktail de efeitos perturbadores. Assim, quando temos as linguagens do antirracismo acopladas às do feminismo e do antissexismo, numa interseccionalidade pragmática, a força que possuem na esfera pública multiplica-se à velocidade dos grupos e vozes que com elas se identificam. A sua manipulação é por isso agilizada e cobra efeitos redobrados.

Serena pode ter vindo de Compton, mas tornou-se numa multimilionária mimada e malcriada. Assim como várias das divas negras que aplicam a sua origem do ghetto à criação de uma persona que lhes permite tudo – tal como Nicky Minaj ou Azelia Banks. Não é diferente nos homens, diga-se. Mas o caso Serena, com o americanismo rude e mal-educado herdado de heróis como McEnroe – que estava longe de vir do ghetto – mostra apenas que esta gente joga o jogo do poder e da subalternização sustentando-o ideologicamente, mas invertendo-o na prática,.

As acusações de racismo e misoginia proferidas por uma Serena de cabeça perdida porque perdera de facto o Open contra a adversária mostram como o comportamento da tenista foi baixo e irreflectido. Ou se calhar, muito bem reflectido já que sabia que apelar aqueles dois demónios seria ter de rompante do seu lado uma esfera pública cada vez mais idiotizada. Não se fizeram esperar do lado norte-americano as rápidas acusações de mulheres discriminadas e abusadas. No ambiente calvinista de me too# e quejandos, uma qualquer acusação desta natureza incendeia facilmente as redes sociais.

As linguagens do antirracismo e do antissexismo são por vezes de tal forma inflacionadas que a sua razão recorre a uma desrazão particularmente estudada. Desde afirmações sem qualquer fundamento como “No desporto existe muita discriminação e sexismo” de Patrícia Vassallo e Silva, membro do Por Todas Nós – Movimento Feminista (Observador), até ao repisar da história de opressão das categorias visadas, como foi o caso das reacções da WTA, tudo serve para alimentar esta engrenagem imparável.

Quando se diz “No desporto existe muita discriminação e sexismo” de que desporto se está a falar? Com que dados se fundamenta esta afirmação? E qual a relação entre uma Serena Williams multimilionária aos 27 anos e a história da escravatura norte-americana?

A linguagem do antirracismo rasura tudo. É cansativa porque desproporcionada e tantas vezes enredada em contradições e considerações descabidas. E, como mostra o caso Serena, é manipulável quando não escrutinada.

Há tempos Taguief escreveu um tratado criticando duramente o antirracismo e as suas actuações na esfera pública. É certo que o seu alvo principal tem sido o antissemitismo, e creio que o autor caía em diversos erros de análise. Com tudo de asqueroso que Taguieff possa ter – e há muito – algo de correcto se encontrava no seu repto: o antirracismo como formação ideológica que postula um inimigo absoluto com o qual é impossível dialogar. O inimigo absoluto, no caso de Serena, o homem branco com toda a sua carga estrutural de opressão sobre o negro e a mulher. Por conveniente que seja esta formulação, ela é contudo falsa. E é sempre falsa quando não se tem em conta que as posições estruturais são diferenciadas e que isso é justamente o que conta. Ou seja, a localização na estrutura de estatuto, poder, influência e visibilidade (a nova categoria irredutível da sociedade da informação) sobrepõe-se ao recorte categorial por sexo e raça. E no caso de Serena isso é tão evidente que ela usou justamente essas armas para esgrimir ideologicamente os automatismos do discurso antissexista e antirracista. É justamente por ser Serena Williams, e não uma anónima negra, que se pôde dar ao luxo de enxovalhar o árbitro português à frente de milhões de pessoas.

É claro que o discurso antirracista tende a disfarçar esses automatismos, enquanto automatismos retóricos que são, através da ideia de partilha da experiência da opressão. Assim Serena, que imagino tenha uma legião de homens e mulheres, negras e brancos, a servi-la, sentiu-se oprimida enquanto mulher negra porque foi multada no court de ténis. A noção de que Serena, negra e mulher, partilha, pelo simples facto de ingressar nas categorias oprimidas historicamente, a experiência dessa mesma opressão é das alquimias mais interessantes (e mais falsas) que o discurso antirracista opera. Todo o branco é um opressor potencial, assim como todo o negro é um oprimido embrionário. Não é assim. Lembra, em certo sentido, a experiência sartriana que incitava os intelectuais a trabalhar numa fábrica (temporariamente) para que fossem contagiados pelo ethos da classe trabalhadora.  Qualquer que tenha sido o sofrimento provocado pela escravatura (e foi extremo) não está inscrito na pele de Serena Williams. Mesmo que, como é costume na retórica antirracista, apenas o negro, ou a mulher, possam reconhecer quando são vítimas de um acto discriminatório.

A vitimologia que se encontra associada ao reconhecimento de qualquer detalhe nos comportamentos alheios enquanto ofensivo ou ameaçador prende-se, logicamente, com a absolutização da categoria vitimizada. É na substantivação da pertença que se gere a magnitude da vitimização. Assim Serena abstraiu o facto de ser muito mais poderosa no mundo do ténis do que o árbitro português, abstraiu igualmente a realidade do seu protagonismo mediático e os potenciais aproveitamentos daí decorrentes, e finalmente abstraiu a sua posição de classe, sendo muito mais rica, incomparavelmente mais, do que o árbitro português  – mas substantivou a sua pertença às duas categorias: negra e mulher. Este aproveitamento instrumental da substantivação categorial faz com que a linguagem do antirracismo se proteja do contraditório e evite, ou rejeite em absoluto, ir à liça no espaço da argumentação e da ponderação de factores.

Há uma justificação que alicerça muitos destes discursos. É a da incorporação das estruturas racializantes e sexistas que fazem com que o homem branco não posso responder doutra forma, só o podendo fazer caso se sujeite ao endoutrinamento do próprio movimento. Tal como a noção de que a experiência da escravatura se transmite de forma que se diria quase genética, também a inevitabilidade da incorporação das estruturas racializantes segue o mesmo princípio: é uma formulação de natureza genética. Ora, não há nada de genético nos processos de atribuição cultural.

As estruturas de racialização e sexualização são reais e possuem eficácia causal. Quer isto dizer que definem condições, localizações e tensões sociais. Definem assimetrias e estigmatizações. No entanto, daqui não se segue que se sobreponham a todo e qual outro fenómeno estrutural. O caso de Serena traduz a pura evidência da impossibilidade dessa sobreposição, ou melhor, dessa sobredeterminação. O que o discurso antirracista, quando se torna manipulador, faz é integrar todo e qualquer acto nessa sobredeterminação. É aqui que Serena, multimilionária, famosa mundialmente, cortejada pela comunicação social, consegue surgir na posição de vítima pela sua cor da pele e condição feminina. É um truque que oculta quem são as verdadeiras vítimas.

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