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Argentina

Setembro 5, 2018

Saque de um supermercado na localidade de Chubut, Argentina 

Se é verdade que a Venezuela se desmorona a cada dia que passa, a ultra-neoliberal Argentina mergulha numa crise de consequências imprevisíveis. O FMI aterrou em Buenos Aires e impôs a sua receita de destruição e austeridade. Como em tempos fez em Lisboa. Os Argentinos olham para esta crise como “ainda não chegámos ao curralito” – e há um lampejo de esperança que assoma aos seus semblantes. Porém, a preocupação é evidente: com a subida do custo de vida, com os preços a dispararem, e com os salários a estagnarem, o futuro não se afigura risonho. Seguir-se-ão despedimentos em massa; o encurtamento do Estado – já iniciado com a compressão de seis ministérios em secretarias de Estado – e a onda de privatizações desenfreadas que se adivinha.

Macri exigiu hoje deficit zero a todos os governos regionais. E deficit zero aos governos regionais significa cortes indiscriminados nos serviços sociais. A despromoção dos ministérios da saúde e da ciência e tecnologia a simples secretarias de Estado, evidencia o que aí vem como estratégia de privatização e os sectores a abater.

Nos últimos dias o peso desvalorizou mais de 40% face ao dólar. O que sendo boas notícias para os estrangeiros – porque pela primeira vez Buenos Aires não tem os preços de Paris para quem tem uma bolsa em euros – trazem devastadoras consequências para o bolso dos argentinos. Mas para todos?

Imaginem uma nação em que toda a classe média-alta e rica coloca o seu dinheiro em dólares fora do país. Estima-se que o total colocado fora do sistema nacional orce os 244 mil milhões de dólares, o equivalente a metade do Produto Interno Bruto. Para esta população a desvalorização do peso representa riqueza acrescida nos seus cofres. Para estes, os preços não aumentam; antes as suas economias quadruplicam quando convertidas na moeda nacional. Porque se devem eles preocupar?

Assim temos um país que entre a propaganda feroz governamental, a intoxicação noticiosa, ao nível de uma Venezuela, mas com mais motilidade, porque lindos meninos e meninas sempre muito sorridentes, falam do programa de ajuste estrutural da mesma maneira como falam das estrelas de futebol que se encontram na Europa, e uma elite que corrompe as entranhas do país, mergulha na pobreza mais ominosa. E o aumento desta é visível ao nível do quotidiano. Os pobres acumulam-se nas ruas. Chegam dos campos com as suas famílias, como é tradicional nas grandes cidades brasileiras, e aninham-se nas arcadas dos prédios das grandes avenidas. Constroem barracas de cartão e plásticos nos cantos das entradas dos bancos ou dos grandes armazéns e ali pernoitam. E de dia para dia cada vez são mais. Em contraste, os restaurantes de luxo e da gama alta estão cheios. Como qualquer crise, ela abate-se sobretudo sobre os mais desmunidos. E na Argentina, o país do paraíso neoliberal, ela chega com particular violência aos pobres e classe média-baixa.

E aqui chegamos à Venezuela e porque a sua crise tem sido o garante das economias dos países vizinhos. Estimo que 90% dos venezuelanos a trabalhar na Argentina, trabalhe “en negro”, ou seja, sem contrato, sem segurança social, sem qualquer vínculo laboral. São muito apreciados porque dizem que são muito trabalhadores e simpáticos, e para além disso falam a língua. Trabalham sem horários por ordenados de miséria. E este influxo é o que tem segurado o pequeno e grande comércio e as suas margens de lucro, algumas absurdamente altas até ao momento. A aparente prosperidade do sector do comércio deve-se em larga medida aos salários de miséria pagos aos venezuelanos. Por isso, com a característica mão de ferro dos governos de direita para as coisas da imigração quanto ao seu estatuto de permanência no país, se fecha os olhos às condições de empregabilidade dos venezuelanos (imagino que o mesmo se passe em Lima, Peru ou Santiago do Chile). Vindos de uma miséria extrema, da fome e da escassez, os venezuelanos aceitam o que lhes seja dado. Trabalham sem qualquer segurança ou previsibilidade. São dóceis e obedientes – e por isso os empregadores argentinos gostam tanto deles. A crise estrutural da Venezuela é um bênção para os países vizinhos. Não é apenas por Maduro e o seu governo ditatorial que Argentina, Brasil, Perú, assistem com passividade ao que se passa: esta sangria interessa-lhes, e muito.  O desespero dos venezuelanos inunda o mercado das baixas qualificações argentino e faz florescer a economia informal.

 Quanto a esta, também aqui se trata de um país sui generis. Os impostos não são cobrados porque não há registos das vendas. Quando ele existe é arcaico e facilmente sabotável haja vontade. Por isso temos uma economia paralela de dimensões incalculáveis que diariamente foge aos cofres do Estado. E na frente política?

A elite política, o macrismo, tal como o ruralismo no Brasil, apostou fortemente em destruir a oposição. Bem pode o ministro da economia Dujovni ter milhões de dólares em paraísos fiscais, ou Macri, que a sanha da população, orquestrada pelos meios de comunicação, se volta contra a alegada corrupção de Cristina Kirchner. A corrupção kirchnerista baseava-se no controlo do Estado, e esta até pode ser real, mas os valores que envolve empalidecem quando comparados com as fortunas que o macrismo catapulta para fora da Argentina. Assim ouvir Macri dizer que “estão a trabalhar para que nunca mais haja corrupção na Argentina”, quando a fuga aos impostos por parte das elites é endémica, mostra bem o nível de corrupção ética deste governo.  Mas as pessoas gostam. Assim como é forte o apoio a Bolsonaro no Brasil, porque a classe média gosta de progroms no Estado, de falsas limpezas morais, que não são mais do que rearranjos na distribuição e açambarcamento dos recursos públicos. O ataque escandaloso dos meios de comunicação ao kirchnerismo não tem por efeito um elevamento ético ou uma Argentina mais transparente. A sua missão é muito objectivamente destruir a oposição. Até porque os corruptos próximos de Macri e das suas empresas têm sido cirurgicamente poupados à fúria justiceira do juiz Bonadio. Como um Moro argentino as suas baterias justiceiras são criteriosamente apontadas para o que restava da oposição política – tal como aconteceu com o PT no Brasil.

Neste conspecto, a Argentina caminha alegremente para o sufoco neoliberal e para a devastação que este causa. As mesmas medidas aplicadas com zelo em Portugal e na Grécia, vão ser aplicadas na Argentina. Com uma diferença de monta: os dois primeiros, por incipientes que fossem, possuíam ainda assim um Estado-social. Nos países da América Latina os Estados-providência são uma miragem. O que existe são híbridos deformados onde o universalismo de uns é a marginalização de milhares quando não de milhões. Por isso, perguntamos, o que há sequer para devastar?

Macri, como é apanágio dos governantes em momentos de retórica autoritária (vimo-lo recentemente em Portugal com Passos) veio dizer que não era tempo para governantes timoratos.  Sabemos bem que a força a que se refere Macri se exerce sempre sobre os mais fracos, os excedentários, e poupa, de costume, os mais instalados.

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