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O general no seu labirinto

Setembro 4, 2018

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Rui Ramos acordou hoje… e desperta um pouco maldisposto. Acordou hoje no sentido mais metafórico da expressão, porque chegou finalmente à conclusão que algo de irredutível se passou no xadrez político nacional. Esse algo de irredutível foi a geringonça. E chega maldisposto porque parece que conclui que o psd não tem estratégia… que não seja contar com a geringonça.

Repare-se que o PSD não tem estratégia porque entreteve-se a desejar que o barco afundasse. Desde o diabo até à própria ideia de geringonça, o psd, e por arrastamento o cds, não fizeram mais do que rezar para que a experiência fosse uma catástrofe para o país. Por isso, infirmadas as suas piores previsões, o psd ficou sem estratégia. O acto de santana não é tanto suicidário, como resignado. A velha máxima perdido por cem perdido por mil aplica-se-lhe judiciosamente. Afinal santana não fez mais do que, constatando o óbvio, agir sem percepção do risco. O óbvio é que, para citar uma expressão cara a Marques Mendes, o forrobodó das alianças ganhadoras psd-cds tem os dias contados. Dantes, podiam sempre confiar no facilitismo dos acordos e dos compadrios entre amigos políticos; agora, o xadrez complicou-se, e aquilo que era confortável e praticamente imediato tornou-se factor de rebuscados cálculos. O que dá liberdade a Santana para ensaiar alternativas e enveredar por um experimentalismo político que pode custar a centralidade do PSD. E dá liberdade a Rio para se aproximar do PS.

É por isso que Ramos confunde as oportunistas alianças de direita entre o PSD e o CDS de antanho com “transcendência política”. Diz ele que a geringonça inaugurou uma época de “mercearia do poder”, quando se supõe que a confortável posição de alijar a esquerda do poder através de alianças pré-fabricadas para se manter (n)o poder fosse alta política. Mas numa coisa tem razão, porque afinal faça as contas de mercearia que fizer a direita deixou de ter o jogo viciado.

Foi uma revolução tectónica no planisfério político. A inauguração de uma nova era. De uma esquerda que sempre se pensou como estando fora do poder, para uma esquerda que se assumiu parte do poder. É claro que Ramos chama a isto “habilidade”. Como se os tempos da AD, que até o PPM lá enfiaram para não perderem o poder, fossem tempos de “transcendência política”. Quem não se lembra daquele grande político carismático, que exsudava transcendência política, de nome Soares Carneiro? Que homem! Que estadista! Que intelectual!

Aliás, para quem não tem memória curta, recordar-se-á com certeza da tentativa falhada de recriar a aliança de direita em finais da década de 90. Percebia-se a grandeza do projecto político quando este unia espíritos tão afins quanto os de Marcelo Rebelo de Sousa e Paulo Portas.

Toda a história do PSD foi de alianças oportunistas para assegurar maiorias parlamentares: Durão e Portas, Santana e Portas, Passos e Portas, até ver… Por conseguinte, dizer que a geringonça inaugura a era política da “habilidade” é de uma falta de objectividade e de critério histórico inadmissível.

Mas percebe-se: de um homem que tem a honestidade intelectual de um caracol, vale tudo e o seu contrário.

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