Os anjos sem sexo

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O mais interessante nos comentários sobre a tragédia da pedofilia na Igreja Católica é estes incidirem sobretudo na questão do celibato. Vários, geralmente católicos, perguntam-se se o celibato não é a origem de todos os males.

O celibato não explica a pedofilia homossexual. E não vale a pena equacionar, como a facção conservadora procura afanosamente, pedofilia e homossexualidade. Para esta facção há uma rede homossexual que corrompe a igreja, como diria o cardeal Vigano. Uma tal afirmação traz reminiscências da ideia de um qualquer loby gay. Para Vigano o problema está na transformação da instituição igreja num lugar de acoitamento para homossexuais. Como se a relação fosse a inversa daquela que pareceria a mais escorreita, ou seja, tentar convencer-nos que o problema reside na existência de pérfidos homossexuais que procuram a igreja para praticarem os seus crimes sob a protecção do manto curial.

A causalidade deveria no entanto ser mais lógica. Seguramente seria mais provável que fossem as próprias condições de formação clerical a fomentarem a homossexualidade. Aqui, na instituição total que é o seminário, a homossexualidade é a orientação natural de uma sexualidade reprimida física e intelectualmente. Por isso ao contrário do que diz João Miguel Fernandes, e em total acordo com o observado por Pacheco Pereira, o problema não é o celibato, mas a sexualidade.

A relação problemática do catolicismo com a sexualidade é de antanho. Não é exclusivo do catolicismo, contudo. Invariavelmente, as religiões veem a sexualidade como uma força disruptiva. E como tal têm arranjado as mais diversas formas para dela se protegerem. A continência é uma constante universal do universo religioso. Mesmo que esta tenha sido sistematicamente tripudiada ao longo da sua história.

Que uma sexualidade reprimida só pode expressar-se por vias transgressivas, parece-me bastante evidente. Que a transgressão passe a ser a norma numa hierarquia que não parece querer obviar o problema dando-lhe um espaço de expressão, parece-me a consequência necessária.

Daí que a fantástica reacção da igreja, ora apelando para os benefícios da psiquiatria ora patologizando a homossexualidade dos curas, encobre aquilo que se afigura ser do conhecimento geral dentro da instituição igreja. Em certa medida devemos inclusivamente admitir a hipótese de a própria igreja se reconhecer internamente como uma organização homossexual, ou seja, onde a homossexualidade seria o padrão e não o inesperado perturbador. Imagine-se, por hipótese, que as regras de socialização nos seminários passam por práticas homossexuais.  Seria assim tão estranho conceber uma instituição onde os jovens se encontram sem contacto com o sexo feminino, em regime de internato, e onde as pulsões sexuais só dificilmente são controladas pela disciplina e expiação? E uma tal instituição que se organizaria segundo padrões homossexuais não seria provável que os reproduzisse nas suas paróquias, igrejas, lugares de culto e hierarquia superior? E uma tal reprodução não seria vista como a norma e simultaneamente o segredo mais importante de ser protegido? Se todos estes jovens são socializados segundo práticas homossexuais, como irão no decorrer das suas vidas dar vazão aos seus desejos e pulsões naturais? Pois a pedofilia parece ser a única prática que assegura a satisfação do desejo e a manutenção do segredo. Até que deixou de assegurar…

Não seria assim tão espantoso se acabando com o celibato na igreja católica as orientações sexuais continuassem a ser homossexuais.

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Ossos do ofício

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Dentro do cinismo costumeiro que caracteriza a direita portuguesa (e as outras) ouviram-se vozes de indisfarçável ânimo perante a prestação do ministro da economia, Mário Centeno. Sempre que a direita vê uma oportunidade para fazer barulho, escasseando razões e momento para fazer política, usa-a com garbo e insistência. Foi desde o sopinha de massa João Miguel Tavares a dizer que o ministro ia nu até à bancada do psd a vociferar que aquela é que era a verdadeira cara do governo. O que até tem o seu quê de irónico pois dir-se-ia que olhando-se ao espelho redescobriram o seu duplo.

A esquerda, por seu turno, bateu com a mão no peito e rejeitou a prestação de Centeno quase com a mesma prontidão da direita. Ouviu-se chamar-lhe lamentável, desastrosa, norte-coreana, e outros epítetos.

Do lado da direita, obviamente, dizer que Centeno quer fazer o mesmo que a troika é ainda assim descarado dando-se o caso de essa mesma direita ter desejado (e muito!) ir para além da troika. Do lado da esquerda, o virginismo aparente das suas declarações é patético e risível. Da parte de Centeno, é visível, durante o tempo que dura o vídeo, que está como peixe fora de água. Quão desconfortável lhe terá sido ter que se prestar a um tal papel? Porém, a questão que devemos colocar é: teria Centeno alternativa?

Para inventar uma Europa foi necessário inventar uma língua. Não se trata do inefável esperanto dos linguistas do século XIX. Ao invés, assim como a nova ordem mundial inventou uma nova língua mundial cujos termos constituem o léxico do neoliberalismo, também a Europa forjou a sua língua, tendo em grande medida o seu fundamento nesse novo léxico. Essa nova língua, ou novilíngua, como Pacheco Pereira gosta de lhe chamar seguindo o Orwell do 1984, pauta-se por uma reorganização da verdade à luz dos processos de governança europeus. A Europa, como qualquer firma multinacional, gosta de se apresentar ao público como um território de virtudes. Conceber uma Europa da governança neoliberal equivale a dizer que foi necessário inventar-lhe uma marca: um branding como se diz em novilíngua. Ora esse é o princípio de qualquer publicidade. No reino da venda criar um conceito é o alfa e o ómega da distinção.  E há que defender esse conceito até às últimas consequências.

A cultura europeia é a cultura da gestão europeia. Não há cultura europeia como em tempos houve o modernismo europeu, ou os movimentos avant-garde. A Europa era então um laboratório cultural. Actualmente a sua cultura, aquilo que a une, a linguagem que compartem os seus membros, é a da gestão da Europa. E essa, partilha com as outras culturas gestionários, os métodos e as disciplinas, sendo que o que a diferencia é meramente o facto de ser da Europa. Ninguém nunca ouviu um gestor actual traçar uma imagem catastrofista de um processo de reengenharia ou de reestruturação empresarial. Porque esperaríamos algo diferente de um gestor europeu; ou seja, de um gestor das coisas europeias? Por isso mesmo os comentários são tolos. Centeno falou a língua da Europa. Apresentou o processo de reestruturação da economia grega como um sucesso. Fê-lo com o sorriso mais comprometido deste mundo. Até a firma de comunicação que fez o vídeo deve ter ficado embaraçada perante a falta de naturalidade do presidente do eurogrupo.

São as obrigações da representação. Centeno é a cara do eurogrupo e por isso é a cara da disciplina orçamental europeia. Falar de traição à pátria, como alguns insinuaram, é manifestamente exagerado, quando não demagógico.

Carisma

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Das páginas de Max Weber sobre o carisma ressalta essa qualidade extraordinária, extramundana, sagrada que o possuidor dessa propriedade revela. Figuras carismáticas são os grandes senhores guerreiros, ou os profetas; homens (curiosamente, todos eles) que não necessitam de uma estrutura organizada para comandarem os corações e as vontades de terceiros.

A tentação de falar sobre carisma quando se trata de personagens como Trump ou Putin emerge por vezes em alguns discursos, sobretudo quando se pensa que também eles enlevam multidões. Todavia, estes seriam exemplos propriamente não carismáticos. Com efeito, a atribuição de propriedades carismáticas a tais pessoas parece fundamentalmente deslocada. São, pelo contrário, o exemplo acabado de falta de carisma. E no entanto não há como iludir o facto de que comandam multidões, são admirados por milhares e constroem rituais em torno das suas personalidades (mais Putin do que Trump).

Para Weber havia um estado em que o carisma se rotinizava e deixava de ser a posse de um só indivíduo para constituir-se enquanto algo que pertencia a uma ordem, a uma máquina capacitadora, fosse ela a burocracia, o Estado ou o aparelho militar. Weber não viveu a época da grande explosão comunicacional, mas se o tivesse feito certamente atribuiria aos média o poder carismático das outras máquinas administrativas que analisou. Devemos por conseguinte pensar o sucesso de pessoas como Putin e Trump como parte integrante do aparelho comunicacional. Sozinhos são desprovidos de carisma. Trump enquanto estrela do aprentice ou Putin enquanto soldado do KGB não possuíam a força carismática com a qual líderes verdadeiramente carismáticos são bafejados (como Obama, por exemplo). Foi preciso serem construídos pela comunicação, pela máquina noticiosa e comunicacional. Sem ela não arrastariam multidões.

O papel dos media na criação do carisma é o lado significativo do reconhecimento carismático destes dois líderes. Nada neles emerge enquanto carisma. Aliás, a maioria dos grandes líderes actuais são o menos carismáticos possível. Merkel não tem qualquer carisma; May é absolutamente desprovida de interesse; Trump e Putin são lisos e apenas espantam ou pelas contorções demagógicas ou pelo fingimento puro e simples. Contudo, ao arrastarem multidões dir-se-ia que algum carisma teriam. Esse é certamente um carisma despojado da sua função política. Equivalente ao enlevo que provocam alguns desportistas nas multidões suas admiradoras.

Lembrar que para Weber, o carisma produzido e legitimado por máquinas burocráticas (o que para nós equivaleria à grande máquina comunicacional) era uma forma impura de carisma. Não é obtido por uma particularidade congregadora em torno da personalidade carismática. Obama foi, no nosso tempo, o político, em verdade a personalidade pública, que mais se aproximou da definição pura de carisma. E isto apesar da sua mestria em jogar com a máquina comunicacional. O dito carisma de Trump devemos procurá-lo noutras formas sociais. É equivalente ao de Salvini, ou de Marine Le Pen. São nulidades carismáticas no sentido mais estrito e weberiano do termo, mas que comandam o sentido de grandes números de pessoas. Creio que a resposta deve ser gramsciana.

É na ideia de hegemonia que vamos encontrar uma resposta parcial para esta interrogação. Gramsci entendia por hegemonia um regime que exerce o poder não apenas pela força mas também pelo consentimento, ou seja pela incorporação das agendas dos subordinados nos seus próprios intentos de dominação. É esta mestria em articular, ou mais propriamente, em abrir o discurso político aos temas que perfazem as preocupações dos subordinados que se tem traduzido no sucesso de pessoas tão pouco carismáticas como Trump ou Salvini. A forma como estes integraram, sem juízos de valor, ou seja, sem uma apreciação ética daquilo que é pensado e desejado, estas fórmulas nas suas agendas e discursos políticos, tem-lhes granjeado o sucesso que obtém por identificação imediata. Falar a língua do povo avançando os projectos da oligarquia torna-se assim a maior vitória dos mecanismos hegemónicos que sustentam estas personagens. Justiça lhes seja feita porque captaram (cinicamente no entanto) as questões culturalmente significativas para os seus constituintes e lhes deram a propagação necessária, tornando-as suas. No sentido mais preciso que Gramsci dá, não basta falsear a retórica de forma a acomodar alguns temas que são caros aos subordinados. É preciso que estes integrem a própria agenda do grupo hegemónico, modificando-o do interior. Trump deu uma expressão popular à viragem ultraconservadora dos republicanos actuais, simbolizada notoriamente pelo tea party.

Os processos hegemónicos são sempre ambivalentes: organizam-se através da distribuição (e do doseamento) entre coerção e consentimento. Aquilo que Maquiavel, aconselhando o príncipe, designava pelo governante centauro – metade homem, metade besta.

O estado centauro, como lhe chama Waquant, tem em Trump uma sua medida do absolutismo político contemporâneo. Trump, e os seus conselheiros, são de uma violência inaudita  para com grupos cuja subordinação não deve sequer ser disfarçada nem tão-pouco integrada ideologicamente: os imigrantes, os pequenos criminosos, os rogue contries, e outras categorias que complementam a lista de alvos a abater segundo os votantes republicanos. Trump partilha com Le Pen a capacidade de criticar o exercício da política enquanto exercendo o papel de homem político. O Estado, cujo representante máximo é ele próprio, surge como o inimigo a abater. O “pântano de Washington” ressoa nas consciências comuns porque as pessoas estão de facto convencidas que a política é um exercício nefasto. Quer Trump quer Salvini elaboraram os seus discursos, e elaboraram-se enquanto entes sobre os quais recai a opinião pública, enquanto estando fora da política. A argúcia dos processos hegemónicos actuais é convencer as pessoas que a política é um veneno, um campo minado por corruptos e oportunistas, enquanto os produtores deste discurso vão desmantelando o Estado negando que se encontram a fazer política. A defesa do bem comum, nesta linguagem, transforma-se na crítica impiedosa ao Estado, na pressuposição que só assim se salva um qualquer reino de liberdade simbolizado pela sociedade civil. O problema é que tal sociedade civil não existe. O que existem são oligarquias manipuladoras que criam a ilusão de que tal reino de liberdade é possível.