Saltar para o conteúdo

O feio mundo de Trump

Junho 26, 2018

Image result for kids in cages + trump

Para vermos como as questões das migrações são mal entendidas ou cinicamente distorcidas basta atentar no elenco de artigos que José Manuel Fernandes apresentava no observador há alguns dias, justamente sobre a temática das migrações. Desde as provocações ignorantes de Rui Ramos até ao espalhar de termos como “enchente”, “dificuldades de convivência”, “respostas naturais a mudanças culturais súbitas”, toda espécie de disparate é disseminado numa panóplia (algo enviesada) de artigos nacionais e estrangeiros. São bitaites atirados para o ar, sem qualquer sustentação empírica, desresponsabilizando os seus autores de serem sujeitados ao contraditório.

Mas a vaga não se encontra apenas na direita conservadora bem pensante. Ao ouvirmos a antena aberta de ontem (antena 1) percebemos que uma onda fascizante que tomou de assalto a Europa começa a fazer-se sentir no seu mais ocidental rectângulo. A xenofobia anti-imigrante do Zé Manel da Guarda encontra a sua irmã na retórica anti-imigração de Trump e dos seus acólitos. Os termos são de tal forma mimetizados que ficamos a pensar se o Zé Manel aprendeu de Trump, ou se foi este que aprendeu com os zé manéis do Iowa ou do Wisconsin. Facto é que uma reforça a outra, e vice-versa.

O núcleo actual da retórica anti-imigração encontra-se na diferenciação que se faz entre imigrantes desqualificados e qualificados. Para o Zé Manel da Guarda “essa gente que para aí vem” é toda desqualificada, o que à partida a desqualifica como merecedora de migrar.

Aqui a Europa fez um passe de mágica que é digno de nota. Durante anos os Estados Membros acusaram os refugiados de serem imigração económica encapotada. Com base nessa premissa recusavam-se entradas e preteriam-se estatutos. Os requerentes eram olhados com especial desconfiança e como potenciais abusadores da sagrada instituição do asilo. O que é que acontece actualmente? Toda a imigração económica é canalizada para o asilo! Em virtude das fronteiras estarem apenas abertas para os mais qualificados, o remanescente (que é também a maioria) fica automaticamente condicionado ao asilo. Ora esse remanescente é sem dúvida o menos qualificado, e simultaneamente o mais necessitado.

Todos sabemos que os países querem os mais qualificados. Isto apesar de a maioria dos empregos em oferta serem os menos qualificados. A troca aparente entre os nossos e os outros no que à empregabilidade diz respeito nem sequer é real. Os imigrantes ocupam em geral trabalhos mais desqualificados porque os autóctones não se sujeitam a ocupá-los pelos salários e condições que estão em oferta. O tristemente irónico nisto tudo é que por toda a Europa temos imigrantes altamente qualificados a fazerem trabalhos altamente desqualificados. Este entorse do mercado de trabalho não acontece por acaso. A oferta de trabalho desqualificado é bem mais rotativa e precária do que aquilo que oferecem os segmentos qualificados. O paradoxo é termos gente como Trump ou o Zé Manel da Guarda a berrarem que querem imigrantes qualificados quando depois o mercado oferece-lhes trabalho desqualificado e mal pago. Trump sabe isso muito bem. Ele, que governa uma empresa de construção global e bilionária, com entrepostos que vão do Uruguai à Índia passando pelo Japão, sabe perfeitamente que grande parte dos seus trabalhadores são mão de obra imigrante, mal paga e explorada. Milhares de mexicanos, nos Estados Unidos; de venezuelanos, colombianos, bolivianos, etc, na América Latina; milhares de muçulmanos na Índia. Certamente, o que a sua mega-empresa de construção menos emprega é trabalho imigrante qualificado. Ou seja, Trump é um mentiroso agitador de massas.

O Zé Manel lá terá as suas desculpas para justificar a ignorância reaccionária. Entre as quais, dizia este, afectando tanto de pânico como de desconforto, uma invasão muçulmana que por estes dias nos estaria a bater à porta. O velho tema dos bárbaros à porta. E perguntava-se com espantada incredulidade: – Mas porque é que são todos muçulmanos? E respondia tecendo conspirações e acusações aos poderes demoníacos que governam a UE – Porque os senhores do poder europeu querem quebrar os sentimentos nacionais à nascença, cerceá-los ainda antes destes se poderem exprimir e florescer em toda a sua pujança nacionalista. Seria mais simples pensar que há tanto muçulmano a imigrar porque as guerras e as crises têm ocorrido em países muçulmanos. Mas não, uma razão convulsionada e capciosa parece recolher mais dividendos para o espírito defensivo dos guardenses, pelo menos a julgar por aquele exemplo.

Porém, outros há para quem a desculpa da ignorância não tem cabimento. A elite intelectual de direita conservadora que acha que devemos “colocar as coisas em perspectiva” quando se trata de crianças encerradas em gaiolas em gigantescos centros de detenção. Para esses as desculpas são curtas. Para os Rui Ramos que encontraram pouso nas sinfonias cínicas da direita conservadora, o problema da imigração irregular justifica as gaiolas e não fosse a má-fé da esquerda bem pensante qualquer um veria que o problema se adensa e não tem solução à vista.

A imigração irregular é o simétrico da regulamentada. Só existe imigração irregular porque os canais regulares se encontram condicionados a um mínimo. Para todos os neoliberais acoitados na direita bem pensante, num mercado perfeito a mobilidade espacial dos indivíduos não teria mais restrições do que as forças da oferta e da procura. Por isso se um mexicano desejasse tentar a sua sorte no Iowa, num mercado perfeito poderia fazê-lo sem que nada se interpusesse entre a sua vontade e as suas oportunidades. Infelizmente (ou não) o que menos existe são mercados perfeitos. O que existe são estados e estes possuem, para citar uma bela expressão, o monopólio legítimo dos meios de mobilidade espacial. Trump e a sua política de gaiolas torna mentira um dos principais credos dos neoliberais que assentaram arraiais na administração. Nega as próprias interdependências geradas pela globalização neoliberal que tão bem acolhidas são quando se trata de fazer negócio. Ora a imigração irregular não é mais do que o desajustamento entre expectativas culturais e económicas dos indivíduos, vivendo numa densificação de redes globais, e os meios institucionalizados desigualmente distribuídos que permitem satisfazer essas expectativas. Num mercado perfeito seria um caso típico de mobilidade social coadjuvada por mobilidade espacial. Ou seja, os indivíduos deslocam-se porque procuram mercados onde as condições de institucionalização dos seus cursos de vida esteja garantida. Entre a fome e a guerra os indivíduos escolhem o bem-estar das sociedades ocidentais. A preocupação com a ideia de invasão que muitas destas cabeças propalam não tem o seu equivalente quando se trata de conquistar mercados. Aí a deslocação do capital e dos seus recursos não oferece a mínima contradição. Trump desloca a sua produção para a América Latina porque lá há trabalho barato e mercados ainda por explorar; mas insurge-se quando são os indivíduos que pretendem fazer o mesmo mas na direcção inversa.

A irregularidade tem que ser vista como um fenómeno endémico das sociedades globais. Quanto mais os estados negam a possibilidade de aceder a recursos que apenas a mobilidade espacial promete, mais o contingente de irregulares aumentará. Não é nem o falhanço de políticas nem uma patologia social. Patologia social é sim a medida nazi que a administração Trump implementou para estancar um fluxo que faz parte das razões pelas quais os Estados Unidos é a nação rica que é.

Anúncios
2 comentários leave one →
  1. Pedro Telles permalink
    Agosto 20, 2018 3:04 pm

    Que estupidez tão grande. O senhor tem a 4a classe? Ou nem chegou a acabar? Aprenda a escrever sem copiar palavras do dicionário. Vulgaridades atrás de vulgaridades. Vá acabar o ensino básico antes de se dedicar a escrever um blog. A internet trouxe isto, a possibilidade de iletrados poderem comunicar sob uma capa de conhecedor.

  2. Setembro 4, 2018 5:37 pm

    Chill out pedrinho. Quando saíres da tua capa de anonimato talvez me possas explicar o que há de tão estúpido no texto. E sim, ofuscares-me com o teus profundos conhecimentos sobre a matéria. Mientras tanto, fico extremamente curioso por saber o que acoitam os dois LLs do Telles.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: