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Porque a esquerda se tornou aborrecida.

Junho 19, 2018

Notícias ao Minuto

Devemos riscar das nossas memórias, percepção ou mais básicos estímulos cognitivos aquelas declarações de tipos de esquerda que vêm explicar ao populucho que se pode ser rico e de esquerda em simultâneo. Daniel Oliveira teve alguns desses momentos menos felizes nas suas crónicas. Recentemente, decidiu defender a quinta de Pablo Iglesias.

O problema de Iglesias – porque é um problema – resume-se nisto: não critiques no teu inimigo aquilo que desejas para ti. Em tempos ouve uma coisa que era propalada, sobretudo por Álvaro Cunhal, como a superioridade moral dos comunistas, algo que o autor explicitou num velho opúsculo. O que era esta superioridade? Uma das razões centrais para a sua existência era que ao contrário do burguês, cuja venalidade  infundia “a admiração pelo dinheiro e a sociedade de consumo”, a classe trabalhadora possuía uma moral proletária que respeitava as coisas pelos seus valores intrínsecos e não pela sua transmutação em valores monetários. Descontando o disparate, este era o cerne da questão. Senão o que poderia separar o burguês do proletário se o mesmo fascínio pelo dinheiro sobreviesse nos dois?

Diz Daniel Oliveira que a esquerda quer luxo para todos! Mas que se assim fosse deixava de ser luxo. Não meu amigo, não deixa de sê-lo! Assim como se todos vivêssemos abaixo do limiar da pobreza não deixávamos de ser pobres. Existe uma materialidade em ambas as condições que não é subjectivável.  A verdade é que o capitalista é o único que pode querer luxo para todos, sabendo no entanto que tal é impossível porque colide com a própria natureza do capital. Posto que querer luxo para todos é, à maneira de Veblen, querer ociosidade para todos. O luxo traduz-se em ócio, e essa é a importância que ele tem. O velho Sombart caracterizou como ninguém como o luxo gerou o capitalismo. E luxo e capitalismo são as duas faces da mercadoria. E nós sabemos como à “primeira vista a riqueza de uma sociedade sob o sistema capitalista se apresenta como uma imensa acumulação de mercadorias” (primeiras frases da Crítica da Economia política de Marx)

Segue-se que o luxo é próprio do capitalismo. Daí que, muito logicamente, a esquerda da “outra alternativa é possível” anticapitalista não poder ter como mote, o luxo para todos! Na realidade o único mote consequente, como bem sabiam os comunistas marxistas-leninistas, é luxos para ninguém!

Conclua-se que devemos sempre desconfiar do esquerdismo de quem se diz de esquerda e defende luxos para todos. A quadratura do círculo não se resolve com boa-vontade (cínica) ou assertividade ignorante. Por mim o Pablo Iglesias até pode querer luxos; não pode é querer ser anticapitalista.

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