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O bom imigrante

Junho 5, 2018

A história que correu mundo do maliano que trepou quatro andares para salvar uma criança que estava pendurada num corrimão de uma varanda parisiense. As imagens impressionam pela destreza, força, coragem, e mais adjectivos que se pudessem encontrar. A façanha fez parte de blocos noticiários da CNN e FOX, de slots nos programas dos magos da stand up, como Trevor Noah, e em geral ocupou o seu quinhão nos telejornais de todo o mundo. Perante tal acto, o presidente francês concedeu a nacionalidade francesa ao herói do Mali e ainda lhe arranjou um emprego nos bombeiros. É uma história de bravura e recompensa à maneira das velhas epopeias.

E no entanto a cena deixa um amargo de boca, uma estranha sensação de desconforto, um travo a falso. Que não me tomem por xenófobo, ou aderente daquela coisa nova que se chama racismo anti-africano! Todavia  não consigo afastar a sensação de que a coisa peca por dois aspectos.

Primeiro, há algo de fictício no movimento do maliano – como se tivesse sido preparado em antecipação. É um movimento estudado, que não para sequer para pensar, que age num automatismo de quem conhece a estrutura, de quem sabe exactamente por onde guindar-se e como fazê-lo. Fictício ainda a forma apatetada como o francês que se encontra na janela ao lado segura e não segura na criança; como estando a tocar-lhe não a puxa simplesmente deixando-se estar “idioticamente” do outro lado da divisória sem esboçar uma tentativa que seja para retirar a criança daquela situação. Que diabos, é um criança, deve pesar quanto muito 30 kl e a inacção do vizinho que se encontra presente durante toda a situação é demasiado patética para que seja verdade. O contraste com a facilidade com que o maliano puxa a criança para dentro da varanda com uma mão tirando-a da sua situação de perigo iminente ainda sublinha mais o patético da inacção do vizinho (Trevor Noah brinca com tudo isto, mostrando o ridículo, mas parte de um premissa diferente).

Depois, por estranho que pareça não houve, como é mester nestes casos, intermináveis depoimentos dos vizinhos, entrevistas à criança salva – o que sentiste?, como vês o teu salvador?, o que disseram os teus pais?, etc. Toda a voragem comunicacional a que estamos habituados e que quando ausente causa a ligeira sensação de que algo está errado. Se quando Bruno de Carvalho dá um arroto dedicam-se dias a falar do caso, como é que um evento com este impacto mereceu tão acanhada cobertura jornalística? Sim, é certo que o Gassama foi entrevistado, assim como a imagem do encontro com Macron passou vezes sem conta. Mas um silêncio irredutível  abateu-se sobre todos os restantes participantes na aventura.

Segundo, por este conjunto de razões e mais algumas, o acto de bravura de Gassama soa a publicity stunt. As implicações são variadas, e espraiam-se desde o domínio da (ir)realidade da informação até à moral da abertura cívica e política da nação francesa. Se a mensagem for a de que um imigrante herói tem salvo-conduto para a nacionalidade francesa, então nada menos do que um acto de uma heroicidade extrema será necessário para a ela aceder. Donde se conclui que ser imigrante, a trabalhar regularmente num dos empregos de lixo que nenhum dos franceses quer, não chega para alcançar tão almejada prebenda. Doravante a fasquia será elevada a alturas inatingíveis. Tudo o que for menos do que aquilo não serve para nada e não terá lugar na sociedade francesa. E este servirá sempre por contraste com todos os outros cujo comportamento é sancionado negativamente. Há, contudo, um outro lado, o lado benéfico, sem o qual um publicity stunt não teria qualquer efeito. Sob este prisma, a imagem do maliano pode ser metonimicamente utilizada para assinalar a importância e a presteza dos imigrantes na sociedade francesa. Através de um acto absolutamente fora do comum, esta imagem tem, potencialmente, a faculdade de contrariar os discursos de ódio que apelam para uma “frança para os franceses” e que veem permanentemente o imigrante como um intruso parasitário. Neste sentido, os sinais enviados pelo acontecimento possuem um lastro benigno que não deve ser menosprezado. E é preciso que se entenda esse lastro não apenas limitando-o à França, mas imaginando o seu impacto no resto da Europa. Numa altura em que os partidos nacionalistas disseminam a sua mensagem xenófoba por cada vez mais países, as imagens do maliano a salvar uma criança francesa tem um peso simbólico que não será com certeza despiciendo. E se pensarmos que Macron quer que seja a França a liderar os destinos da Europa, que venha dessa mesma França um repto pela integração do bom imigrante, não seria totalmente de espantar. Hélas, a palavra que aqui devemos fixar é “bom”. E neste sentido existe uma continuidade (quiçá perigosa) entre alguns aspectos da retórica xenófoba e a elegia ao bom imigrante. Desde logo, porque há uma exigência de valor individual que dispensamos fazer quando se trata do cidadão nacional. O bom imigrante tem que ser completamente bom, e não pode haver sinais recalcitrantes nessa qualidade. Assim, por um maliano apelidado de homem aranha que recebe a nacionalidade das mãos do próprio presidente da França, há milhares que trabalham em condições de miséria e para quem a nacionalidade é uma miragem. A dupla natureza do imigrante é aqui perfeitamente sublinhada. Imigrante invisível enquanto força de trabalho, numa relação precária e mesmo de desconhecimento com o Estado que temporariamente o recebe; imigrante homem aranha, herói revelado num momento televisivo, singularizado pelos seus actos e a quem o Estado reconhece essa singularidade. Ora é no reconhecimento dessa singularidade, no excepcionalismo invocado como justificação para a prerrogativa cívica da cidadania,  que o imigrante homem aranha reclama o seu espaço na sociedade onde actualmente existe. Para todos os outros, os brancos, os franceses, reclamar o espaço na sociedade não é coisa que os atormente. Reclama-se, sim, e não o nego, espaços múltiplos em situações tão diversas quanto imprevisíveis (escola, emprego, família, exército, clube desportivo, etc). Ninguém nasce perfeita e acabadamente integrado e ninguém sustenta esse facto em absoluto pela vida fora. Mas reclamar o espaço numa sociedade é um patamar diferente. É o patamar em que não chega ser quem somos para sermos reconhecidos – é necessário um “mais”, um surplus de evidência que justifique a sua existência naquele lugar. Para que se perceba onde quero chegar, seja-me permitido citar com alguma extensão do livro de Nikesh Shukla “The good immigrant”

(…) the biggest burden facing people of colour in this country [England] is that society deems us bad immigrants – job-stealers, benefit-scroungers, girlfriend-thieves, refugees – until we cross over in their consciousness, through popular culture, winning races, baking good cakes, being conscientious doctors, to become good immigrants.

And we are so tired of that burden.

E é isto.

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