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L’enfer

Junho 1, 2018

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Peguemos na trágica máxima que forneceu a fama a um enfadonho livro de Sartre: O inferno são os outros. E são. Os outros são quem nos agride e macula. Os outros esmagam-nos e infiltram-se no nosso sangue inoculando-o de doenças. Os outros destroem-nos com a pulsão da sua presença.

Porém, outros há que são o céu. Que não são nem a canção perversa do narciso, nem a maldição que próspero lançou a Caliban. São o mundo que nos espera num devaneio crepuscular; as ideias que temos por nossas e que se vêem acarinhadas por mãos alheias; a fonte de uma esperança augusta que destapa com o seu jacto uma abóbada de estrelas. São-nos esses infinitamente mais próximos? Nem por isso. O que macula está sempre mais presente. É o mais inesperado. Há um certo egoísmo nessa condição, é certo. Ou seja, darmos por adquiridos aqueles que nos confortam. Quem nos magoa surge geralmente como a fractura numa expectativa. Mesmo que essa expectativa seja afinal aquilo que se viria a revelar ser. O bom faz parte do tempo. O mau interrompe-o. Assim dizem os amantes não darem pelo tempo passar. E assim murmuram aos enlutados que dêem tempo à sua dor. Aos desiludidos, aos frustrados, o tempo surge como recorrente: memórias que volteiam sobre  um eixo único como os enxames sobre a sua colmeia. De todo o modo, nem todo o inferno são os outros. Ou uma parte do inferno é por vezes povoada por pessoas revoltadas com o facto de serem o inferno dos outros. Essa revolta é, paradoxalmente,  o que nos torna mais compreensivos, empáticos, humanos.

A maldade é desumanizadora. Olhamos o sofrimento dos outros com um misto de fascínio e distância. É por isso que as imagens que nos servem diariamente nos telejornais não nos provocam colapsos éticos irredutíveis.

Por vezes basta um acerto num gesto para que o desfecho seja incomparavelmente mais tranquilo. Por vezes, somente é necessária a pequena abdicação da vontade de infligir dor e sofrimento para que se construa uma harmonia extensível aos envolvidos. Isto é frequentemente mais fácil do que cominar sofrimento ou humilhação. Todavia, temos preferido, e os exemplos abundam ao longo da história, o contrário. Desde as micro vilanias do quotidiano entre conhecidos ou relacionados até às gigantescas atrocidades, preferimos esmagar o outro a recebê-lo na sua ínfima condição de necessidade.

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