Eu thanatos

Related imageDelacroix La Mort de Sardanapale

A discussão da eutanásia rescende a fétidos pergaminhos sobre a indispensabilidade da vida humana que são com frequência quotidiana tripudeados. Tenho até dificuldade em colocar a questão como do foro da religião; ou seja, a defesa da vida como premissa básica do ser religioso. E isto porque “o não matarás” está tão cheio de excepções dentro da própria doutrina religiosa (fiquemos só pela católica) que custa a crer que pode ou deve ser levado a sério.

Quando deus pediu a abrãao que assassinasse o seu único filho colocava-lhe o dilema da fidelidade absoluta versus a compaixão absoluta. O simples facto de colocar o dilema mostra como para as religiões do livro o respeito pela vida humana possui uma validade relativa. Contra os ataques dos conservadores católicos àquilo a que chamam “matar”, com a veleidade moral de serem defensores de uma vida pura e abstracta, basta dizer que a sua doutrina começa com a possibilidade do pior dos homicídios: o filicídio. E se tanto era necessário para provar a fé num deus único, é porque a indispensabilidade do respeito pela vida humana não funda de facto essa crença.

Do outro lado, há toda uma direita liberal e neoliberal, defensora acérrima da liberdade para quase tudo… menos, pasme-se, para a morte. É certo, o suicídio também não é positivamente sancionado. Um dos mistérios apenas explicado pela ideia, algo patética, algo arcaica, de que uma vida humana é insubstituível.  No tempo dos romanos, o suicídio, podia em certas circunstâncias ser considerado um acto de carácter. Foi quando o Estado se apoderou do homem, da pessoa humana, que o suicídio passou a ser visto como deslegitimação da própria ordem imposta pelo Estado. Suicídio igual a corrupção da ordem. A translação da ideia segundo a qual apenas deus pode dispensar a vida ou a morte, para apenas o Estado o poder autorizar, possui a sua continuidade. O suicídio nunca é um acto isolado, isto apesar de na sua prática ser o mais isolado dos actos. O suicídio faz estremecer os alicerces da comunidade. É a comunidade, com as suas linguagens e forças centrípetas e egoístas que se ressente quando um dos seus membros a abandona sem uma razão imediatamente evidente. O suicídio é a eminente traição ao socius.

Confesso que a preocupação com a morte de quem a deseja deixa-me (e sempre deixou) perplexo. Não seria esse o supremo exercício da liberdade? Há liberais na nossa esfera pública tremendamente preocupados com a eutanásia, mas pouco ou nada incomodados com a morte pela fome ou pelo frio. Países como o Brasil e a Argentina onde há gente a morrer literalmente na rua, possuem vários e prolixos pruridos em relação à eutanásia. Em Portugal há fome, há gente a viver na rua, há miséria e desabrigo… mas é a eutanásia que consiste num atentado contra a vida humana. Mesmo que aceitemos que é dar a terceiros o supremo poder sobre a nossa vida, com o nosso consentimento, isto soa-me estranhamente a uma descrição bastante acurada da vida. Diria mesmo que entre o nascimento e a morte mais não fazemos do que dar ou impor essa possibilidade a outros. Nas suas formas mais extremas chamamos-lhe horror e a este arrolamos Buchenwald ou os tribunais inquisitoriais. Mas existem múltiplas formas de desrespeito da vida humana. Tantas que não teríamos como explicar a exorbitância de psicotrópicos que actualmente tomamos.

Uma forma voluntária, consciente, lúcida como a eutanásia parece bastante salutar quando comparada com estas outras múltiplas formas de mortes. Sim, há inúmeras complicações jurídicas. Como se a esfera do jurídico não tivesse lidado com complexidades mais entranhadas e como se esta por sua vez não emaranhasse tantas vezes o que é simples e directo. A justificação dos problemas jurídicos levantados pela eutanásia é preguiçosa e hipócrita.

A frase lapidar da deputada do CDS Isabel Galriça Neto segundo a qual “não há vidas que valem a pena serem vividas e outras não”, mostra como quem se sente perto de deus facilmente se julga o próprio. Quem decretou que haja vidas que valham a pena e outras que não para além do julgamento do próprio que as vive? Quem é Galriça Neto para impor o seu julgamento sobre a vida a terceiros que podem não partilhar da mesma visão? Este raciocínio reincide numa espécie de naturalização da vida. Como se a vida fosse apenas natureza e o ser subjectivo que a exerce não tivesse palavra no grande tribunal da imanência.

Porque a vida não é apenas natureza, sabemos que ela só pode ser a vida de alguém. E que esse alguém conta a sua vida de uma forma que lhe faça sentido. E que esse sentido constitui e alimenta essa própria vida não natureza mas agora significado (bios). O que acontece quando essa história que contamos a nós próprios deixa de fazer sentido? O que acontece quando o sofrimento é de tal ordem que por mais que contemos essa mesma história ela não se justifica – nem para si nem a si própria? Que elo indissociável poderá haver nestas condições entre a vida-projecto e a vida nua? Lembrar este útil conceito de Agamben – o homem como vida nua: zôê vs bios. E porque não o homem como soberano da sua própria existência? Esta foi uma formulação jurídica do princípio do século passado que assistiu o pensamento sobre a eutanásia. Se o homem se provar soberano da sua própria existência pode sobre ela exercer o que bem-entender. À admoestação da deputada do cds-pp devemos opor que há de facto vidas não merecedoras de serem vividas. E que quando livres para sobre isso nos pronunciarmos, devemos ser soberanos dos nossos corpos e capacitados para determinar a nossa existência, mesmo que isso signifique negá-la.

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O crepúsculo dos vermes

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Uma das coisas que eu acho mais engraçadas nesta escandaleira que assola o sporting e os sportinguistas é o desaparecimento em parte incerta daquele homúnculo asqueroso que responde pelo nome de Nuno Saraiva. Por onde andará o assessor de imprensa do sporting? Pois com certeza em parte incerta, posto que de homem tão palavroso é de estranhar um tão sepulcral silêncio.

Disse várias vezes que BdC era um mafioso. E que a pandilha que o acompanha, mafiosa é. E nela incluo o execrável Nuno Saraiva, que deveria bater com os cornos na prisão, e o não menos  repugnante Jorge Jesus, que embora não lhe deseje o cárcere, estará com certeza envolvido em porcaria.

A outra coisa que eu acho engraçada é todo este cortejo de virgens ofendidas sportinguistas que ainda nem há dois meses plebiscitaram os estatutos protofascistas do bruninho com um recorde de quase 90%, legitimando sua eminência, a larva que ocupa a presidência do clube de Alvalade.

Há uma profunda justiça poética nisto tudo. Durante os últimos anos BdC incendiou as redes sociais; Nuno Saraiva lançou suspeições a torto e a direito; Octávio, a agora virginal figura, disse cobras e lagartos do Benfica; e outras figuras que passam pela televisão em horário nobre, tiveram o condão de espalhar o ódio, o clubismo acéfalo, e a pusilanimidade declarada. Neste processo encantatório não viam o que tinham em mãos. Estavam cegos para o que era a liderança do sporting. Embora todos os sinais lá estivessem, aplaudiam as picardias do seu presidente, os dislates, a má-educação, e como a turbamulta no circo romano, pediam mais. Agora tiveram mais. Mas, ó trágico desenlace, foi dentro do seu próprio corpo de fanáticos asininos.

Está bem assim. Jesus é uma cavalgadura soberba. Bruno, é um novo-rico malfeito. A claque é uma guarda preturiana de nazis. E nisso não distam muito dos restantes sócios. Porque há uma certa irracionalidade no comportamento destes últimos que é comparável à irracionalidade dos movimentos de massa que os fascistas manipulavam. Há algo de carneirismo bélico no que sustentou bruno e a sua trupe até agora. Um ditador que se preze tem que ter uma milícia. E ela aí está – surgiu em formação de ataque na própria academia que viu Ronaldo nascer. Mas insisto: Bruno não é um louco desvairado, inimputável e hospitalizável. Bruno está enterrado até ao pescoço em malfeitorias e burlas. Um dia essa história será escrita. A história como o então presidente do sporting esbulhou o clube com a conivência activa de Jorge Jesus. Um dia se houver jornalismo sério, essa história virá a lume. Porque o comportamento de Bruno não é o do adepto fanático. É o do burlão frustrado. Bruno deve ter prometido muita coisa a muita gente. Coisas que envolvem milhões certamente. Gente que espera ser ressarcida evidentemente. Porém, o sporting de bruno pariu um rato – mais propriamente várias ratazanas. Entre elas conta-se o assessor do sporting que, como comecei por dizer, nos obriga a perguntar onde se esconde o wally?

O sporting tem gente tão recomendável que o candidato que se perfila é Ricciardi, o banqueiro enterrado até ao pescoço em roubos e más práticas financeiras. É só gente boa! Entrementes, todo este frenesim, esta disforia insultuosa dos sócios e figurões do sporting apagar-se-á assim como o pó levado pelo vento. Prevejo que se o sporting ganhar a taça – algo que estava combinado de antemão com o Porto – Bruno e Jesus voltem a ser heróis e os que agora os acusam iniciem uma vez mais o cortejo de encómios às duas deprimentes personagens. Isto porque os sócios do sporting têm aquilo que merecem. Aceitaram sem rebuço a megalomania de Bruno; aliás, alimentaram-na, dela participaram como cães raivosos espumando pelos caninos. Como pequenos nazis marcharam atrás da blitzkrieg convocada pelo grande líder. E agora que se encontram no inverno moscovita, que as ilusões começam a cair uma a uma, que a retirada para o tradicional terceiro lugar é o que lhes resta, sacrificam o homem, que sempre foi odioso, que nunca deixou de ser aquilo que é, e que só por milagre seria a aparição que tantos juravam ter avistado a descer sobre uma oliveira.

No meio de tudo isto, com casos policiais a baterem à porta de benfica e sporting, só resta um meliante, o maior deles todos, que fica a assobiar para o lado como se nada fosse: Pinto da Costa. Quão selectiva é a justiça que nunca toca em Pinto da Costa e no FCP – o mais corrupto dos clubes. Bruno, um gaiato ao pé da velha raposa, caiu na esparrela. Aliou-se com o chefe máximo da máfia almejando ter uma cosa nostra só sua. Lixou-se. Porque Pinto só precisava do sporting para destruir o benfica. Acabada a função pela qual os aliados se uniram, Pinto descarta Bruno como se tratasse de uma incómoda pastilha elástica colada na sola do seu sapato.

Processos sumários

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Correctíssimo tudo o que diz Daniel Oliveira hoje no Expresso. Temo, contudo, que pregue para os convertidos. Estes processos de judicialização da política são rápidos, muito rápidos, e têm-se revelado profundamente eficazes. Julgo que é a única arma que resta à direita quando a esquerda a vence no campo da economia. Com dimensões diferentes, foi assim no Brasil, e continua a ser assim na Argentina. Casos emblemáticos que estão longe de esgotar a panóplia de contextos nacionais onde tal estratégia se reveste de eficácia. Para que tal aconteça duas coisas se combinam invariavelmente: uma justiça parcial e uma comunicação social que a traduz para a esfera pública de maneira uniforme e reiterada. Aconteceu no Brasil; e contínua ceifando vidas políticas na Argentina. Sendo certo que os contextos não são comparáveis, as estratégias são-no. Em Portugal assistimos desde há anos a uma prática do ministério público cujo critério não se entende e que parece pender mais para as direcções de ventos políticos do que para a aplicação da justiça. De tal ordem que quando Daniel Oliveira pede aquilo que é óbvio relativamente a certos casos, todos nós sabemos que esses casos não vão nunca ser investigados até às últimas consequências, porque nem sequer era suposto serem-no logo de início.

A comunicação social rende-se à esquerda quando vê que há uma toada da opinião pública que sustenta esta. Quando os ventos começam a mudar, e se há alguma razão no horizonte para que a esquerda seja abatida, então a comunicação social explora o facto até às últimas consequências. A Lava Jato e a maneira como se imprimiu na opinião pública brasileira que aquilo era um problema apenas do PT, quando dezenas de políticos das outras formações partidárias se encontravam envolvidos, é um exemplo acabado de como estas estratégias comunicacionais são bem elaboradas. O mesmo para a Argentina. Como é que um governo (do partido Cambiemos) cuja composição é totalmente de empresários, com vários envolvidos no escândalo Panamá Papers, com o presidente Macri à cabeça, e outros tantos com fortunas não declaradas em offshores, pode ter convencido a opinião pública que o governo kirchner era um bando de corruptos e malfeitores? A verdade é que pôde. Mesmo que o ministro da economia que agora se encontra a negociar os termos do programa de ajustamento com o FMI, tivesse sido acusado há poucas semanas atrás de fuga de capitais para offshores.

Os métodos são também assustadoramente idênticos. Tivemos em Portugal a baixeza da divulgação dos interrogatórios a José Sócrates que o jornalismo de qualidade logo aproveitou para expor na praça pública. Mas claro que só foi possível com a conivência do ministério público. Na Argentina as fotografias do registo prisional de Dovidio, um dos ex-ministros mais influentes no governo kirchner, foram exibidas vezes sem conta nas televisões nacionais. Ver Dovídio de fato prisional, com olhar vazio, e completamente derrotado, deve ter constituído um prato forte para muita gente na comunicação social controlada pelo governo Cambiemos. Não espanta por isso que haja muita barata de direita a sair dos seus buracos para se banquetear com o festim da corrupção do partido socialista. Uma energúmena como Manuela Moura Guedes, por exemplo. Mas outros se sucederão. O que importa é que o filão que a direita precisava para alijar a maioria de esquerda parece ter chegado. E não vale a pena dizer, como faz Daniel Oliveira, olhem também para os vossos, porque há muitos e bons (maus) exemplos entre as vossas hostes. Não. Uma vez começada a voragem pelos media não tem mais parança. Novamente o exemplo argentino. Que tremenda coincidência que na semana em que o país inicia as negociações para o programa de ajustamento com o FMI, os juízes finalmente formalizam a acusação a Cristina Kirshner por corrupção! É fantástico como o tempo da justiça se ajusta ao tempo da política.

Creio que em Portugal algo parecido se vai passar. O tempo da justiça tem vindo paulatinamente a reelaborar-se consoante a agenda de ataque político da oposição de direita. Uma vez mais, nada disto é possível sem a colaboração da comunicação social. É ela que escolhe os casos aos quais dar destaque e aqueles que apenas interessa assinalar de passagem. Por exemplo, a corrupção de Miguel Macedo, quase que passa desapercebida na espuma dos dias. Mas construir uma imagem de um partido político completamente minado pela corrupção vai ser o trabalho que a comunicação social vai ter que levar a cabo nos próximos tempos. Que estes processos dificilmente se virem contra a direita, é demonstrativo do quanto a comunicação social, e os seus agentes principais – os jornalistas – são cooptados por essa mesma direita. Apenas os Estados Unidos onde a comunicação social é de facto bipartidarizada oferece um campo de oposição simétrico. Está longe de ser o caso português; à imagem de países como o Brasil e a Argentina, onde a comunicação se encontra nas mãos da elite empresarial e política.

Todavia, em Portugal, falta ainda surgir um justiceiro. Um juiz Moro à Portuguesa. É verdade que o juiz Carlos Alexandre quis assumir esse papel. E durante um tempo perfilou-se como o actor indicado para uma tal urdidura. Juiz psd retinto, vindo das vascas das terras de Mação, território psd por excelência desde tempos imemoriais. As coisas entretanto complicaram-se porque o carisma de Carlos Alexandre deixava muito a desejar; tão-pouco era telegénico como um Moro, e menos ainda impressionava com a sua conduta de monge capuchinho.  Por isso, está para surgir a figura providencial. Quando ela for eleita, a tenaz perfeita pode conduzir o seu trabalho de esmagamento de forma imperturbável.

Mais doce que cicuta

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Não há nada pior do que uma gaja ressabiada, seja por desilusão amorosa, por ter sofrido uma infidelidade ou por ter sido trocada. Nestas coisas das relações entre homens e mulheres, continuo a achar que, apesar da tentação uniformizadora das feministas, as separações possuem sentidos e percepções distintas para os dois sexos. Uma mulher que se sinta ludibriada pelo final de uma relação, lança todos os demónios que acumulou em múltiplos desabafos e aquilo que era do foro da intimidade fica de repente exposto ao julgamento público. Nada é poupado ao escrutínio exterior, seja pela partilha de informação delicada com amigas, amigos, familiares ou colegas de trabalho.

Este intróito, que uns dirão um tanto-ou-quanto misógino, vem a propósito do artigo de opinião de Fernanda Câncio sobre Sócrates, que foi seu companheiro, namorado crê-se, e com quem partilhou lar e comensalidade. É um artigo duríssimo. E muito embora o personagem José Sócrates não me inspire qualquer simpatia, julgo que o artigo de Câncio o singulariza de forma injustificada. Não é tanto de forma injusta, porque, como dito anteriormente, a justiça do acto nas mãos de uma mulher ressabiada ganha contornos demasiado vincados. Mas antes de maneira injustificada, no sentido em que sobre ele faz cair o opróbrio mais terrível perante algo que creio é um modus vivendi de muito boa gente.

Numa sondagem recente, aproximadamente 55% dos gestores e ceos das empresas portuguesas assumiam conhecer casos de corrupção. Ora se mais de metade os assumia, ou estamos perante um caso em que seriam todos os outros e não estes os corruptos, ou, o óbvio, muitos destes seriam corruptos. A corrupção, o favorecimento, a mentira, são constantes do mundo empresarial. Por que razão há uma complacência tão gigante com a corrupção na iniciativa privada e um escrutínio tão severo da coisa pública é tema para ruminação.

José Sócrates era obviamente um aldrabão. Mas que diabo – não era um serial killer! Por isso afirmações como as de Câncio sobre a incapacidade de distinguir o bem do mal, um ser desprovido de sentimentos morais, etc, primam pelo exagero quando não pela mera retórica do ressaibo. E esta intensidade insultuosa e indignada é tanto mais estranha quanto Câncio conviveu com o homem que aldrabou na sua licenciatura. Ora uma tal ocultação não a deixou logo de sobreaviso de que o homem seria um artífice da mentira? Pelos vistos não. Podemos assim aventar que a dureza de Câncio cumpre dois objectivos estratégicos. Dissociar-se da figura José Sócrates o mais que possa. Quanto mais dura for a crítica, quanto mais visceral, mais o “engano” em que Câncio caiu é visto como legitimamente ingénuo. Segundo, quanto mais o julgamento moral for violento e intransigente, mais a nossa própria pureza ressalta. Os métodos e retóricas da inquisição pretendiam precisamente isso: mostrar que o lado que julgava era absolutamente impoluto e por isso fora da alçada da possibilidade de ser julgado. Não digo que a Câncio seja o inquisidor mor sujeitando Sócrates ao castigo final. Digo apenas que o seu texto é o culminar de uma reacção de escândalo desproporcionada e hipócrita, cheia de aproveitamento político e com objectivos muito concretos. O texto de Câncio, em boa verdade, está redigido num tom pessoal, e portanto integra a terceira camada que cabe justamente à gaja ressabiada. Porém, a forma como em torno de Sócrates e de Pinho se tem construído uma retórica de “PS igual a partido de corruptos e reino da imoralidade” anuncia algo de tão perigoso quanto característico. Foram processos idênticos que levaram à prisão de Lula e à criminalização pela opinião pública do PT. Da mesma forma destruíram o kirchnerismo e o que restava dele na pessoa de Cristina Kirchner, na Argentina.

Sócrates pode ser um corrupto. Mas a própria acusação de Câncio é contraditória. Porque razão haveria uma implicação nefasta no acto de Sócrates rejeitar o dinheiro de comentador político da RTP apenas porque recebia um montante secreto de um amigo empresário? Não diz a bota com a perdigota. Porque afinal poderia ter acumulado os dois proventos. Até porque tantos e tão bons (ou maus) comentadores políticos que passam pela televisão e que se forram com o dinheiro dos partidos, das instituições públicas para as quais trabalham – Parlamento, câmaras, ministérios, universidades, etc – e ainda vão buscar a sua parte de leão a escritórios de advogados e consultoras. É um estado natural de promiscuidade entre res publica e interesses privados. Quando um dos casos é singularizado, há sempre razão para nos perguntarmos porque diabo aquele e não todos os outros?

O artigo de Câncio é profundamente pessoal. Tão pessoal que remata usando um “nossa” que soa a desabafo na primeira pessoa do singular [(…) a tragédia dele, que fez nossa, (…)] e não ao pronome possessivo na primeira pessoa do plural. A singularidade do caso Sócrates fica assim sublinhada pela singular reacção de Fernanda Câncio. O único problema é quando uma tal singularidade começa a ser usada para caracterizar todo um partido.

Meaningful relationships

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Dir-se-ia que depois do escândalo da Cambridge analytica, da cedência de dados de milhões de pessoas, o facebook de Zuckerberg sofreria um abalo demasiado grande para que voltasse a ser o que é. Equívoco tremendo, visto que não apenas a empresa facebook ganhou 13 biliões de dólares em bolsa logo a seguir ao escândalo, como Zuckerberg anuncia que vai incorporar no conceito uma plataforma de encontros amorosos.

A primeira interrogação que qualquer pessoa atilada colocaria é: haverá veículo mais sensível em termos de partilha de informação do que um site de encontros para que este esteja sob o controlo de uma empresa que cede os dados dos seus clientes? Pareceria então lógico que a última aposta do facebook após o escândalo que levou à convocação de Zuckerberg pelo congresso norte-americano fosse enveredar por sites de encontros amorosos. Em abono da verdade, o facebook já é utilizado como um site de encontro, de sedução e de engate. A transformação será pois de pouca monta. Mas é preocupante que a vida tenha voltado à sua normalidade corriqueira depois de sabermos que as nossas biografias, tiques, gostos e inclinações estavam a ser utilizadas para influenciar comportamentos eleitorais ou posicionamentos políticos. Nada disto parece ter afectado grandemente os biliões de aficionados do facebook. E agora aí está: Zuckerberg sobe a parada. Quer também a nossa vida sexual. É facto que ela já vinha sendo documentada, por vezes de formas mais directas outras indirectas, pela histeria narcísica facebookica. Porém, elevado a app de encontros, os registos de relações, tentativas de sedução, trocas de piropos, propostas escandalosas, ficarão guardados eternamente no cofre forte de informação da facebook. Dir-se-á – mas isso também o tinder e outros tantos sites de encontros. Certo. Contudo, apenas do facebook temos a certeza que os nossos dados foram partilhados com intenções obscuras. E têmo-la na sua factualidade de acontecimento.

Imaginem o poder de uma Cambridge analytica (agora em insolvência) que dispusesse dos dados de encontros de milhares de políticos ou personalidades públicas. O que não poderia fazer em matéria de chantagem, de exposição ou de revelação para os media? No entanto, a notícia foi recebida com grande entusiasmo, de tal forma que as acções do tinder – o site que liderava o jogo – caíram a pique e tudo indica que em pouco tempo será uma app anacrónica.

Quando o facebook acumular a nossa vida quotidiana, as nossas ligações sociais e a nossa vida sexual, será a máquina panóptica perfeita. Houve em tempos uma teoria que defendia que a informação recolhida era de tal forma complexa e que as redes tinham de tal forma configurações próprias que não era possível trabalhá-la. O caso Cambridge analytica desmentiu à saciedade um tal optimismo. Não apenas é possível acumular essa informação como usá-la de forma direccionada e intencional.

O movimento de recusa do facebook teve o tempo de um fogacho. Assim como veio ao mundo logo se apagou. Houve uns símbolos circulando na net que representavam a famosa mão do like invertida. Foi pouco e muito localizado. O facto é que numa sociedade da exposição, mais exposição não é um elemento dissuasor, nem sequer nos coíbe de nos entregarmos alegremente nos braços de um morfeu desmedido que tudo sabe e tudo pergunta. Isto porque não equacionamos exposição com controlo. Esta é para todos os efeitos a face real da exposição: o seu tremendo poder de controlo. Curioso então constatar que numa época em que somente a ideia de sermos controlados pelo Estado faz arrepiar muita consciência, não tenhamos a mesma aversão ao controlo pela multiplicidade de aparatos de exposição. A circulação da exposição é aparentemente equacionada com liberdade: comunicacional, emocional, expressiva. E essa é a grande ilusão criada pela hegemonia da exposição. É claro que aquilo que ela aparentemente nos oferece, é também aquilo que nos exige. Sem a nossa contribuição activa nenhum destes aparatos funcionaria. E o que é que ela nos exige? Tempo – exige-nos tempo. De dedicação, de utilização e sobretudo de ligação. O tempo de construir ligações é absolutamente essencial para o funcionamento da máquina “exposicional”. O que ela nos exige é que lhe dediquemos tempo até ao paroxismo. Por isso a sua multiplicação virtualmente infinita de contactos e comunicações tem a sua contrapartida em tempo. A aceleração do tempo que a máquina “exposicional” permite resulta paradoxalmente numa sua contracção total. Tempo panóptico que limita tudo e todos sob aparência de expansão infinita. Claro que tem ressonâncias com essa ideia fantástica, cunhada por Sloterdjick, que é a de cinética infinita. E repare-se como, segundo uma notícia do expresso, os trabalhadores do facebook têm o seu tempo controlado ao segundo, justificando cada paragem que fazem e cada soluço que dão. No mundo da máquina exposicional não pode haver distracções. Por isso não há tempos “mortos”. A exposição não admite cadáveres. E se chegam a existir, prontamente são desfeitos em ácido pela diligente operação de likes e contra-likes que os utilizadores do tempo panóptico dedicam à máquina. É claro que Zuckerberg quer uma coisa bela, e não um site de one night stands que não esteja à altura dos altos desígnios morais do facebook. Zuckerberg não quer apenas controlar as nossas vidas sexuais, quer que nos envolvamos em “meaningful relationships”. Foi o que disse na sua apresentação, previsivelmente para se distanciar do tinder. Não necessitou da publicidade negativa, porque o facebook promete uma revelação instantânea das nossas biografias. Por isso os utilizadores da máquina “exposicional” não vão perder tempo a apaixonar-se convivendo com… – vão apaixonar-se pelos perfis dos utilizadores do facebook na imediatez do tempo panóptico. No tempo panóptico, a absorção é de tal forma urgente que não há segundos a perder em aprendizagem emocional ou afectiva. O que queremos deve estar imediatamente exposto para que possamos escolher um produto acabado. Assim como os trabalhadores do facebook têm que justificar a pausa para ir à casa de banho porque cada segundo que se trabalha para a máquina exposicional é imperdível, também as nossas meaningful relations filtradas pela massiva informação facebookica querem-se o mais parcimoniosas possível. Leia-se o perfil de fio a pavio, registe-se os seus gostos mais eloquentes, veja-se e reveja-se a miríade de fotos publicadas, et voilá!, o princípe encantado surge decantado mesmo antes de qualquer proximidade física. Não se perde tempo, encurta-se a margem de erro, e até se pode justificar a escolha por um enfático like em todos os traços do pretendido. A semelhança entre isto e o trabalho, o acto de trabalhar, é aterradora.

Macron

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Quando Macron ganhou as eleições francesas, escrevi que este iria puxar o centro mais para a direita. Escrevi que uma Europa diferente se prenunciava no horizonte, com Schultz na Alemanha e Macron em França. Acertei na primeira; errei estrondosamente na segunda. A uma porque Schultz não ganhou na Alemanha, sendo antes o impulsionador de um governo Merkel reforçado. A outra, porque Macron é bem mais tenebroso do que inicialmente vaticinei.

Ver a entrevista que Macron deu à Fox antes de viajar para os Estados-Unidos em visita oficial é um exercício de tolerância bastante aguerrido ao cinismo político. Não admira que Trump e Macron sejam best buddies; partilham vários dos tiques do político tão mentiroso quanto ambicioso. A proximidade de Macron a Trump, como já foi dito por diversas pessoas, tem, do lado do presidente francês, a função de se ungir enquanto representante e interlocutor máximo da Europa. Macron quer ser uma espécie de rei europeu que tem acesso directo ao rei americano. Na entrevista à Fox, o nariz de Macron was so up the ass of Trump que podemos ver realmente a sua cabeça a desaparecer. Depois não se trata apenas de admiração (e o que haveria para admirar? O estilo, a educação, o brilhantismo, a oratória de Trump?) mas sim de mimetismo. Macron remata a entrevista dizendo que pretende Make France great again!, como diria o vosso presidente (sic). Isto é sick to the stomach. Num panorama de desconfiança e cautela perante o grande mogul americano, Macron singulariza-se por parecer o anão em bicos dos pés que quer chamar a atenção do homem que controla a fila para entrar no espectáculo. Mas seria grande o equívoco se pensássemos que Macron é um simples títere dos poderes transatlânticos. Macron quer de facto Make France great again. Quando é que a França foi grande? Quando foi um império colonial, por exemplo. Ou quando conquistou a Europa, de Portugal a Moscovo. Nestas ocasiões, a França viu-se grande dentro do mundo, e assim se mostrou para o mundo. Macron quererá repetir a proeza? Creio que sim. De uma forma ou outra, ou seja, com ou sem Merkel, o presidente francês quer guiar os destinos da Europa. Repare-se que Macron não disse que queria uma França mais justa, ou mais equilibrada socialmente, ou mais igualitária, ou mais próspera para todos – disse Make France great again!

Julgo que a Europa de Macron é um prolongamento da sua ideia para França. Primeiro, uma França que domina a Europa, agora sem a sombra tão presente do Reino Unido. Há duas maneiras de fazer isto. Uma, que está a ser correntemente tentada, é ter o Estados Unidos como aliado preferencial frente a uma Alemanha que não parece tão disposta a pactuar com os dislates prepotentes de Trump. A outra, que de certa maneira é o corolário da primeira, é afirmar a França no palco internacional, sobretudo num cenário de guerra ou de disputa geoestratégica. O Irão pode ser o motivo que Macron precisa para ganhar relevância. A posição de Europa sempre foi a de preservar o acordo nuclear com o Irão. Não havia qualquer intenção de rever este até que Macron juntou a sua voz à de Trump fazendo coro na litania de que se trata de um acordo incompleto. É certo que não é tão peremptório como Trump relativamente a rasgar o acordo. Porém, a simples suposição de que é um acordo incompleto leva exactamente à mesma conclusão: it’s a bad deal!, como tantas vezes reiterado por Trump. Ora, esta caixa de pandora é aberta quando o líder supremo iraniano surge, aparentemente, apoiado pelos russos. Já aqui disse que o principal parceiro comercial da indústria bélica francesa são os sauditas. O principal inimigo dos saudis é o Irão. Estão, de forma indirecta, sobretudo no Iémen, em guerra com os iranianos. Por isso a coincidência de uma visita francesa de Macron apoiando a revisão do acordo nuclear com o Irão com as acusações de Netanyahu na semana a seguir, não pode passar despercebida. Com efeito, apesar da memória dos povos actualmente ser o que é – ou seja, nula ou anulável – as parecenças entre o exercício de Netanyahu e a pantomina de Colin Powel com as armas de destruição maciça de Sadam copiam exactamente o mesmo modelo. Informação forjada, sem qualquer base verificável, mas vendida como uma certeza indubitável que necessita de se materializar em acções.

Os Estados-Unidos e Israel há muito que querem desestabilizar o Irão para lhe retirar a força na região. A França é um player com interesse directo nessa estratégia. Quando Trump bombardeou a Síria recentemente as sondagens acusaram de imediato um aumento de popularidade entre o eleitorado norte-americano. Trump precisa desesperadamente de uma guerra. Um conflito na Coreia era demasiado perigoso; e a China certamente que não o admitiria. Entretanto, qualquer razão que assistisse a uma acção bélica esfumou-se mediante o acordo entre as duas coreias. De pronto as atenções ocidentais se dirigiram para o Irão. A insistência de Trump em rasgar o acordo com o Irão configura uma vontade de precipitar a guerra, ou pelo menos de reacender as hostilidades provocando uma escalada.  Por isso devemos ver a actuação de Macron exactamente ao contrário das interpretações que esta tem suscitado. Há grande unanimidade em dizer que Macron se tem desdobrado em esforços para manter o acordo com o Irão. É exactamente o oposto. E vejam como uma das explícitas preocupações de Macron é conter “a influência [do Irão] na região, em particular na Síria, no Iraque, Líbano e Iémen”, conforme explicou numa conferência de imprensa na Austrália. Macron está a jogar um jogo duplo tendo prometido de antemão quer aos norte-americanos quer aos sauditas qual vai ser o desfecho.

Caminhamos a passos largos para um conflito na região. E tudo para que possamos fazer a América, e finalmente a França, Great Again.