Avicii death on arrive

Morreu o avicii. Fico contente quando um destes tipos morre. No outro dia morreu a grande “promessa” do rap Lil Peep, com vinte e um anos. Foi bom, porque assim ficou com menos tempo para fazer estragos. Avicii morre aos 28 anos; mas com 22 já amealhava qualquer coisa como 60 milhões de dólares por ano. É muito graveto para tão pouco. Um tarado de um velho companheiro da música electrónica, o famosa Petha Zouk, compara avicii a um “Bach ou Bethoven que andasse agora entre nós”. Uma tal afirmação só mostra que nunca ouviu nem um nem outro. Mas mostra outra coisa: a conta em que estas pessoas se têm… apesar da sua inerente mediocridade. Esse estatuto é-lhes dado pelo sucesso que granjeiam entre o público, e não por qualquer talento intrínseco. Avicii só tem uma música minimamente tolerável, o wake me up, que na forma actual de reciclagem cultural depressa foi aproveitada para jingle publicitário. O resto é insuportável. Dizer que um tipo que sabe bater numas teclas e fazer efeitos musicais dançantes é um Bach ou um Bethoven revela o grau de indistinção a que os produtos culturais estão sujeitos no mundo da fast food cultural contemporânea.

Avicii sabia seduzir os palcos dançantes com a sua música. Não era compositor. Por isso todos os comentários encomiásticos que lhe foram prodigalizados nos últimos dias – como se de uma revelação musical se tratasse – devem ser tomados como excessos que a idiotia dos mercados culturais produzem em doses tão informes quanto incaracterizáveis. Aqui o sublime pouco tem a ver com a experiência do belo absoluto de que falava Fichte. E menos ainda com a fascinação que assistia à leitura de uma poesia de Holderlin segundo a interpretação de Heidegger. É estranho por conseguinte que a bitola de apreciação cultural seja esta espécie de ser vegetativo que batia nas teclas e grunhia ao microfone. Avicii em boa verdade não era bom em nada: nem em compor nem a cantar. Os seus duetos inenarráveis, ou como agora se diz, fulano feature um outro tipo qualquer, exibiam a mediocridade das letras de meninos de 10 anos. Por exemplo, em Wiclef ft avicii podemos escutar It’s harder when you love beyond believe/but I’m fool to let you go/ so this is for you my love – um prodígio de métrica e de uso da metáfora poética.

Podemos sempre contestar uma tal apreciação, obstando: olha, tipos como o Ronaldo ou o Messi ganham milhões e só sabem jogar futebol! Que é o argumento mais bimbo que pode haver, isto porque tipos como o Ronaldo e o Messi são verdadeiros génios naquilo que fazem. Por isso nem sequer há comparação. Se no futebol sabemos perfeitamente distinguir o que é diamante do que é esterco, por que razão deixámos de ser capazes de o fazer quando se trata de cultura? Reparem, não se trata de uma ataque à cultura pop, porque há muita e boa música pop. Mas não posso deixar de ter a sensação que algo se perdeu, alguma capacidade de discernimento estético foi-se deslaçando ao ponto de não ter qualquer consistência. A forma como prestamos homenagem aos avicii e aos drake desta vida actual é pornográfica… é mesmo insultuosa. Porque não são merecedores dela. Ouçamos a área Lascia ch’io pianga de Haendel – que combinação majestosa entre música e letra, que elevação espiritual nos é transmitida por cada compasso. Fala-nos à humanidade! Essa é uma capacidade destabilizadora que a música devia ter. Mas quando foi que nos tornámos recipientes para confusão sonora e ritmos infantis? Quando nos infantilizámos. Por isso há um profundo momento de infantilização nesta homenagem ao medíocre avicii. Ninguém se lembraria de homenagear um tipo que ganhasse uma pazada de massa ao jogo, num casino de Macau, ou pelo menos ninguém que não fosse seu familiar próximo! O esforço é o mesmo. E é disso que se trata: deixámos de saber aferir, e do mesmo passo, apreciar, o esforço de construção que se coloca nas coisas ditas culturais. Só assim se compreende que passe na cabeça de alguém comparar um pedaço de estrume como o avicii com Bach.

James Comey

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Imaginemos um tipo que está muito perto de conseguir uma reforma multimilionária e na recta final o seu patrão lhe retira essa benesse. Que faz esse tipo se para isso tiver capacidade e recursos? Vinga-se. Comey vai ficar na história não como o director do FBI que levou a cabo as mais arriscadas e sensacionalistas investigações, mas como o director do FBI que conseguiu entalar dois presidentes – na realidade, um que nunca chegou a ser, mas que a isso se perfilava.

Comey tramou big time Hilary Clinton. Ele foi, muito provavelmente, a causa do descalabro da sua candidatura. Quer fazer o mesmo com Trump? Sim, sem dúvida. Contudo, não tem, ou não quer ter, o mesmo material que faria implodir o mandato de Trump assim como fez à candidatura de Hilary.

Comey é por isso simultaneamente o homem mais amado e mais odiado dos Estados Unidos. Diga-se de passagem que Comey é um cavalheiro. Existe nos antípodas do seu ex-patrão e presidente dos USA. Produz frases pensadas e reflectidas. Tem gestos pausados e bem desenhados. Impõe uma presença de filadelfiano, de homem nutrido nos bons colégios da east side. Um Eliot Ness para os tempos de Putin e do conluiu com a Rússia.

Comey é isso tudo, mas é também – e disso não se livra – um indivíduo esquivo e dúbio. As suas justificações para o que fez a Hilary em vésperas de eleições são canhestras e muito pouco convincentes. A ideia segundo  a qual não antecipava as consequências que um tal acto poderia ter, é risível e hipócrita. Ao denunciar as centenas de milhares de emails que a presidente tinha partilhado com Anthony Weiner saberia com certeza que estava a enterrar de uma vez por todas as chances de Hilary vir a ser presidente. Ninguém é assim tão inconsequente. E ninguém é assim tão mandatado pela norma, como Comey pretende fazer crer.

O que é então a Higher Loyalty de Comey? Julgo que é uma higher loyalty a si mesmo. Já que não foi a Hilary, destruindo a sua carreira política; e também não foi a Trump, sobre o qual pretende agora fomentar a discórdia e confusão – só pode ser a si mesmo.

Nunca saberemos o que levou Comey a enveredar pelo caminho que tomou em 2016. Pensaria de facto que o país estaria melhor nas mãos dos republicanos? Alguém o incitou a fazer o que fez prometendo-lhe prebendas futuras? Ou simplesmente agiu de forma autocongratulatória para que todos para ele olhassem? Teria ambições políticas? Não sabemos. O que sabemos é que as confissões que faz sobre Trump não possuem nem metade da gravidade das acusações que impenderam sobre Hilary. Comey leva a sua caravana pelos vários veículos de comunicação da terra do tio sam, naqueles périplos de vendas de best sellers a que todos os autores se sujeitam. E o que diz? Que o presidente é uma besta imoral… mas que de maneira nenhuma deve ser impugnado. Estranha equação quando a sua atitude para com Hilary foi tão draconiana.

Comey podia  perfeitamente ser o espião perfeito e jogar dos dois lados: republicanos e democratas. Jogar pela highest bid. Porém, jura que não; jura que apenas lhe interessam os valores da democracia, que vê sendo deturpados e esmagados, e das instituições que esta sustentam. Todavia, para quem apenas só vê os valores da democracia, o plano político das suas acções, contrariamente ao cinzentismo do by the book guy, não deixa de ser assinalável. Quer com a denúncia dos emails de Hilary quer com o livro sobre Trump, o ex-director do FBI não está a reparar entorses no sistema democrático – está a fazer política. E o poder que tem para o fazer lembra, apesar dos seus ademanes de gentleman em tudo contrastantes, o poder que em tempos teve um G. Edgar Hoover. Lembremos que Nixon afirmou que uma das razões pelas quais não despedia Hoover era porque temia as represálias, dado o poder que este possuía materializado em informação sobre todo e qualquer cidadão ilustre norte-americano. Trump não teve os mesmos pruridos com Comey. Obama, contudo, não lhe tocou. Dir-se-ia que Trump jogou forte, e que calculou que o dano que Comey lhe poderia fazer estando no lugar seria sempre maior do que aquele que lhe faria tirando-o de lá. O que significa que Comey sabe muito mais do que aquilo que revela no seu livro. Que Mueller anda a arrastar os pés por uma investigação que não vai dar em nada porque os tentáculos do GOP asfixiam toda a arquitectura institucional estado-unidense, vai-se tornando cada vez mais claro.

No meio de toda esta guerra, o surpreendente acontece. As sondagens dão uma vantagem tangencial aos democratas nas midterm elections que se avizinham. Ao invés da onda azul tão esperada por todos, uma brisazinha celeste subsiste, pairando a dúvida se o rubro trumpiano não a irá abafar de uma vez por todas.

Síria gate

Vamos mesmo engolir novamente as patranhas ao estilo weapons of mass destruction? Vamos mesmo reeditar o discurso do eixo do mal e de como temos que proteger as criancinhas dos outros? Vamos mesmos escorregar uma vez mais na hipócrita casca de banana do “ditador facínora” versus o Ocidente consciencioso? Parece que sim. Muito embora tudo em torno de Douma soe duvidoso, obscuro e mal contado. Os sírios juram a pés juntos que não foram utilizadas armas químicas… e bem, isso não seria grande prova já que os maiores massacres da história foram cometidos por pessoas que mais tarde juraram nunca os ter perpetrado. Mas mais estranho é a inexistência do lado Sírio na informação global que as grandes cadeias de televisão nos fornecem. Nem uma voz, um testemunho, um clip, o que seja. É um deserto de contraditório. Claro, pode sempre dizer-se que o acto é de tal forma horrendo que nem merece ser contraditado, sobretudo quando essa mesma negação viria de um governo, ou dos seus aliados, ditatorial e criminoso. Mas há o outro lado. O oportunismo com que a escalada ocidental na guerra da Síria surge logo após o significativo encontro dos três líderes que apoiam Assad: Putin, Erdogan e o líder supremo Ali Khamenei. Essa coincidência não nos devia deixar de sobreaviso?

Já vimos isto com Bush, junior; com um anão que na altura era o Aznar, com Barroso em bicos dos pés, porventura já a sonhar com lugares de alto lobista internacional, e com Blair, essa espécie de camaleão esquerdista invertido. Agora temos uma sequência igualmente interessante, talvez ainda mais tenebrosa. Bush, May e Macron. O anão francês veio para substituir o anão espanhol da época do Iraque. Mas os projectos neo-colonialistas dos dois primeiros são difíceis de aferir.

Porque razão nenhum deles diz – e da mesma forma, as grandes cadeias de televisão globais – que quem estava sitiado em Douma, bem assim como antes em Ghouta, era o ISIS e algumas outras facções jihadistas? Aqueles que quer Bush quer May tanto medo têm de aceitar como refugiados. E porque se vangloria Trump de ter acabado com o ISIS quando lhes oferece o sustentáculo necessário na Síria? Porque razão lançaram a ofensiva mesmo antes da deslocação da missão da OPW, o organismo que é suposto velar pela não utilização de armas químicas, que estava a ser preparada e tinha já autorização do governo Sírio? Teria feito diferença adiar o ataque aéreo e esperar pela análise da dita organização? Não seria isso o sensato, mais ainda, o único aceitável?

É incontestável que Assad é um ditador. Assim como era Sadam. Mas aqueles que estão a ser apoiados pelos esforços de desestabilização ocidental do regime de Assad são os mesmos carniceiros que nós assistimos, arrepiados, a decapitarem voluntários de organizações internacionais nos solos arenosos de Palmyra. O solo donde brotou o ISIS foi justamente o de Ghouta ocidental e o de Douma, ainda bastiões do jihadismo que se recusam a depor as armas. Que Macron proteja os interesses belicistas franceses ao proteger os interesses dos seus amigos sauditas, um dos maiores destinos de venda de armas da industria armamentista francesa, consegue-se perceber. Também ele quererá, em alguma parte do seu mandato, fazer a França great again. Que May era um fantoche de Trump e dos interesses da administração GOP, também já tínhamos percebido quando foi a primeira a estender a passadeira vermelha ao presidente norte-americano mostrando que o eixo atlântico era mais importante para velha Albion do que a sua recente relação com a Europa. Trump, era a verdadeira incógnita neste triunvirato. Até porque não lhe interessava nada a Síria, estava disposto a retirar as suas tropas nem há duas semanas, e para ele era assunto encerrado. Até que…

Percebe-se perfeitamente que nada melhor do que iludir as expectativas de todos aqueles que se encontravam em suspenso com a aproximação da investigação de Mueller aos degraus da Casa Branca do que declarar guerra aos russos por interposta nação. Este é um joguinho no qual Assad é verdadeiramente o seating duck. Assiste impotente a que lhe bombardeiem o país – o que resta deste, porque ele Assad tem dado conta do recado na destruição do resto – naquilo que com certeza é uma manobra concertada entre russos e americanos para anular a desconfiança em relação ao caso de conluio que tanto persegue a administração Trump.

Enfim, já vimos isto. Estamos a vê-lo uma vez mais. Aliados ocidentais assanhados para depor líderes no mundo árabe. De todas as vezes, o que se concluiu foi sempre pela destruição dos respectivos países intervencionados; pela desestruturação das suas estruturas de poder, com o resultado efectivo de criar zonas de vazio institucional e legal, terras de ninguém onde medra o terrorismo. Resta a fotografia que coloquei ao início deste post, com o suposto projéctil que alojava o armamento químico cuidadosamente deposto sobre uma cama, cuja cabeceira deixou intacta, os pés, pelo que se vê, inamovidos. Um projéctil lançado a vários quilómetros de altura e que caiu delicadamente numa cama síria algures em Douma. Esta é também a fotografia da política que se faz hoje; não tão diferente de todas as outras mentiras oficiais que nos foram sendo servidas para justificar grandes negociatas geo-estratégicas.

Rei Bruno

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Espero sinceramente que o Sporting imploda. De preferência com a implosão real e física do bácoro Bruno de Carvalho. Há ainda sócios suficientemente estúpidos, ou fanáticos, para defenderem o atrasado mental que têm por presidente. Não é de estranhar, porque são os mesmos que dizem que o clube de alvalade jogou olhos nos olhos contra o Atlético de Madrid (é verdade que o faria em Lisboa na semana seguinte, onde dominou o jogo).

A cegueira paga-se cara. Talvez se pague em burnouts, ou mesmo em processos de  destituição, sobretudo na praça pública, como tem sido timbre da direcção do sporting. Seria curioso que bruninho morresse (simbolicamente!) através dos mesmos processos de intenção que o caracterizaram enquanto pessoa e dirigente.

O fanatismo dos sportinguistas é algo de temer e de lamentar simultaneamente. A forma como acompanharam o seu presidente, num sonambulismo tão patético quanto pusilânime – porque se tratava de acompanhar um personagem a todos os títulos pusilânime! – leva a pensar que a cegueira futebolística não conhece baias morais.

Nós, os benfiquistas, tivemos um presidente assim. Chamava-se Vale e Azevedo. Existiu numa época onde as redes sociais ainda não contavam para muito. Se fosse agora, imagino como se comportaria. Como bruno, está bem de ver. Também Vale obrigou os jogadores a pedir desculpa aos sócios, num espectáculo tão triste quanto embaraçante para todo o clube, inclusive os sócios a quem eles se dirigiram. A nada aproveitou esta atitude. Mas como o que têm em comum os dois é esta boçalidade inerente, pergunto-me se bruno partilhará mais algum dos defeitos do nosso beloved líder do passado… como por exemplo o de embolsar quantias ilegítimas?

A surpresa maior para os sportinguistas vai ser quando se revelar que bruno andou a esmifrar o clube. Especulação? Claro que sim – mas apoiada em dados concretos! Porque este é o comportamento de quem anda a esmifrar uma instituição. O burnout de bruno pode indiciar diversas coisas, mas todas elas dentro do mesmo domínio de intencionalidade. Primeiro, que bruno apostou alto de mais e chegou à conclusão que não tem como pagar as apostas que fez. Esta é uma possibilidade, mas que apenas implicava a imagem pública do presidente perante os sócios do clube; ou seja, a solvibilidade financeira da SAD, a sua capacidade de pagar o que deve, etc. E seria, para todos os efeitos, uma questão de gestão interna. A outra hipótese é que bruno esperava ganhar o seu quinhão nas diversas (e arriscadas) conquistas que prometeu. A perspectiva é negra. Mas bruno parece ter realmente acreditado na possibilidade do sporting ganhar a uefa e arrecadar uma muito considerável quantidade de dinheiro. Sabemos que jesus no benfica bicava os seus quinhões na vertiginosa transferência de jogadores com que se comprometia. Por isso vieram e foram tantos, muitos que não serviram para nada, senão para dar dinheiro a alguém. A proximidade entre bruno e jesus, tem traços mafiosos. Uma máfia bem oleada cuja actuação culminou com a aprovação de uns estatutos ditatoriais que os sportinguistas aplaudiram em quase uníssono. Aliás, actualmente, e interpretados os estatutos à letra, muito sócio já teria sido expulso ou processado. Em rigor, o próprio bruno seria alvo de um processo se as coisas fossem para ser levadas a sério. Não lesou ele objectivamente o sporting ao depreciar os seus jogadores? O que faria de bruno um sportingado, digno, acto contínuo, de expulsão.

Mas isto só mostra como a loucura de rei bruno se enovela em si própria. Bruno esteve ausente de Alvalade na segunda mão do jogo. Lear, cedendo à loucura, acaba despido na tempestade. Bruno despiu-se ao abandonar o facebook e ao retirar-se sorrateiramente dos palcos onde o considerávamos um habitué. Não é porque esteja a fazer um qualquer acto de contrição. Bruno é demasiado raposa manhosa para que isso lhe aconteça. Neste caso, a velha máxima segundo a qual digam mal de mim, mas falem de mim, não se aplica. O súbito desaparecimento de bruno é para evitar ser ainda mais enxovalhado pelo seu povo. Quão dinástico e patético é bruno de carvalho! Esperando que a tempestade se acalme, vive na expectativa de ser uma vez mais amado. O problema é que a realidade insiste em interpor-se entre ele e o seu mundo de fantasia. Um mundo onde o sporting ganhava a taça uefa, o campeonato, e ainda levava para casa a taça de Portugal. O problema é que o sporting está exactamente no mesmo lugar que estava há cinco anos atrás: em terceiro no campeonato, e sem ganhar nenhuma competição europeia, nem sequer ir a uma semifinal. Quando os sportinguistas dizem que o seu clube mudou muito com bruno, devemos emendá-los dizendo: mudou muito com Jesus. Porque joga melhor futebol, e isso é materialmente comprovável. Agora bruno de carvalho encontrou o sporting exactamente onde, eventualmente, o irá deixar. Para quem vomitou ódio por todos os lados, até para os seus, é mais que motivo para um burnout. Mas bruno não teve um burnout – é simplesmente um tipo asqueroso. Quem parece estar em burnout são os sócios do sporting que não vêem uma verdade tão clarinha.

Lula

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Não vou entrar em detalhes legais que me escapam e que são escalpelizados pela Folha de São Paulo diariamente desde que o processo Lula foi acarinhado pelas diligentes mãos de Moro. Fico apenas consternado com a noção de mandar alguém para a cadeia durante 12 anos porque alegadamente teria recebido um duplex em Guarujá.

Quando assistimos a pessoas por esse mundo fora a defender com a maior desfaçatez que ter dinheiro em offshores é uma sã política de investimento; quando são biliões que se escapam pela cega justiça fiscal todos os anos por ínvios caminhos legais tecidos pelos escritórios de advogados dos híper-milionários; quando se pagam ordenados estrondosos ora para despedir pessoas – fazer reengenharia – ora para sabotar a concorrência, sob o salutar nome de dumping social, o duplex de Lula no Guarujá parece uma piada de mau gosto. Pior ainda, o zelo assassino com que foi perseguido pela justiça brasileira – e com que rapidez! – num país onde processos de delito comum se acumulam sem solução à vista deixando uma população de encarcerados preventivamente numa espera suicidária. E depois é o Brasil. Não quero com isto indiciar nenhuma espécie de desqualificação a um país ou a um povo. Mas é o Brasil. Significa, é um país de desigualdades, esquemas, trabiques, fortunas de uns e misérias de outros, em contrastes tão sistemáticos quanto violentos que, repito, o duplex de Lula parece uma piada de mau gosto.

Lula lutou contra o tempo. E bem sabia ele que a peça a ser mexida dava pelo nome de Rosa Weber. Lembram-se da famosa gravação divulgada pela Globo e atirada para a praça público por esse mesmo Moro que quer limpar a política brasileira? Nela se mencionava a Rosa, o enigma que abriria a caixa de pandora.

O que rodeia a prisão de Lula é sobretudo a ambiguidade do campo semântico onde ela se joga. Veja-se por exemplo o artigo de Rodrigo Vizeu, colunista da Folha, onde o jovem articulista se esforça por fazer vingar a tese de que a anterior prisão de Lula, na década de 80, foi política, e a actual é meramente judicial. É difícil despachar o assunto com esta falta de mestria das coisas sem apelo. Posto que a ambiguidade começa justamente na feição política de todo o caso, nos estranhos contornos com que o processo se definiu, nas forças que o apoiaram e promoveram. Diz Vizeu, o [primeiro] encarceramento ocorreu sob a ditadura militar, quando inexistia no país Estado de direito –o jovem sindicalista foi tirado de casa sob acusação de “incitação à desordem”, chegou a ser condenado na Justiça Militar e o processo acabou anulado. Um juízo político, portanto. Mas uma certeza tão definida choca com certeza com a ideia inescapável de que o Estado de Direito foi também actualmente sequestrado. E que dizer que há uma relação apodíctica entre a existência da ditadura militar e a inexistência do Estado de Direito, obscurece que a relação é a inversa: é a destruição do Estado de Direito que constrói a ditadura. E neste caso é difícil não a ver actuar de maneiras subterrâneas, através das quais o autoritarismo exibe a sua forma, mas ainda não enquanto regime ditatorial.

A coincidência entre a pressa do julgamento e o incómodo do certo vencedor das eleições presidenciais de 2018 não revela outra coisa senão uma prática ditatorial. Que esta possa ser executada em pleno Estado de Direito (ou simulacro deste) não é novidade. A ditadura raramente se designa pelo nome próprio: age minando as liberdades e garantias de forma selectiva, e sempre dizendo que é pelo bem comum. O justicialismo de Moro e da facção que se alcandorou ao poder no Planalto não têm outro interesse público, e publicitável, senão combater a corrupção. Neste sentido, é a defesa do bem comum que está em jogo na prisão de Lula, e não a manietação política de um mais que provável sucessor do actual presidente. Porém, as ditaduras sempre disfarçaram as suas reais intenções.

Colheita de personalidades

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Lembremo-nos que o major de Zuckerberg em Princeton era em psicologia e só depois transitou para ciências computacionais. A ideia de criar perfis psicológicos de milhões de pessoas através da informação do facebook deve ter parecido ao jovem CEO do facebook como o paraíso na terra dos psicólogos. Aliás, podemos perguntar se essa não foi sempre a sua intenção. Se o facebook como grande máquina de registo de hábitos, preferências, consumos e tendências não oferecia prima facie a maior base de dados de perfis psicológicos alguma vez criada. E com ela a capacidade da sua manipulação.

Nem por um momento acredito que Zuckerberg não tivesse pensado nisso por diversas vezes. Bem para além da impossível tarefa de aplicar questionários de personalidade a milhões de pessoas (moroso, custoso, ineficaz) possuir uma base com esses dados automaticamente acessíveis e, melhor ainda!, como diria Jorge Jesus, sempre actualizados em tempo real deve ter parecido aos jovens Zuckerberg e Kogan como a teoria heliocêntrica de galileu. A facebookomania faz de nós todos pequenas cobaias na grande colheita de personalidades que o jovem psicólogo to be um dia terá, certamente, imaginado. Por isso a sua afinidade com Kogan não é um acidente de percurso. São pessoas com o mesmo fito. Com a mesma ideia. E com a mesma vontade de a explorar. Kogan colocou em prática algo que o facebook tinha em germe: classificar pessoas a uma escala nunca antes tentada. Classificar personalidades, claro está. E se menos burros fôssemos e pensássemos por segundos que o que fazemos no facebook é desenhar a risco fino os nossos traços de personalidade, rapidamente concluíriamos que fazíamos parte de uma grande experiência. A sua finalidade é que ainda não se encontrava definida.  Porque bem para além de conectar pessoas e gostos, como nos é matraqueado insistentemente pelos arautos do facebook, a grande máquina de conexão é também, e sobretudo, uma grande máquina de registo.

Aqui cabe perguntar por que razão aderimos com tal ímpeto e fervor ao facebook? Um primeiro aspecto prende-se com a forma como Nigel Thrift caracterizou a classe de serviços – Tu és aquilo que se vê! A cultura da classe de serviços passa pela autoidentificação de um conjunto de padrões de consumo e hábitos. E nesse sentido o facebook é a resposta identitária para a sociedade da selfie. Digamos que o facebook responde à necessidade técnica impressa pelo molde cultural. Faltava o dispositivo, embora as tendências se encontrassem todas a germinar. Zuckerberg percebeu bem isso, e deu-nos o dispositivo. Ora só um conhecimento e atenção profundos à natureza da psique humana e da sua condição actual pode ter levado à elaboração de um dispositivo de armazenamento de identidades como é o facebook. Naturalmente, que não se diz que Zuckerberg é uma espécie de génio maléfico que à maneira dos vilões de Bond se quer apoderar do mundo. Mas achar que há inocência no facebook é também ingénuo.

Certo, não há melhor plataforma para passar uma mensagem. E certo também, não haverá melhor plataforma para conectar pessoas e interesses. Mas se é verdade que o facebook teria sido construído à imagem dos yearbooks das universidades e Coleges norte-americanos, há uma diferença gigante entre o primeiro e estes últimos. Nos yearbooks o tempo fica congelado; a memória de uma juventude perdida confunde-se com o trajecto da instituição. O alumni é uma forma de simultaneamente prestar homenagem à instituição e à passagem do tempo. Assim as caras marcam uma época; e essa época foi algo que transitou com a companhia das pessoas que a perfizeram. Congelação; memória; instituição. Qualquer uma delas contraria a finalidade última do facebook. Se há coisa que o caracteriza é a plasticidade, a flexibilidade emocional, o modismo e a permanente exibição da mutabilidade do self. Não é a postagem dos diferentes moods pelos quais vamos passando durante o dia, a semana, o mês uma das faculdades maiores que o facebook exige? E digo exige porque se trata de facto de uma ordem. O facebook, o paraíso da liberdade da criação da imagem de si, é no fundo uma máquina de injunção. Desde logo, porque nos interpela permanentemente: vê isto, vê aquilo, responde a isto, os teus amigos gostam disto, o x viu e gostou, e tu, o que dizes?, e etc, num processo de interpelação permanente e insone que nos obriga a responder sob pena de (des)construirmos a imagem que de nós temos. Desconstrução, não no sentido dos filósofos desconstrucionistas, mas na sua literalidade; ou seja, no sentido de ficarmos de fora, e por esse facto sermos desidentificados. Máquina de identificação, o facebook pode facilmente tornar-se numa máquina desidentificadora. Basta que para tal se fique de fora. Porque o que o facebook executa (e a palavra não podia ser mais apropriada) é uma conexão permanente com redes de comunicação globais que marcam a identidade pessoal, diria mesmo a existência, como a exigência de estar “conectado”. O sentido do termo feel wired ganhou uma nova dimensão. Mas este linguajar já tinha assentado arraiais no mundo do trabalho hitech, no qual as pessoas são constantemente monitorizadas e as suas acções seguidas em tempo real através dos inúmeros dispositivos comunicacionais. Estar ligado, being wired, é no fundo o que o facebook promete a uma escala identitária… e planetária. A primeira prende-se com a forma como criamos moldes identitários à medida das constantes solicitações. Pode até parecer que os algoritmos do facebook nos ajudam a compor o nosso perfil consoante os nossos tiques e gostos. Mas acontece precisamente o contrário. Nós construímos os algoritmos do facebook dando-lhes a matéria prima. Depois, é colocar em acção a máquina combinatória e temos algoritmos que nos desenham… ao limite da reconstituição facial.

É curioso ver as reacções das pessoas e firmas perante o escândalo da fuga de informação. Como se de repente nos espantássemos pelo facto de que a colheita intensiva de dados pudesse suscitar aquilo para que ela foi em primeira instância criada: classificar e gerir classificações. No filme matrix as pessoas estão wired a um mundo irreal que é o mundo que tomamos por real, com a única finalidade de serem sugados na sua força vital. Os irmãos Wachowski talvez tivessem premonitoriamente adivinhado o que poderia ser uma símile do facebook. Sem sanguessugas e sem tons apocalípticos. Apenas uma colheita de “selfs” autobiográficos a um nível nunca antes imaginado.