Um titanic chamado psd… de Rui Rio

Image result for titanic + paintings

 

É hoje claro que qualquer tentativa de recuperar um psd de centro irá fatalmente ser abalroada pelas forças conservadoras (e algumas ultra-conservadoras!) que por lá se aninham. É uma herança de Passos, que não levou apenas os homens do excel para o seio do psd, mas também deu alcova à direita mais conservadora depois do 25 de Abril.

Deslumbrados pela experiência dinamarquesa e austríaca – em certa medida, também pela italiana – esta direita santanista optou por extremar posições. Quer isto dizer que contrariamente à aproximação ao centro promovida por Rio, esta direita, à imagem das suas congéneres dos países mencionados, defende encarniçadamente um entrincheiramento à direita da sua direita. Para relegar o centro para o PS só há uma estratégia de compensação – o populismo.  Essa foi e tem sido a experiência europeia. Tenho poucas dúvidas que neste momento nos think tanks da direita portuguesa se pergunta por que razão não se pode mimetizar em Portugal as experiências europeias?

Na estratégia prosseguida pela oposição interna, o secretário-geral do psd não vai ter descanso. Hoje foi Feliciano Barreiras Duarte; mas amanhã vai ser outro qualquer. Como são aos montes os que têm estas estratégias de esmifrar o herário público com aldrabices e esquemas – no fundo é isso que significa ser de direita actualmente e estar no parlamento da república – não vai ser difícil encontrar lenha com que queimar alguém. Rio só resistirá ao timão do psd-titanic se virar a estibordo (que como todos sabem em terminologia náutica significa direita). Quando recentrar os objectivos do psd numa aliança com o cds numa grande frente populista que possa fazer face à maioria de esquerda, então sim, Rio poderá correr suavemente para a sua foz: a liderança carismática de um psd reconstituído.

Restam poucas dúvidas que não apenas os santanistas, mas muito boa gente que não se identifica directamente com nenhuma das facções fica indisposta só de imaginar acordos com o PS. Esses tempos passaram. Assim como se tornou impossível acordos entre a Forza Itália de Berlusconi e a esquerda democrática; ou entre OVP (conservadores) e SPO (social-democracia) na Áustria ou na Dinamarca onde o bloco azul do Partido do Povo Dinamarquês rapidamente se aliou com os conservadores liberais e cristãos deixando os sociais-democratas pendurados. Aliás, a Dinamarca é, de todos, o caso mais interessante porque reproduz o simétrico português. Tendo os sociais-democratas ganho as eleições em 2015 com a maioria dos votos, perderam no parlamento contra a aliança arquitectada sob a batuta do ultraconservador Partido do Povo Dinamarquês que formou governo deixando-os de fora.

Todas estas experiências revelam à direita portuguesa que acordos ao centro não são o caminho. Mostram à saciedade que a maneira mais fácil de chegar ao poder é extremar as forças conservadoras e formar blocos parlamentares à direita e ultra-direita. Por conseguinte, preocupa algum psd (avento que a maioria) que aproximações ao ps pudessem deixar o cds de fora e assim implicar uma impossibilidade futura de novas “adês”.

Não sei se por ingenuidade se por falta de tacto político, Rio não se preveniu contra este desenrolar dos acontecimentos. Talvez julgasse que o psd de manuela ferreira leite, Pacheco pereira ou Balsemão ainda representasse o núcleo duro do partido. Talvez pensasse que tinha possibilidades de estabelecer o mesmo estilo ditatorial que impôs na câmara do Porto. Talvez não tivesse bem aferido as profundas mudanças efectuadas pela revolução passista. Seja como for, se não arrepiar caminho, arrisca-se a ser um líder a prazo.

Sistema/anti-sistema

 

Related image

O fenómeno italiano não mostra apenas um descontentamento generalizado com os partidos ditos “do sistema”. Até porque “o sistema” é de difícil definição e pode ser abordado consoante ângulos diversos (já lá iremos). O que as eleições italianas colocam em evidência é um esvaziamento da política, e em última análise do governo. Devemos começar a interrogar-nos sobre o papel do governo na condução dos destinos da res publica. Quando a Alemanha fica sem governo durante mais de seis meses e sobrevive; a Catalunha negoceia uma solução de governação vai para mais de um ano; a Áustria demorou meses para chegar a um acordo parlamentar – o que fica na percepção das pessoas é a dispensabilidade dos seus governos. Afinal a economia, a vida quotidiana, os mercados, a justiça, as contas para pagar, tudo isso continua a funcionar sem a intervenção, sequer a necessidade, de um governo. Dir-se-á: o Estado continua o seu funcionamento, por isso é natural que não haja uma panne generalizada nas funções do mesmo. Seja como for, a noção de que a presença e actuação de um governo são dispensáveis cala fundo. E com ela, a percepção da acção política como acção consequente.

Não será por acaso que os eleitores seleccionam como temas centrais do seu exercício de escolha democrática questões que diríamos residuais à governação. Por exemplo, a imigração pesa massivamente na escolha do eleitorado de direita, mas quando se olha para o mapa do voto em Itália constata-se que o norte do país é da Lega Nord, enquanto o sul, coube ao movimento cinco estrelas. Ora é no sul que se encontram a maioria dos campos de refugiados, é lá que os imigrantes fugidos da guerra e da fome dão à costa com as suas balsas, é também ali que a incorporação começa a ser feita, no sentido de uma posterior assimilação nas estruturas da sociedade italiana. Ou seja, são os eleitores com menos contacto com qualquer que seja o impacto da imigração que votam massivamente contra os imigrantes.

Um outro aspecto do esvaziamento da política é o concomitante esvaziamento da sua responsabilidade. O primeiro-ministro austríaco tem 31 anos; assim como o vencedor das eleições do Cinco Estrelas. Separados na retórica – um neoliberal conservador, o outro de esquerda dita libertária – mas não no estilo, ambos deviam suscitar a apreensão dos eleitores face à sua inexperiência governativa. Mas não suscitam. O que significa que aquilo que em tempos se designou por ética da responsabilidade se tornou secundário, quando não, indiferente. Segundo a definição de Weber, a ética da responsabilidade cabia ao indivíduo que se importasse com as consequências da sua acção. Weber utilizou a noção relativamente à atitude e comportamento dos políticos, mas não excluiu a sua aplicação a qualquer que fosse o portador de uma intencionalidade, ou seja, a qualquer um de nós. O que nós estamos a assistir é justamente o esvaziamento ético da política. E é aqui que a ideia de partidos do sistema perde a sua consistência. Porque o sistema não é mais uma posição equidistante na ética política – basicamente aquilo que se poderia designar pelo governo para o bem comum – mas antes uma forma de fazer política. Por isso quando relativamente a Itália se diz que os partidos do sistema perderam em toda a linha, não creio que a Forza Itália de Berlusconi veja com particular amargura a subida estrondosa de Salvini da Lega. Afinal foram em tempos aliados políticos. O mesmo exemplo pode ser aduzido da Áustria: o partido do sistema que tradicionalmente fazia alianças com o centro-esquerda, rapidamente virou os seus interesses para os proto-nazis do FPO. Para não falar da Europa de Leste onde tendências fascistas ou fascizantes são o “sistema” – na Polónia, na Hungria de Orban, na República Checa. E o que dizer da Dinamarca, o país com os maiores índices de felicidade, e de igualdade, do mundo que tem um partido de extrema-direita, agressivo e despótico, no governo. Onde está aqui o sistema?

Se por sistema entendermos a rotatividade do centro, é preciso lembrar que qualquer um dos partidos ditos do centro possui as suas tendências centrífugas. Assim as alianças com a extrema-direita não é algo que advém do puro taticismo político, mas antes de afinidades concretas, de partilha de ideias e ideários, de algumas dessas facções dentro dos partidos ditos do “sistema”. Para não ir mais longe, as alianças entre PSD e CDS sempre foram o fruto da negociação entre uma facção dentro do PSD, populista e conservadora católica; a mesma que agora entra em pânico com a possibilidade de aproximações ao PS.

Mas regressando à questão do esvaziamento da política, ele é notório a diversos níveis. Por isso o diagnóstico que mostra que este eleitorado vota em sinal de desagravo pelas forças da globalização que o esmagam, ou pela necessidade de segurança, significava que ainda estariam a articular politicamente estes mesmos sentimentos. Ora, julgo que a ascenção da extrema-direita se deva a duas coisas principais.

Primeiro, a imersão num individualismo extremo contra a noção de colectivo, no sentido que ela assume no pensamento democrático. Há que fazer um reparo inicial porque esta tese surge inicialmente como contraditória. Ou seja, poderíamos dizer que a emergência de movimentos nativistas e xenófobos retraduz esse posicionamentos num super-colectivo: a nação. Em certo modo a identificação com a nação recupera o prolongamento orgânico entre o povo e a sua pátria, típica dos movimentos de massa autoritários com expressão estado-cêntrica. Neste sentido, estes são movimentos profundamente antidemocráticos. Porque a democracia constitui-se no jogo de equilíbrios entre colectivos. Os partidos, os sindicatos, os clubes, os grupos de opinião, as associações, etc, é essa miríade de colectivos representativos que constituem a democracia. O que estes movimentos ancorados no super-colectivo da nação nos dizem é que apenas a este devemos obediência. Porém ( e aqui reside o volte-face) é um nacionalismo para tempos neoliberais. Quer dizer, o indivíduo surge contra o Estado, o seu suposto cinismo, e burocracia esmagadora. É, contudo, um Estado específico: o Estado-providência dos tempos keynesianos.

Segundo, o discurso da extrema-direita é punitivo. Falta perceber os mecanismos da sua retórica como essencialmente falaciosa e alarmista. Mas numa coisa é clara: a punição estrutura a sua mensagem política. Punição contra os imigrantes, contra os dependentes, contra os mais fracos no geral. Em nenhum lugar, no entanto, a imensa fé depositada no mercado é sequer abalada. Por isso a combinação entre neoliberalismo e neofascismo é das mais curiosas e bem conseguidas. De um lado, a intenção de aprofundar a privatização do Estado e de expandir a gestão de mercado a todas as esferas sociais. O que faz com que se distanciem da concorrência marxista ou keynesiana. Do outro, a expansão de um Estado punitivo e securitário; o que faz com que bifurquem caminhos com os seus companheiros liberais. Estas duas soluções já existem nas duas maiores economias do mundo: a China e os Estados Unidos. Ou seja, se em tempos tínhamos como referência os processos designados de “exportação da democracia” por essa nova Acrópole que seria Washington, com os seus consequentes choques estruturais que levaram tantos países à bancarrota, actualmente é esta combinação (que diria, terrível!) que serve de modelo a ser exportado. É ela que constitui o “sistema”.

Na Europa, esta surge como um objecto estranho porque ainda subsiste o imenso articulado de redes de governança que é própria da representação da multiplicidade de colectivos que caracteriza a democracia. Todavia, e como esta encontra-se paulatinamente a ser minada, não é certo que não surjam formas antidemocráticas, sob a aparência do parlamentarismo constitucional, como já é o caso na Hungria ou na Polónia. Deixou, por conseguinte, de fazer sentido falar de partidos do sistema e fora do sistema. O sistema actual auto-observa-se de formas diferenciadas relativamente aos canónicos entendimentos da democracia liberal.

Saúde sem dono

Image result for sistema nacional de saúde portugal

Não é com certeza coincidência que logo após Rio lançar o seu libelo ao sistema nacional de saúde, no discurso de encerramento do congresso do PSD, várias corporações médicas viessem a terreiro dizer que o sistema está em ruptura.

Um senhor, dono do sindicato independente dos médicos, mas que de independente nada tem, visto que é militante do PSD, passa os dias a aparecer nas televisões a fomentar a discórdia entre médicos e ministro. Simultaneamente, administrações hospitalares despedem-se em bloco e os enfermeiros exigem, uma vez mais, a revisão das suas carreiras. Ou seja, de repente, o discurso de Rio suscitou uma manifestação comum de desagrado entre os profissionais de saúde que tem vindo a engrossar ao ponto de poder culminar em revolução (em sentido figurado, entenda-se).

Tudo isto seria fortuito, não se desse o caso de estas coisas raramente serem aleatórias e os seus códigos não passarem por entendimentos prévios e estratégias buriladas com antecipação. Assim o Rio que calhou ao PSD, colocou uma descarga nos media e na esfera pública e política que faz correr tinta e palavreado ao tornar este sistema a menina dos olhos do seu programa futuro. Todavia, a descarga de Rio tem à vez o seu lado dramático e hilariante.

Terá havido poucos partidos que mais fizeram pela destruição do SNS do que o PSD. Nos inícios dos 2000, lançou-se a grande privatização do sistema de saúde, que mais tarde seria aprofundada pela rota da empresarialização hospitalar surgida como obrigatória pelo memorando troikista. A privatização da saúde é uma consequência directa da difícil sustentabilidade do sistema público. E nesse sentido é inevitável. Mas a forma como esta tem sido prosseguida em Portugal é que deixa muitas dúvidas e outras tantas críticas. Desde logo, porque o afã privatizador das coligações psd-cds tem por definição entregar ao mercado para que este faça o melhor que sabe fazer. Numa profunda fé nas virtudes do mercado, na catalaxia de que falava Hayek, essa virtude auto-organizadora que não necessita de sistemas heterónomos para a conduzir, as coligações de direita têm feito aquilo em que melhor se especializaram: privatizar sem controlar. Foi assim na saúde; foi assim na educação; foi assim nas energias. Com consequências similares. Uma delas é que os sistemas deixam de funcionar de forma supletiva e passam a funcionar de maneira concorrencial. Quer no caso da saúde como da educação a concorrência não é perfeita, porque o sistema mais recente esbulha os recursos do sistema anterior, ou seja, do público. Esta parasitação não é complementar, é canibalística. Na saúde é talvez o mais notório dos sistemas onde uma tal relação é observável. E ela não apenas desonera o Estado, como serve um corpo de profissionais. Porque a verdade, é que se há grupo que mais tem beneficiado com esta configuração, esse é com certeza o dos médicos.

A promiscuidade com que os dois sistemas se canibalizam é talvez mais aberrante em Portugal. País onde os médicos agem como uma corporação fortíssima, cuja acção esmaga quem a eles se tenta opor. Lembremos Leonor Beleza quando teve a veleidade de propor a exclusividade.

Não se compreenderá o sistema de saúde actual sem perceber a multiplicidade de zonas cinzentas que este promove. Num exercício de fenomenologia quotidiana, podemos por exemplo interrogar-nos porque razão não há médicos acima dos 35 anos correntemente nos hospitais públicos. Certamente que há uma renovação da classe que é bem-vinda. Mas eu recordo tempos em que o velho especialista agia como autoridade nos meandros hospitalares e lançava o seu manto estatutário sobre uma prole de nóveis profissionais. Onde está ele? Bom, não é preciso dedicarmo-nos à busca do Wally para constatarmos que ele se encontra nos hospitais e clínicas privadas. Mas deixou o público? Não, claro que não. Conservou um pé dentro do público porque para todos os efeitos é ele que lhe dá o estatuto. A traficância de competências entre público e privado abriu igualmente brechas entre os profissionais da medicina. Assim aqueles que confinaram o exercício da mesma às paredes dos hospitais públicos olham com especial apetência para as fortunas que os colegas vão amealhando nos privados. Não podendo manter-se o sistema neste nível de frustração de desejos de mobilidade a solução encontrada é a porosidade entre os dois sistemas. O que descapacita o público, depauperando-o e privando-o das suas melhores competências; e engorda o privado, que não tendo gastos na formação destes pretendentes faz uma economia de escala sem grande investimento inicial. Quando os sistemas são, ou puramente privados ou puramente públicos, como nos Estados Unidos, podemos ver a grande indústria da saúde a contribuir para a formação. Firmas financiam universidades que por sua vez fornecem o pessoal para os hospitais que são propriedade dessas mesmas firmas. Na prática o seu funcionamente é injusto e terrível, como sabemos. Mas tem o mérito de clarificar os termos da separação entre mercado e Estado. Ora isso está longe de acontecer no sistema de saúde português. A promiscuidade é de tal ordem que os serviços estão desprovidos de pessoas. Mas, é porque faltam médicos em Portugal? Não, porque distribuem os seus préstimos e o seu tempo de trabalho por miríades de entidades privadas. É impossível que um médico que trabalhe em três ou quatro entidades, entre elas o hospital público, possa ser um bom profissional em qualquer uma delas. O que leva ao decréscimo da qualidade do serviço tantas vezes assinalado pelos utentes. Para todos os outros que se mantém no seu papel de agentes públicos a frustração é também crescente porque vêem o seu volume de trabalho distribuído por cada vez menos cabeças. Some-se a isto que as suas carreiras retornam sempre o mesmo rendimento enquanto quem se projecta no elevador dos privados the sky is the limite.

O que é mais suspeito neste estado de coisas é o silêncio dos próprios médicos sobre o funcionamento deste sistema a duas velocidades. Sistema que concita invejas e concorrências agressivas, mas que nunca é invocado como parte, ou mesmo a causa, do problema da qualidade do sistema nacional de saúde.

Os médicos são, a seguir aos advogados, a corporação mais poderosa do país. Parafraseando Jorge Coelho, quem se mete com os médicos, leva. E por isso estes dois sistemas têm evoluído de forma paralela sem qualquer intervenção niveladora de um agente externo. Formar mais médicos, abrir mais lugares, não funcionará mais do que como um paliativo temporário, porque estes novos médicos, logo que terminem o tirocínio que o público lhes oferece, escapulir-se-ão para os privados, abrindo novamente o hiato que separa os dois sistemas. Até que este se torne um abismo, e o sistema nacional de saúde esteja bem para além da salvação.

Nojo

 

Image result for homeless blacks in los angeles

Não se trata de opinião, porque esta as pessoas podem tê-la, diferente, contraditória, o que seja. Trata-se de falsificação. De dados, de informação, de conhecimento. E neste sentido, entre o Henrique Raposo e a Breitbart não vai uma grande distância. Sabemos que os intelectuais orgânicos da nova direita conservadora – a alt-right também ela com a sua branch em terras portuguesas – usam os media para lançar a confusão. É uma estratégia de guerrilha. E não deixa de ser curioso que seja a extrema-direita e a direita radical a usar as técnicas que eram apanágio da resistência esquerdista. Com uma diferença: o que Raposo faz é de uma desonestidade intelectual sem nome. O que o coloca na situação ou de supremo aldrabão ou de indefectível medíocre, posto que as suas leituras são de tal forma enviesadas ou propositadamente deturpadas que estamos perante um caso de lesa intelecto.

O artigo de ontem do expresso está eivado de todas as distorções propagandísticas que podemos encontrar na extrema-direita. A dicotomia (inexistente) entre brancos pobres e minorias, a falsa preocupação com a pobreza, mas apenas de um grupo – os brancos; a traição que putativamente a elite bem pensante liberal faz ao povo. E, surpresa, a vassalagem prestada a Trump que de quando em vez ora aparece mais explícita (como hoje) ora mais envergonhada.

Seja como for, são os temas caros à alt-right norte-americana, sem sequer os matizar com alguma objectividade inerente a quem se encontra de fora. Há no entanto alguns dados que devem ser colocados à cabeça e que rapidamente infirmam a sua estúpida litania.

Primeiro, a maioria dos pobres norte-americanos são negros e latinos. A riqueza média destes dois grupos tem vindo a decrescer sistematicamente, enquanto a dos brancos cresce. Segundo, o grupo com menor proporção de casa própria são os negros. E sabemos como na América onde tudo se paga e tudo se compra, não ter casa pode afectar todo o leque de escolhas subsequentes, desde o ensino, à saúde, passando pela velhice. Terceiro, Trump e a sua entourage não estão minimamente interessados em melhorar a situação dos cronicamente pobres. Desde logo porque o sistema de taxação vigente tem beneficiado constantemente os mais ricos penalizando os mais pobres – algo que sofreu um brutal agravamento com esta nova política do governo Trump. Quarto, e o cúmulo da sem vergonhisse, para falar como o irmão brasileiro, não existe nenhuma oposição de substância entre a pobreza e as questões ligadas à imigração (não sei porque razão o burro do Raposo confunde emigração com imigração!). O binómio é reiteradamente usado pela extrema-direita, como se os termos fossem mutuamente exclusivos e, obviamente, como se se estabelecesse uma relação de causalidade entre a imigração dos “outros”  e a pobreza dos “nossos”.

O “branco pobre” não pode ser desprezado, avisa-nos raposo. E qualifica a afirmação com os números de sem-abrigo a viverem em LA.  O racismo de Raposo é tão desabrido que nem se dá conta que entre os milhares de sem-abrigo que – espantemo-nos! – preocupam o cronista haverá muitos negros e latinos! Mas não para Raposo. Porque o que preocupa raposo não é a pobreza. Disso ficamos cientes quando o que estrutura o seu texto é o binómio maioria/minorias. O que preocupa verdadeiramente raposo é o branco. Este “branco” imaginário que faz parte de uma fatia considerável do discurso de ódio de Trump; o branco como vítima, que era, curiosamente, e para Raposo que gosta de citar os founding fathers, o discurso dos esclavagistas, de paradeiros diversos, dos Estados Unidos ao Brasil, celebrizado naquela frase lapidar do “white men’s burden”. Não tenhamos dúvidas: o actual discurso contra as minorias, ou melhor, que vê as minorias como um sugadouro de recursos, replica os principais traços, não apenas da cultura do “white men’s burden”, como do anti-semitismo.

Este discurso anda muito próximo dos neo-nazis do supremacismo branco; mesmo que disfarçado de (falsas?) boas intenções cristãs (o que aliás o anterior também faz).

Seria bom que o raposinho começasse a demonstrar as suas estúpidas teses com factos e números em vez de respigar a primeira trampa que vem à tona nos blogs conservadores com que se encharca. Há brancos ricos que são igualmente desprezíveis.

(e pronto lá dediquei uma vez mais um post a um escrito de Henrique raposo. Não é por dedicação exclusiva ao plumitivo, é porque os seus artigos são de tal forma asquerosos que não consigo deixá-los passar em branco!)

Raposo fazia bem em ir ver o I’m not your negro…

“A cada tempo a sua arte”

O Henrique Raposo devia ser obrigado a colocar as referências das suas fontes. Não se pode fazer propaganda conservadora num jornal de referência nacional incendiando arbitrariamente as suas páginas. E eu até estou inclinado a concordar com muito do que ele diz no texto do Expresso sobre o Schiele. É o caso típico em que embora as conclusões sejam acertadas, as premissas estão todas erradas.

Vivi em Viena, por isso conheço bem o peso que Schiele – e claro está: Klimt – possui no imaginário da cidade. A Áustria tem 700.000 muçulmanos, dos quais cerca de 60% vive em Viena. Nos largos anos que por lá andei, nem uma só vez vi uma tentativa, ou acto, uma vandalização, do que fosse das inúmeras imagens de Schiele que decoram a espaços a cidade. Nem uma vez vi manifestações de muçulmanos contras as partes pudendas das figuras de Schiele. Penso aliás que é um não assunto. Muitas vezes passei pelo Museumsquartier e lá estava a enorme estampa de um dos quadros do Schiele. Nunca a vi maculada. Mas vi diversos atentados aos símbolos do Islão por parte da extrema-direita austríaca, a que agora se encontra no poder. Usava e abusava esta, na altura, de uma propaganda insidiosa contra os muçulmanos, como por exemplo representar os minaretes das mesquitas com o formato de mísseis, adornando estes mesmos cartazes com a sugestiva frase – Daham Statt Islam!  Disso vi eu muitas vezes; o contrário, não tenho memória.

Agora Raposo numa coisa tem razão, houve de facto censura às imagens que publicitavam os quadros e que era suposto serem expostas nos aeroportos e metropolitano de Londres. Mas não foi nem de feministas fanáticas nem de islâmicos radicais – foi, num dos casos, do comité de ética de um dos aeroportos. Diz a notícia, reproduzindo a fala da responsável pela exposição:

We had the green light for a very large format and, the day before they went up, agreement was withdrawn as an ethics committee felt (full nude versions) wouldn’t be acceptable for an airport public” or patrons of London’s underground trains.

Onde estão as raivosas feministas que pululam nos pesadelos de Raposo? Tão-pouco foi um órgão como o conselho muçulmano que se pronunciou. Tenho para mim que se a exposição do Schiele chegasse a uma terra de red necks, num qualquer estado vermelho que respire a intolerância e nescidade trumpista, o mais provável era queimarem os cartazes. Porque desconfio que em terras onde acreditam que o homem provém de Adão e Eva não se dariam muito bem com a nudez representada nos quadros do Schiele. Daí que para termos um mínimo que seja de honestidade intelectual, teríamos que dizer, sim, os fanáticos muçulmanos estão do lado da intolerância cultural e artística, assim como estão os fanáticos religiosos de outras confissões. O mote do título do artigo de Raposo pode até ser utilizado com proveito. Quando ele diz “de novo” relativamente à “desordem que Schiele revela” é bom lembrar que essa desordem foi prontamente fulminada pela então elite vienense de impecáveis pergaminhos católicos. Schiele não estava desacompanhado: era levado pelo seu mestre Klimt. O movimento que este encabeçou foi designado de Sezession (secessão). A secessão, como é do conhecimento geral, quebrava com os protocolos estéticos do naturalismo e do objectivismo. Curiosamente, o simbolismo de Klimt afirmava-se entre a abstracção de um Picasso ou de um Kandinsky e a figuração dos corpos assim como herdada do classicismo. Surgia na intersecção do figuracionismo neoclássico e da abstracção cubista. Mas sobretudo, tinha como programa, ao contrário dos grandes mestres abstraccionistas de Paris e Berlim, a recuperação dos corpos e da representação da sua sensualidade. Quando Klimt desenhou os espantosos tectos da Universidade de Viena foi recebido com especial incómodo pelos decanos da universidade e professores em geral. O incómodo partilhado perante a nudez das figuras que representavam as disciplinas, a evidencia das suas partes pudendas, levou a que o trabalho fosse cancelado e os gigantescos painéis confinados aos sótãos de espólios particulares. Havia de arder tudo no inferno nazi. Hoje encontram-se lá umas cópias do que teria sido o tecto do grande salão de reuniões da universidade, reposto na sua originalidade a partir de 2005.

Klimt, tantas vezes perseguido por deboche e atentado à moral, até na censura que a sociedade vienense de fin de siécle fazia ao seu estilo de vida… mas não por radicais islâmicos – antes pelo estado católico austríaco para quem a nudez funcionava como uma quebra dos bons preceitos e um atentado ao pudor. Foi a Viena católica e conservadora, com tiques historicistas-naturalistas, que conviveu mal com a iconoclastia de Klimt.

Na entrada do edifício da Sezession pode ler-se: Der Zeit ihre Kunst. Der Kunst ihre Freiheit. Mais ó menos: A cada tempo a sua arte. A cada arte a sua liberdade. E depois a abóbada do edifício encontra-se toda preenchida com as mulheres de Klimt nos seus ouropéis reverberantes. Contraste gigante com os corpos esquálidos de Schiele. Mas não nas suas evocações sexuais e amorosas, cuja preferência era partilhada por mestre e discípulo. Schiele foi ainda mais ostracizado do que o seu mestre. Os paralelos com a perseguição hoje movida aos seus quadros não pode deixar de ser oportuna.  Na altura, como agora, a exposição dos corpos assim como os via Schiele fez tremer as consciências amodorradas do establishment artístico e mediático. Paradoxalmente, foi essa inconformidade pública que o levou em larga medida à consagração como autor-símbolo do figuracionismo expressionista vienense. Porém, a relação entre Schiele e o público, ou as texturas morais da sociedade vienense da época, esteve sempre longe de ser pacífica. E assim era a posição sociocultural de qualquer artista de avant-garde que se afirmasse como tal. A ruptura como princípio espiritual da modernidade (para utilizar uma categoria de Mannheim) era assumida como a atitude pública de um autor. A avant-garde é inerentemente moderna e irrepetível noutras condições sociais. Assim os dois, Klimt e Schiele, em os Hermitas, representados com uma capa, como hábitos monásticos, e depauperados, prontos para a morte, ou como Schiele diria “tornados suicidas”. Klimt subjugado por Schiele, que no universo artístico repetiria a proeza do mestre: inventar um estilo onde a invenção de um estilo era o único gesto afirmativo do artista criador.

O desconforto gerado pelos corpos de Schiele não fica apenas pela sua exposição directa, que não se furta ao olhar do visitante. Porventura, mais do que os corpos despidos de Schiele, que como diz Raposo, são reproduzidos ad infinitum na pornografia a que todos temos acesso através da internet e outros veículos, o que choca (de novo) as consciências é a natureza desses corpos. Muitos não são belos, se por tal entendermos que não se enquadram nos actuais padrões normativos de beleza. Outros tantos chegam inclusivamente a serem desagradáveis à vista: são repugnantes, doentios, translúcidos.  E sobretudo procuram revelar mais do interior do que do exterior. Como compreender que o espanto e a recusa surja relativamente a esses corpos quando a nudez surge como mediador da adesão de tantos e tantos produtos culturais? Só através daquilo que eles revelam bem para além do simples facto da nudez. E o que revelam os corpos de Schiele? Um desconforto com a corporalidade. Paradoxo novamente quando um autor que tanto explorou o corpo e os seus gestos pudesse no fundo querer exorcizar esse mesmo corpo. Se há coisa que caracteriza os corpos de Schiele é esse namoro permanente entre a sensualidade e a morte. Nem tão estranho seria, quando pensamos que estávamos na Viena de Eros e Thanatos, onde o Dr. Freud tinha o seu sofá na distinta Berggasse. Julgo que o aluvião psicanalítico que então atravessava Viena terá contagiado de alguma forma o jovem Schiele. Por isso o desconforto que Schiele causa ainda hoje, não é pela nudez – é por este desconcertante conúbio entre a sensualidade e a morte. Pois se há tema que percorre grande parte da iconografia de Schiele é o da morte. Digamos então que o que choca nos seus corpos, o que leva ao bater a rebate dos sinos da inconformidade, é a contradição que estes corpos encerram com a medida cultural da corporalidade actual. E o que nos é hoje prometido senão o corpo eternamente jovem e belo?