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O voyeurismo dos adultos… e o das crianças também!

Janeiro 17, 2018

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Começo por dizer que as crianças têm capacidades reactivas, agênticas, voluntaristas (de vontade) e manipulativas. Não são recipientes inertes onde os adultos vertem tudo o que entendem – seja lixo, seja educação – criando assim um frankenstein cujo controlo asseguram através de choques eléctricos.

Ainda ontem ouvia falar dum estudo onde se concluía que as crianças de 8 a 11 anos construíam a sua autoestima em torno dos “gostos” que recebiam no instagram. Estas crianças sabiam perfeitamente jogar o jogo da imagem e da apresentação para terem excedentes de autoestima; da mesma maneira que desenvolviam uma relação de frustração quando esse excedente materializado em “gostos” não se verificava. Isto significa que as crianças sabem perfeitamente as regras do voyeurismo contemporâneo e, simultaneamente, do narcisismo hiperindividual. É por isso que me custa muito crer que as crianças do programa Supernanny sejam vítimas inocentes que de repente se vêem confrontadas com a presença de uma preceptora balzaquiana que lhes vai fazer a vida num inferno, ou seja, pô-las na ordem. Inclusivamente não será um exercício assim tão rebuscado imaginar que muitas destas crianças pularam de contentes quando receberam a notícia que iriam aparecer num programa da sic. Aparecer num programa de televisão é, desde os cozinheiros imberbes até aos infantes cantores, um bafejar de intensa autoestima, um banho de status para meninos e meninas, um autoreconhecimento deslumbrado decorrente de uma audiência. Por isso, suspeito que estas crianças do programa da Nanny não são vítimas de nada, e que a sua exposição pública – com ou sem adestramento – é mais desejada do que a vinda do pai natal.

Em televisão, muito pouca coisa é espontânea. Menos ainda na reality tv, desde logo porque a presença constante de uma câmara nos leva a sobre-actuar, ou seja, a actuar para além do actuar que é já o modo de relação com os outros com quem interagimos. Nenhuma destas crianças está a ser vigiada por uma câmara secreta cuja existência desconhece estando assim a ser violada a sua privacidade. Julgo até que as crianças têm perfeita consciência que a sua actuação no programa pode reverter em “gostos”, quer nas redes sociais quer na sua vida comunitária, escolar, ou entre os pares.

Alguns comentaristas, humoristas e cronistas querem fazer passar a ideia de que a coisa é combinada à revelia dos filhos. Que os sádicos progenitores estão de conluio com a psicopata da super nanny mais com o canal de tv sic para esmifrar os pobres petizes, expondo-os à cobiça telegénica das multidões. Avento que um tal diagnóstico estará completamente errado. Imagino uma conversa entre os pais e os seus filhos que comunicam às suas crianças que em breve serão estrelas de televisão, que tal como os seus congéneres cozinheiros, cantores ou simplesmente miúdos a serem miúdos em programas de patetice, vão ter direito aos seus 15 minutos de fama. E imagino ainda a alegria das crianças por se sentirem as escolhidas, como nos programas do preço certo, em que as pessoas saltam das suas cadeiras perante a imensa felicidade de poderem jogar. As razões para o fazer serão indiferentes. Uns cozinham, outros desafinam, e estes agora são educados. O importante é que estão na televisão. Ou seja, são mediáticos.

Aquela frase estafada, que se tornou um cliché dos pré-milenials, que reza que na educação dos nossos filhos estamos destinados a falhar, tem qualquer coisa de autocomprazimento parental. Isto pode parecer uma contradição. Contudo se quisermos interpretar atentamente o que ela realmente diz é que apesar de tudo fazermos, tudo darmos, e tudo tentarmos, o nosso produto sofrerá sempre de algum grau de imperfeição. O que é o simétrico da “as nossas crianças são as melhores do mundo” – as mais espertas, as mais vivas, as mais engraçadas, as mais etc… Porque assim como a hiperbolização das crianças funciona para engradecimento dos pais (a herança do seu código genético é verdadeiramente o que está em equação) também a confissão do provável falhanço é uma desculpa antecipada que iliba esses mesmos pais. Os pais comprazem-se no seu autocentramento, e assim aos filhos é-lhes servido de bandeja um espelho de narcisismo autocentrado.

Dito isto, não significa que o programa não seja lamentável. Mas o que ele representa é a imagem fiel desta relação. E esta não tem a ver com pedagogia. Mas sim com a mediação das percepções de nós mesmos através da tecnologia do espectáculo e da “estrelização” (star-systemacização, se o termo existisse). Ora nesta, os pais, os filhos, e a nanny, são cúmplices. Três vértices de um triângulo produzido por entidade exterior que capta movimentos, acções e discursos. Lembram-se do credo dos behaviouristas do princípio do século passado? O desenvolvimento das crianças enquanto treino, mediadas por mecanismos de condicionamento! Transponha-se esta lógica para uma sala, quarto, cozinha, rodeada do aparato televisivo (câmaras, som, produtores, luz, etc) e temos ratinhos em cubas. O que me parece relevante, no entanto, é que a relação estímulo-resposta não existe entre a nanny e a criança, mas entre a televisão e a criança sendo a nanny a mera responsável pela canalização desse estímulo. Desde logo, porque a nanny, muito antes de praticar psicopedologia, está sobretudo empenhada em fazer um programa de televisão. Assim como os chefes que aturam os putos, não estão a formar cozinheiros, mas antes a contribuir para a produção, para a organização, de um programa de televisão.

Desta forma, o que está a ser condicionado não é de todo o comportamento da criança na relação pedagógica que esta mantém com os adultos, mas sim a relação da mesma com o aparato mediático, o que é interno à casa e o que se encontra no exterior. Digamos assim que são crianças instruídas para agirem e pensarem (e pensarem-se) num reality show. A criança que é colocada na cadeira não está verdadeiramente a ser castigada, daí que não estejamos a assistir a uma violência em directo. O castigo tem que ter sempre um elemento de negação de um desejo – a cadeira em substituição do brincar com os amigos, o quarto em substituição da sobremesa, e por aí fora. Ora a cadeira do show da supernanny é o centro da ribalta – a criança está naquele momento a ser o foco de toda a atenção… que para mais ela sabe que em muito extrapola a situação presente em que se encontra. Não. As crianças são tanto vítimas, como os pais: ambos apanhados na ambição desmesurada de tudo transformar espaço televisionável. A pergunta que ainda não foi feita por ninguém é quanto, e se algum, recebem pais e crianças para alinharem nesta pornopedagogia?

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