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Onde vais ó Rio que eu canto?

Janeiro 16, 2018

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Rio percebeu, e justiça lhe seja feita, que a única forma do PSD regressar ao poder é resgatando novamente o eleitorado flutuante do centro.

É portanto errada a análise de tantos porta-vozes da direita “inorgânica”, nos jornais e blogs, que consideram que a única maneira de combater a frente de esquerda é através da união da direita, tornando-a mais conservadora. O texto de Henrique Raposo é um ex libris dessa posição. Rio é mais esperto que todos eles e sabe que a única maneira é partindo o PS ao meio. Até aqui a contestação interna a Costa, e tantos que estão verdadeiramente incomodados no interior do PS com a aliança com as esquerdas, não tinha pontes com o PSD porque o partido de Passos optara por uma estratégia de terra queimada e de isolacionismo. Tal estratégia, ao invés de consolidar a direita, apenas extremava posições, enfranquecendo-a. Desde logo, impedia que uma facção considerável do PS quisesse inclinar as orientações para acordos com o PSD, deixando assim de se encontrar (na lógica de tais senhores) refém do partido comunista. Mas o que sucederá quando Rio começar a estender uma mão cordata e voluntária a esse mesmo PS?  A oposição interna a Costa encontrará por fim a justificação que lhe faltava para se reorganizar, apelando para a costela mais liberal do PS contra o esquerdismo insuflado da facção afecta ao primeiro-ministro. Ou seja, o espírito de geringonça começará a ter uma alternativa interna, e por sua vez, esta alternativa encontrará um interlocutor válido no exterior, mas desta feita no quadrante político de direita. Passos e o seu trauma tornava qualquer encontro improvável, senão mesmo impossível. Mas um Rio que se diz disposto a viabilizar um governo PS é um interlocutor mais que seguro. E por essa mesma via, os seguristas e filhos de Assis que estão remetidos ao silêncio podem no futuro engendrar formas de confrontar Costa com uma até agora improbabilidade. Julgo que a liderança de Costa está sólida e muito dificilmente teria opositores à altura. Mas não é líquido que Costa não venha a ser obrigado a mudar o diapasão, oferecendo-se a perspectiva de acordos à direita (ou a fazê-lo voluntariamente). É certo que a irredutibilidade de um PCP anterior impedia entendimentos com o PS. Porém, também é certo que já tivemos deputados “limianos” provenientes do CDS para assegurar governações. O actual “esquerdismo” do PS não é uma constante inscrita na natureza das coisas. Com alguma facilidade pode converter-se num centrismo, sejam essas as conveniências das elites nacionais.

Já a recomposição da direita  passa por aquilo que muito explicitamente diz Manuela Ferreira Leite e que eu me permito reproduzir:

Da mesma forma que o Bloco de Esquerda e o PCP têm vendido a alma ao diabo, exclusivamente com o objetivo de pôr a direita na rua, acho que ao PSD lhe fica muito bem se vender a alma ao diabo para pôr a esquerda na rua”.

É um compêndio de verdades quando a mulher que queria suspender a democracia abre a boca. Verdades internas, sublinhe-se, e não verdade no sentido filosófico, pristino, e inabalável do termo. Internas ao PSD e às suas estratégias.

Devo dizer que não me parece que o BE e o PCP estejam a vender a alma ao diabo. Mas não tenho dúvidas nenhumas que o diabo – e para o PSD este parece surgir em múltiplos avatares e significações -, espreita mediante a possibilidade de alianças com o PS. Que este último é um partido volúvel,  já por diversas vezes o provou.

“Pôr a esquerda na rua” é uma expressão que só se poderia esperar de alguém de direita. Permitam-me a digressão pelo recente caso Trump e a boutade diplomática dos shithole countries. Anda toda gente atarefada a acusar Trump de racismo, quando na realidade ele é apenas o emblema de desumanização que tantos senhores do dinheiro envergam. É racista? Certamente. Mas isso é secundário. Tudo no comportamento de Trump mostra prepotência e desrespeito, que são as marcas de quem manda e quem tem dinheiro. Ora a direita, quando não finge, revela exactamente aquilo que é. Soa a pleonasmo; por isso é bom que frases como as de Ferreira Leite venham dar corpo às nossas intuições. Ficamos assim a saber que a direita não tem qualquer programa, qualquer ideia de governo, qualquer fito organizador, para além de “pôr a esquerda na rua”.

A esquerda faria bem em estar atenta. E não se escudar naquela atitude blasé de distanciamento intelectual que acha que as eleições do PSD não lhes diz respeito (como a atitude revelada por um plumitivo da nossa praça em conversa pessoal que me escuso aqui de reproduzir).  Diz e muito. Porque se Santana era um garante para um Tea Party incomunicável com a geringonça, e quem sabe enveredando por temas populistas para alargar a sua base de apoio, a aposta de Rio é a contrária. É, sem equívocos, uma aposta matemática. A direita sabe que a nova configuração designada geringonça transformou radicalmente o cenário das possibilidades políticas. O país sociologicamente de esquerda pode muito bem reincidir nesta distribuição e alijar a direita do poder por muitos e bons anos. A velha trapaça política de alianças entre PSD e CDS podem bem embater doravante com uma impossibilidade matemática. Para pôr a esquerda na rua há que transigir. E transigir significa recuperar o centro. O que significa que só na retórica o PSD se considera um partido do centro (nem sequer centro-direita, diria!). Contudo, para regressar ao poder, precisa deste como de pão para a boca. E a razão pela qual o pretende fazer, é porque sim: porque não há PSD sem açambarcar o poder. Um partido vazio de ideias, só tem a ideia de poder.

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