O MP no banco dos réus

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O papel do judiciário no andamento político das sociedades é um dos aspectos mais interpelantes da análise da esfera política actual. Três casos aparentemente díspares mostram a uma luz bem vívida os mecanismos que organizam esta imbricação, que a consolidam, e que a protegem.

O ministério público português tem entre mãos um terrível caso de peculato orquestrado pelo espírito maligno de dois anteriores secretários de Estado – do PS, como não podia deixar de ser – que gastaram à tripa forra… em livros. Em livros, meu deus! Haverá crime mais hediondo? Um até se deu ao luxo, reza a bufisse do ministério público, de comprar “revistas sociais”!, não se percebendo se são revistas de análise do social ou revistas da “socialight”. E que montantes escandalosos estão envolvidos neste verdadeiro saque ao Estado português? Catorze mil euros! É verdade, o ministério público empenhou recursos para, entre todos os casos possíveis, encetar uma caça impiedosa aos temíveis compradores de livros com o dinheiro do erário público. Suspeito que o verdadeiro caso de peculato é o do ministério público  português e do dinheiro que esbulhou aos cofres do Estado para pagar esta investigação. Curiosamente, nunca somos informados de tais montantes. Como se uma investigação fizz equivalesse a uma lex, e uma lex equivalesse ao estranho caso do secretário de Estado que comprava livros.

Custa-me a crer que no ministério público não haja gente que viva no mundo real. Um mundo onde qualquer presidente da câmara paga os seus passeios de fim de semana com o dinheiro do erário municipal. E onde qualquer director de departamento tem o telefone, gasolina e cartão de crédito pagos pelos nossos impostos. Todos sabemos que os gastos assim feitos são criteriosamente restringidos a gastos ao serviço da instituição, certo?

A desfaçatez com que o judiciário empenha recursos a investigar o uso de 14.000 euros, obrigaria a que o escrutínio fosse alargado a todos os funcionários que possuem tais regalias, como as enunciadas atrás. Então porquê estes e não outros? Porque a motivação é puramente política.

Há uma zona que está fora do controlo das nossas democracias actuais e que devia ser o maior garante dessas mesmas democracias. O caso Raríssimas não tinha qualquer interesse, excepto o facto de envolver um secretário de Estado e um ministro, que eram os alvos óbvios. O caso dos emails do Benfica visa directamente derrubar o ministro das finanças. Veja-se a precisão com que o Correio da Manha publica a notícia bombástica sobre Mário Centeno logo na semana seguinte ao seu entronizamento no Eurogrupo. Alguém duvida que por trás da poeira dos emails do benfica está um alvo bem definido que é Mário Centeno? Alguém pensa que a extensão de uma tal notícia não causa danos de imagem ao nível internacional? Alguém já acredita em coincidências desta natureza?

Dizem-nos que é normal haver fugas. Ainda hoje de manhã ouvia um sr. Advogado dizer que era habitual que as coisas assim se passassem: que as televisões soubessem de antemão onde as buscas iam decorrer e como; que o Correio da Manhã tivesse acesso a troços dos processos, etc. Nada disto é normal e temos obrigação de exigir esclarecimentos a quem de direito. Não nos podemos contentar com a aparente normalidade da bufisse. Tão-pouco a minha preocupação é com a devassa sem sentido nem pudor à vida privada das pessoas – embora constitua esta motivo de sobra para alarme. O que devemos é pedir esclarecimentos sobre quem ganha o quê com tais fugas. Como a consabida fórmula “não há almoços grátis” parece funcionar em todos os ambientes institucionais, o pressuposto é que se alguém dá a informação é porque há outrem que por ela está disposto a pagar. Como é possível que ao fim de décadas de atropelos das mais elementares liberdades e garantias dos visados pelos processos do Ministério Público, este ainda não foi passado a pente fino e várias das suas carcaças indiciadas por tráfico de influências? É que a venda da informação é crime. Mas isso não parece preocupar minimamente o MP que nunca se deu ao trabalho de investigar internamente com que linhas se cose este pipeline de informação para o exterior.

Isto são práticas comuns na América Latina. Polícia a levar algemados políticos sob o olhar atento das televisões é coisa que se tornou corriqueira no Brasil e na Argentina. Este poder gigante que parece não ter contrapoder está completamente fora do esquema de checks and balances com que achamos que as nossas democracias se equilibram. E o que é mais espantoso, ele infunde um respeito aos restantes actores institucionais que a mera alusão à podridão no reino da Dinamarca faz tremer os mais temerários. Trata-se do império do MP – e este, a espaços regulares, contra-ataca.

Verdade desportiva

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O jogo entre o Porto e o Sporting para a taça ctt foi um exemplo acabado da decadência do futebol português. Se houve jogo combinado na história do futebol nacional, foi o de ontem. A PSP devia investigar a fundo o que se passou ali, em vez de andar a pescar jogadores que viciam resultados na segunda divisão.

O que vi sustenta a minha desconfiança de que há um pacto entre Sporting e Porto para dividir os despojos da guerra contra o Benfica. Não julgo tratar-se de “ainda assim mais uma teoria da conspiração”… blá blá blá. Porque foram tantos os sinais e tão evidentes que custa acreditar que os comentadores de serviço disseram o disseram de cara séria. Brahimi sempre que podia enrolava-se com a bola à espera que viessem dois jogadores do Sporting que a chutassem contra as suas pernas para fora. Marega, um colosso que parece uma parede, deixava-se cair cada vez que Coentrão dele se aproximava; e Aboubakar numa situação de contragolpe, em que se encontravam dois para dois, tenta fazer um chapéu a Patrício a uns 15 metros da entrada da grande área. O Porto nunca construiu; passou meia hora da primeira parte sem fazer qualquer pressão sobre os jogadores do Sporting, e teve o primeiro remate – pasme-se! – aos 14 minutos!!! Julgo que até o Oliveirense fez melhor contra o Vitória. Mas o estendal de aldrabices não ficou por aqui. Sérgio Oliveira tendo a possibilidade de fazer um passe rasgado para o lateral que vinha a entrar na área do Sporting a grande velocidade, atira um pontapé sem nexo que vai sair pela linha de fundo, acto contínuo gesticulando e dando murros no relvado para inglês ver. Marega em frente de Patrício, com os defesas batidos, em vez de enviar um torpedo para dentro da baliza, faz um passe directo para as mãos do guarda-redes. E a cereja no topo da merda: os penalties. Raramente, nem naqueles jogos da América Latina em que se percebe perfeitamente que o resultado foi combinado, vi tão pouca convicção na marcação de penalties. Direcções tão milimetricamente estudadas para as mãos de ambos os guarda-redes… Para depois, num golpe de perfeccionismo milimétrico, Brahimi chutar ao lado da baliza.

Não, aquilo não foi sério. Até Conceição conhecido pelas suas reacções acaloradas de cada vez que lhe roubam um penálti ou um golo, parecia um boneco articulado quando o VAR lhe retirou um golo limpo marcado por Soares. Nem pestanejou, como se já estivesse à espera que algures no jogo algo assim iria acontecer. Mesmo Francisco J. Marques, que escoiceia como uma mula histérica nos seus posts, nada diz sobre o golo anulado!!?? E coincidência, Soares sai pior que estragado e sem perceber porquê, embora nós adivinhemos que foi substituído por ter feito aquilo que não podia fazer em circunstância alguma: marcar um golo antes do jogo ir para penalties. Mas mais estranho – Conceição vai para os balneários ver os penalties! Será que o fez porque tinha consciência que não conseguia disfarçar a falta de surpresa pelo resultado?

Este foi seguramente o pior jogo do Porto. Não porque o Porto fosse manietado por um poderosíssimo Sporting. Este último não jogou uma beata, aliás como já tinha feito com o Vitória. Mas é estranhíssimo que um Porto que tem como virtude fazer uma pressão louca sobre os adversários para depois sair a rasgar com os seus laterais – veja-se o jogo contra o Benfica – raramente o tivesse feito. E quando o fez, rapidamente se achava sem soluções lá na frente porque não havia a quem passar a bola e invariavelmente esta era passada para trás.

O conúbio entre Bruno de Carvalho e Pinto da Costa é mafioso. Já tinha achado estranho porque razão Jesus estando a ganhar por um-zero contra o Benfica não foi para cima deste – como é seu hábito há anos! – para matar o jogo e recuou as linhas quase como que a pedir um golo ao Benfica? Porque no pacto entre Bruno e Pinto, tal como o seu congénere entre Staline e Hitler, a Polónia fica dividida da seguinte forma: taça ctt para o Sporting e campeonato para o Porto. A taça de PT fica para quem a apanhar – o único jogo sério que vamos assistir entre os dois.

É uma pena que o Porto não jogue assim contra o Benfica. Mas quanto ao Sporting, cuidado, se jogar como jogou ontem, vai ser cilindrado por um Setúbal motivado – a menos que o comprem.

Hipocrisias

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Ontem assistimos a uma tentativa desesperada de salvar o programa supernanny. Desesperada no seu cinismo, na hipocrisia das razões invocadas, no formato preparado com que nos foi servido. Até a psicóloga que no programa tem trejeitos de objecto sexual, apareceu de cara lavada como uma simples mulher preocupada com a saúde mental das famílias.

Dizer que o supernanny abre a sociedade portuguesa para a discussão da parentalidade é o mesmo que dizer que a Casa dos Segredos é indispensável para promover a discussão sobre a conjugalidade. Ver o cinismo de Júlia Pinheiro a defender o seu negócio com argumentos de pedagogia e de funcionalidade social é um espectáculo apenas digno de… Júlia Pinheiro. Faz lembrar aqueles argumentos do André Ventura que à falta de material de campanha insistia que o assunto ciganos devia ser discutido pela sociedade portuguesa. Assim Júlia Pinheiro – e há que auscultar as afinidades electivas de uma elite comunicacional e política – veio agitar o fantasma do politicamente correcto afirmando que a sociedade portuguesa se escusava a debater as profundas preocupações trazidas à tona pela supernanny, e que esta sim, cumpria o seu papel de arauto das dúvidas e traumas das suas famílias.

Na verdade, tudo se resume ao dinheiro envolvido. Pagam-se direitos bem caros que têm que ver o seu retorno em compromissos publicitários entretanto firmados. É como ter as mãos a arder com um produto com o qual se está na iminência de deitar para o lixo um avultado investimento. Claro que nenhuma destas razões foram as invocadas. O caminho que se achou por bem trilhar foi o da função social de um programa de televisão. Como se 99% dos programas de televisão tivessem uma função social para além daquela que lhes é estritamente adstrita: reproduzir comunicação.

A páginas tantas a câmara abre e mostra uma outra câmara que está a filmar uma birra de uma menina com a mãe. Percebemos perfeitamente que a menina e a sua birra são uma actuação para a primeira câmara. Tudo nos gestos da menina é exagerado e denunciador da profunda consciência que esta possui de estar a ser filmada. Não admira portanto que familiares de uma das crianças do primeiro programa tenham vindo a terreiro dizer que não reconheciam a criança naqueles comportamentos. Pudera, a criança sabe assumir o papel da criança que entra no programa da supernnany que é diferente do seu papel enquanto criança em ambiente doméstico privado. Ela sabe ser actriz.

O que coloca o problema da exposição levantado por Rosário Farmhouse, a presidente da  CNPDPCJ e do seu marcado conservadorismo atávico. Dizer que as crianças não têm poder sobre os usos das suas imagens e que isso é uma grave violação dos direitos das mesmas, implicaria censurar os biliões de fotografias espalhadas pelas redes sociais com os petizes a fazerem caretas, a serem amamentados, etc, cuja decisão de publicação coube inteiramente aos pais. Quem nos diz que mais tarde o adulto, em tempos criança, não vai revoltar-se por ver as suas fotos expostas ao mundo? Ninguém nos diz. Mas é pouco provável.  Porque vivemos num tempo de exposição. Vivemos num tempo em que o adolescente, outrora criança, constrói a sua persona em torno da exposição; mais ainda, o eixo de construção da sua identidade de adolescente é estruturado pelo próprio acto da exposição. Ser adolescente actualmente não é dissociável da imagem dessa adolescência que se deixa na internet, da sua frequência e, mais importante, do seu impacto. Em grande medida esses são os sistemas de reconhecimento recíproco entre adolescentes: fotografias em festas, bêbados, a vomitarem, a exibirem-se sexual ou eroticamente… Compreender a adolescência actual tem que passar pela compreensão das imagens dessa mesma adolescência expostas nas redes sociais.

É por isso que os significados da exposição não podem ser os mesmos dos da Inglaterra vitoriana. Embora as duas senhoras convidadas como a parte crítica ao programa  supernnany tivessem dificuldade em concordar com esta simples inferência. E por isso é também difícil sustentar argumentos críticos da exposição das crianças quando quase diariamente crianças são expostas em programas televisivos enquanto entretenimento, na maioria dos casos não para outras crianças, mas para adultos! Aqui a versão é ainda mais perversa porque o entretenimento oferecido é o ser-se criança!

Contudo, nada disto é transgressor dos direitos das crianças. Ou melhor, a sê-lo, envolve uma leitura de tal forma literal desses direitos que equivaleria a levar à sua literalidade aquele direito fundamental que diz “todas as pessoas devem viver em condições de dignidade…”, e que o mundo se encarrega de desmentir diariamente.

O que diz Marcelo

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Aos poucos, o regresso do PSD ao que se convencionou chamar o “arco da governação” vai sendo consolidado. Neste caminho há uma peça chave cuja participação é essencial para se cumprir esse desígnio. Falo do presidente Marcelo Rebelo de Sousa.

Iremos assistir, nos meses que nos separam das próximas legislativas, a uma aproximação deliberada entre o discurso do presidente e a agenda política do PSD. Os temas começam a ser aventados tendo como cicerone o presidente. Por exemplo, o tema “modernização do Estado”. Iremos ver como ele integrará insistentemente o discurso de Rio nos próximos dias. Muito embora ele seja uma fórmula vazia, é um sound bite que compõe discursos que vogam num marasmo ideológico e cuja adesão funciona como um significado flutuante, ou seja: cabe lá tudo.

Por reforma do Estado devemos entender diminuição do mesmo? Descentralização das suas funções? Ou devemos entender despedimento de funcionários públicos; estreitamente dos serviços públicos; privatização de sectores da educação e saúde? Ninguém percebe. Até porque a ser qualquer destas hipóteses, há muito que vêm sendo praticadas. Qual é então o sonho adiado de que fala Marcelo? Suspeitamos que seja ver de novo o PSD no poder.

Mas este é apenas um dos temas que será lançado pelo professor-presidente para a arena política como forma coadjuvante ao discurso de Rio. Escrevi aqui que Marcelo funciona como um barómetro das tendências políticas – quem dele estiver perto beneficia do seu carisma actual. E tive o cuidado de explicitar que não se tratava de “quem dele se aproximasse”, mas antes de “quem ele, Marcelo, se aproxima”. Se num primeiro momento a aproximação foi a António Costa, na medida em que havia um deserto de elaboração política do lado do PSD de Passos; num segundo momento esta será feita a Rio. Por isso cuidado com as análises que apenas fazem contar com partidos da coligação e da oposição como opções válidas no xadrez político actual. A peça fundamental é Marcelo. Este é um espécie de rainha (no pun intended) que tem a capacidade de se mover em várias direcções e com maior velocidade que todas as outras peças.

Não considero despicienda uma tal capacidade. Já vimos coisas mais estranhas da parte do comportamento do eleitorado. Vimos recentemente um eleitorado dar de bandeja o governo de uma nação a um atrasado mental após dois mandatos de um dos políticos mais brilhantes que passaram pela história da democracia americana dos últimos 50 anos. E assistimos com consternado espanto à ascensão meteórica de um  puto de 31 anos, cujo único credo e mensagem é a do neoliberalismo mais desabrido, ao governo da Áustria. Ambos foram catapultados por sound bites. O primeiro com uma fórmula absolutamente vazia como “Make American Great Again”, a MAGA dos comediantes do Late Night Show. O segundo com a caça aos imigrantes e com a insistência na protecção das fronteiras (que o primeiro também partilha). O que importa é que ambos foram guindados para o poder através do impacto de fórmulas tão bombásticas quanto, em substância, inconsequentes.  Não estamos por isso a salvo que o mesmo aconteça em Portugal. E aqueles que julgam que uma maioria do PS, com Costa aos comandos, são favas contadas, fariam bem em ficar de sobreaviso e começar a engendrar possibilidades alternativas que combatessem a força dos sound bites.

Hoje a reforma do Estado; amanhã o perigo da extrema-esquerda no poder, ou outro qualquer sound bite que faça o povo tocar os sinos a rebate. Mesmo que desmentida pelos factos, a força destas fórmulas compactadas encontra-se na facilidade com que se manuseiam, como geram “centralidades” que permitem captar rapidamente uma visão do mundo, como descomplexificam a imbricação das categorias políticas traduzindo-a em símbolos unificadores. Neste sentido, constituem a real linguagem da política actual, que não passa mais pelas moções partidárias ou linhas programáticas. Por isso são tão eficazes estes sound bites. Facilmente captáveis pelos media e ecoáveis através dos seus dispositivos. E por esse facto devemos estar muito atentos pela forma como nos próximos tempos irão penetrar a opinião pública e publicada. Sobretudo quando orquestradas sob a batuta de um mestre da comunicação como é Marcelo.

O voyeurismo dos adultos… e o das crianças também!

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Começo por dizer que as crianças têm capacidades reactivas, agênticas, voluntaristas (de vontade) e manipulativas. Não são recipientes inertes onde os adultos vertem tudo o que entendem – seja lixo, seja educação – criando assim um frankenstein cujo controlo asseguram através de choques eléctricos.

Ainda ontem ouvia falar dum estudo onde se concluía que as crianças de 8 a 11 anos construíam a sua autoestima em torno dos “gostos” que recebiam no instagram. Estas crianças sabiam perfeitamente jogar o jogo da imagem e da apresentação para terem excedentes de autoestima; da mesma maneira que desenvolviam uma relação de frustração quando esse excedente materializado em “gostos” não se verificava. Isto significa que as crianças sabem perfeitamente as regras do voyeurismo contemporâneo e, simultaneamente, do narcisismo hiperindividual. É por isso que me custa muito crer que as crianças do programa Supernanny sejam vítimas inocentes que de repente se vêem confrontadas com a presença de uma preceptora balzaquiana que lhes vai fazer a vida num inferno, ou seja, pô-las na ordem. Inclusivamente não será um exercício assim tão rebuscado imaginar que muitas destas crianças pularam de contentes quando receberam a notícia que iriam aparecer num programa da sic. Aparecer num programa de televisão é, desde os cozinheiros imberbes até aos infantes cantores, um bafejar de intensa autoestima, um banho de status para meninos e meninas, um autoreconhecimento deslumbrado decorrente de uma audiência. Por isso, suspeito que estas crianças do programa da Nanny não são vítimas de nada, e que a sua exposição pública – com ou sem adestramento – é mais desejada do que a vinda do pai natal.

Em televisão, muito pouca coisa é espontânea. Menos ainda na reality tv, desde logo porque a presença constante de uma câmara nos leva a sobre-actuar, ou seja, a actuar para além do actuar que é já o modo de relação com os outros com quem interagimos. Nenhuma destas crianças está a ser vigiada por uma câmara secreta cuja existência desconhece estando assim a ser violada a sua privacidade. Julgo até que as crianças têm perfeita consciência que a sua actuação no programa pode reverter em “gostos”, quer nas redes sociais quer na sua vida comunitária, escolar, ou entre os pares.

Alguns comentaristas, humoristas e cronistas querem fazer passar a ideia de que a coisa é combinada à revelia dos filhos. Que os sádicos progenitores estão de conluio com a psicopata da super nanny mais com o canal de tv sic para esmifrar os pobres petizes, expondo-os à cobiça telegénica das multidões. Avento que um tal diagnóstico estará completamente errado. Imagino uma conversa entre os pais e os seus filhos que comunicam às suas crianças que em breve serão estrelas de televisão, que tal como os seus congéneres cozinheiros, cantores ou simplesmente miúdos a serem miúdos em programas de patetice, vão ter direito aos seus 15 minutos de fama. E imagino ainda a alegria das crianças por se sentirem as escolhidas, como nos programas do preço certo, em que as pessoas saltam das suas cadeiras perante a imensa felicidade de poderem jogar. As razões para o fazer serão indiferentes. Uns cozinham, outros desafinam, e estes agora são educados. O importante é que estão na televisão. Ou seja, são mediáticos.

Aquela frase estafada, que se tornou um cliché dos pré-milenials, que reza que na educação dos nossos filhos estamos destinados a falhar, tem qualquer coisa de autocomprazimento parental. Isto pode parecer uma contradição. Contudo se quisermos interpretar atentamente o que ela realmente diz é que apesar de tudo fazermos, tudo darmos, e tudo tentarmos, o nosso produto sofrerá sempre de algum grau de imperfeição. O que é o simétrico da “as nossas crianças são as melhores do mundo” – as mais espertas, as mais vivas, as mais engraçadas, as mais etc… Porque assim como a hiperbolização das crianças funciona para engradecimento dos pais (a herança do seu código genético é verdadeiramente o que está em equação) também a confissão do provável falhanço é uma desculpa antecipada que iliba esses mesmos pais. Os pais comprazem-se no seu autocentramento, e assim aos filhos é-lhes servido de bandeja um espelho de narcisismo autocentrado.

Dito isto, não significa que o programa não seja lamentável. Mas o que ele representa é a imagem fiel desta relação. E esta não tem a ver com pedagogia. Mas sim com a mediação das percepções de nós mesmos através da tecnologia do espectáculo e da “estrelização” (star-systemacização, se o termo existisse). Ora nesta, os pais, os filhos, e a nanny, são cúmplices. Três vértices de um triângulo produzido por entidade exterior que capta movimentos, acções e discursos. Lembram-se do credo dos behaviouristas do princípio do século passado? O desenvolvimento das crianças enquanto treino, mediadas por mecanismos de condicionamento! Transponha-se esta lógica para uma sala, quarto, cozinha, rodeada do aparato televisivo (câmaras, som, produtores, luz, etc) e temos ratinhos em cubas. O que me parece relevante, no entanto, é que a relação estímulo-resposta não existe entre a nanny e a criança, mas entre a televisão e a criança sendo a nanny a mera responsável pela canalização desse estímulo. Desde logo, porque a nanny, muito antes de praticar psicopedologia, está sobretudo empenhada em fazer um programa de televisão. Assim como os chefes que aturam os putos, não estão a formar cozinheiros, mas antes a contribuir para a produção, para a organização, de um programa de televisão.

Desta forma, o que está a ser condicionado não é de todo o comportamento da criança na relação pedagógica que esta mantém com os adultos, mas sim a relação da mesma com o aparato mediático, o que é interno à casa e o que se encontra no exterior. Digamos assim que são crianças instruídas para agirem e pensarem (e pensarem-se) num reality show. A criança que é colocada na cadeira não está verdadeiramente a ser castigada, daí que não estejamos a assistir a uma violência em directo. O castigo tem que ter sempre um elemento de negação de um desejo – a cadeira em substituição do brincar com os amigos, o quarto em substituição da sobremesa, e por aí fora. Ora a cadeira do show da supernanny é o centro da ribalta – a criança está naquele momento a ser o foco de toda a atenção… que para mais ela sabe que em muito extrapola a situação presente em que se encontra. Não. As crianças são tanto vítimas, como os pais: ambos apanhados na ambição desmesurada de tudo transformar espaço televisionável. A pergunta que ainda não foi feita por ninguém é quanto, e se algum, recebem pais e crianças para alinharem nesta pornopedagogia?

Onde vais ó Rio que eu canto?

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Rio percebeu, e justiça lhe seja feita, que a única forma do PSD regressar ao poder é resgatando novamente o eleitorado flutuante do centro.

É portanto errada a análise de tantos porta-vozes da direita “inorgânica”, nos jornais e blogs, que consideram que a única maneira de combater a frente de esquerda é através da união da direita, tornando-a mais conservadora. O texto de Henrique Raposo é um ex libris dessa posição. Rio é mais esperto que todos eles e sabe que a única maneira é partindo o PS ao meio. Até aqui a contestação interna a Costa, e tantos que estão verdadeiramente incomodados no interior do PS com a aliança com as esquerdas, não tinha pontes com o PSD porque o partido de Passos optara por uma estratégia de terra queimada e de isolacionismo. Tal estratégia, ao invés de consolidar a direita, apenas extremava posições, enfranquecendo-a. Desde logo, impedia que uma facção considerável do PS quisesse inclinar as orientações para acordos com o PSD, deixando assim de se encontrar (na lógica de tais senhores) refém do partido comunista. Mas o que sucederá quando Rio começar a estender uma mão cordata e voluntária a esse mesmo PS?  A oposição interna a Costa encontrará por fim a justificação que lhe faltava para se reorganizar, apelando para a costela mais liberal do PS contra o esquerdismo insuflado da facção afecta ao primeiro-ministro. Ou seja, o espírito de geringonça começará a ter uma alternativa interna, e por sua vez, esta alternativa encontrará um interlocutor válido no exterior, mas desta feita no quadrante político de direita. Passos e o seu trauma tornava qualquer encontro improvável, senão mesmo impossível. Mas um Rio que se diz disposto a viabilizar um governo PS é um interlocutor mais que seguro. E por essa mesma via, os seguristas e filhos de Assis que estão remetidos ao silêncio podem no futuro engendrar formas de confrontar Costa com uma até agora improbabilidade. Julgo que a liderança de Costa está sólida e muito dificilmente teria opositores à altura. Mas não é líquido que Costa não venha a ser obrigado a mudar o diapasão, oferecendo-se a perspectiva de acordos à direita (ou a fazê-lo voluntariamente). É certo que a irredutibilidade de um PCP anterior impedia entendimentos com o PS. Porém, também é certo que já tivemos deputados “limianos” provenientes do CDS para assegurar governações. O actual “esquerdismo” do PS não é uma constante inscrita na natureza das coisas. Com alguma facilidade pode converter-se num centrismo, sejam essas as conveniências das elites nacionais.

Já a recomposição da direita  passa por aquilo que muito explicitamente diz Manuela Ferreira Leite e que eu me permito reproduzir:

Da mesma forma que o Bloco de Esquerda e o PCP têm vendido a alma ao diabo, exclusivamente com o objetivo de pôr a direita na rua, acho que ao PSD lhe fica muito bem se vender a alma ao diabo para pôr a esquerda na rua”.

É um compêndio de verdades quando a mulher que queria suspender a democracia abre a boca. Verdades internas, sublinhe-se, e não verdade no sentido filosófico, pristino, e inabalável do termo. Internas ao PSD e às suas estratégias.

Devo dizer que não me parece que o BE e o PCP estejam a vender a alma ao diabo. Mas não tenho dúvidas nenhumas que o diabo – e para o PSD este parece surgir em múltiplos avatares e significações -, espreita mediante a possibilidade de alianças com o PS. Que este último é um partido volúvel,  já por diversas vezes o provou.

“Pôr a esquerda na rua” é uma expressão que só se poderia esperar de alguém de direita. Permitam-me a digressão pelo recente caso Trump e a boutade diplomática dos shithole countries. Anda toda gente atarefada a acusar Trump de racismo, quando na realidade ele é apenas o emblema de desumanização que tantos senhores do dinheiro envergam. É racista? Certamente. Mas isso é secundário. Tudo no comportamento de Trump mostra prepotência e desrespeito, que são as marcas de quem manda e quem tem dinheiro. Ora a direita, quando não finge, revela exactamente aquilo que é. Soa a pleonasmo; por isso é bom que frases como as de Ferreira Leite venham dar corpo às nossas intuições. Ficamos assim a saber que a direita não tem qualquer programa, qualquer ideia de governo, qualquer fito organizador, para além de “pôr a esquerda na rua”.

A esquerda faria bem em estar atenta. E não se escudar naquela atitude blasé de distanciamento intelectual que acha que as eleições do PSD não lhes diz respeito (como a atitude revelada por um plumitivo da nossa praça em conversa pessoal que me escuso aqui de reproduzir).  Diz e muito. Porque se Santana era um garante para um Tea Party incomunicável com a geringonça, e quem sabe enveredando por temas populistas para alargar a sua base de apoio, a aposta de Rio é a contrária. É, sem equívocos, uma aposta matemática. A direita sabe que a nova configuração designada geringonça transformou radicalmente o cenário das possibilidades políticas. O país sociologicamente de esquerda pode muito bem reincidir nesta distribuição e alijar a direita do poder por muitos e bons anos. A velha trapaça política de alianças entre PSD e CDS podem bem embater doravante com uma impossibilidade matemática. Para pôr a esquerda na rua há que transigir. E transigir significa recuperar o centro. O que significa que só na retórica o PSD se considera um partido do centro (nem sequer centro-direita, diria!). Contudo, para regressar ao poder, precisa deste como de pão para a boca. E a razão pela qual o pretende fazer, é porque sim: porque não há PSD sem açambarcar o poder. Um partido vazio de ideias, só tem a ideia de poder.

Zeitgeist

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Na literatura contemporânea há uma marca interessante de explorar. A multiplicidade de registos que competem com a narrativa, ou que com ela se imbricam, ou a substituem a espaços, intercalando momentos novelísticos com efeitos de realidade em discurso directo. Svetlana Aleksievitch, a prémio nobel russa, explora a fundo esse efeito, construindo as suas narrativas com base nos discursos dos seus entrevistados. Um jornalismo que encontra a narrativa do lado dos próprios narrados que já não precisam mais da imaginação novelística, antes imprimem a sua própria imaginação aos relatos que lhes são pedidos tecendo assim a estrutura romanesca como que em torno de uma “verdade” experiencial.

É curioso que numa época em que a imaginação digitalizada e computorizada deixou de ter fronteiras para o que é possível representar, a literatura recupere a voz dos seus alvos preferenciais dando-lhes o palco e retirando-se respeitosamente para os bastidores. Por exemplo, Laetitia de Ivan Jablonka, é um relato jornalístico, sociológico e antropológico que mostra uma frança pobre e destituída, mas escondida pelo manto das instituições da república. Uma obra de natureza sobretudo sociológica que é premiada com um prémio literário (o Medicis). Jablonka convoca peças jornalísticas, relatos das pessoas envolvidas, a sua própria perspectiva sobre o caso da rapariga assassinada para assim construir uma narrativa que está na fronteira do ensaio com a literatura.

O que liga Aléksievitch a Jablonka é a constatação de que certos temas só podem ser falados através de relatos desapaixonados e objectivos. Sem interferência do literário propriamente dito; ou melhor, sem a sua subjugação total.

Uma das melhores penas a caracterizar a sua época, os costumes, as idiossincrasias – e por isso mesmo, os seus cinismos e mentiras – foi Maupassant. Sente-se que Maupassant retira grande parte do seu material daquilo que foi encontrando na sua vida, nos acontecimentos quotidianos, nas histórias que lhe foram contadas, etc. Maupassant tem a virtude de ser o melhor contista de todos os tempos; ninguém, na história da literatura, conseguiu em poucas páginas condensar um tal fluxo da multiplicidade dos sentimentos humanos, da sua moral ou da sua argúcia. E o naturalismo de Maupassant vem obviamente a contrapelo do embrionário modernismo que viria a fazer escola posteriormente: escola de excessos e experimentalismos. Se o simbolismo da frase de Rimbaud “é preciso ser absolutamente moderno” marcava o ritmo de uma época de apostas incondicionais, talvez o mote hoje deva ser transmudado para “é preciso ser absolutamente híbrido”.

Veja-se Lincoln no Bardo de Saunders, uma paródia que convoca diversos registos tais como a investigação histórica e jornalística, o teatro, a ficção científica, os escritos de horror de Poe a Lovecraft. Com tal mestria se imbricam estes registos, que Lincoln no Bardo emerge em simultâneo como um prodígio de experimentalismo e, dir-se-ia com algum risco, um naturalismo de uma nova espécie. Por exemplo, as descrições das sumptuosas recepções na casa dos Lincoln (o presidente e a primeira-dama) são-nos dadas através de peças jornalísticas contemporâneas aos eventos ou então de ensaios históricos que sobre ele se debruçaram. E são oferecidas numa polifonia de interpretações e pontos de vista que compõem como um movimento de câmara abrangente que se fosse deslocando e captando os acontecimentos a partir de vários ângulos. Esses ângulos encerram igualmente um teor político, posto que há leituras politicamente críticas dos acontecimentos em apreço e outras mais simpatizantes. Da mesma forma, o retrato desenhado da sociedade russa por Aléksievitch, sobretudo “O fim do homem soviético” recupera as diversas vozes envolvidas num novo tempo pós-comunista; vozes de esperança ou de desalento, que vão esboçando as fronteiras, as pertenças, as localizações sociais – uma panóplia sociográfica da sociedade russa pós-comunista. Esta é uma prosa à boa maneira dos ensaísmos sociológicos, mas que não observa, por conseguinte não se embrenha na prática etnográfica como foi tradicional em tantos estudos de comunidade. Pelo contrário, deixa as pessoas falarem das suas experiências e dos seus pontos de vista recusando a triagem heurística da narrativa em ciências sociais. Ao contarem as suas histórias estão a narrar fragmentos da grande narrativa da emergência de uma nova sociedade russa pós-comunista. Prosa não ficcionada que se lê como o imenso romance da sociedade russa. Não temos Pierres nem príncipes Bolkonskies; não há verdadeiramente heróis, e é apropriado para um olhar desencantado onde apenas encontramos vilões. Mas quer estes quer as simples (e na realidade nada disto é simples) pessoas que deixam o seu testemunho não têm nada de épico. Nem os acontecimentos que vão sendo narrados e que oferecem fragmentos de uma sociedade russa em mudança possuem um pendor de grandiosidade histórica. Não se trata das invasões napoleónicas nem tão-pouco da Rússia feudal confrontada com os ventos da modernidade. Pessoas que perdem a casa e que são obrigados a implorar a familiares por um tecto; ou mulheres arrivistas e ambiciosas para quem o mundo do dinheiro é o santo e a senha da sua existência: estes são os personagens que anunciam o fim do homem soviético, e que à sua maneira autobiográfica caracterizam categorias específicas desta mesma sociedade.

Qualquer destes autores foi considerado suficientemente inovador para merecer os maiores prémios literários. O Nobel, o medicis, o Man booker, e não por acaso qualquer deles arrisca o hibridismo, a fronteiras entre a ficção e a prosa jornalística ou ensaística. Prémios que se adequam a um tempo que concedeu o Nobel a Bob Dilan, um cantor, ou um canta-autor, mas de qualquer das formas um badaladeiro com letras acutilantes. De tal maneira o comité do nobel estava fascinado com esta incursão por terrenos estranhos, este atravessamento de fronteiras estilísticas, que decidiu, naquilo que constituiu um erro crasso, dar o nobel ao cantor. Isto não é significativo pelo tremendo faux pas que se veio a revelar; mas é quanto às preferências da intelectualidade relativamente à obra escrita. E tem vindo a replicar-se em inúmeros júris e especialistas literários.

Tais processos têm primado pelo fascínio pelo híbrido, isto apesar de alguns autores premiados continuarem a seguir esquemas literários bem convencionais. Kazuo Ishiguro está mais perto de Tolkien ou Conan Doyle do que da “loucura” de Pynchon ou Vonegut. Contudo,  o hibridismo das temáticas e registos atravessa os seus romances. Uma escrita repleta de rasgos imaginários e fantasistas, como em Never let me go ou Burried Giant, onde a ficção científica se confunde com o romance histórico, no último com a aparição de ogres e dragões na Inglaterra saxónica, aproxima mais o autor de objectos como A guerra dos tronos, do que do romance histórico ao estilo Ivanhoe de Scott. O próprio autor menciona as suas diversas fontes de inspiração como estando na música pop – sobretudo Cohen – ou no cinema; e incita à transgressão dos estilos como método de escrita.

Entre as ciências sociais e o literário as divisões foram por diversas vezes consideradas difusas. Bauman, por exemplo, defendia uma sociologia literária. O livro de Jablonka, em método, não se afasta muito dos camponeses bearneses que Bourdieu estudou; ou melhor, aproxima-se na sua intencionalidade de observação, desvelando, a partir de um caso concreto, um conjunto de modificações culturais na sociedade francesa. Mas afasta-se e muito porque não possui qualquer objectivo heurístico. Em rigor há um aproveitamento implícito (ou não tanto) de um certo jornalismo sensacionalista. Porque se o caso dos solteiros do Béarn não suscitava grandes comoções quando foi escrito (e continuaria, suponho, a não suscitar), já o mesmo não pode ser dito do rapto e assassinato de Laetetia. Bourdieu poderia ter escrito um livro diferente, caso a sua intenção fosse ter um público para além da academia. Um início sobre sistemas de parentesco na sociedade camponesa tradicional é de molde a desmobilizar até o mais afoito dos leitores não especializados. Mas a obra é propositadamente académica e intencionalmente confinada aos seus circuitos e protocolos. Jablonka poderia ter escrito um ensaio sociológico sobre o assassinato de Laetetia, mas em vez disso escolheu uma via entre o jornalismo de investigação, o romanesco e o ensaístico, que não quadra de maneira nenhuma nos sistemas de apreciação académicos. Mas que foi rapidamente assimilado pelas lógicas do cânone literário. Lógicas instituidoras, está bem de ver. Na medida em que consagram certos objectos e abrem campos interpretativos para a sua exploração e aprofundamento posterior. Ou seja, a consagração de Saunders e o seu Lincoln abre espaço para novas e mais arriscadas tentativas de jogar com o hibridismo dos registos.

Pode-se dizer que nada disto é novo; que pelo contrário parece tudo moderno demasiado moderno. Não fez Pound todas as violências e mais algumas à poesia incorporando relatos e referências exteriores às suas regras? Ainda assim o efeito pretendido era o do estranhamento. Um objecto de difícil classificação, Os Cantos. Um acumular de linguagens que destruíssem de uma vez por todas as tradicionais fronteiras entre prosa e poesia. E um certo classicismo… renovado.

Nenhum dos autores mencionados atrás, e ganhadores de prémios, possui um projecto tão desestabilizador dos códigos literários. Julgo aliás que a sua intenção é bem diferente. A era em que vivemos – em que eles vivem – prima pela confusão de estilos e registos. No mesmo dia somos capazes de passar das páginas do jornal, para uma série de televisão, e depois para um filme de cinema, acabando a ler um grande romance histórico. Esta transumância de estilos narrativos que a nossa época de consumos rápidos e sucessivos nos oferece teria de alguma forma de instilar a própria matéria e processo da escrita. Ninguém vive numa redoma – e mais ainda actualmente: não se pode sequer inventar uma redoma.

Apesar (ou para além) destes detalhes interpretativos, o que interessa é saber se são bons livros. E são.

A inquisição feminina

Quando o conservador beato Henrique raposo vem, na sua crónica do expresso de ontem, apoiar o #metoo, sabemos que estamos na merda. O seu apoio – aliás: incitação à denúncia por parte das mulheres portugueses -, a um movimento que prima facie rescenderia ao enxofre do politicamente correcto, cauciona aquela admoestação velha de barbas da Judit Buttler (que já aqui mencionei) segundo a qual a agenda do sexual harassment é fundamentalmente de direita puritana. Ver um James Franco completamente encaralhado num directo televisivo a ter que se justificar em público, escolhendo muito bem as palavras, o seu comportamento sexual agora exposto no twitter por um antigo engate, anda muito perto de assistir em directo a um tribunal inquisitorial. Até os termos são muito semelhantes: todos estes homens sem excepção afirmam que, caso tenham procedido mal com as suas acusadoras, doravante irão corrigir os seus comportamentos, que estão prontos a fazer viagens de autoconsciencialização que os libertem dos seus demónios. Como os acusados de heresia de antanho incitados a confessar os seus pensamentos e a jurarem que no futuro serão os mais fiéis dentre os fiéis – a linguagem, se excluirmos a marca dos tempos, é tão similar que dá medo. Mesmo assim, quase nunca escapavam à tortura – porque o objectivo de facto era a tortura, sendo a confissão o seu mero desencadeador. A tortura actual é a exposição pública e destruição das carreiras destas pessoas.

Felizmente que da França, país das liberdades republicanas, surge um rasgo de sanidade na maré de desvario que grassa do outro lado do atlântico. A carta das 100 mulheres contra o #metoo, subscrita por pessoas como Catherine Millet ou a mais mediática Catherine Deneuve diz coisas tão prosaicas quanto estas:

Or c’est là le propre du puritanisme que d’emprunter, au nom d’un prétendu bien général, les arguments de la protection des femmes et de leur émancipation pour mieux les enchaîner à un statut d’éternelles victimes, de pauvres petites choses sous l’emprise de phallocrates démons, comme au bon vieux temps de la sorcellerie.

E mais ainda

Cette fièvre à envoyer les « porcs » à l’abattoir, loin d’aider les femmes à s’autonomiser, sert en réalité les intérêts des ennemis de la liberté sexuelle, des extrémistes religieux, des pires réactionnaires et de ceux qui estiment, au nom d’une conception substantielle du bien et de la morale victorienne qui va avec, que les femmes sont des êtres « à part », des enfants à visage d’adulte, réclamant d’être protégées.

E sobretudo

nous ne nous reconnaissons pas dans ce féminisme qui, au-delà de la dénonciation des abus de pouvoir, prend le visage d’une haine des hommes et de la sexualité. Nous pensons que la liberté de dire non à une proposition sexuelle ne va pas sans la liberté d’importuner.

 e para terminar

Les accidents qui peuvent toucher le corps d’une femme n’atteignent pas nécessairement sa dignité et ne doivent pas, si durs soient-ils parfois, nécessairement faire d’elle une victime perpétuelle. Car nous ne sommes pas réductibles à notre corps. Notre liberté intérieure est inviolable. Et cette liberté que nous chérissons ne va pas sans risques ni sans responsabilités.

Julgo que as razões invocadas pela belíssima carta destas 100 mulheres tocam no essencial dos alçapões dum movimento como o #metoo. E entre eles, porventura o mais significativo, é a infantilização das mulheres, bem retratada nos seus relatos e testemunhos, como se o sexo e a sexualidade fosse um campo com regras pré-escritas, devedoras de uma normatividade da consensualidade, onde zonas de risco ou de aleatoriedade – tantas vezes geradoras de ansiedade – fossem rasuradas. É óbvio que não podemos escapar à sensação que muitas destas mulheres estejam a assumir um papel, que a sua verdadeira vingança não seja a recuperação ou reformulação de um princípio de justiça, mas a absolvição individual de um arrependimento retrospectivo mediante a memória de actos praticados que, conjecturamos, não resultaram conforme o calculado.

I, twitter

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Os acontecimentos que se sucederam à cerimónia dos globos de ouro e que envolveram James Franco, mostram bem como a “luta” das mulheres tem duas caras. Acto contínuo a Franco ter sido agraciado com o prémio de melhor actor, uma ilustre desconhecida veio tweetar acusações de abuso sexual contra ele. O metoo transforma-se assim facilmente em canal para vendetas pessoais e revanches mal digeridas. Neste contexto, em que acusação pessoal se torna arma política, ou arma para fazer política, na medida em que as mulheres envolvidas se assumem como porta-vozes de uma “luta”, pode bem dizer-se que Trump é o mais contemporâneo dos políticos. Verdade seja dita, e em abono da sua tão autoproclamada genialidade, Trump percebeu perfeitamente como se faz política actualmente: a sua fire and fury propagada através de tweets que visam tudo e todos é a mais actual das linguagens de protesto. É precisamente neste sentido que a América do metoo encontra o presidente Trump na sua mais escandalosa proporção do “fazer notícias” através de redes sociais. E que os espasmos pretensamente libertários do metoo que prometem uma terra de mel e abundância a uma categoria social devem ser vistos como sintomas de modificações profundas nas linguagens e modos de fazer política.

Dentro daquela lógica algo ociosa de destacar acontecimentos nos anos transactos existe para mim um acontecimento que se singularizou e que pode bem ser colocado com certeza topológica no intervalo de 2017. Trata-se das “fake news”. As fake news não podem ser vistas como o delírio de um populismo oportunista e, quase se diria, senil. Elas são o fenómeno político mais importante desta época porque inauguram um tempo novo nessa mesma política. Por isso merecem com propriedade o destaque que advém da sua singularidade.

Primeiro, não se trata apenas de notícias falsas que são disseminadas. Esta é uma prática antiga e quem melhor do que Shakespeare para a ter caracterizado em tão diversas instâncias poéticas (Iago não lança o opróbrio sobre Othelo?, e etc). A diferença é que desta feita são social bots a espalharem as notícias falsas. Ou seja, a capacidade de inventar factos políticos (e não só) foi deixada à eficácia de algoritmos que agem como se fossem utilizadores humanos das redes sociais. E isto é francamente novo.

As fake news têm duas caras, como a moeda. Por um lado, são atiradas a torto e a direito como defesas contra aquilo que os presidentes-ditadores do momento designam como ataques pessoais. É assim com Trump; é assim com Putin; e seria com Xi Jinping caso houvesse liberdade de imprensa na China. Qualquer coisa que não seja do seu agrado é imediatamente arrolada ao ataque pessoal, retirando-lhe assim o potencial crítico objectivo.

O metoo, pressupõe-se, não é alimentado por fake news, mas também não é relevante, porque o contraditório fica imediatamente subterrado num primeiro impacto devastador que a sua super-disseminação provoca. Até ver, o metoo tem pessoas reais que fazem as acusações. Mas a forma como estas surgem desarticuladas de qualquer outro discurso ou instância, não anda longe dos artificialismos dos algoritmos que se fazem passar por interlocutores nas redes sociais criando um efeito de realidade.

Por exemplo, as estórias que são despejadas no twitter pelas vítimas do metoo podiam bem constituir conversa de café – meninas que acusam homens de estes terem proposto felacios em passeios estivais pela costa oeste dos estados unidos. Escândalo! Seria de facto conversa para ter numa noitada de copos e drogas entre amigas. Contudo, catapultado pelo twitter ganha uma dimensão pública – de opróbrio público, sobretudo – que advém mais do próprio meio do que do seu conteúdo.

Os social bots são uma história semelhante. Tudo indica que fizeram com que Hilary Clinton fosse arrastada pela lama na campanha eleitoral de 2016. O sistema é engenhoso. Criam-se interlocutores falsos nas redes sociais que agem como respondentes humanos e cuja capacidade de difundir boatos é centuplicada para além daquilo que seria o natural caso fossem humanos a disseminar esses mesmos boatos. Se isto parece teoria da conspiração é porque elas existem: as teorias e as conspirações. Do lado das teorias é antiga a necessidade de conhecer a velocidade em que as notícias se deslocam quando partilhadas por redes sociais. Desde os anos 40 pelo menos há números e velocidades que as calculam. Que o comportamento dessa difusão seja actualmente semelhante ao das epidemias, ratifica a ideia de algo que se torna viral. E assim, quer os tweets do metoo quer os do presidente cum genius in office Donald Trump imitam esse mesmo comportamento. Em contraposição, que a política esteja actualmente a ser feita através de sistemas virais, speeks volumes da necessidade da sua erradicação, e não apenas em sentido metafórico. É bom começarmos rapidamente a pensar em antídotos e antivirais que sustenham as epidemias para níveis de contenção suportáveis sob pena de não distinguirmos mais política e doença.

Ano novo, vida nova?

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Começou a charanga do PSD a funcionar em pleno logo com a entrada do ano. Estas coisas nós já as vimos e revimos vezes sem conta. E até um dos protagonistas é useiro e vezeiro nestas andanças.

O PSD é um partido de aldrabões. Não é com grandes análises que nos devemos debruçar sobre o seu comportamento e tácticas. Fico sempre perturbado quando ouço aquela frase melada “o psd é um partido indispensável à democracia”. Sério? Como se um partido, bem para além daquilo que fosse a sua actuação, tivesse um lugar cativo na indispensabilidade democrática. Nem o PSD me parece indispensável, nem o seu comportamento como oposição – como se tem visto ultimamente – parece acrescentar o que quer que seja à dita democracia. Repito: o psd é um partido de aldrabões. Mas é preciso substanciar uma afirmação tão forte.

Primeiro, ideologicamente não expressa àquilo que vem. Isto não é de somenos, sobretudo quando temos os vates do comentário político como António Costa Pinto a repetirem à saciedade que não são os aspectos ideológicos que interessam analisar nesta contenda. Não são porque, como de costume, eles estão todos encobertos. Mas nós sabemos (oh se sabemos!) que assim que se apanham no poder eles assomam como baleias a expelirem ar à superfície. É uma pena a memória ser um sistema tão falível e tão desordenado, senão bastava uma compilação das formulações utilizadas pelos ministros e ministras do governo de Passos para acedermos ao adn do PSD actual. Curiosamente, várias foram as análises durante esses funestos quatro anos que mostraram claramente com que linhas se cosiam as suas fatiotas. A sua singularidade não é assim tão grande para que não possamos encontrar congéneres nos conservadores ingleses de May ou no PP de Rajoy. Os modelos de postura política não são assim tantos para que os partidos não se copiem uns aos outros.

Segundo, se dizer que o PSD é um partido de poder, é um truísmo, e não tem, em substância, nada de moralmente reprovável, dizer que o psd é formado por uma elite que se julga com direito ao poder, é outra coisa. E essa já é uma análise do carácter e da atitude dos seus militantes e quadros. Até porque o PSD, por mais que os candidatos elenquem 221 medidas nas suas moções, não tem nenhum programa substancialmente diferente ao dos anos da troika. É preciso insistir neste ponto: o psd não foi forçado a governar daquela maneira pelas imposições da troika – o psd aproveitou as imposições da troika para governar como sempre verdadeiramente quis. Este pormenor é essencial e deve sempre levar-nos a rejeitar qualquer aproximação a uma putativa social-democracia que os nóveis candidatos à liderança do PSD queiram ensaiar. Lembram-se que Santana insistia com denodo parlamentarista na sigla PPD-PSD? Porque para ele o Popular teria sempre precedência em relação à social-democracia. E nesse sentido está muito mais próximo do PP de Rajoy ou dos tories de May do que de qualquer social- democracia do norte da Europa. Estou convencido que esses são os modelos quer para Rio quer para Santana – a May e o Rajoy. E por isso devemos ter medo, porque também esses são uns aldrabões. Mais uma vez a memória a atraiçoar-nos. Porque não relembrar o amor inabalável que Durão nutria por Aznar? Não há social-democracia nenhuma aí, assim como não há nos tories de May.

Aldrabões portanto, os dois candidatos, vertebrando o seu discurso em torno de uma mirífica social-democracia que nem eles querem que exista nem fazem tenções de aprofundar. Mas veja-se por exemplo como o espaço é calculado com alguma atenção. Se por um lado, agitam a bandeira da social-democracia na vontade de “reinventar” Portugal; por outro afirmam que acordos com a esquerda nem que venha o diabo

                                                          (que parece não chegar).

O que estes dois candidatos sabem é que o jogo político mudou significativamente. Dantes era passar o PS por alguns pontos percentuais e ter o CDS ali à mão de semear, e eram favas contadas – tinham o governo da nação no papo. Mas na era após-geringonça as coisas modificaram-se; a táctica tem que ser diferente. O PSD não pode continuar a falar de “gorduras do Estado” ou de “liberdade dos mercados financeiros” (Volta memória!) como era o seu repertório com Passos e nos governos anteriores a Passos. Tem de falar de “social-democracia do século XXI”, como se de repente as duas sumidades tivessem engolido um catarpácio do Esping Andersen. Não te fies, oh Zé, que isto é tudo tanga. Rio, com certeza não deixou de ser um arrogante, barão do norte, que governou a Câmara do Porto como o seu pequeno condado. E Santana, apesar daquelas aparições tribunícias com António Vitorino, não deixou de ser um populista, show-offer (se a palavra existisse) que foi aquando do seu consulado lisboeta ou na breve passagem pelo governo. Ou como ministro da cultura, deus meu, lembram-se dos violinos de Chopin? Como é que estas coisas caem no esquecimento?

                        (volta memória – estais perdoada!)

Terceira, a verdade é que o PSD consegue sempre o mesmo feito. A excessiva mediatização da sua eleição para líder dá uma aparência de indispensabilidade. Note-se, é a sua excessiva mediatização, nada mais. Não é a clareza das suas ideias, a natureza revolucionária destas, ou a novidade que possam trazer. Aliás, este é sempre um trabalho que fica para a esquerda fazer. Lembro-me dos incansáveis escrutínios ao programa de António Costa quando este se apresentou como candidato. Do tarado do José Gomes Ferreira a esmiuçar todos os números e mais alguns. Não seria, por exemplo, tempo de pedir o mesmo detalhe, a mesma exigência, com as propostas vindas da direita? Essa necessidade não existe porque os programas ou orientações dessa mesma direita são vistos como verdades inscritas na ordem das coisas. Nem nunca o programa de Passos em 2011 foi tão escrutinado como seria o de Costa quatro anos depois. E o mesmo se vai passar com os dois candidatos agora presentes às eleições internas do PSD. Esta falta de escrutínio – este desinteresse interessado, parafraseando um douto do funcionamento político – por parte de opinadores e especialistas facilita bem a vida aos candidatos; e em grande medida é isso que lhes permite passar pelos pingos da chuva apelando para outras dimensões, emotivas, fleumáticas, carismáticas que não expressam directamente a prática sobre a política.

                                        (Vão ser meses difíceis… e nauseantes… os que se avizinham)

Afinal o que querem estes candidatos? Querem aumentar ou diminuir os impostos aos ricos? Diminuir os custos do trabalho? Flexibilizar as condições laborais? Fechar serviços públicos? Privatizar o pouco que resta para privatizar? Não sabemos. E provavelmente, tão cedo também não iremos saber.

                                (e o resto é silêncio)