Raríssimos?

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O caso raríssimas será assim tão raro ao ponto de consternados exclamarmos: – Casos destes são raríssimos! Tenho para mim que o escândalo das raríssimas é apenas uma pequena espreitadela ao funcionamento real das ipss em Portugal. O mundo obscuro das ipss, com as suas conivências com a igreja católica, que abocanha o sector social em Portugal, está por deslindar. E é necessário uma guerra interna numa ipss, com o seu quê de feio e de mesquinho, para desvelar as artimanhas que alguns de nós suspeitamos estarem bem mais disseminadas do que a excessiva atenção na raríssimas permite crer.

O sector das ipss é um canto mal explorado da economia nacional. Não apenas porque a igreja lança o seu manto, nada diáfano, sobre a maioria das suas operações e constituição, como também porque se trata de um sector que funciona tanto através de donativos como de projectos, na sua grande maioria financiados através de dinheiro do Estado.

Assim, o caso raríssimas revela com grande claridade os arrivismos das pessoas que se encontram a capitanear tais instituições. E mais ainda, a ansiedade de status em que giram tantos destes projectos. Por exemplo, chamar doutora e doutor a pessoas que não têm o grau é um dos sinais mais destacados desta escada arrivista e autoproclamatória onde se alcandoram tantos não-doutores e não-doutoras. É importante o título de doutor para gerir uma instituição destas? Longe disso! O que o fenómeno mostra é a construção de fachada em que vários destes projectos subsistem. Olha-se para a raríssimas e vê-se portas com a fotografia da sua presidenta, ao melhor estilo de culto de personalidade kim ill sunguista. O que significa esta ansiedade pela visibilidade?

Note-se: isto não é uma maçã podre. O que acontece na raríssimas é fruto da sua condição estrutural e cultural. Por um lado, a ambivalência estrutural de habitar simultaneamente o mundo da necessidade – da ajuda social, do suporte familiar, em última análise, das margens – e o mundo do dinheiro. Esta é uma ambivalência da qual o Estado se pode eximir concentrando os seus poderes e acções apenas sobre o mundo da necessidade. Mas as ipss vivem em conúbio permanente com o mundo do dinheiro, o mundo da ostentação, o mundo da não-necessidade – o anti-mundo da vulnerabilidade! E isso provoca um fenómeno cultural específico. Ou as pessoas que se dedicam as estas causas são ricas, ou têm que aparentar que o são. Podemos dar as voltas que quisermos, mas a forma como estas organizações se enquadram na sociedade em geral é a da caridade, e essa tem uma raiz muito específica, que é a do catolicismo. Ora só os verdadeiros clérigos podem andar pelo mundo dos ricos em trajos de pobres. Os laicos não podem (ou não resistem) sobreviver a esta alquimia da caridade. José Barata Moura: Vamos brincar à caridadezinha… lálálá lálálá… Por isso o investimento no estatuto tem que ser intenso e perdurável. Um franciscano pode posar andrajoso ao lado da princesa Letícia, há algo do carisma do sofrimento que é aspergido pelos seus andrajos. Mas um laico tem que parecer que está no mesmo patamar da princesa Letícia… mesmo não estando. É assim que o mundo das ipss é tanta vez o mundo da criação de ilusões: a respeito dos seus líderes e trabalhadores, e a respeito dos seus trabalhos e resultados. As pessoas têm uma vaga sensação que as ipss trabalham para o bem comum, para o sanar de várias e ingentes vulnerabilidades; mas ninguém sabe muito bem aquilatar os seus resultados.  Esta também ambivalência da penetração das ipss no tecido social mais próximo conduz-nos ao terceiro aspecto, que não por acaso surge como seu corolário.

Como o escrutínio a estas organizações se esgota frequentemente na verificação de que se ocupam de áreas que mais ninguém considera, o seu funcionamento está ao abrigo de intervenções mais sérias. É justamente esta falta de escrutínio – para além do contabilístico, que é sempre controlado por quem gere – que permite retirar fundos destas organizações, desviá-los para outras funções, utilizá-los em proveito próprio. A sua lógica de funcionamento centrada numa personalidade torna particularmente apetecível este tipo de procedimentos. E é também aqui que a imoralidade da prática do esbulho se confundo com a moral da criação de visibilidade. Como poderiam estas organizações funcionar através de donativos se não explorassem a fundo a sua imagem? Como subsistir num mundo onde a imagem vale ouro – o mundo dos ricos com o seu cortejo de aparições e de ostentações públicas – sem jogar a economia política da criação dessa mesma imagem? Estranho será então que as directoras, “chefas” ou matriarcas destas organizações queiram participar no carnaval imagético em pé-de-igualdade com as personalidades que as sustentam? Até se poderia pensar numa forma casta e abnegada de habitar este mundo, mas como dito atrás ela seria sempre falhada quando não praticada pelo verdadeiro clérigo. É o único que pode estar com a sua batina uniformizada e cinzenta imerso no colorido esfuziante do dinheiro. Os outros seriam sempre párias.

Há todavia um lado das ipss que não tem sido muito comentado na cobertura do escândalo raríssimas. Trata-se dos inúmeros processos de contratação precária em que estas instituições são useiras e vezeiras; ou a discricionariedade dos seus métodos de selecção, elaborando-se estes frequentemente em torno de compadrios, amiguismos e redes familiares. Seria interessante fazer um levantamento dos familiares que se encontram nos diversos quadros de direcção das ipss em Portugal para se ter uma ideia exacta do recrutamento endógeno que estas praticam. Não é raro o transitar de pessoas do Estado para ipss que trabalham nos mesmos sectores onde os anteriores funcionários tinham responsabilidades, e vice-versa: saltarem das ipss para o Estado porque as afinidades com os sectores são aparentemente importantes. Ora este trânsito faz-se sempre debaixo do sombrero partidário; não é um movimento autónomo. Aqui joga-se muito do poder partidário e das afinidades pessoais. Paula Brito e Costa da raríssimas, como bem mostra Daniel Oliveira, tinha afinidades com o PSD, contrariamente à tese que a pretende ligar ao PS. Mas outras há com ligações ao CDS e ao PS. A falsidade de um terceiro sector autónomo, empreendedor, fora da alçada do Estado, fica bem patente quando se olha para estes trânsitos contínuos.

Mas finalmente, o caso Raríssimas não pretende ser uma porta de entrada para o escrutínio das ipss. Tão-pouco um acesso de moralização dos envolvidos. Ele foi urdido com uma única coisa em mente: a implicação de Vieira da Silva. Esse é em última análise o objectivo mais precioso. É por isso que esperneiam PSD e CDS. Paula Brito e Costa foi apanhada em mais uma maré de revanche política lançada pelos partidos da direita que muito hipocritamente deixam na sombra os seus próprios aliados no mundo das ipss para explorarem vampiricamente o caso Vieira da Silva. É pena, porque com outra oposição podíamos chegar a alguns esclarecimentos interessantes. Mas como pedi-lo ao sector político que mais investiu na lógica da caridadezinha para substituir o Estado? Aquele que mais liberdade deu às ipss para se tornarem no tal putativo terceiro sector, robusto e empreendedor, que substituirá o Estado num futuro promissor.

Ditaduras silenciosas

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Vivemos em ditaduras. As actuais ditaduras não açambarcam o sistema político, mas sim os sistemas comunicacionais.

O papel dos media nas ditaduras actuais não foi ainda bem explicitado. Sim, há inúmeros estudos sobre o que dizem os media, sobre a sua mensagem política, sobre as suas audiências. Mas não há verdadeiramente estudos que aclarem a relação entre os medias e os actores políticos. Como os media constroem ideologias e como conseguem produzir arregimentações dos constituintes – ou seja, o povo votante – através das visões do mundo que disseminam.

Como os designados líderes populistas têm um veículo de comunicação populista que apoia as suas ideias e mensagens. Trump, a fox; Haider, o falecido líder de extrema-direita austríaco, o kronenzeitung; o UKIP, o daily mail; Macri, o presidente da argentina, o clarín, e em maior escala, toda a televisão; Temer com a globo – e são inúmeros os exemplos. O que todos estes exemplos têm em comum, para além do mau jornalismo, é que sistematicamente mostram que a elite política é corrupta – mas não a económica! –, cavalgam os processos de judicialização da política, martelam a ideia de um mundo de insegurança e de criminalidade; e empolam tudo o que seja símbolo nacional, preservando-o de qualquer crítica. E claro apoiam o líder populista no que for preciso, nunca o escrutinando, aceitando as suas palavras e acções como o retrato da virtude política. Por exemplo, seria concebível um Trump sem uma Fox? Não creio. Seria possível um FPO sem um Kronenzeitung? Tão-pouco acredito. Um Nigel Farage sem o Daily Mail?

Pode-se obstar que aquilo que acontece é o inverso; ou seja, estes meios de comunicação apenas dão ao público o material que vai causar impacto porque o público já pensa assim. Não há indicação que assim seja. Estes meios comunicacionais estreitam as linguagens possíveis – e prováveis – de pensar a res publica. São eles que oferecem o alfa e ómega do pensamento sobre política. Para sairmos desse círculo asfixiante é preciso atravessá-los, ler para lá deles. Mas isto é um exercício extremamente complexo e trabalhoso. Há inúmeras vozes alternativas que podem ser escutadas – é um facto. Mas para o fazermos é necessário querê-lo. Acontece que quando a barreira de populismo é de tal ordem que conecta todos os os universos simbólicos possíveis numa cadeia ininterrupta, esse “penetrar através de” é desgastante. Para mais quando depois de efectuado, quando novamente se emerge no mundo real, a sua imagem – a imagem produzida pelas assoladoras invocações populistas – surge de tal forma distorcida que a nossa capacidade de julgamento moral sucumbe perante a impossibilidade de reagir. Trata-se de facto de uma construção da dormência. O choque é de tal ordem; a impotência perante a ordem de facto de tal maneira grande, que essa possibilidade se esgota numa catalepsia autoinfligida. É por isso mais cómodo mantermo-nos deste lado de cá. E é isso que em cada vez maiores números fazemos. De tal forma que a tal cadeia que conecta ininterruptamente os universos simbólicos parece-nos extremamente apaziguante. Fazer a américa de novo grande! (Make American Great Again); Mudemos! (Cambiemos!); Brasil primeiro!; e outras soluções canalizadoras de energia política que assim é desviada da insatisfação individual e colectiva. Por exemplo, o espanto perante a actuação de Trump só pode ser explicado por uma amnésia colectiva. Lembro quando Raposo (o meu ódio de estimação) tentava explicar aos pobres ignorantes dos intelectuais de esquerda que Trump era um jacksoniano. Fazia-o num tom de: pobres estúpidos que não compreendem as raízes culturais do trumpismo! Agora, perante a evidência do descalabro Trump pessoa e presidente, vem desmentir os seus primeiros sentimentos valendo-se das hipócritas críticas que vão surgindo no seio dos conservadores. Todavia, quando se revê os momentos da campanha de Trump está lá tudo. Um arrogante, arrivista, racista, estúpido, arvorando a sua ignorância como uma virtude individual. Não houve uma verdadeira revelação. As pessoas votaram naquilo, e aquilo continuou… e continua. A forma como a poderosa fox reiventa diariamente um Trump para consumo interno mostra bem como os procedimentos de intoxicação ideológica funcionam. É claro que os Estados Unidos têm uma conjugação de poder peculiar. Não são apenas os conservadores de direita que são ricos; os outros também são. Uma tal conjugação não se encontra em muitos mais sítios no mundo. O que permite que a uma poderosa fox se oponha uma igualmente poderosa CNN. O problema é até quando?

Os registos das democracias actuais passam em larga medida por marcadores comunicacionais. As grandes questões são só e apenas aquelas que são veiculadas pelos meios de comunicação. Em democracias frágeis o espelho dessa fragilidade começa exactamente na hegemonização das mensagens políticas. Temer ascendeu ao poder no Brasil porque a comunicação deu uma massiva cobertura aos sucessivos processos de judicialização da política. Os republicanos norte-americanos queriam utilizar o mesmo estratagema, começando pelo assassinato de carácter desferido contra Hilary Clinton. Mas Trump está tão enterrado em lodo, tão envolvido com gente nefasta, que a intenção de despoletar um processo de judicialização à imagem de outras pseudo-democracias americanas se desfez rapidamente. Havia que interrogar porque razão as gentes recebem com imperturbável bonomia as notícias de fugas aos impostos nos sucessivos escândalos revelados pelo jornalismo de investigação (o que ainda vai subsistindo) e se armam de varapaus, prontos a linchar o primeiro político a quem se acuse de favorecimento nos negócios públicos. Por vezes as quantias são de tal forma irrisórias quando comparadas com os saques astronómicos perpetrados por outros nas suas actividades privadas que não podemos deixar de pasmar perante a virulência da reacção. É no entanto importante perceber que a judicialização da política é uma estratégia da direita. E como tal tem sido manipulada pela mesma. Ou seja, a judicialização persegue alvos bem-definidos, deixando tantos outros incólumes. Ora esta discricionariedade só é possível com a conivência dos media. Não é o sistema judicial que tem força para criar opinião pública. As suas operações deveriam por definição estar fechadas em circuitos técnicos e profissionais que não têm imediata tradução para o exterior. É preciso que os media façam incidir os seus potentes holofotes em casos criteriosamente escolhidos para que estes ganhem o impacto pretendido. Eles são o mecanismo de tradução entre os protocolos próprios do exercício da justiça e a construção do caso justicialista. Perceber que a conivência entre o sistema judicial e o grande poder económico é o que domina o panorama político actual é perceber que o populismo não é uma máquina de vozes assustadoras de uns senhores que dizem umas frases com capacidade para excitar a populaça. O populismo contemporâneo é esta imbricação entre órgãos de comunicação e judicialização da política manipulada por quem tem dinheiro.