Perdedores da globalização?

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Há um sociologismo de esquerda que tem que procurar causalidades em tudo. É uma doença epistemológica que gosta de ver as causas como exteriores aos fenómenos que observa. E depois há um oportunismo ideológico de direita conservadora que gosta de fazer derivar todos os males do mundo de opções culturais ditas de esquerda. Entre estes dois pólos planta-se o abismo da real adesão à extrema-direita, como bem faz notar Rui Tavares. Por exemplo, é incompreensível que países que tanto beneficiaram de regras e políticas progressistas como foram o Brasil e a Argentina, se entreguem aos doces cantos da sereia neoliberal com tanta vontade e perseverança. As pessoas são estúpidas? São más? Podemos talvez aceitar o enunciado, tantas vezes reiterado por Marilena Chauí, a grande pensadora brasileira, segundo o qual “a classe média é estúpida”. E podemos aceitá-lo sem o rebuço de elitismo que prima facie uma tal observação faria crer. Posto que depois de rejeitadas as teses mais comuns – e facilitistas – da esquerda e da direita sobre o fenómeno da ascensão da extrema-direita, ficamos com um denominador comum: os países europeus onde esta última cresce são os países em que a classe média experimentou surtos de aumento apreciáveis. Assim o fenómeno do leste europeu no qual sociedades onde o nivelamento social, por baixo, era notório, de repente sofrem a significativa transformação estrutural de engordarem uma classe média que assume os padrões de consumo do ocidente.

Ora isto é exactamente o contrário da tese dos perdedores da globalização. Tantas vezes aventada em relação ao apoio a Trump, ela prediz que onde haja pessoas a serem afectadas pela voragem económica da globalização haverá surtos de extrema-direita. Os verdadeiros perdedores da globalização são no entanto aqueles que não votam extrema-direita: os imigrantes na Europa, ou os negros nos Estados Unidos. Esses são aqueles que foram significativamente afectados pelas políticas de deslocalização da economia neoliberal ou das reengenharias financeiras. Podemos eventualmente pensar, como faz Cas Mudde, que isto seria uma questão de privação relativa. Ou seja, não interessa o quanto as pessoas perdem objectivamente, mas sim o quanto eles percepcionam estarem a perder em relação a outros grupos. Embora seja um mecanismo há muito reconhecido por psicólogos e outros cientistas sociais, não explica porque é as pessoas canalizam essa frustração justamente para as linhas de orientação da extrema-direita.

Numa coisa Mudde tem inteira razão: a tese dos perdedores da globalização é idêntica à tese da modernização. Também a segunda explicava a emergência dos fascismos na primeira metade do século XX pelos perdedores do capitalismo… globalizado. Por conseguinte, nada de novo aqui.

No entanto, um fascínio pela ordem, pela lei, por aquilo que muitos destes eleitores entendem ser a necessária “limpeza das suas casas”, retornou. O que constitui uma  segunda hipótese de trabalho que se prende com a afectividade na política. Contrariamente ao que diz Rui Tavares, não creio que sejam ideias que estejam em jogo. Aliás, como mostra bem o texto do historiador são ideias que se desfazem ao contacto com os mais simples e directos dos argumentos. Por conseguinte, são sobretudo slogans. Ora, a capacidade dos slogans é gerarem potencialidades afectivas sem a mediação da argumentação. Movimentos como o PEGIDA ou a Front Nationale usam uma espécie de minuta de ocorrências políticas, que migram de contexto para contexto, sem a necessidade de adesão à realidade social ou política. Ou seja, estes movimentos aprendem uns com os outros. Os métodos deslocam-se internacionalmente, e são fundamentalmente os mesmos apesar das diferenças históricas e geográficas das suas aplicações: o inimigo, o ódio ao politicamente correcto, a reconstrução do Volk – um povo, uma nação! Nesse sentido, não interessa cotejar os slogans com a realidade já que estes últimos não são mais do que aplicações quotidianas da fórmula de Thomas: se eu acreditar que uma coisa é real, ela torna-se real nas suas consequências. É por isso que os inúmeros estudos que provam à saciedade que os imigrantes não tiram os empregos aos nacionais, ou que não perturbam o sistema de saúde piorando a sua qualidade, em geral não possuem qualquer impacto nas formas como a imigração é invocada dentro deste discurso.

Agora o que me parece digno de nota nos movimentos e partidos actuais é a maneira como combinam uma postura neoliberal em relação à dimensão económica com um programa neofascista no que diz respeito ao Estado. O ultraconservadorismo norte-americano é o espelho perfeito de uma tal conjunção. Mas os partidos de extrema-direita do leste europeu constituem também figuras emblemáticas. Não se interessando mais pela nacionalização do capital, como os seus congéneres corporativistas fascistas de antanho faziam, depõem no Estado uma capacidade reguladora que a própria lógica neoliberal lhe retira. Se o Estado é o guardião dos valores, como parece ser para o Tea Party norte-americano, não deve ter qualquer papel redistributivo ou equilibrador. É por isso que quando alguns dos porta-vozes destes movimentos se dizem de esquerda  no aspecto social (Le Pen, pai, chegou a dizer “socialement je suis de gauche”) estão fundamentalmente a proferir uma falácia. A mirífica esquerda social que inventam não oferece qualquer papel redistributivo ao Estado. Ao invés, a fé reequilibradora dos entorses sociais é totalmente depositada nos mecanismos do mercado. Mas isto seria presumir que a extrema-direita está interessada em mecanismos reequilibradores ou redistributivos. Nem a democracia importa com a sua negociação entre vontades diversas; nem tão-pouco a economia é entendida como um sistema de mobilidade social. Acontece que a desigualdade e a polarização são vistas como intrínsecas à vida em sociedade. E nisso mesmo se instala o ódio aos perdedores da competição: os imigrantes, os refugiados, os negros, os pobres, os dependentes da segurança social. É uma manobra de ódio contra os perdedores da competição global. Esses sim: são os verdadeiros perdedores da globalização, como afirmado atrás.

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On a wave of masturbation

Conta-se que Dali se masturbava à frente das mulheres quando estas o visitavam no seu atelier. Não acontecia com todas. Apenas algumas divas que o seguiam e por ele nutriam uma profunda admiração. Quando estas relataram os acontecimentos a palavra “assédio” não aparecia nos seus enunciados. Tão-pouco as elaboradas acusações de falocracia e de subordinação feminina; menos ainda – bem menos! – a palavra violência.

Parece que Louis C. K. tinha o mesmo hábito. A julgar pelas suas acusadoras (inquisidoras?) o genial comediante trancaria a porta e obrigá-las-ia a vê-lo masturbar-se. Seguramente que se tivesse a genialidade cómica de C.K. diria qualquer coisa de muito engraçado sobre a possibilidade de obrigar alguém a ver outra pessoa masturbar-se. Mas não tenho, por isso fico pela mais séria das interrogações: como é que se obriga alguém a ver outra pessoa masturbar-se? Quanto mais não seja, a menos que haja alguma espécie de violência física, pode-se sempre fechar os olhos. Contudo, a sociedade tem os olhos bem abertos para esta onda de aviltamento das mulheres. Tão abertos que passámos a uma indistinção completa de acções, uma confusão onde é tão grave apalpar o rabo a uma mulher como uma violação; onde um acto que há 70 anos atrás, com Dali, era visto como uma excentricidade de um génio, é hoje em dia pasto para um tribunal inquisitorial que aperta as suas vítimas até que estas confessem que são monstros. Aliás, esta perseguição funciona verdadeiramente como um tribunal inquisitorial: quer ouvir as confissões mais escabrosas, os pormenores mais perversos, quer repeti-los e torná-los públicos der por onde der. Corresponde assim à intuição fundamental de Foucault que todos os processos confessionais e inquisitoriais têm por objectivo fazer falar o sexo, fazer com que este ocupe todos os cantos das relações humanas.

É com tristeza – e não com júbilo! – que devemos olhar para os homens famosos que são literalmente obrigados a pedir desculpas, a confessarem que fizeram o que fizeram – e curiosamente parece que apenas os que resistem à confissão são os políticos. Sem dúvida que as suas confessas culpas são orientadas por advogados muito bem pagos que lhes dizem: melhor confessares antes que os média continuem a desenterrar ainda mais porcaria. Assim fecha-se o caso. Mas o que é que constitui o caso?

Sara Silverman, a comediante estado-unidense (sigo aqui o conselho de Marilena Chauí, para quem norte-americanos incluiria méxico e canadá e que nada justifica que se chame ao povo dos estados unidos, norte-americanos), mas dizia, Sara Silverman mostrou-se profundamente consternada pelos quirks do seu amigo Louis C. K. Ela, que tirou uma foto da boca do Conan O’brien e colocou o telemóvel com a imagem à frente da vagina. Há algo de profundamente ridículo nisto tudo. Louis C. K. é o homem que diz para milhões de pessoas que não gosta de foder rapazinhos… a menos que estejam mortos… numa floresta…e que não estejam molhados, por causa da chuva. Este é o homem que devemos imolar na praça pública porque se masturbou à frente de mulheres? Alguém consegue “não” ver a profunda contradição cultural destes dois momentos?

O movimento de amigos e conhecidos que se prestaram acto contínuo a distanciar-se de CK é sintomático de uma época estranha. Sarah Silverman, que só consegue fazer piadas fáceis e ordinárias (mas muito engraçadas) veio com grande consternação dizer que aquilo que o seu amigo Louis tinha feito era tremendamente reprovável. Mesmo os que deram uma no cravo outra na ferradura – como Bill Burr – começam os seus enunciados asseverando que “aquilo” foi horrível!, uma incompreensível violência sobre as mulheres. Mas afinal o que foi assim tão horrível? Da denúncia feita por Rebecca Corry, ficamos a saber que CK lhe pediu!, que o visse a masturbar-se. Pediu! Isto é razão para destruir a carreira dum tipo? E o que fez Corry? Recusou-se. E ponto. Se calhar associa a sua recusa à carreira ridícula que desenvolveu numa série de terceira categoria. Contudo, melhor seria pensar que a sua carreira não chegou onde eventualmente sonhou porque é uma comediante medíocre. Esta dificuldade em compreender onde está a linha que separa projectos carreiristas de traumas sérios é o que macula o processo (de intenções!) do Metoo. Uma indistinção de tal ordem que de repente ver homens idosos (como Rose) pedirem desculpas porque apalparam o rabo a assistentes quando andavam pelos seus quarenta anos é mais lamentável do que qualquer apalpão de rabo.

De facto, isto não é sinal de conquistas femininas. Isto é sintoma de um mundo infantilizado, onde se podem fazer insinuações sexuais – algumas extraordinariamente explícitas – na televisão e nas redes sociais, mas onde ficam todos profundamente chocados quando o sexo e as suas perversões se tornam reais. A acusação a Charlie Rose, por exemplo, é perfeitamente infantil. De repente temos mulheres adultas a queixarem-se que o apresentador se despiu à sua frente, como meninas que ficam horrorizadas quando os rapazes lhes mostram a pilinha. Chegámos a este ponto! Doravante – e porque há relações de poder! -, qualquer insinuação sexual que seja feita num contexto de diferenciais de poder é potencialmente arrolável a uma tentativa de assédio. Acontece que as relações de poder são endémicas; acontece que as relações humanas nem sequer são compreensíveis fora dos equilíbrios e desequilíbrios gerados pelos diferenciais de poder; acontece que o sexo tem tanto ou mais de simbólica do poder como a religião – e isto é válido para gays, lésbicas, trans, héteros, o que seja.

Esta limpeza puritana do Metoo, este querer acusar em praça pública, leva a coisas tão esdrúxulas como a estória contada por Marc Maroon – outro comediante – segundo a qual um professor seu na universidade o tentara beijar. À parte de aparentemente um ser gay e o outro não ser, onde está o escândalo? Alguma prática antinatura? Maroon pontua o seu relato dizendo que ficou muito tempo a pensar naquilo, e que o marcara. Mas a julgar pelo que conta nada mais se passou. Uma vez mais, o que poderia então constituir um caso aqui? Que formulações patéticas e infantilizadas desta natureza estejam a ser disseminadas pelos media e redes sociais é sobejamente preocupante.

Todavia há um fenómeno que me parece de uma coincidência espantosa. É precisamente quando Trump se encontra a levar a cabo uma das reformas mais revolucionárias (no mau sentido) no sistema de redistribuição – leia-se: nos impostos – que os americanos andam antarefadíssimos a caçar “assediadores”. Na Argentina, onde me encontro, vai uma grande comoção por um caso de um homem da comunicação que apalpava rabos. Em simultâneo, Maurício Macri e o seu partido cambiemos, encontra-se a levar a cabo uma transformação maciça do sistema de reformas e a fazer cortes inauditos nos impostos dos mais ricos. No Brasil, onde o assunto assédio está na ordem do dia, Temer e a sua trupe de tarados evangelistas, destroem afincadamente todo o Estado social, invariavelmente diminuindo drasticamente os impostos sobre os ricos. Enquanto isso nós andamos escandalisadíssimos porque alguns senhores conhecidos mostraram a pichota a umas mulheres que ficaram chocadíssimas, e que vinte anos depois do acontecimento o vêm escarrapachar nas páginas dos jornais. Que tipo de violência nos está a ser feita verdadeiramente?

Glória, glória!

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A sondagem publicada no expresso diz uma coisa muito clara. Marcelo é o outlier que ora empurra a esquerda para a subida ora a deixa cair. Lendo uns posts que escrevi há anos, verifiquei que Marcelo, ainda não presidente (bem longe disso, na verdade) já desenhava uma estratégia idêntica nos seus comentários. Foram os tempos de coabitação entre Cavaco e Sócrates, quando ainda não se perfilava nenhum candidato do PSD de peso. Mas assim que surgiu Manuela Ferreira Leite, o então professor Marcelo, e não presidente Marcelo, esboçou num dos seus comentários o que deveria ser a estratégia de Cavaco. Desde logo, acabar com a coabitação pacífica, alienando o governo Sócrates cada vez mais. A ideia era fazer o pleno – presidente e governo – para o PSD. Todos sabemos como acabou. O psd fez mesmo o pleno – no que foi um dos períodos mais trágicos para os portugueses.

A sondagem agora publicada revela que Marcelo tem o condão de funcionar como barómetro das oscilações partidárias. E sem dúvida que o sinal que esta sondagem dá para a direita é que será doravante necessário um Marcelo mais crítico, mais interventivo, mais partidário. E iremos tê-lo. Demorou algum tempo, porque como disse anteriormente, não se perfilava ainda ninguém que merecesse a aposta dentro do PSD. Marcelo possui assim a capacidade de ungir a quem ele se aproxima (e não de quem dele se aproxima). Por isso, a aproximação a Costa aspergia carisma marcelista sobre a pessoa do primeiro – o que se reflectia nas sondagens. O afastamento do potencial carismático marcelista provoca quedas de popularidade. Ora, acontece que Marcelo nos próximos tempos escolherá uma judiciosa aproximação a quem sair vencedor das internas do PSD. E será a altura de esse – Rio ou Santana, embora me incline mais para Rio – beneficiar do poder de unção que Marcelo proporciona. Rapidamente veremos que as leituras políticas do povo – estúpido como sempre é – se conformarão a esta relação de sacralização do poder.

For Eduardo is an honorable man

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No incomparável Julius Caesar de Shakespeare há um momento chave que constitui uma lição de realpolitik inestimável. Trata-se do famosíssimo discurso de Marco António sobre o esquife de um Júlio César recentemente assassinado. O que tem de fantástico esse momento é que, para além de ser um discurso de uma beleza estonteante (péssimo adjectivo, mas não me sai mais nenhum…), ele marca um volte-face na urdidura que leva à conspiração pela morte de César. Tendo Brutus e os seus próceres assassinado César, resolvem poupar Marco António convencendo-o a aliar-se à conspiração. Marco António acede mediante a possibilidade de discursar na apresentação pública de Júlio César, prometendo a Brutus, e a um desconfiado Cassius, que dará uma imagem favorável dos assassinos de César. E o que faz Marco António assim que se apanha no palanque para fazer as exéquias a César? Exactamente o contrário do que prometera a Brutos e Cassius! Faz um rasgado elogio a César e acusa os seus assassinos de matarem sem qualquer justificação, instigando, sem o fazer declaradamente, a população à sedição. “For Brutus is an honorable man… etc, etc.

Este trecho da peça de Shakespeare serve perfeitamente de analogia para o que se passa em Angola. João Lourenço, apontado como sucessor do império de Eduardo dos Santos, apresentou-se na campanha como um agente da continuidade; e assim deve ter parecido à família dos Santos, que o apoiaram durante todo o tempo. Mas o que faz o novo presidente João Lourenço assim que se apanha no poder? Trai a confiança da família dos Santos e começa a retirar-lhes o poder! Porém o desenrolar dos acontecimentos na peça é que nos deve colocar de sobreaviso. Porque, se João Lourenço, com alguma imaginação, pode assumir a figura de Marco António na traição a Brutus é bom lembrar que o desfecho é começarem todos à porrada, alinhando os exércitos para a batalha pelo poder. Significa que ao invés de vermos João Lourenço como o homem providencial que vai endireitar Angola, é avisado começarmos a entender as actuais movimentações como duas facções que se dispõem no campo de batalha. João Lourenço encontra-se a levar a cabo uma típica limpeza para assegurar um novo poder absoluto. Assim como Marco António com a chegada de Octávio assassina todos os senadores romanos mostrando que o seu poder é incontestável, é provável que assistamos a uma carnificina idêntica (no sentido figurado?) nos próximos tempos em Angola… E talvez a carnificina não seja apenas uma figura de estilo. Angola já foi palco de lutas fratricidas anteriormente. Não me espantaria que o mesmo voltasse a ocorrer.

Divagando

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(Susana e os velhos – ou o cliché das representações de assédio – por Carracci)

Uma das coisas mais idiotas que surgiu recentemente no panorama das patologias psíquicas é o designado vício sexual, em inglês conhecido por sexual adiction. A ideia segundo a qual o comportamento sexual de um indivíduo pode ser aditivo, ou seja, pode emular comportamentos de adição como aqueles que encontramos nas dependências da droga ou do álcool, é no mínimo ridícula, no limite de um puritanismo absurdo.

É importante que se diga que a patologização do comportamento sexual enquanto vício surge associada a possibilidades terapêuticas que visam justamente erradicar o comportamento aditivo. Seja através de controlo perante os estímulos, seja por inculcação de uma normatividade diferenciada daquela que o indivíduo usa como sendo o seu sistema de referência. Ora isto pressupõe que o comportamento do dito viciado não consegue mais ser controlado cognitivamente, senão que é uma mera satisfação física mediante impulsos concretos. Uma espécie da cão pavloviano perante a campainha da sexualidade. O que esta orientação obscurece (eventualmente de forma deliberada) é a ordem do desejo. Isto não é novo. Desde Foucault que as relações entre desejo e poder foram de tal forma iluminadas que não há mais nada na sombra.

Há por conseguinte toda uma reflexão que não está a ser feita pelos implicados nestes casos, nem pelos respectivos comentadores, e que se prende com a relação secular entre poder e sexo. Ou seja, o comportamento sexual humano não é um comportamento que ocorra em paralelo ao exercício do poder. Os dois imbricam-se. Não é o mesmo que dizer que o abuso é obviamente uma questão de quem tem poder. Pelo contrário, trata-se de afirmar que sexo e poder são consubstanciais, que um não sobrevive sem o outro, e que ambos são utilizados em reforços recíprocos: do sexo para o poder, e do poder para o sexo.

É preciso também perceber que estes casos só têm recebido a mediatização que têm tido porque se trata de eventos que envolvem pessoas altamente mediáticas. Ou seja, porque vendem. Todavia, se analisarmos da perspectiva do poder, não creio que sejam exclusivos da louca indústria cinematográfica ou dos media em geral. Do ponto de vista do poder, imagino, porque não tenho a experiência directa de tais mundos (e por isso, camonianamente, julgue-o quem não poder experimentá-lo), mas dizia, desse ponto de vista, os cenários que envolvem homens e mulheres poderosos, estão eivados de sexualidade. É o dinheiro, claro. Quem julgar que é holliwood que confunde ficção com realidade, basta ver a realidade ficcionada de o O lobo de Wall street, para perceber que onde abunda dinheiro se espraia dissolução. E não leiam nisto nenhum pleito conservador. Não, deus nos livre e guarde. É assim deste times immemorial. Como dizia o velho bardo “for who so firm that cannot be seduced?”. Certo, a frase é sobre a sedução do poder, e é proferida num ambiente conspirativo pela morte de César. Mas não haverá uma conexão muito estreita entre as duas seduções: a do poder e a sexual? Na realidade homens e mulheres estão a ser acusados de terem seduzido com as armas que tinham. Muitos dos testemunhos deixam a impressão de serem casos de mulheres seduzidas que se arrependeram amargamente. E sim, estão como que a coming back with a vengeance porque o seu lugar de poder actual as autoriza a tal. Nunca ninguém se importou muito que haja casos de coacção sexual nos supermercados do pingo doce (não sei se há, mas é uma hipótese tão boa como outra qualquer!). Onde há uma hierarquia, existe essa possibilidade. Acontece que a ninguém interessa que a rapariga da caixa do pingo doce seja assediada pelo gerente de loja. E não interessa porque não é mediático. Porque os casos que vêm a lume possuem sem excepção uma mensagem, que deixou de ser subliminar: a capacidade de mulheres poderosas contra-atacarem o poder masculinizado. Mas é isso realmente o que fazem? Ou simplesmente reproduzem a estrutura desse poder masculinizado trocando os géneros da sua agência?

Patrimonialização/fascização

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É preciso haver muita hipocrisia e falta de vergonha para se fazer este barulho todo em torno das “festas” do panteão. É preciso não ver como o património cultural e histórico é utilizado, em todos os lados, para fins comerciais, para ter rebates de consciência patrioteira por causa da merda do panteão. É preciso ser fascista (mas a sério!) para dizer como Henrique Raposo que apenas a nação se interpõe entre o capitalismo globalizado e a amoralização do mundo. É preciso ser cínico para pedir desculpas por uma festa da websumit celebrada no panteão.

Comecemos pelo princípio, que embora não seja, nas palavras de Córtazar, judicioso método, não deixa de ser o mais explanativo dos métodos. Nas cidades actuais o que espanta não é a sua explosão de diferenças e de processos, mas sim a sua uniformização. Ora a este propósito, basta passearmos por Lisboa – porque é dela que falamos, mas o mesmo se aplica a outra qualquer grande cidade – para constatar que não houve palácio, antigo cinema, edifício aburguesado do século XIX, que não fosse transformado ou em hotel de charme ou em lugar nocturno. Obviamente que o trade-off é sempre a recuperação dos espaços pelos seus usos comerciais. Mas se virmos que esta “charmização” da cidade – repetida em todas as capitais sem excepção! – é o processo através da qual ela é recuperada, rapidamente concluímos que não há espaço edificado que não seja apropriado para uso comercial. Sejam os jardins, que para se tornarem rentáveis, neles se plantam quiosques e esplanadas; sejam os museus, que para subsistirem, abrem as suas portas às festas de empresas e de particulares; e até as igrejas, que se tornam palcos para espectáculos de música e luz. Sem excepção deixou de haver cidade sem apropriação comercial.

Nada de espantoso nisso. Afinal o maravilhoso mundo que os websumits prometem é um mundo de startups, de mercados rápidos e fluídos, emergindo pujantes e alagando tudo à sua volta, alastrando depois em lucros gargantuescos. O mesmo que se passa com as cidades: intervenção que se pretendem lucrativas e que asseguram a permanência de qualquer coisa como o tecido urbano e arquitectónico da sua possível destruição.  Ou seja, há uma continuidade entre a missão dos websumits e as jantaradas no panteão. A esta se poderia chamar: experiência da fascinação.

Dito de outra forma, a websumit de paddy cosgrove põe lisboa no mapa da explosão globalista, e a cidade de lisboa oferece-lhe um dos seus mais prestigiados monumentos porque os websumits gostam de experiências diferentes: do chique dos candelabros, das abóbadas da história pretérita, dos mármores da nossa gesta. Como pode, todavia, alguém achar isto um opróbrio à pátria?

Há dois lados desta discussão. Um, é de um anacronismo patético (ou perigoso, não sei como adjectivá-lo). O discurso de Raposo, por exemplo, cheira ao bafio dos fascismos de início do século XX. Não é difícil encontrar discursos que diziam a mesma coisa: a nação é a única coisa que se interpõe entre o homem e a burguesia capitalista! Repare-se que o remédio socialista era o internacionalismo. Todavia, acabou por recair nos mesmos nacionalismos entrincheirados de que o lado conservador fazia bandeira. Mas há um erro de palmatória nesta equação falaciosa. Hobsbawm mostrou vezes sem conta como a burguesia endinheirada se encontrava frequentemente por detrás dos projectos nacionalistas, sobretudo como forma de desmobilizar as massas para os seus rivais projectos classistas. Por isso nunca houve “classe” contra “nação” como quer o Raposo. Ao invés, o período mais intenso dos nacionalismos – a segunda metade do século XIX e início do XX – constituiu-se em torno do trinómio estado-nação-classe, sendo que estes nacionalismos foram geralmente elaborações das elites numa tentativa de manutenção do status quo, com maior ou menor adesão das massas, mormente das zonas rurais e camponesas.  (Ou, dando um salto histórico deliberado, será surpreendente que no ano do nacionalismo mais agressivo norte-americano, disseminado aos quatro ventos por Trump, é quando os mercados estejam mais constantes desde 1960!!). Não. Dizer que a nação se opõe ao capitalismo globalizado é uma pura falácia que não encontra respaldo histórico.

O outro é de um cinismo atroz. Na sua guerra de oposição sem oposição que a suposta oposição move contra o governo e os partidos que o apoiam, vai uma grande preocupação pelo panteão nacional. Curiosamente, data do consulado de Santana Lopes o tempo em que monumentos, ou qualquer lugar histórico que conservasse a pátina do tempo transcorrido, era aproveitado minuciosamente para festejos, celebrações, encontros, etc. A tendência tem um nome, e como dito atrás, é generalizada – chama-se: patrimonialização. A ideia de conservar o património tornando-o lucrativo insere-se no contexto mais vasto das economias do turismo e na especialização de nichos para turistas, ou bolhas turísticas, como são designadas pelos especialistas. As bolhas turísticas não são apenas o produto de hotéis e airbnbs, mas sim de toda uma infraestrutura que lhes empresta a razão da sua existência. Não há bolhas turísticas sem património ao qual ligar o interesse turístico. E não há património sem a sua patrimonialização, i.e., o exercício de reconstrução do património inserido num processo de regeneração económica e imagética da cidade.

Não por acaso, esta espécie de congelamento temporal do objecto patrimonial, mereceu da parte de Carlos Fortuna, o nome de destradicionalização. Porque com efeito, são todas as conexões práticas e reais com o espaço ou o objecto (arquitectónico, artístico, etc) que são artificializadas, deixando o mundo dos apegos e lógicas quotidianas como suspensas em imagens que lhe são exteriores. O que é a tradição senão algo habitual, algo que se reproduz no quotidiano como reconhecível e próximo? Os processos de patrimonialização preparam os espaços para a “visita”; para o contacto fugidio e quase fantasista com o espaço, no qual a razão quase nunca é o espaço em si, mas as infraestruturas que lhe estão associadas. Fruir de um espaço tem que vir acompanhado de um jantar no restaurante gourmet, de um gelado na geladaria da moda, ou de um vinho numa varanda in. Ou seja, fruir de um espaço tem de vir acompanhado do consumo desse mesmo espaço. E a ordem consumista que a ele está associada intromete-se sistematicamente: através da música que é debitada em contínuo pelos estabelecimentos comerciais, como a fazerem-se presentes e a reclamarem o seu quinhão de rua. Numa ditadura, diga-se, que não pede licença a ninguém, como se houvesse um direito automático ao espaço público do qual os seus utentes nada tivessem a dizer.

Neste contexto, achar que uma celebração dentro do panteão é algo de horrível, um crime de lesa-patria, só pode ser risível.