Traições palacianas

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O assassinato de Júlio César, por Vincenzo Camuccini

Quem perceber como é que a comunicação social funciona, entende que ela define sempre uma temática como a mais relevante e que é a partir dela que monta a sua teia perceptiva. Ou melhor dizendo, produz um cone perceptivo que apenas mostra alguns objectos a uma luz suficientemente brilhante para que deles se retire as facetas que interessam a quem a controla. É este o caso da teia perceptiva que está a ser construída sobre António Costa.

O cerco que está a ser montado a Costa tem duas feições: é um cerco interno, no sentido de estar a ser preparado dentro das próprias hostes do PS ou dos seus próximos; e é um cerco externo, na medida que está a ser cogitado por uma oposição que se reorganiza. Do lado interno temos colunistas como Nicolau Santos e comentaristas como Miguel Sousa Tavares a retirarem o tapete a Costa depois de o incensarem em múltiplas ocasiões. No aspecto externo, temos uma união de esforços entre o PSD e o CDS-PP, com o aval do presidente da república, que vem ganhando expressão desde que Passos Coelho anunciou que ia de férias da liderança do partido. É preciso analisar estes dois momentos e a forma como se têm materializado no discurso da comunicação social. Mas primeiro o contexto.

É fácil observar que a solução de um governo onde PCP e Bloco de Esquerda possuem direito de veto deixa muita gente desconfortável. Um tal desconforto, no entanto, não tinha base de sustentação perante uma tão notável recuperação económica. Ou se tinha, não era acompanhado pela maioria do povo português. Contudo, ele ia respigando aqui e ali as suas vozes críticas e inconformadas, mesmo que imediatamente esmagadas pela natureza dos factos. Um Passos Coelho à espera da chegada de Satan, O Grande, não era de molde a impressionar ninguém; até porque a figura parecia espernear dentro da sua própria redoma, prefigurando a caricatura do homenzinho irritante que todos deixam a falar sozinho. Havia confusão nas hostes do CDS e do PSD sem ninguém arriscar qual seria a melhor estratégia a prosseguir dando-se o caso de não haver nada para criticar, e tão-pouco para propor. Até o conúbio contranatura que o PS inaugurara com a esquerda radical não tinha assunto, de tal forma se ajustava às tendências e andamento das coisas da res publica. Onde PSD e CDS pressentiram a invasão do Outubro vermelho ao palácio de inverno das instituições nacionais, não houve mais do que alinhamento de interesses e consolidação de orientações anunciadas nos acordos firmados entre os partidos.

Mas eis que chegam os incêndios. Primeiro, a tragédia de Pedrogão. Esta foi a ignição, passe o mau gosto da metáfora, para a oposição reorganizar ideias e estratégias. Cristas viu nela o filão necessário para a falta de solidez das suas críticas ao governo. O populismo dos conservadores de direita agarra temáticas, passo o pleonasmo, populistas e agita-as até ao nervo. A imigração é assunto que em Portugal não colhe votos. O islão praticamente não existe. O populismo de direita tem que procurar outras fontes onde beber se não quiser secar. E essa oportunidade apresentou-se sob o mote dos incêndios.

Há dias escrevi que o discurso de Marcelo prefigurava uma mutação na estratégia seguida pela direita. Quem pensava que Marcelo era o ser angelical que andava pelo país a abraçar velhinhas, desengane-se. É certo que o nosso presidente tem emotividade que chegue para encher as páginas da Hola!. É também certo que a repetição da tragédia dos incêndios num país pequeno como o nosso era inconcebível. Todavia, o alinhamento entre Marcelo e a nova conjuntura política dentro do PSD é notável. A partir de agora Marcelo não vai ser mais o presidente da “descrispação” como ele próprio se classificou. Até porque o âmago da crispação, o embirrento Passos, está fora de cena. Projectam-se agora, como dois jurisconsultos romanos, Santana e Rio. E veja-se como a diferença é grande para Passos, nos modos, na fleuma, na oratória. São finalmente os nomes de que o PSD precisava para lavar a sua cara. São a face de uma nova estratégia; uma estratégia em que Marcelo será um actor fundamental. Há nervosismo nas fileiras do PS que apoiam a geringonça, porque isso já se pressente. E há algum júbilo por parte dos “bloquistas centrais” do PS, como Assis, porque pressentiram exactamente a mesma coisa.

Mas Marcelo é do PSD. Se Passos lhe era indiferente, o mesmo não se passa nem com Santana nem com Rio. As hostes do PS estão finalmente a cair em si. Apercebem-se paulatinamente que Marcelo é uma incógnita. O homem da vichissoyse não poderia andar muito tempo desaparecido. O problema é quem vai ele levar ao colo dentro do seu psd.

Mariana Mortágua, com a sua inteligência habitual, especulou sobre o interesse de Marcelo num bloco central. Pacheco Pereira crucificou Santa Lopes em directo na quadratura do círculo. Rui Rio parece estar a reunir o consenso dentro do PSD. Para Marcelo seria essa também a sua preferência, especulo. E um PS renovado com Assis como timoneiro desfaria todas as dúvidas quanto à sua inclinação em caso de empate técnico nas legislativas daqui a dois anos. Costa está demasiado marcado pelas alianças com a esquerda. Essa marca é incómoda para a elite nacional. Como demonstração trago apenas à colação um comentário de Miguel Sousa Tavares sobre o falhanço da protecção civil. Segundo o plumitivo era um escândalo que a tragédia dos incêndios se repetisse e simultaneamente o governo andasse há meses a discutir com os seus parceiros da esquerda aumentos para os funcionários públicos. A relação entre estes dois termos é no mínimo estranha. Mas a conexão que se pretendeu fazer é óbiva quando analisada do ponto de vista da ideologia. A esquerda leva o Estado ao colo em vez de se preocupar com a vida dos seus cidadãos. A mesma ilação pode ser retirada do discurso de Cristas e das várias frentes de direita que se apresentaram no parlamento para discutir os incêndios. O facto de a relação entre o presidente da república e o primeiro-ministro nunca mais poder vir a ser a mesma tem menos que ver com a ineficácia governamental do que com a oportunidade conjuntural. Soam as trombetas da desgraça em diversos sectores da política nacional; cava-se já o fim da legislatura, anunciando-lhe a morte prematura. É preciso que a esquerda seja astuta e perceba o que estão a armar. Embora o meu palpite seja que o golpe de misericórdia virá de dentro do próprio PS. Para Assis e companhia, o conúbio com o partido comunista e bloco de esquerda, provoca um mal estar indissolúvel. O texto de Assis do Público, tecendo um rasgado elogio ao presidente, e apelando cinicamente, dizendo o seu contrário, para a dissolução do parlamento, é o sintoma exacto da conspiração em marcha. Nem só o PSD vive de conspirações. Para um certo PS, Assis começa a ser visto como a ponte possível com um PSD renovado. E a ideia aventada por Assis de que o governo “assenta numa maioria parlamentar atravessada por múltiplas e manifestas contradições” leva a crer que o punhal está a ser afiado por detrás das costas de Costa. A expressão Et tu Assis, só não quadra com o momento, porque para Costa não será surpresa a traição deste. Já do Presidente da República…

As cruzadas morais dos ricos

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A caça às bruxas movida ultimamente aos designados “abusadores sexuais” move-se por territórios estranhos e a todos os títulos suscitando desconfiança. Tem atingido a universalidade de um grito de libertação feminina perante a opressão masculina. E tem-se expandido, em diversas surtidas mediáticas, por muitos e diversos países. O Metoo#, canal difusor que tem vindo a acumular testemunhos, promete qualquer coisa de vingança contra a impunidade masculina. Não quero tomar o partido do machismo empedernido que afirma que as mulheres “estavam a pedi-las”. Mas considero que o assunto é mais complexo do que fazem crer as regurgitações afectadas do Metoo# e as suas reverberações internacionais. Trata-se, a meu ver, de um plano bem mais ambíguo do que essas mesmas regurgitações nos querem fazer acreditar.

Recordo por exemplo das inúmeras insinuações sexualizadas por parte de Madona nas suas múltiplas aparições públicas, com comentários sobre o tamanho dos microfones ou fumando charutos com movimentos eminentemente sexuais. Recordo também como a virginal Drew Barrimore mostrou as mamas em público num dos famosos late night shows ou como Courtney Love subiu para cima da secretária de um apresentador e tirou a t-shirt exibindo os seios perante milhões de espectadores. O que são estes momentos? Sexualizações das suas personas. A transformação de Ana Montana, de ídolo juvenil, para uma Messalina televisiva, o que é que propõe na realidade? São inúmeros os exemplos e com eles convivemos diariamente na rua, nas televisões, nos espectáculos. É a grande invenção dos últimos 50 anos: o sexo vende. Esta é uma verdade assimilada por milhares de modelos fotográficos, estrelas de televisão, etc. A erotização das suas pessoas constitui-se enquanto elemento central das suas personas. Irina Shaik ganha milhões porque é sexy. Não tem mais nada para dar ao mundo senão a sua beleza erótica. E o mundo em que vivemos está pronto a pagar milhões por esse atributo. Se por conseguinte vivemos num mundo onde as relações sociais são híper-erotizadas, porque nos incomodamos tanto quando esse erotismo entra nas relações de poder?    

Judith Butler, insuspeita de machismos retrógrados, sublinhou há largos anos que a agenda do “sexual harassment” se tornara uma doutrina da direita conservadora, obcecada com o sexo no trabalho. Não nos espanta por isso que seja uma das mais conservadoras jornalistas da FOX a tomar as rédeas da luta contra o sexual harassment nos Estados Unidos. Em rigor, ela própria foi vítima de um caso e a partir daí construiu uma nova imagem mediática, publicando livros e dando conferências. Butler não diz, mas a consequência de uma tal postura afigura-se-me ser de sanitização das relações laborais, como se o espaço do trabalho fosse para trabalho e nada mais. Uma forma de arregimentação, e de higienização das relações laborais, que convive facilmente com a ideia de formatação doutrinária do trabalho. Um tal espaço, depurado de todas as perversidades e insinuações, é o espaço ideal da ética protestante do trabalho. Mas apenas aparentemente. Por exemplo, é pacífico tomar drogas para se tornar mais produtivo, ou mais criativo, ou mais sedutor, como no mundo da moda ou da publicidade. Porém, é um escândalo fazer avanços sexuais a companheiras ou companheiros. É com efeito uma doutrina estranha. Como se tudo o que não fosse produtivo – e o sexo é para todos os efeitos o menos produtivo dos elementos no espaço social do trabalho – tivesse que ser expurgado. Repare-se que há um elemento de cruzada na forma como as mulheres começaram a aderir a este movimento delator contra a falocracia.

Querem a consensualidade nas tentativas eróticas, sexuais? Mas o que é a consensualidade até estas serem tentadas? Não é preciso ser um génio para perceber que o momento da consensualidade é sempre retrospectivo. Ou seja, possui uma sequência temporal necessária para o desencadear lógico, e físico, mais do que outra coisa, das suas consequências. Se assim não fosse, como poderíamos saber se o chamado flirt resultará ou não? É um momento de ambiguidade que se encontra a ser delapidado, purificado, normatizado, no discurso destas mulheres. Ao ponto de um famoso radialista argentino ter sido despedido por ter apalpado o rabo a uma colega… e esta ter feito queixa. Por que aqui o elemento desvelador da transgressão, ou da percepção desta, não é o próprio acto, é a queixa. Mas imaginemos que a mulher não se importava. Isto é estranho? Se assim fosse qualquer engate de qualquer espécie ficaria automaticamente impedido, como se as consequências funestas que este pudesse trazer fossem de molde a impedir a acção. No entanto, assim não é. E situações equivalentes acontecem todos os fins de semana pelos inúmeros bares e discos que pululam pelas capitais do mundo, cenários propriamente erotizados, onde jogos de sedução e de sexo são postos em prática constantemente. É por conseguinte a distinção entre o mundo do trabalho e tudo o resto que se encontra no fundamento de uma tal cruzada.

Veja-se por exemplo o testemunho de uma das queixosas no caso Weinstein. O grande patrão da Miramax está a ser linchado em praça pública. No entanto quando se escutam atentamente as declarações destas mulheres só nos podemos surpreender com a margem de ambiguidade que o seu próprio discurso tece, mas que a justiça popular nem sequer se dá ao trabalho de analisar. Esta mulher, especificamente uma jovem actriz mas sem grande sucesso, conta que Weinstein lhe propôs ir a Paris numa viagem de negócios. Tendo nisso visto um aproveitamento da sua relação laboral, recusou. Quando Weinstein regressa de Paris, convida a jovem a ir a sua casa. Ao que esta, espanto dos espantos, aceita, porque, diz ela “queria manter a amizade com Weinstein”. Depois sucedeu a tentativa de sedução, e neste momento da estória a jovem cai num pranto desamparado. Estão a gozar? A jovem aceita o convite para a casa daquele que ela antecipa ser um “predador sexual” porque queria manter a amizade com ele?!! Isto é por si só perverso. A jovem actriz – sem grande sucesso – que se movimenta num mundo conhecido pela sua promiscuidade – basta ler os livros de Bret Easton Elis – vai a casa do patrão para não perder a amizade deste? Claro – e um encontro num café, não seria uma opção?

Homens e mulheres não são autómatos. Há uma profunda falsidade na ideia de que os códigos do erotismo são uniformes e facilmente apreensíveis. Uma falsidade conservadora. Não por acaso, o Metoo# conta com um rol de mulheres ricas, bem na vida, que em muitas das situações usaram a sua beleza para se guindarem socialmente. Como se o capital erótico das mulheres não fosse um capital com possibilidades de conversão, sobretudo económica! Estranho seria então constatar que milhares de jovens belas andam em torno dos jogadores de futebol, cujas carreiras são impulsionadas por a estes se associarem; assim como no mundo da moda, onde o erotismo vale dinheiro, e carreiras são feitas à custa do hedonismo consumidor de todos os outros. Isto tem um nome: hipocrisia. As razões pelas quais apalpar o rabo a uma colega, ou subordinada, ou fazer insinuações sexuais, ou propostas dessa mesma natureza, merece o apodo de “predador sexual”, devem ser escalpelizadas. Sobretudo quando contrastadas com os maus tratos e abusos de poder que conhecemos diariamente nas relações de chefes e subordinados, mas que no entanto não merecem nem atenção nem censura do resto da sociedade.

“Estado todo poderoso”

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Eu gostava francamente de perguntar aos mete-nojo Henrique Raposo e JMTavares, que usam amiúde a expressão “Estado todo poderoso” para classificar a intervenção do Estado nas diversas esferas da sociedade – da cultura, à economia, passando pela providência – se para fazer chicana política o Estado-papá já lhes serve. Porque espumam da boca estas cavilosas personagens quando o Estado não consegue evitar mortes por incêndios? Não seria, para eles, liberalões apoquentados, qualquer intervenção do Estado uma violência que se faz à boa condução dos negócios em sociedade? E quando tudo arde, não é deixar arder, porque o Estado é o caminho para a servidão? Então porque se empertigar tanto com a inacção do Estado? Um Estado inerte não é o Estado com que todo o liberalão, neoliberal, liberal conservador, sonha? Eu pensava que sim. Com  toda a justeza lógica devíamos estar a ouvir estas pessoas a berrarem pela privatização dos bombeiros, a organização de milícias comunitárias para combater os fogos, ou a entrega da protecção civil a uma empresa de segurança. Mas não – há uma imensa consternação nas suas hostes porque o Estado não protegeu os cidadãos. O Estado-papá diria JMTavares. Curiosamente, o flibusteiro, vem desta vez com a conversa da responsabilização do Estado, e por arrastamento do governo. Onde ficamos afinal?

Marcelo por seu turno aparece como o Marcelo que afinal sempre soubemos que lá estava. Escrevi neste blog que quando as coisas dentro do PSD se apresentassem de feição para a emergência de uma nova liderança, o Marcelo do PSD surgiria. E ele aí está. Senão vejamos, ameaçar com a dissolução de um governo democraticamente eleito por causa de catástrofes naturais seria razoável se o próprio governo as tivesse provocado. Mas não foi o caso. A mim afigura-se-me demasiado rebuscada a tese oportunista do CDS segundo a qual o governo é responsável pela morte dos cidadãos. Nesse caso, cobraríamos responsabilidades ao CDS pelos mortos em acidentes de trânsito quando este se encontrava no governo. Porque não? As estradas são da responsabilidade do Estado; as cartas de condução também; segue-se que se há pessoas a morrerem em acidentes de viação a responsabilidade é do Estado. Falso. A responsabilidade é dos condutores. E isso é estranho no discurso do presidente. Nem por um momento se preocupou com as causas dos fogos. Porque é que acontecem tantos em simultâneo, como em manobras concertadas? Porque é que há gente a ser julgada por fogo posto mas de quem nada se sabe, nem nada transpira para o exterior. Fizeram-no a mando de alguém? Que interesses representam? São lunáticos sociopatas? Nada. Não se fala, não se diz, não se interroga. A mim parece-me perfeitamente idiota dizer, como faz hoje Daniel Oliveira, ecoando os mais nefandos boatos da direita, que a culpa é dos boys do PS na protecção civil. Sério? Segundo a pordata existiam 472 corporações de bombeiros em 2015. Em 2017 este número pouco se alterou. Será que toda esta gente foi inoculada pelo vírus da incompetência socialista? Todavia, o que tem acontecido é uma sangria nas corporações de bombeiros, com os números dos soldados da paz a decaírem em catadupa. Isto é um pormenor? Não creio.

Como diz o Marcos Capitão Ferreira hoje no Expresso, “o Estado mínimo sai caro”. E era bom que as pessoas obrigassem os celebradores do Estado mínimo, como Raposo e JMTavares, a retirarem ilações consequentes. Porque não se pode pedir grande intervencionismo do Estado quando sistematicamente se pretende boicotá-lo, ora com palavras ora com acções. Os doidinhos das “gorduras do Estado” que assomaram à porta do poder quando lhes cheirou a novo ciclo político, deviam perguntar-se se são estas boas para assar. Porque o que se passa em Portugal, ao contrário da tese da Cristas e sus muchachos, é uma total ausência do Estado na floresta. Por culpa deste? Não porque esta é maioritariamente privada, como aqui já escrevi, e está sujeita aos caprichos de milhares de privados que apenas se preocupam com o dinheiro que podem retirar do seu quinhão de terra. Há uma responsabilidade colectiva que não pode ser despachada para as costas do Estado “PS” ou de uma desgraçada de uma ministra.

Antolhos

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Da estátua do padre António Vieira pouco mais há a dizer do que foi escrito por Alexandra Lucas Coelho num texto brilhante. É de tal forma bom que Mamadou Ba, da associação SOS racismo, retirou, nas suas declarações à comunicação social, selectivamente uma das suas expressões: a de que Vieira seria “um anti-esclavagista selectivo”.

A estátua é de uma infelicidade tremenda. Os índiozinhos aos pés de Vieira; a cruz lançada para a frente como em manobra de evangelização – deus meu que aberração! Que Vieira merecia uma estátua na cidade de Lisboa, disso não há dúvidas – e não me refiro ao Vieira do Benfica. Que nem no Brasil, onde vários bustos do padre António Vieira embelezam as praças, se vê tamanho desconcerto histórico e intelectual, lá isso também não. E no entanto há qualquer coisa a puxar ao turista naquela estátua. Ao turista brasileiro, bem entendido; e sobretudo ao menos informado e crítico, que  os há aos magotes.

Por alguma razão que desconheço, Vieira tem uma expressão bem maior no espaço público brasileiro do que em Portugal. Note-se que falo das diversas encarnações de Vieira e da sua obra, e não da influência que esta teve na cultura de ambos os países. Pois aí é difícil aquilatar esforços e inspirações, porque Vieira está presente em tantos dos nossos pensadores, de Pessoa a Saramago, que não saberia dizer qual lhe bebe mais em estilo e sabedoria. E é por isso que Vieira merecia outra estátua. Porque a ideia da cruz a proteger os incivilizados índios faz lembrar os finais dos filmes do Mel Gibson. E isso não abona nunca a favor do escultor. Mais contenção deveria ter sido colocada na estátua. Ou então, que uma outra orientação lhe suportasse o gesto.

Mas o mais curioso nisto tudo, foi como a nossa alt-right (roubando a expressão a Pacheco Pereira) se mobilizou para atacar o protesto que esteve para ser feito contra a estátua, quedando-se  silenciosa a respeito do cerco colocado pela extrema-direita a esse mesmo protesto. São dois pesos e duas medidas. Ou apenas uma: a do conservadorismo atolambado. Contudo, a organização que mostram ter é sempre interessante de analisar. Por exemplo, no mesmo dia, saem dois artigos sobre a estátua nos dois jornais mais sérios do país: o expresso e o público. O primeiro assinado por Henrique Raposo; o segundo por JMTavares. A coincidência não pode ser isso mesmo. A verdade é que a alt-right reúne-se, discute, elabora estratégias comunicacionais. Não é CIA style; são coisas mais comezinhas, como ir beber copos e comer nos mesmos restaurantes. Ambos os artigos elaboram os mesmos raciocínios e reincidem nos mesmos lugares-comuns que o conservadorismo tem por hábito aplicar à esquerda (intelectual!).

O primeiro é o da inutilidade do acto de contrição. Não se trata de pedir desculpas, como argumenta o JMT no Público. Trata-se sim de reconhecer o esclavagismo português. Não o fazer, insistindo na versão edulcorada de um passado exemplar, é reincidir no discurso do excepcionalismo colonial. Isto não me parece muito difícil de perceber, mesmo para jovens da alt-right portuguesa. Donde se conclui que JMT não está assim tão impressionado com a necessidade de combater “com todas as forças” a tese ridícula do Estado Novo. Até porque esta só é compreensível quando cotejada com uma versão da história que encobria precisamente o passado esclavagista português, pintando-o de necessidade através de uma missão civilizadora de cariz cristão e ocidental. As coisas não são dissociáveis e não se restringem às “cinco ou seis décadas” que atenazam o JMT.

Pedir desculpas é logicamente contíguo a assumir a culpa. Ninguém se espanta que os alemães assumam colectivamente a culpa pela morte de seis milhões de judeus. Donde provém então o incómodo pela assunção da culpa pela escravatura? JMT não teria dificuldade em aceitar que a Alemanha nazi devia ser alvo de alguma retribuição histórica, mesmo que os factos a que esta se refere estejam, como diz o plumitivo, no tempo dos tetravôs. Com a escravatura e comércio de escravos transatlântico, é apenas questão de estender o tempo histórico. Porque se prolongou por quase quinhentos anos. Porque definiu a história dos povos ocidentais e dos outros; ou seja, porque inscreveu no tempo histórico o “dispositivo do Oeste e do resto”, assim como o definiu Said.

É óbvio que uma tal assunção colide com o discurso da beneficência universal dos povos que assiste em grande medida as linguagens actuais da sombra histórica portuguesa. A contradição gera mal-estar. Mas é esse mal-estar que deve ser absorvido culturalmente, ruminado e reflectido. Para posteriormente entender o passado tal como ele foi e não como teríamos gostado que fosse segundo uma concepção elaborada no tempo presente.

Aqui ambos os plumitivos insistem que a tese de um Vieira enquanto esclavagista selectivo é um rematado disparate. Todavia, os testemunhos escritos não lhes dão razão. No seu Sermão da Epifania, pregado em 1662 na Capela Real de Lisboa, se por um lado dizia que o cativeiro ilícito dos índios era pecado, nada havia a obstar ao cativeiro dos negros, desde que ao escravo ou escrava o senhor não mandasse “cousa que ofendesse grandemente a alma, e a consciência” (ref. Sermão XXVII do Rosário, em Sermões, v.XII, p.331). Mas o que era pecado ou não tinha uma ampla latitude interpretativa na concepção de Vieira. Deste modo, quando instado pela Junta de Missões a manifestar a sua posição relativamente aos negros sublevados da “nação” quilombola de Palmares, Vieira não hesita em mandar exterminá-los, apresentando para isso cinco razões, cuja quinta rematava o assunto: como se tratava de escravos rebelados, persistiam no pecado, donde, numa lógica substancialmente pragmática, apenas o extermínio poderia ser consequente. Difícil encontrar o rasgo humanista que seria expectável.

Mas não estava desacompanhado. Las Casas, que é citado por Raposo,  enquanto mostrava uma genuína preocupação com o futuro dos indígenas, incitava Carlos de Espanha a enviar negros para trabalho escravo em Hispaniola. Será apenas mais tarde, na História Geral das Índias, que se confessa arrependido de ter feito a distinção. Mas não totalmente, visto ele próprio ser senhor de escravos até 1544.

Devemos julgar estes homens pelos padrões actuais? Não, definitivamente que não. Devemos relevar a sua ambiguidade, caldeada em preceitos religiosos e em visões morais que dividiam a humanidade enquanto merecedores e não merecedores de compaixão? Certamente que sim. A impossibilidade de Vieira e Las Casas se posicionarem da mesma forma para indígenas e negros mostra que o processo de desumanização dos segundos foi total. O preceito religioso da alma em muito contribuiu para tal desumanização. E de facto a célebre discussão entre Sepúlveda e Las Casas residiu em saber quem tinha ou não alma. Ou melhor, quem, não tendo alma que salvar, poderia ser escravizado sem vir daí nenhum mal para a consciência cristã. Aliás, com alguma perversidade epocal, Las Casas instiga ao transporte massivo de negros para as Américas a fim de poupar os indígenas. Em nenhum lugar, quer Vieira quer Las Casas, questionam por inteiro a instituição da escravatura.

Em suma, de todas estas coisas devemos estar cientes e não ter medo de sobre elas falar. Parece que o paraíso da liberdade liberal da nossa alt-right é que insiste em ter zonas de silêncio, assuntos intocáveis, e no fundo, a obrigar-nos a andar com antolhos.

A canção do bandido

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Começam a sair da toca os psds que andavam por aí amuados, sem grande polémica que concitar. Quando há a crucificação do líder, logo aparecem vários a mostrar a pluralidade do partido, como este está vivo em opiniões e estratégias, e o mais que se sabe. Todavia, trata-se de uma falácia. Posto que invariavelmente todos dizem a mesma coisa, repetida ad nauseam, desde os tempos em que Cavaco foi fazer a rodagem ao seu carro até ao bater consternado no peito dos actuais pretendentes. Não há diferenças nenhumas entre eles. Mas como é necessário mostrar que estão vivos e que são uma oposição a temer, mexem-se muito por estas ocasiões.

É quase certo que vamos ser servidos com o congresso da praxe, onde as televisões acampam com os seus comentadores, e se passam dois airosos dias de inanidades e inconsequências. Será assim desta vez também. Porque por aqueles que vão dando à costa nos jornais e na comunicação social em geral, já se vê que vêm armados dessas mesmas vacuidades e do viró-disco e toca o mesmo. Por exemplo, numa glosa do regresso dos mortos-vivos, mas desta feita enquanto regresso dos meninos de cabelinho à foda-se, o Diogo Agostinho vem espalhar a boa-nova. É certo que o artigo do expresso é um exercício bocejante de banalidades; mas tem o condão de mostrar uma coisa: a de que vem aí mais do mesmo. Há, para ser justo, uma espécie de lavagem de cara dos principais símbolos do partido. Uma insistência em definir-se como a “social democracia do século XXI” – os jograis de direita começam a espinotear com estas imbecilidades! – que se opõe “às gorduras do Estado” e visa tornar a sociedade portuguesa mais competitiva. O manifesto troikista de Passos Coelho por uma pena, só que com a manobra cosmética da “social democracia do século XXI”. Também Pacheco Pereira, pese embora o facto de ser a bússola moral do psd, inventa um partido que apenas nos seus mais intangíveis desejos existiu. O historial que traça no seu artigo do Público oblitera, como por magia, praticamente 20 anos de psd, de Cavaco a Durão Barroso, insistindo numa matriz, pasme-se, socialista! Felizmente que temos Rangel a recuperar alguma sanidade no conspecto ideológico do seu psd, afirmando-se um liberal, reformador, um liberal, liberal, ou o que seja. Mas colocando, muito apropriadamente, a social-democracia (e nem falar do socialismo) entre espessos parêntesis.

A necessidade que sentem de recuperar a social democracia nos seus diversos avatares, mostra que numa coisa não mudou: continua a ser um partido de demagogos. Pois que a conversa do Diogo Agostinho, mostra ao que vêm. Pacheco Pereira horrorizar-se com a realidade do psd, é a verdadeira negação freudiana. E no entanto o psd de Rangel, de Agostinho, e seguramente de Rio, tem uma linha e conduta: é neoliberal. Não pode haver qualquer dúvida sobre isto. O artigo do Agostinho diz tudo. Menos Estado, mais mercado – até onde não se sabe, porque este é um princípio que não encerra um limite lógico: é auto-propulsivo. Mas espero sinceramente que a retórica das gorduras do Estado, da avaliação dos seus trabalhadores – vejam como ressurge a ideia do “remanso” do funcionalismo público, tão ao jeito dos passistas da troika – e a baixa produtividade, que esconde, nunca esqueçamos, os custos do trabalho, faça ressoar na cabeça dos portugueses um intenso sinal de alerta. Não é preciso puxar muito pela memória para perceber que isto é ipsis verbis a conversa do Passos, da Maria Luís e dos homens do excel, que iam endireitar o país e pô-lo na vanguarda europeia. Os resultados são os que se conhecem. Mais pobres, níveis de desemprego inauditos, uma desigualdade galopante. E, com todos estes entorses, a economia estagnada.

Actualmente, ninguém no seu perfeito juízo dá crédito ao “diabo” segundo Passos Coelho. Mas é igualmente importante não dar crédito à mirífica “social democracia do século XXI” que estes demagogos nos vão tentar impingir nos próximos meses. Ela não existe. O que existe, sim, é o programa de reestruturação neoliberal que serviu para os anos da troika. O PSD de Rangel e do Agostinho não tem mais nada para oferecer.

Where does he get all those wonderful toys?

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(loja em Mesquite, Nevada)

Tenho mix feelings (como diriam os americanos) sobre os acontecimentos em Las Vegas. Certamente que devemos chorar os mortos, as famílias despedaçadas, as vidas ceifadas de alguns em tão tenra idade. Ninguém deseja que estas coisas aconteçam. Mas entre o desejo e a efectiva prática interpõe-se a sua probabilidade. E esta será tanto maior quanto os necessários recursos para a levar a cabo abundarem.

Via a FoxNews e deparava-me com a necessidade de pensar um país segundo a linguagem dos westerns. E nesse sentido, quase apetece dizer they had it coming! Sem surpresas, a linguagem utilizada pelos comentaristas e pivots da Fox é um compêndio para a compreensão da cultura americana. Desde apodarem o atirador de “cobarde”, scumbag, até ao Pure Evil do presidente Trump, é um conjunto de conotações que radica no mais profundo do imaginário western. E enquanto a cultura norte-americana continuar a falar a linguagem de John Wayne, coisas assim vão acontecer.

A coincidência de Stephen Paddock viver num sitio chamado Mesquite, faria as delícias de um moderno Nostradamus de extracção ibérica. Não fosse o caso de o acto perpetrado não ter qualquer conexão com terrorismo islâmico. O que coloca a leitura de um tal acto numa zona ambígua. A fox gostaria que tudo fosse mais simples. Trump com certeza que também. Se se provasse uma ligação ao terrorismo uma reflexão séria sobre a famosa second ammendment da constituição deixaria de ser necessária. Mas há coisas que me fazem pensar que deus escreve de facto direito por linhas tortas, e que quanto mais não seja os ínvios caminhos da sua justiça reservam sempre lições a ser apreendidas. Isto faria sentido num país conservador religioso. Mais comezinha seria a ilação a retirar do facto de se poder comprar armas como quem compra guitarras. E nisso há uma ironia fantástica. O local onde Paddock comprou algum do seu arsenal chama-se Guns and Guitars. Nele se pode encomendar pela internet uma AK-47 por 600 dólares, assim como se pode comprar uma guitarra baixo. Mas cúmulo da ironia, pode-se encomendar uma guitarra com a forma de uma metralhadora! Uma AK-47 é uma arma militar, que vimos empunhada por alguns dos movimentos de libertação, do kurdistão ao sudeste asiático. Quem sabe se compradas por encomenda na Guns & Guitars? O que torna a discussão levantada pelos conservadores americanos sobre a diferença entre automáticas e semiautomáticas, com as limitações legais que impendem sobre as primeiras, de uma hipocrisia, que mais uma vez apetece dizer they had it coming!

O segundo momento de máxima ironia, é o facto de a matança ter sido dirigida contra um concerto de música country. Há uma afiliada da NRA (National Riffle Association) que se chama NRA Country, e que defende os valores partilhados entre o the right to bear arms, da segunda emenda, e o good old american way of life da música country. Essa associação não é fortuita, e muitos dos grupos country são defensores sonoros do direito às armas. Depois da tragédia alguns vieram a público dizer-se arrependidos. Mas a verdade é que a linha que une os dois aspectos mostra a uma claridade surpreendente a américa que vota em Trump.

Perante o esforço que a Fox fez para passar a mensagem que a segunda emenda era intocável, só apetece dizer they had it coming! Pois foram tantos os especialistas chamados a depor sobre a inocência de ter um arsenal de 40 armas, entre elas metralhadoras e explosivos, que só nos oferece dizer, é bem-feito.

O terceiro aspecto é que só num país onde se tornou tão corriqueiro ter armamento de guerra como quem tem material de jardinagem pode um homem transportar 23 armas semiautomáticas para o quarto de um hotel. Perguntamo-nos como pôde guardar um arsenal durante três dias numa suite? Como puderam as empregadas da limpeza não dar pelo seu arsenal privado? Como puderam os responsáveis pelo hotel não interrogarem sobre a natureza do material que transportava? A resposta é que a ninguém levanta suspeitas que se carregue armamento desta natureza quando o mesmo pode ser comprado na mesma loja que vende guitarras para estudantes de música.

Assim as perguntas que os americanos fazem, recorrendo a especialistas – como foi possível transportar o armamento?, Como passou despercebido, etc – mostram o sonambulismo em que vegetam. Porque nenhuma delas encerra um enigma. Fê-lo porque podia; porque é corriqueiro fazê-lo sem levantar suspeitas; porque podemos levantar-nos de manhã e ir a uma loja comprar uma metralhadora, entre o café com leite e o almoço… O que poderia haver de estranho em tal comportamento?

Os USA têm uma lista de mass shootings. Não são todos os países que se podem orgulhar de um ranking destes. A Fox insiste que devemos olhar para a Europa onde leis restritivas controlam a venda de armas, e mesmo assim os crimes de massa acontecem, em Barcelona, em Londres, em Berlim. O argumento é cínico, e oblitera que foram matanças com automóveis, e não com armas automáticas. E para todos os efeitos, a indústria americana de matanças conseguiu o efeito desejável, e essa constitui a terceira ironia. Apesar da proibição de venda de armas automáticas, que disparem vários rounds em simultâneo, é possível comprar um dispositivo, uma manivela, que as transforma em automáticas completas. E este custa 99 dólares. Com tantos brinquedos à mão de semear porque se espantam os americanos quando a oportunidade para os testar se oferece?