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Se queres saber o que é plágio chama o Tóni

Setembro 13, 2017

(cortesia do blitz)

Confesso que a notícia caíu-me que nem uma bomba num estômago ainda vazio, prestes a receber empanadas e chouripan. Falo da acusação de plágio que recai sobre Tóni Carreira, pelo menos em relação a quatro músicas. O plágio é de tal ordem que nem as letras foram modificadas. Por isso, o famosíssimo “Depois de ti, mais nada” tem o seu émulo antecipado (brincar com antíteses) em Después de ti…qué, de um cantor latino-americano com o cabelo como o do pietra quando este jogava futebol. Agora bem, dava-se de barato que um título pudesse andar mai coisa meno coisa, ela por ela, e donde se tirava um “qué”, se colava um “mais nada”. O problema é que não apenas a composição musical é exactamente a mesma, como o refrão é igual. Assim, ouve-se “depois de ti mais nada/nem sol nem madrugada” e compara-se com “después de ti, mai nada/ ni sol, ni madrugada”. Irra que é demais. Isto é o cúmulo do desleixo preguiçoso; do laxismo energúmeno; do desrespeito ocioso (e que mais rimas se escolhesse…). Noutras músicas – são quatro – a composição é idêntica, mudando ao menos a letra. Mas em algumas nem o cuidado de mudar a letra houve. Dava demasiado trabalho com certeza, a um génio como o Toni Carreira, estar a matutar para arranjar uma letra que encaixasse na musiquinha já pronta – ih, que trabalheira!

E chegados aqui a onda de escândalo abate-se sobre o mundo da canção popular. Vale dizer que é importante não perder de vista que estes tipos ditos cantores populares são na sua maioria uns escroques, que talento têm zero, e só pensam em fazer dinheiro. Contra a acusação de elitismo com que muitos destes senhores e senhoras verberam a crítica (dita intelectual, pois claro) é bom que surjam momentos destes; momentos clarificadores onde fica patente como esta “gente se forra”, como diriam os nossos irmãos peninsulares. Posto que se trata de um negócio, e como mostra o exemplo, um negócio sem escrúpulos.

Todavia, há mais ilações a retirar deste caso. A primeira é de que não me admiraria nada que as versões plagiadas fossem elas próprias plágios. O mundo da canção popular alimenta-se de tal forma da reprodução incessante que é difícil perceber onde começa a originalidade e acaba a cópia. Isto também é válido para a canção pop, ou seja, para o eixo anglo-saxónico de produção musical popular (há evidentemente coisas muito boas, mas 90% é trampa). Mas a América Latina leva a palma d’ouro. São tantos e tão iguais os cançonetistas que por lá fazem fortuna que julgo ser de justiça dizer que há muitos anos se andam a plagiar todos uns aos outros de tão igual soa o produto. A mediocridade ganhou forros de mercado. Os cantores sabem-no, os produtores musicais também, apenas o público parece que anda sonâmbulo a consumir estas merdas com uma apetência de crianças por papas bledine. Porque há um quê de infantilização a que este mercado nos sujeita (e digo “nos” porque é difícil fugir dele, de tal forma nos é infundido até no mais recôndito dos lugares quotidianos (uma feira, uma loja, uma casa de banho…)). A maioria das coisas que por aí se faz não vale o papel da pauta em que são escritas. No caso do Toni Carreira nem foi preciso gastar dinheiro em papel de pauta, porque a música foi levantada no take away mais à mão. Mas o que por aí se vai ouvindo é um atentado ao esforço das pessoas que têm realmente que pensar, ser criativas e trabalhar sobre, nos seus respectivos ofícios.

O caso Tony prima no entanto pelo desleixo. Porque as pessoas que o rodeiam devem ter pensado, há tanta coisa por aí igual, que soa exactamente à mesma coisa, tira-lhe uma semimínima e mete-lhe uma semibreve – por que não copiarmos exactamente aquilo que queremos? E o que queriam? Sucessos garantidos que já tinham provado o seu valor noutras paragens (ou a falta dele). Esta é a outra face dos processos de reprodução da música popular: comportam o mínimo risco, e são pensadas como tal. Ora isto é a antítese do trabalho criativo. A criação comporta sempre algum risco, quanto mais não seja porque se está perante uma página em branco, tela, película, o que seja, que amedronta, e que na realidade é ela que lança o desafio. Duplamente medíocres portanto todos estes Toni Carreiras, de aquém e além atlântico, que se passeiam em Porches e Jaguares nos seus videoclips lamechas. Devíamos por eles ter menos contemplações. Confrontá-los com o valor das suas criações; não os deixarmos passar ilesos na boçalidade do consumo rápido e irreflectido; não os cumularmos de atenções indevidas. A noção é simples: se eu censuro um mau serviço num serviço público, porque hei-de enaltecê-lo na cultura? Porque esta gente não vale, e desmerece os milhares de horas de música dada ao mundo por verdadeiros músicos.

Isto não é elitismo – é justiça artística.

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