A santíssima trindade de Oeiras

Há uma singularidade na campanha para as autárquicas no panorama nacional. Bem sei que dada a qualidade de tantas candidaturas que se apresentam por esse país fora detectar uma singularidade afigura-se um pleonasmo. Mas considero que uma delas é especialmente digna de nota. Este ano, a campanha em Oeiras é um fenómeno. O que nos deixa perplexos é como num dos mais ricos concelhos do país se apresenta um leque de candidatos tão miserável. Um, é um mafioso, que se locupletou à custa da sua posição como presidente da câmara, e que surge agora putativamente renovado depois de passar uns tempos na prisão. É este que está na calha para vencer as eleições. Oeiras é o concelho com mais licenciados do país. Para além disso, há uma notória tendência de gentrificação oeirense com o regresso das classes altas ao seu seio. É este o concelho que se prepara para devolver a câmara a Isaltino.

É facto que do outro lado as coisas não se apresentam de feição. O candidato do PS teve a infelicidade de mostrar que era um “burgesso” nas suas esporádicas aparições televisivas. Um misto de arrogância labrosta e de cara de cu caracterizou a sua prestação. Não podia ter bons resultados. Raposo talvez se achasse o rei da parada porque vinha crismado da Amadora. Todavia, as bocas que sobre ele abundam não dignificam a sua carreira no município amadorense. E a falta de humildade eleitoral perdeu-o para sempre. Nem mesmo os gigantescos outdoors que semeou pelo concelho lhe emprestaram o perfil digno que necessitava. Talvez pensasse que com um meliante como Isaltino a comandar a banda não precisava muito de limar a imagem. Enganou-se. Oeiras nutre uma paixão inexplicável por Isaltino.

Os dois candidatos de esquerda nunca tiveram hipóteses, muito embora Oeiras se apresente consistentemente como o alfobre dos bés, porventura preenchido por uma juventude trendy que gosta de varandas com vista para o mar. Mas o BE apresentou exactamente o oposto do que poderia ser apelativo para essa coorte. Miguel Pinto tem o entusiasmo de uma carroça em exposição no museu de etnografia de Lisboa. Contrariamente, a CDU apostou na costela vegetariano-ecológica dessa juventude levando a Verde Luísa Apolónia à liça. Esta, por acaso, não se sai mal, tendo em conta que Oeiras poderia ser o Concelho do BE. Ou seja, fica tudo na mesma, com o BE sem meter vereador e o PCP com o seu tradicional único soldado nas fileiras.

E o mais fantástico dos candidatos desta eleição é sem dúvida o do PSD – Ângelo Pereira o candidato que preferiu manter o anonimato fotográfico. O que se passou com Ângelo Pereira devia ser digno de estudo, de  teses em psicologia ou politologia regressiva. A primeira coisa que há a notar é que Ângelo tem o cuidado de nos avisar nos seus cartazes que é goês. Só por si já é estranho num país que tem por primeiro-ministro um goês. O candidato prefere explicar que se tratou de uma manobra dramática de marketing. Como nunca tal foi visto, pergunto-me quem foi o dramaturgo que aconselhou. As pessoas ficaram a falar (a pensar) para o boneco, e Ângelo Correia não ficou mais bem quisto por ter um boneco castanho. O pormenor da cor do boneco é por si só um momento semiológico digno da maior atenção. Fica a sensação que Ângelo estava francamente preocupado com a sua imagem e com o que ela poderia suscitar nos oeirenses. Pode descansar porque os oeirenses preferem escolher bandidos.

E chegamos a Vistas. O ar de taberneiro que exibe não lhe confere grande porte. Os cartazes fazem lembrar mais um anúncio ao Zé dos Leitões do que uma campanha política. Mas eu considero que o seu mandato não foi terrível. E entre Vistas e Isaltino, caramba! O problema é que Vistas não podia ser uma figura mais apagada, em flagrante contraste com o espalhafato isaltinense: o charuto que segura a cabeça à boa maneira do caudilho latino-americano.

Porém, o verdadeiro âmago da questão é que Isaltino, Vistas e Pereira, são a santíssima trindade, e como tal são as três pessoas numa só. Vistas e Pereira são criações isaltinescas, criadas frankansteiniescamente nos corredores do palácio do marquês, a apanhar as beatas que o caudilho ia deixando cair. Vistas quis matar o pai; e claro que necessitava de o fazer para sobreviver, como se veio a provar. O pai ressuscitou e perante a incredulidade do filho, a este só resta berrar “pai porque me abandonaste?”. Porém, não tenhamos dúvidas: as três candidaturas são, como dizia a minha avó, farinha do mesmo saco. Todos comeram da mesma gamela. E o que temos é à boa maneira da fragmentação do sujeito pós-moderno, uma polivocalidade que sai de um só lugar. Assim como Moreira no Porto é CDS, com a ideologia do CDS e o modus operandi de um CDS (e tal coisa existe? Claro que sim!) também os três moscãoteiros de Oeiras são psds, caldeados na linha de montagem da jota, instruídos pelos seus tropos e ideais, e promotores dessa linha programática no poder local. Há diferenças? Certamente que sim: por exemplo apenas um foi bater com os costados à prisão. Vistas tem maiores preocupações com os animais, enquanto Isaltino está-se borrifando para a bicharada. E Ângelo ainda quer enriquecer com uma qualquer negociata que catapulte Oeiras para os pináculos do turismo mundial, enquanto Isaltino tem suficiente património imobiliário que lhe permitiria abrir um airbnb só seu. But make no mistake, a merda é a mesma.

Conclusão. Afigura-se muito preocupante que um Concelho como Oeiras apenas possa recorrer a tão degradado e deprimente leque de candidatos. Desde logo, tenho alguma dificuldade em compreender o fascínio com Isaltino. Mas há um dado novo na sua candidatura: é que este não tem nada a perder. Já passou pela prisão; já viu a sua imagem pública ser destruída, já foi escorraçado pelos seus correlegionários do PSD… ou seja, being there, done that. O que significa que é provável que entre a matar em Oeiras. Que queira mostrar muita obra, muito depressa. E quando assim é, coitado do Concelho que se lhe submete.

Blowing in the wind…

(manifestação do Pegida em Dresden, 2015)

O texto de Ricardo Costa sobre os resultados eleitorais da AfD, o partido de extrema-direita que entrou no parlamento alemão nas últimas eleições, é um compêndio do disparate e da desinformação. Para mais porque possui um tom de texto encomendado, de informação soprada ao ouvido, de intenção velada encomendada. E eu até gosto do que escreve Ricardo Costa, escorreito e sem grandes moralismos atenazadores. Mas desta vez pouco se aproveita da sua análise.

Lemos esta frase “O crescimento da AfD e de uma xenofobia que quase tinha desaparecido da Alemanha (…)” e não podemos deixar de ficar apreensivos. Saberá o plumitivo do que está a falar? Terá lido alguma coisa ultimamente sobre xenofobia na Alemanha? Com que bases faz uma afirmação tão taxativa quanto esta? Pois com poucas ou nenhumas.

A AfD é o culminar de uma tendência emergente desde há anos que tem o seu apogeu recente no Pegida. O Pegida é um movimento espalhado por 27 países que claudica em relação a tornar-se partido porque o seu líder Lutz Bachman não pretende uma formalização do seu rebanho. Todavia, com a obtenção de 13% dos votos por parte da AfD nestas últimas eleições, a possibilidade de fazer alianças com o Pegida torna-se bem mais interessante. Não por acaso Frauke Petri, a muito inteligente co-líder da AfD, saíu do partido depois da vitória. Bachman e Petri desentenderam-se por causa da circumcisão. Não do próprio Bachman, mas dos jovens em geral. Era óbvio que Bachman pretendia atingir os judeus, e Petri sendo uma nacionalista conservadora não quis mergulhar nas turvas águas do anti-semitismo.

A saída de Petri da AfD logo a seguir a tão surpreendente resultado eleitoral só tem uma leitura: os seus correligionários querem ensaiar uma aliança com o Pegida de Bachman. E para tal, Petri tinha que sair de cena.

Por isso, ao contrário do que diz Costa, a xenofobia não tinha (quase!) desaparecido da Alemanha. Organizava-se, recolhia apoios, tornava-se movimento, e ganha agora força parlamentar. Os desenvolvimentos são preocupantes porque seguem o ocorrido em França. Bachman é um labrego que passa a vida a afirmar que fala “como e para o povo trabalhador”. Já ouvimos esta ladainha a Trump, também ele um labrego. A breitbart dá algum relevo a Bachman e não esconde a sua simpatia por uma frente de extrema-direita formada pela AfD e o Pegida. O mesmo é dizer que têm o aval de Trump e do seu ideólogo Steve Banon. Perceber que isto é uma onda que está bem para lá da questão dos refugiados é importante, se não necessário. Bem antes da Alemanha aceitar mais de um milhão de refugiados da crise Síria, já o Pegida passeava com as suas cruzes iluminadas pelas maiores cidades alemãs (a iluminação das cruzes é um erzats para o fogo com que os cavaleiros da kkk adornavam as suas cruzes).

Aliás este conservadorismo cristão nacionalista tem ramificações cada vez mais sólidas no Leste Europeu. Com a Polónia, a República Checa e a Hungria de Orban a sustentá-lo. Curiosamente, a reacção da própria igreja – católica e luterana – a estes movimentos tem sido no mínimo ambígua. Nem se ouvem grandes condenações, nem tão-pouco explicitam a sua posição em relação aos mesmos. E no entanto é um movimento que se estende dos Estados Unidos à Ucrânia, e que parece ecoar a ideia de irmandade branca advogada pela alt-right.

Ora nenhuma destas tendências teve origem na crise dos refugiados. Esta apenas serviu como subterfúgio para o seu reforço. O programa da AfD era fundamentalmente anti-europeísta; com o tempo ampliou a sua retórica para um discurso ferozmente anti-imigração e islamismo. Mas não tenhamos dúvidas de que esta mudança ocorreu bem antes de sequer se prenunciar a chamada crise dos refugiados!

É preciso perceber que a extrema-direita se encontra viva na Europa e nos Estados Unidos (e na Rússia, obviamente).  Que as razões por que tal acontece têm sido sistematicamente mal apreciadas. Trump por causa dos perdedores da globalização; a AfD por causa dos refugiados; Le Pen por causa do operariado no desemprego – são algumas das razões mais invocadas. Nenhuma delas me parece fazer justiça ao fenómeno. E este tem vindo a adquirir um efeito de vaga de fundo que apesar da sua feroz ideologia nacionalista cada vez mais se organiza internacionalmente.

Pode a palavra mais…

 

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Há quem diga que ele é um louco. Outros acusam-no de ser um ditador sem escrúpulos e cruel. Outros ainda comparam-no a Kim Jong-Un. E no entanto, sentei-me a ouvir um discurso de Maduro na Constituinte e pensei: aí está um tipo que ainda fala de política. Sendo certo que, na boa tradição de Castro, o presidente da Venezuela não discursa nunca menos do que três horas (o recorde pertence intocado a Castro, com 8 horas de discurso), a hora que eu consegui suportar não mostrou nem um louco, nem um ditador cruel e vicioso, nem um excêntrico alucinado. O discurso foi servido com registo de cátedra; na realidade parecia uma lição numa aula magna de uma universidade em qualquer parte do mundo. Um discurso com carácter quase académico, pela estrutura dos argumentos e necessidade de passar uma mensagem. Nele, citou Gramsci, e Castro, e políticos venezuelanos que desconheço, mas que pelo suspense que criavam na audiência serão com certeza personalidades de renome.

Quantas vezes vimos citar Gramsci nos nossos políticos? É certo que durante quase todo o tempo mostrou um livro que ele próprio, Maduro, tinha escrito; e fazia-lhe tantas vezes referência como se algo de profético tivesse sido vertido naquelas páginas. O culto da personalidade no seu melhor estilo. E no entanto, o discurso prendia. E agarrava  a audiência. Não porque esta fosse fundamentalmente composta pelos seus correligionários – o que era verdade – mas porque o discurso era interessante, tinha corpo, interpelava.

Discursar uma hora (o que eu assisti) não é fácil. Torná-lo interessante é ainda mais difícil. Sem papel, sem videotexto, sem dispositivos: em improviso (estudado, planeado, quem sabe?) e capacidade retórica. O que interessa no discurso de Maduro não é tanto o seu conteúdo, criticável de diversos pontos de vista. É a sua virtude enquanto arte do discurso. Recorda os discursos parlamentares dos grandes oradores, no início dos parlamentos, onde as Câmaras baixa e alta eram lugares de oratória e necessidade estética.

Compare-se com a pobreza de tantos líderes mundiais e teremos um retrato aproximado da miséria da política actual. Compare-se com a boçalidade de Trump, com a magreza dos seus recursos linguísticos, com a enorme ignorância que o assiste, e teremos uma medida dos tempos actuais. Compare-se ainda com Temer, aquele vazio pomposo e estudado, um ignorante emproado, cuja oratória parece um relatório do conselho de economia. E não se deixe de parte Merkel ou Theresa May, ambas absolutamente desinteressantes e mecânicas.

Ouvia Maduro e pensava na idiotice do parlamento britânico, com os seus tiques ancestrais de um país onde a gentry respira um ar bafiento, com os seus urros medievais, intercalados por discursos asininos e demagógicos. Ouvia Maduro e pensava: concordasse-se ou não, a sua palavra oferecia elementos para reflectir. O oposto dos discursos políticos dos acima referidos, repletos de sound bites vazios que apenas servem para fazer caixas de imprensa. Curiosamente, no país onde impera uma ditadura (diz-se), como a de Maduro, é onde o discursante corre mais riscos com as suas palavras, porque estão carregadas de simbolismo, de emotividade, e mesmo de ideias erradas. Para além disso, o discurso possuía o condão de explicitar o papel do Estado, algo que a maioria dos discursos políticos actuais tende a ofuscar. É claro que a ideia de Estado se encontra presente, a ideia de Estado de direito, de soberania, nas múltiplas invocações respeitosas da lei e da constituição. Mas o real papel do Estado enquanto actor político está, na maioria das vezes, encoberto por um véu retórico que não lhe mostra as verdadeiras garras. Contrariamente, foi com uma candura quase patética que Maduro confessou que a economia venezuelana se sustenta no petróleo e que quando o preço deste cai a pique é toda a economia que se ressente. Construiu depois um arremedo de teoria da conspiração contra os países que segundo ele têm segurado artificialmente o preço do petróleo. Assim se mostra sem pejo a real dimensão do Estado e o que é o seu programa. Claro que a queda dos preços do petróleo prejudica a Venezuela, mas  beneficia quase todos os outros que não produzem petróleo. Estanca, por exemplo, os níveis de inflação. Porém, para Maduro isso era secundário. O Estado e as suas orientações ficaram assim à vista de todos.

 

Há formas de camuflar o Estado. Veja-se por exemplo a missa rezada em directo do gabinete oval. As teocracias sempre foram as configurações políticas mais eficazes a dissimular  a acção do Estado. Nas teocracias o Estado funde-se com a transcendência o que o torna uma entidade intemporal e imaterial. A afirmação de graças dada a Trump por ter trazido deus para dentro da casa branca proferida em directo nas televisões mostra como a teocracia remete sempre para um inefável que esconde a brutalidade do humano. As declarações de Trump na ONU possuem um cunho evidente de religioso. Na casa da concórdia universal, Trump mostra que veio para trazer a espada e não a paz. Mais concretamente, se tivermos em conta a frase do evangelho de Mateus, o que diz é “não penseis que vim trazer a paz à terra”, e Trump não quer que restem dúvidas sobre esse propósito ao afirmar que destruirá a Coreia do Norte se for necessário. A atitude de Trump na ONU é de desafio messiânico.

No mesmo mundo convivem Trump e Maduro. Nesse mesmo mundo, Trump, um ogre asqueroso, que lidera o país mais desenvolvido do mundo económica e militarmente, mal sabe falar; enquanto Maduro, o ditador acossado pelas organizações internacionais, dá uma aula de oratória.

Se queres saber o que é plágio chama o Tóni

(cortesia do blitz)

Confesso que a notícia caíu-me que nem uma bomba num estômago ainda vazio, prestes a receber empanadas e chouripan. Falo da acusação de plágio que recai sobre Tóni Carreira, pelo menos em relação a quatro músicas. O plágio é de tal ordem que nem as letras foram modificadas. Por isso, o famosíssimo “Depois de ti, mais nada” tem o seu émulo antecipado (brincar com antíteses) em Después de ti…qué, de um cantor latino-americano com o cabelo como o do pietra quando este jogava futebol. Agora bem, dava-se de barato que um título pudesse andar mai coisa meno coisa, ela por ela, e donde se tirava um “qué”, se colava um “mais nada”. O problema é que não apenas a composição musical é exactamente a mesma, como o refrão é igual. Assim, ouve-se “depois de ti mais nada/nem sol nem madrugada” e compara-se com “después de ti, mai nada/ ni sol, ni madrugada”. Irra que é demais. Isto é o cúmulo do desleixo preguiçoso; do laxismo energúmeno; do desrespeito ocioso (e que mais rimas se escolhesse…). Noutras músicas – são quatro – a composição é idêntica, mudando ao menos a letra. Mas em algumas nem o cuidado de mudar a letra houve. Dava demasiado trabalho com certeza, a um génio como o Toni Carreira, estar a matutar para arranjar uma letra que encaixasse na musiquinha já pronta – ih, que trabalheira!

E chegados aqui a onda de escândalo abate-se sobre o mundo da canção popular. Vale dizer que é importante não perder de vista que estes tipos ditos cantores populares são na sua maioria uns escroques, que talento têm zero, e só pensam em fazer dinheiro. Contra a acusação de elitismo com que muitos destes senhores e senhoras verberam a crítica (dita intelectual, pois claro) é bom que surjam momentos destes; momentos clarificadores onde fica patente como esta “gente se forra”, como diriam os nossos irmãos peninsulares. Posto que se trata de um negócio, e como mostra o exemplo, um negócio sem escrúpulos.

Todavia, há mais ilações a retirar deste caso. A primeira é de que não me admiraria nada que as versões plagiadas fossem elas próprias plágios. O mundo da canção popular alimenta-se de tal forma da reprodução incessante que é difícil perceber onde começa a originalidade e acaba a cópia. Isto também é válido para a canção pop, ou seja, para o eixo anglo-saxónico de produção musical popular (há evidentemente coisas muito boas, mas 90% é trampa). Mas a América Latina leva a palma d’ouro. São tantos e tão iguais os cançonetistas que por lá fazem fortuna que julgo ser de justiça dizer que há muitos anos se andam a plagiar todos uns aos outros de tão igual soa o produto. A mediocridade ganhou forros de mercado. Os cantores sabem-no, os produtores musicais também, apenas o público parece que anda sonâmbulo a consumir estas merdas com uma apetência de crianças por papas bledine. Porque há um quê de infantilização a que este mercado nos sujeita (e digo “nos” porque é difícil fugir dele, de tal forma nos é infundido até no mais recôndito dos lugares quotidianos (uma feira, uma loja, uma casa de banho…)). A maioria das coisas que por aí se faz não vale o papel da pauta em que são escritas. No caso do Toni Carreira nem foi preciso gastar dinheiro em papel de pauta, porque a música foi levantada no take away mais à mão. Mas o que por aí se vai ouvindo é um atentado ao esforço das pessoas que têm realmente que pensar, ser criativas e trabalhar sobre, nos seus respectivos ofícios.

O caso Tony prima no entanto pelo desleixo. Porque as pessoas que o rodeiam devem ter pensado, há tanta coisa por aí igual, que soa exactamente à mesma coisa, tira-lhe uma semimínima e mete-lhe uma semibreve – por que não copiarmos exactamente aquilo que queremos? E o que queriam? Sucessos garantidos que já tinham provado o seu valor noutras paragens (ou a falta dele). Esta é a outra face dos processos de reprodução da música popular: comportam o mínimo risco, e são pensadas como tal. Ora isto é a antítese do trabalho criativo. A criação comporta sempre algum risco, quanto mais não seja porque se está perante uma página em branco, tela, película, o que seja, que amedronta, e que na realidade é ela que lança o desafio. Duplamente medíocres portanto todos estes Toni Carreiras, de aquém e além atlântico, que se passeiam em Porches e Jaguares nos seus videoclips lamechas. Devíamos por eles ter menos contemplações. Confrontá-los com o valor das suas criações; não os deixarmos passar ilesos na boçalidade do consumo rápido e irreflectido; não os cumularmos de atenções indevidas. A noção é simples: se eu censuro um mau serviço num serviço público, porque hei-de enaltecê-lo na cultura? Porque esta gente não vale, e desmerece os milhares de horas de música dada ao mundo por verdadeiros músicos.

Isto não é elitismo – é justiça artística.

Irma

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E lá se foi o Irma que na sua fúria demolidora passou de categoria 5 para 2, espalhando uma ventaniazinha pelas terras do tio sam. Quem apanhou com o momento catastrófico foram os caribenhos e os cubanos. A esses o Irma não poupou esforços para se apresentar como o furacão do século (deste e eventualmente dos anteriores). E deixou de facto um rasto de destruição e morte que se prolongará pelos anos vindouros.

O que foi notável na passagem do Irma pela Florida não foi o seu poder demolidor, nem a sua força catastrófica. Foi o facto de pela primeira vez assistirmos a um furacão, na sua actividade de furacão, em directo, 24 sobre 24, com cobertura jornalística de cada onda, cada rajada de vento, cada redemoinho desenfreado, cada vórtice de chuva. CNN e FOX em simultâneo competindo pelas melhores imagens. À espera da catástrofe anunciada; seguindo cada passo do Irma em direcção ao norte, com acompanhamento científico de uma trupe de metereologistas, comentários intermitentes de especialistas do clima e intervenções de políticos e responsáveis governamentais. Sem dúvida que o Irma eclipsou a ida do Papa à Colômbia, e nem do perigo da loucura nuclear da Coreia do Norte se falou mais.

Tanto quanto me lembro, pela primeira vez a televisão esteve em directo de dentro de um furacão. O que é interessante – não apenas pelo seu potencial metafórico, mas porque ficamos na dúvida de onde se estabelece a fronteira entre a notícia e o filme catástrofe. Durante horas filmou-se um conjunto de guindastes na Florida na vã esperança que caísse… mas nada aconteceu. O mais que podia ser feito era seguir a iminente desgraça com constantes comentários a antecipá-la. E assim um jornalista excitado apontava a câmara com gestos largos e eficientes para o guindaste que balouçava e pontuava as imagens com exclamações precoces de desastre anunciado.

E o que dizer da heroicidade de jornalistas, homens e mulheres, que lutaram contra ventos e marés – literalmente – para nos trazerem um directo do furacão? O mínimo que se pode dizer é que o grau de insanidade atinge picos paradoxais. Rematando cada notícia, cada intervenção, com cabais avisos à população para não saírem das suas casas e seguirem as instruções das autoridades, ali estavam aqueles deuses olímpicos a desafiarem a fúria de Poseidon, à borda dos cais das marinas, a resistirem contra a inclemência dos ventos com a força de titãs. O que dizer? Bom, sobretudo que quem esteja preso à televisão pensará que se eles podem, porque não eu? E foi aqui que se deu a passagem do acontecimento furacão para o desporto radical furacão. Pois se é verdade que técnicos e jornalistas estarão provavelmente rodeados de medidas de segurança bem planeadas, também é certo que aquilo que mostravam era que afinal era possível: estar dentro de um furacão fincando os pés com a insistência de gigantes, tratava-se de uma questão de vontade. Desta forma, os jornalistas desafiaram todas as recomendações das autoridades e passaram a mensagem que estas eram apenas espasmos alarmistas. Na próxima catástrofe veremos quantas mais almas afoitas se juntarão aos profissionais da informação desafiando os elementos. As apostas estão no ar!

Imagens impressionantes sem dúvida. Vários jornalistas durante horas a serem fustigados pelas lâminas da chuva. A competirem eventualmente pelo espaço mais arriscado, pela situação mais digna de admiração, o grande pulitzer do jornalismo enquanto desporto radical de catástrofe natural. Não houve cadeia de televisão no mundo que não enviasse os seus profissionais para dentro do furacão. Nunca, avento, um fenómeno climático tinha sido tão acompanhado pelos serviços noticiosos. E as acrobacias a que os jornalistas se prestavam para estarem nos locais mais arriscados, na rua inundada, na esquina onde as palmeiras se dobravam até ao solo, na praia onde as ondas se encapelavam em altura de prédios – em nada se pouparam a esforços para nos trazerem o real da catástrofe.

Numa escala menor assistimos a isso nos incêndios de Pedrogão. Os jornalistas apareciam nos sítios mais insuspeitos. Ainda antes dos bombeiros sequer saberem dos acontecimentos, já eles lá estavam. O curioso foi porque é que em vez de aproveitaram esse tempo para justamente avisarem os bombeiros, o perdiam cobrindo em directo os avanços do fogo. E enquanto filmavam afanosamente os esforços desesperados da população, a ideia que nos ocorria era porque caraças não agarram nuns baldes e nas mangueiras e contribuem para combater as chamas? Da mesma forma, esperámos em vão para ver um jornalista ser atirado pelo vento a quilómetros  de distância, mas nada aconteceu. Embora esse, sim, teria sido um desfecho digno do verdadeiro blockbuster.

Ontem o jornalismo mostrou que pode mais, sempre mais. Que se pode transformar em filme-catástrofe. E quase diria que houve uma certa desilusão pelo Irma se ter ido definhando, lentamente, da tão esperada cat 5 para cat 2, onde apenas havia vento e chuva para noticiar, sem a esperança da catástrofe iminente.