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A lira dedilhada no fragor do fogo

Agosto 22, 2017

(retirado do site da protecção civil)

Tenho para mim que a disseminação de incêndios que grassa pelo país é obra do terrorismo. Meço bem as palavras: trata-se de terrorismo com intenções políticas. A concertação com que os incêndios deflagram, um após outro, em lugares estrategicamente escolhidos é demasiado consistente para ser fruto do acaso, ou sequer da malevolência de alguns indivíduos isolados, porventura sociopatas. A forma como os incêndios se têm espalhado quase geometricamente pelo país leva também a pensar que algo de premeditado se passa. E neste sentido trata-se de uma acção terrorista em larga escala com objectivos muito concretos e de natureza política.

Para ser exacto, surgiu recentemente a teoria dos interesses ligados ao próprio negócio do fogo. Quem lucra com aviões canadair postos a voar, com fardas que têm ser renovadas,  com a venda da madeira? Se seguirmos estas pistas encontraremos os culpados. Qualquer destas razões é provável e não despicienda. Mas não chegam. Antes de mais, podem estas parcelares justificações conviver perfeitamente com um plano mais alargado e mais ambicioso; um plano de natureza política. Estou ciente que uma tal hipótese cheira a teoria da conspiração, a congeminações secretas e malignas aparentemente tão fantasiosas quanto um livro de Dan Brown. E no entanto o mundo já assistiu a coisas mais estranhas. Pode até ser que os primeiros fogos tenham sido fruto das condições climatéricas, do acaso, do azar e da negligência. O incêndio de Pedrogão por exemplo teria sido a tragédia não anunciada. Contudo, tendo a direita percebido que poderia daí retirar dividendos políticos o que se seguiu (e ainda segue) tem um carácter demasiado elaborado para passar por vaga de incêndios descontrolada. Quer isto dizer que eu acho que o Passos Coelho anda de tocha na mão por esses pinhais fora a pegar fogo às matas? Não. E também não precisaria de o fazer. Bastaria que os interesses interessados em apear a “geringonça” pagassem para isso. Mas quem seriam tais interesses obscuros cujas mentes operassem a um tal nível de psicopatia?

É preciso recordar que em Portugal houve em tempos terrorismo de direita. Que bombas foram postas nas sedes da esquerda e pessoas foram mortas. Que este terrorismo era organizado e manifestação de pânico perante a possibilidade de um irredutível regime de esquerda que então se perfilava no horizonte político. Que pessoas ligadas ao velho regime, com os seus direitos adquiridos, pagaram para que tais actos fossem praticados. Demasiado escabroso e paranóico? Já aqui escrevi que pela primeira vez na história da democracia portuguesa há a possibilidade de a direita ser arredada do poder por bastante tempo. As perspectivas em termos de eleições autárquicas não eram nada animadoras para os dois partidos da direita. A popularidade dos socialistas crescia sem parar e, em contraste, essa mesma popularidade encontrava-se em queda livre para os partidos da direita. Silenciados no discurso da economia, com os indicadores a darem boas notícias quase todas as semanas contrariamente ao discurso catastrofista com que receberam a “geringonça”, o tema do desleixo do Estado a propósito dos fogos caiu que nem mel na sopa. Ou melhor dizendo, substituiu um catastrofismo falhado por outro cujos resultados são palpáveis. Isso mesmo é ilustrado pelo jornal Correio da Manhã, verdadeiro órgão de propaganda do PSD-CDS, que diariamente insiste que estamos perante um regime que se esboroa porque não consegue controlar os incêndios. É preciso salientar que nunca tanto fogo foi utilizado de forma tão exímia como material de guerra ideológica pura, de manobra política propagandística. Essa novidade tem pelo menos o condão de mostrar a elasticidade das lutas ideológicas e dos temas que estas elegem. Do discurso político dos dois partidos de direita restou apenas os fogos. E para mim a intenção de pôr o país a arder através de retóricas inflamadas sobre incêndios e a irresponsabilidade da administração no confronto com os mesmos, possui a sua materialização no acto mesmo do incendiário, dos vários incendiários que têm espalhado o caos pelo país. De tal forma que a crítica ao desmando administrativo do PS em virtude da incontrolabilidade dos incêndios parece feita à medida e à velocidade com que estes se vão espalhando pelo território. A maneira como passam de terrenos massacrados para outros ainda virgens como se se tratasse de um périplo turístico pelas mais belas florestas portuguesas leva a pensar que nem Deus joga aos dados, como queria o grande Einstein, nem tão-pouco o fogo lavra a eito. Pelo contrário, saltita conscientemente pelas regiões do interior como saltitam as farpas no tabuleiro do xadrez político.

Talvez um dia quando se faça a história destes incêndios se chegue ao fundo da questão. Ou talvez nunca se saiba. E contudo, olhando para o que a história nos tem ensinado, motivações políticas de diversas índoles estiveram por vezes por detrás de grandes catástrofes. Nero vem depressa à mente. Não me admiraria se algures uma lira fosse dedilhada com indisfarçável prazer perante a voragem do fogo.

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