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O estado da (i)nação

Julho 13, 2017

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Ver para crer, como dizia São Tomé. Se os acontecimentos recentes nos estates copiam, com grau de verosimilhança quase futorológica, o que se passou no house of cards, as reacções políticas da direita portuguesa são dignas de uma antologia dos melhores momentos de Maquiavel. Ou então da Scarlet Letter, visto que os dois partidos da oposição pareciam cães raivosos a tentarem ferrar uma condenação sem apelo ao PS. A desgastada acusação de caça às bruxas utilizada por Trump pode reverter para aqui.

Como anteriormente assinalei para a Cristas, convém repetir que esta gente tem uma falta de vergonha inexcedível. O credo actual da gente de direita é, pasme-se, a solidez do Estado. Não sabíamos nós o que se escondia por detrás da tão aventada ideia da reforma estrutural do Estado? E das gorduras? Ver o Leitão Amaro (havia uma brincadeira em puto que era telefonar para casa do sr. Leitão e perguntar se já tinha sido promovido a porco. No caso do Amaro a resposta é evidente), a dizer que o estado ceifou vidas inocentes é de rilhar os dentes para não lhe partir as trombas.

Mas basta ler a última crónica de Henrique Raposo no Expresso para perceber que todos estes senhores estão-se nas tintas para o Estado e o que esta raiva encobre é uma mais antiga dor de cotovelo: a da semi-coligação orquestrada por Costa para ter maioria parlamentar. Que esta solução tenha por diversas vezes sido apontada por especialistas na matéria como sendo perfeitamente constitucional, em nada abala o azedume duma direita que estava habituada a ganhar com o psd ou em coligação com o cds. Descobrindo-se-lhe o truque de saltimbanco, e com a devida flexibilidade do PS, a direita está verdadeiramente assustada pois pode passar um período de jejum prolongado.

Veja-se o que foi feito no Brasil. Perante a perspectiva de perder consecutivamente eleições para o PT, a direita orquestrou um golpe judicial e, alcandorada a uma máfia tenebrosa com maioria no Planalto, assaltou o poder. E se Dilma era história antiga, Lula tinha as estimativas de voto a seu favor. A solução foi atirar com a sua carcaça para a cadeia com antecipação suficiente para não se poder candidatar em 2018. Enquanto isso distraem-se as atenções de Temer e do bando de malfeitores que o apajam.

Portugal não é o Brasil. Ainda há alguma solidez e autonomia institucional que permite alguma tranquilidade. Mas os métodos da direita são semelhantes. Quando se proporcionou a viragem para a coligação com a decadência do governo Sócrates, rezava então Passos Coelho que o Estado tinha engordado à custa dos socialistas; que tinha sido um crime esbulhar o país à custa do Estado, e etc. Ver a sua trupe de saltimbancos berrar por amor ao Estado faz chorar o mais empedernido dos corações… a rir. Pois que é de histrionismo que se trata. Novamente o Raposo. Para ele todo “o mal e a caramunha” decorre do “spin” socialista. Confesso que não considero os socialistas assim tão competentes para terem um spin tão eficaz como quer o plumitivo. Contudo, detenhamo-nos no seu raciocínio para ver ao ponto a que chega a histeria do absurdo. Para o Raposo as (más) justificações das cadeias de comando das forças de segurança – tanto para o caso de Tancos como para Pedrogão – são tudo maquinações do “spin” socialista. Mas porquê? Porque não podem ser apenas maquinações das cadeias de comando? Ah, porque estas estão infestadas por boys socialistas enfiados à pressa com esta legislatura. Mas se estes chegaram agora foi porque substituíram os que lá estavam. Ora como julgo difícil serem todos do PCP ou do BE, a hipótese mais verosímil é que fossem da Páf. Isto é deveras interessante; e pese embora as diferenças de escala e de contexto político-institucional, uma das acusações recorrentes da direita conservadora brasileira ao PT foi a deste ter minado o Estado com os seus boys. Considero tudo isto fascinante. Ainda para mais vindo dum sector político que detesta o Estado, tanta preocupação com o mesmo é de facto estranha. De duas uma: ou os neoliberalóides não detestam assim tanto o Estado como apregoam quando dele fazem a origem de todos os males; ou isto não passa de retórica, de má fé política, de guerrilha sem conteúdo. Em qualquer dos casos, diremos como Trump nosso arauto: Fake News!

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