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A cruzada Cristas

Julho 6, 2017

 

A Presidente do CDS-PP,  Assunção Cristas monta um cavalo durante a visita à Feira de São Martinho, XLI Feira Nacional do Cavalo e XVIII Feira Internacional do Cavalo Lusitano, 11 novembro 2016 na Golegã.  PAULO CUNHA/LUSA

O tempora! O mores!, assim podíamos começar um exercício crítico ao discurso da Cristas. Ou então: – Que sacana inacreditável! Ou, ver para crer, porque é necessário que a ouçamos para que nos belisquemos e digamos: não, não estou a sonhar.

Uma estratégia de terra queimada, mas cirurgicamente queimada, é assim que a vejo. Silenciados no campo a que se arrogavam mais competência – a economia – o psd e o cds-pp conluiaram-se para acertar agulhas no discurso da hecatombe do poder de Estado. Curiosa inversão esta. Onde dantes se acusava a esquerda de só querer Estado, de viver obcecada pela expansão do mesmo, e pelo reforço da sua penetração na sociedade; acusa-se agora de não ter Estado, de o delapidar, depauperar, esmifrar de tal forma que ele perde autoridade e extensão. Interessante reviravolta indeed. E isto vindo de neoliberais de cartilha, daqueles que apregoaram anos a fio que a origem de todos os males era, certamente, o Estado!

Ouvir Cristas a criticar o PS por cortes selvagens no Estado é um momento de hilaridade absoluta. Os troikistas, papistas do credo do “Vamos para além da troika”, tão preocupados que estão com a fragilização do Estado. Dá pena. Dá pena tanta hipocrisia. Mas que o povo não se esqueça que esta mesma Cristas enchia a boca com a reforma do Estado, com o excesso de Estado na economia, com a imprescindibilidade da sua redução, com o mantra sufragado e pregado pelos pagens da direita liberalóide do Estado Mínimo! Pasme-se então por ver tal ardor na defesa do Estado!

A bem da justiça argumentativa digamos que Cristas vê a ameaça pairar essencialmente sobre a componente de autoridade e soberania do Estado. É a velha equação dos neoliberalóides: menos Estado providenciador, mais Estado controlador. Veja-se a displicência com que o Estado-PS enfrentou os fogos de Pedrogão, diz Cristas. Culpado do incêndio? Não, Cristas não chega a tanto – não chega ao ponto de pôr na mão de António Costa, qual Zeus!, o raio deflagador. Mas a forma como lidou com o assunto – parece-lhe evidente – indicia o esboroamento das estruturas do Estado. E as armas? Pois a mesma coisa. O exército em bolandas, sem dinheiro sequer para pagar o pré, só pode dar nisto. Por paradoxal que pareça, os arautos do Estado mínimo optaram por uma interpretação maximalista do poder do Estado e, consequentemente, das suas falhas.

Mas há uma preocupação genuína na Cristas: esta sequência de desgraças é o filão político que uma direita silenciada por falta de assunto precisava. Como buldogues raivosos não largarão tão cedo o osso que prestimosamente se lhes ofereceu. E pela primeira vez vislumbram a luz ao fundo do túnel – a bem dizer, um clarão!

Esmagados no campo da economia para onde tinham afinado baterias durante anos contra a esquerda, surge-lhes agora a grande autoestrada retórica da autoridade do Estado. Quando o assunto economia falha, não havendo nenhuma razão apriorística para ir nos cantos da sereia da direita neoliberal, impõe-se o discurso da segurança. Foi assim com Trump. Como fazer uma crítica neoliberal à política económica de Obama quando a economia norte-americana crescia sustentadamente? O ersatz é sempre o Estado, a segurança, a soberania. O mesmo se passa em Portugal. Como gritar que vem aí o diabo na economia quando este foi de férias? Regressa pela porta do cavalo transfigurado em Estado, segurança, soberania.  É tudo muitíssimo previsível.

É caso para dizer, como Cícero, Quo usque tandem abutere, Cristas, patientia nostra? (Até quando vais abusar, ó Cristas, da nossa paciência?).

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