Lobos em pele de cordeiro

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O artigo de Henrique Raposo em defesa da liberdade de expressão de Gentil Martins de dizer aquilo que pensa sobre a homossexualidade é como sempre um entorse intelectual.

Raposo acha que não se devem queimar pontes. Que as afirmações do médico foram eventualmente um tanto ou quanto destemperadas. Contudo, acha que deve haver espaço para discussão. Mas o que é que há para discutir? Há homossexuais; vivemos num mundo em que as pessoas têm direitos; e um desses direitos é não poderem ser discriminadas com base na sua orientação sexual. O que há então para discutir? Pressentimos, claro está, a concessão óbvia ao discurso de Gentil Martins: que a homossexualidade é uma anomalia, que é uma doença, que é uma perversão, etc, etc. É isso sem sombra de dúvida que há para discutir… segundo Raposo. Devo dizer que não li o artigo todo. A um terço dos artigos do Henrique Raposo começo a sentir o refluxo gástrico e desisto. Mas também não importa. Porque aquela sugestiva ideia da discussão diz tudo. Gentil Martins não é apenas médico e católico – é de outra geração. Ao contrário de Raposo que pertence a uma geração (embora não pareça) onde estas coisas já foram discutidas; na qual as pessoas aprenderam a aceitar a diferença dos outros,

Imaginemos por absurdo que a medicina chega de facto à conclusão que a homossexualidade é uma anomalia. O que é que se faz? Cura-se com choques eléctricos? Castram-se quimicamente os homossexuais? Gazeiam-se em balneários simulados? Estas alternativas já foram todas tentadas. Quererá Gentil Martins e Raposo sugerir uma outra “cura”? Assim como é incompreensível que o deputado André Ventura acorde todos os dias tão preocupado com os ciganos que não pagam o autocarro, também gera perplexidade a obsessão com a homossexualidade por parte de Gentil Martins e Henrique Raposo. Tenho poucas dúvidas que terão aplaudido a triunfante decisão trumpista de impedir os transgéneros de servirem no exército norte-americano. E que para eles deveria haver uma ampla discussão – eventualmente um programa do prós-e-contras da Fátima campos ferreira – sobre o assunto. É estranho que lhes tenha passado ao lado a ampla discussão que há pelo menos meio século se anda a fazer: na arte, na literatura, no cinema, na ciência, no direito… – a lista não teria fim – sobre a aceitação da homossexualidade por parte da sociedade alargada.

A discussão que Raposo e Martins querem ter, possui um objectivo muito concreto. Fazer regredir as conquistas em todas essas áreas. Este argumento da necessidade de discussão é tão cínico como estúpido. Para os estúpidos, ele actua cinicamente; para quem tem dois dedos de testa ele rescende a estupidez. Também André Ventura afirmou que a questão dos ciganos era algo que as pessoas queriam discutir. Como se esta – seja lá qual for a “questão” dos ciganos – não fosse falada até à exaustão! Nas numerosas demonstrações de ciganofobia, nas inúmeras provas de preconceito, nas representações que os indivíduos entretêm sobre qual deve ser o lugar dos ciganos na sociedade portuguesa, etc.

Assim o Raposo. A afirmação “pode e deve haver discussão sobre homossexualidade”  por ele proferida de forma tão peremptória, oblitera que desde sempre houve discussão; ou melhor, desde sempre houve discurso! Aliás, se houve área que sempre se pronunciou sobre a homossexualidade foi a medicina. O que houve foi sempre uma discussão feita apenas e só segundo os termos de um dos lados. Diriam, mas ele acrescenta que a discussão deve ser feita “fora das balizas da LGBT”, o que qualifica a afirmação. Mas a discussão sobre homossexualidade foi durante séculos feita fora das balizas da LGBT! Tanto a sua discussão como os seus silêncios. É pelo contrário tempo de a fazer dentro das balizas da LGBT!

A pior coisa com que nos confrontamos no espaço comunicacional actual é esta espécie de virgens ofendidas que se vitimizam de ser amordaçadas quando o seu discurso foi, durante séculos, o discurso hegemónico. Uma das razões pelas quais o chamado politicamente correcto é tão aguerrido é porque está a lutar contra discursos cristalizados, ideologicamente suturados por séculos de trabalho efectuado pelos grupos dominantes sobre a cultura.  Por isso vir fazer o papel de vítimas da intolerância do politicamente correcto é sempre escorregadio. A um tempo porque sendo geralmente o politicamente correcto o discurso dos dominados, o trabalho de inversão dos poderes instituídos e instituidores é muito mais exigente. A outro porque este trabalho implica destruir pré-noções e preconceitos enraizados como verdades. Por exemplo, é falso quando cinicamente André Ventura vem dizer que ele só falou de um assunto que as pessoas querem falar, mas não o fazem porque são censuradas, porventura por uma fantasiosa polícia de esquerda. O que André Ventura fez foi repetir as seculares acusações aos ciganos de estarem à margem e contra a ordem, só que desta feita através de uma retórica ajustada aos tempos correntes. O mesmo para Gentil Martins. E por consequência para Henrique Raposo.

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As desventuras de André

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André Ventura faz parte daquela constelação de intelectuais dontrinadores da nova direita portuguesa cujas maiores preocupações na vida são o islão e as chamadas minorias. Outros dos vates que enfileiram este grupo são Henrique Raposo e João Pereira Coutinho. Esta rapaziada vive assoberbada pela ideia de que o Islão está a invadir a Europa e que as minorias – negros, ciganos, bielorrussos, you name it… – se encontram a esbulhar o Estado. Logo eles que abominam o Estado! Esta relação entre os neoliberais da nova direita e o Estado começa a assemelhar-se a uma relação fetichista. Por exemplo, Raposo veio imediatamente defender a tese extraordinária que é não falando do assunto – neste caso “ciganos” – que se dá azo a correntes e especulações racistas. A questão é muito simplesmente esta: por que razão ocupa o candidato do PSD a Loures, André Ventura, 40% da sua entrevista com o tema ciganos? De todos os problemas que um Concelho possa ter, os ciganos não pagarem para andar de transporte público, será o mais relevante? Ou terá sequer alguma relevância?

Podemos ver em André Ventura um intolerante ou um oportunista. Não tenho a certeza para qual das carapuças me devo inclinar ; mas a de oportunista corresponde a certos factos que lhe dão consistência. Por exemplo, quando André Ventura publicou uma coisa chamada A última madrugada do Islão parece que houve alguma controvérsia, e que o escritor chegou mesmo, segundo nos relata, a ser alvo de ameaças por parte da comunidade islâmica a residir em Portugal. Digamos que este corpetezinho à la Rushdie serviu muito bem para dar corpo à figura do intelectual incompreendido perseguido pelo Islão. E acrescentemos que não há má publicidade – apenas publicidade! Por aqui já se vê que Ventura não é um estreante nestas andanças. Procede portanto a tese segundo a qual o PSD encontrando-se silenciado no grande tema ECONOMIA procura agitar as águas através dos temas caros à extrema-direita. Isto seria uma visão meramente instrumental das inconfessáveis razões de Ventura. Todavia, estou em crer que subjacente a esta instrumentalização, que sem dúvida possui o seu peso na retórica política, há um nível de crença naquilo que se diz que não é despiciendo. É certo que o tema ciganos pode ser visto como uma reactivação dos temas de eleição xenófobos que mobilizam as massas. Desconfio, no entanto, que não se tivesse dado o caso da condenação da esquadra de polícia de Alfrangide, André Ventura arrolaria os negros à sua lista de inimigos da nação. O que mostra alguma capacidade monitorizadora do discurso que lhe permitiu discernir que “negros” era uma no go area, enquanto ciganos era campo por desbravar… no que toca ao momento presente, bem entendido.

O que percorre o discurso do candidato, na realidade, é a paranóia securitária. Não são apenas os ciganos, ou melhor, o cigano enquanto categoria diferenciadora, que lhe fazem espécie – são os bairros sociais onde medram, para ele, todas as tendências entrópicas do Estado de direito! O Estado de direito, garante da ordem e da liberdade, vive acossado por esses espaços obscuros, selvagens e imprevisíveis que bordejam as nossas zonas habitacionais. Na sua segunda aparição sobre o tema, em tom de retractação, já Ventura diluía as suas afirmações ajuntando-lhes a questão do género e das diferenças de papéis no interior das comunidades ciganas, curiosamente, o tema central do artigo de Henrique Raposo desse mesmo dia. Mas na entrevista ao Notícias não está minimamente preocupado com as meninas ciganas e os seus destinos, algo de que nem sequer fala. Os temas são concretamente: o abuso do Estado por parte dos ciganos, nas suas múltiplas modalidades de não pagamento das suas obrigações, de frutificação na ilegalidade ou de edificação de guetos de autarcia interna… e depois a prisão perpétua.

Temos que nos habituar a não ver nestes processos retóricos esquemas de either/or. Ou seja, não se trata de à falta de economia viram-se para a xenofobia e para a segurança. Não. A sua economia, a visão que sobre ela têm, exige que se pense de forma xenófoba e securitária. Não é portanto um processo calculista de substituição retórica, mas sim uma conjugação por afinidades electivas. Os temas articulam-se porque a concepção neoliberal – diria mesmo a antropologia filosófica que lhe está subjacente -, assim o exige. De que forma? Das maneiras que tão bem descritas foram por Naomi Klein e Loic Wacquant. O neoliberalismo preza as assimetrias sociais como o sangue que lhe corre nas veias. O mundo é um mundo de desigualdades e assim deve ser mantido. O Estado é uma entidade caucionadora desta ordem, e nunca por nunca deve assumir o papel de potencial agente seu diluidor. Perante os fracos – força máxima. Perante os fortes, máxima flexibilidade.

O estado da (i)nação

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Ver para crer, como dizia São Tomé. Se os acontecimentos recentes nos estates copiam, com grau de verosimilhança quase futorológica, o que se passou no house of cards, as reacções políticas da direita portuguesa são dignas de uma antologia dos melhores momentos de Maquiavel. Ou então da Scarlet Letter, visto que os dois partidos da oposição pareciam cães raivosos a tentarem ferrar uma condenação sem apelo ao PS. A desgastada acusação de caça às bruxas utilizada por Trump pode reverter para aqui.

Como anteriormente assinalei para a Cristas, convém repetir que esta gente tem uma falta de vergonha inexcedível. O credo actual da gente de direita é, pasme-se, a solidez do Estado. Não sabíamos nós o que se escondia por detrás da tão aventada ideia da reforma estrutural do Estado? E das gorduras? Ver o Leitão Amaro (havia uma brincadeira em puto que era telefonar para casa do sr. Leitão e perguntar se já tinha sido promovido a porco. No caso do Amaro a resposta é evidente), a dizer que o estado ceifou vidas inocentes é de rilhar os dentes para não lhe partir as trombas.

Mas basta ler a última crónica de Henrique Raposo no Expresso para perceber que todos estes senhores estão-se nas tintas para o Estado e o que esta raiva encobre é uma mais antiga dor de cotovelo: a da semi-coligação orquestrada por Costa para ter maioria parlamentar. Que esta solução tenha por diversas vezes sido apontada por especialistas na matéria como sendo perfeitamente constitucional, em nada abala o azedume duma direita que estava habituada a ganhar com o psd ou em coligação com o cds. Descobrindo-se-lhe o truque de saltimbanco, e com a devida flexibilidade do PS, a direita está verdadeiramente assustada pois pode passar um período de jejum prolongado.

Veja-se o que foi feito no Brasil. Perante a perspectiva de perder consecutivamente eleições para o PT, a direita orquestrou um golpe judicial e, alcandorada a uma máfia tenebrosa com maioria no Planalto, assaltou o poder. E se Dilma era história antiga, Lula tinha as estimativas de voto a seu favor. A solução foi atirar com a sua carcaça para a cadeia com antecipação suficiente para não se poder candidatar em 2018. Enquanto isso distraem-se as atenções de Temer e do bando de malfeitores que o apajam.

Portugal não é o Brasil. Ainda há alguma solidez e autonomia institucional que permite alguma tranquilidade. Mas os métodos da direita são semelhantes. Quando se proporcionou a viragem para a coligação com a decadência do governo Sócrates, rezava então Passos Coelho que o Estado tinha engordado à custa dos socialistas; que tinha sido um crime esbulhar o país à custa do Estado, e etc. Ver a sua trupe de saltimbancos berrar por amor ao Estado faz chorar o mais empedernido dos corações… a rir. Pois que é de histrionismo que se trata. Novamente o Raposo. Para ele todo “o mal e a caramunha” decorre do “spin” socialista. Confesso que não considero os socialistas assim tão competentes para terem um spin tão eficaz como quer o plumitivo. Contudo, detenhamo-nos no seu raciocínio para ver ao ponto a que chega a histeria do absurdo. Para o Raposo as (más) justificações das cadeias de comando das forças de segurança – tanto para o caso de Tancos como para Pedrogão – são tudo maquinações do “spin” socialista. Mas porquê? Porque não podem ser apenas maquinações das cadeias de comando? Ah, porque estas estão infestadas por boys socialistas enfiados à pressa com esta legislatura. Mas se estes chegaram agora foi porque substituíram os que lá estavam. Ora como julgo difícil serem todos do PCP ou do BE, a hipótese mais verosímil é que fossem da Páf. Isto é deveras interessante; e pese embora as diferenças de escala e de contexto político-institucional, uma das acusações recorrentes da direita conservadora brasileira ao PT foi a deste ter minado o Estado com os seus boys. Considero tudo isto fascinante. Ainda para mais vindo dum sector político que detesta o Estado, tanta preocupação com o mesmo é de facto estranha. De duas uma: ou os neoliberalóides não detestam assim tanto o Estado como apregoam quando dele fazem a origem de todos os males; ou isto não passa de retórica, de má fé política, de guerrilha sem conteúdo. Em qualquer dos casos, diremos como Trump nosso arauto: Fake News!

A cruzada Cristas

 

A Presidente do CDS-PP,  Assunção Cristas monta um cavalo durante a visita à Feira de São Martinho, XLI Feira Nacional do Cavalo e XVIII Feira Internacional do Cavalo Lusitano, 11 novembro 2016 na Golegã.  PAULO CUNHA/LUSA

O tempora! O mores!, assim podíamos começar um exercício crítico ao discurso da Cristas. Ou então: – Que sacana inacreditável! Ou, ver para crer, porque é necessário que a ouçamos para que nos belisquemos e digamos: não, não estou a sonhar.

Uma estratégia de terra queimada, mas cirurgicamente queimada, é assim que a vejo. Silenciados no campo a que se arrogavam mais competência – a economia – o psd e o cds-pp conluiaram-se para acertar agulhas no discurso da hecatombe do poder de Estado. Curiosa inversão esta. Onde dantes se acusava a esquerda de só querer Estado, de viver obcecada pela expansão do mesmo, e pelo reforço da sua penetração na sociedade; acusa-se agora de não ter Estado, de o delapidar, depauperar, esmifrar de tal forma que ele perde autoridade e extensão. Interessante reviravolta indeed. E isto vindo de neoliberais de cartilha, daqueles que apregoaram anos a fio que a origem de todos os males era, certamente, o Estado!

Ouvir Cristas a criticar o PS por cortes selvagens no Estado é um momento de hilaridade absoluta. Os troikistas, papistas do credo do “Vamos para além da troika”, tão preocupados que estão com a fragilização do Estado. Dá pena. Dá pena tanta hipocrisia. Mas que o povo não se esqueça que esta mesma Cristas enchia a boca com a reforma do Estado, com o excesso de Estado na economia, com a imprescindibilidade da sua redução, com o mantra sufragado e pregado pelos pagens da direita liberalóide do Estado Mínimo! Pasme-se então por ver tal ardor na defesa do Estado!

A bem da justiça argumentativa digamos que Cristas vê a ameaça pairar essencialmente sobre a componente de autoridade e soberania do Estado. É a velha equação dos neoliberalóides: menos Estado providenciador, mais Estado controlador. Veja-se a displicência com que o Estado-PS enfrentou os fogos de Pedrogão, diz Cristas. Culpado do incêndio? Não, Cristas não chega a tanto – não chega ao ponto de pôr na mão de António Costa, qual Zeus!, o raio deflagador. Mas a forma como lidou com o assunto – parece-lhe evidente – indicia o esboroamento das estruturas do Estado. E as armas? Pois a mesma coisa. O exército em bolandas, sem dinheiro sequer para pagar o pré, só pode dar nisto. Por paradoxal que pareça, os arautos do Estado mínimo optaram por uma interpretação maximalista do poder do Estado e, consequentemente, das suas falhas.

Mas há uma preocupação genuína na Cristas: esta sequência de desgraças é o filão político que uma direita silenciada por falta de assunto precisava. Como buldogues raivosos não largarão tão cedo o osso que prestimosamente se lhes ofereceu. E pela primeira vez vislumbram a luz ao fundo do túnel – a bem dizer, um clarão!

Esmagados no campo da economia para onde tinham afinado baterias durante anos contra a esquerda, surge-lhes agora a grande autoestrada retórica da autoridade do Estado. Quando o assunto economia falha, não havendo nenhuma razão apriorística para ir nos cantos da sereia da direita neoliberal, impõe-se o discurso da segurança. Foi assim com Trump. Como fazer uma crítica neoliberal à política económica de Obama quando a economia norte-americana crescia sustentadamente? O ersatz é sempre o Estado, a segurança, a soberania. O mesmo se passa em Portugal. Como gritar que vem aí o diabo na economia quando este foi de férias? Regressa pela porta do cavalo transfigurado em Estado, segurança, soberania.  É tudo muitíssimo previsível.

É caso para dizer, como Cícero, Quo usque tandem abutere, Cristas, patientia nostra? (Até quando vais abusar, ó Cristas, da nossa paciência?).