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Jogo de espelhos

Junho 28, 2017

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MUSE no Meo arena

Estas celebrações são meritórias. Podemos afirmá-lo sem rebuço. O país une-se; a alma lusa chora lágrimas de sangue; a solidariedade encanta as almas mais empedernidas. E faz-se muito dinheiro… expectavelmente a ser distribuído pelas vítimas que forneceram a razão principal para a efeméride.

Há uma coisa antiga nas ciências sociais que é a preocupação com o que se encontra latente nas acções e eventos manifestos. E não é apenas com Merton que essa preocupação surge. Ela pode ser retraçada ao problema da ilusão religiosa em Marx, aos resíduos de Pareto, e eventualmente à ilusão da transparência durkheimiana. Seja como for, em termos muito prosaicos, nem sempre o que parece para os actores implicados, na realidade é. No caso vertente, uma análise desta natureza tem cabimento.

Um acontecimento destes tem uma outra virtude: a de podermos separar o trigo do joio. Ou seja, como nos são dados cantores tão diferentes em sequência podemos de facto distinguir os que cantam alguma coisa dos que são mera produção de estúdio. Assim, Carminho canta para caraças; enquanto Áurea arranha uns agudos. Camané faz o que quer da voz;  enquanto o Agir não canta puto. E assim sucessivamente. O que nos leva à questão essencial: o que é genuíno e o que é produzido no sentido mais ilusório do termo? Quero dizer que todo o talento é produzido na medida em que envolve trabalho e acção sobre o mundo material. Mas há talento e há ilusão de talento. Para percebermos melhor onde reside a diferença recorramos ao exemplo de Luciana Abreu. Não é uma grande atriz – para além dos esganiçados impropérios com sotaque do norte pouco mais se aproveita. E lançou-se recentemente no mundo da canção, onde também não é melhor. Contudo, a atriz parece não duvidar do seu talento e dizer em entrevista que foi fruto de muito trabalho e dedicação, um sonho cumprido, na realidade ultrapassou mesmo o sonho, etc. A questão fundamental a que deveria ser obrigada a responder é, por que cumprir um sonho para o qual não está obviamente talhada? A resposta é, porque pode. Mas não porque tem talento como cantora, mas sim porque tem recursos – que em nada são vocais – que lhe permitem fazê-lo. Os recursos são gerados pela fama e retroalimentam-se no mundo da fama. Estamos perante um caso – mas que é equivalente a tantos outros – em que a fama é o motor e não o talento. Ou seja, uma pessoa com o mesmo nível de talento de Luciana – medíocre – mas sem fama, nunca poderia movimentar-se pelo mundo do espectáculo sem ser necessário mostrar nenhum talento em especial. Agora é preciso entrar na cabeça destas pessoas para perceber onde é que o seu gigantesco ego lhes dita a necessidade de serem espectaculares. Porque é disso que se trata. Não há nenhum chamamento para a música para além daquele de se quererem ver a cantar. Contudo, a sua prestação não acrescenta nada nem ao mundo da música nem ao do espectáculo que não seja retroalimentar o mundo da fama. Variadíssimas pessoas agitam-se para dar suporte às acções que se executam dentro deste mundo; e não são necessariamente aquelas mais directamente ligadas à actividade. Órgãos de comunicação, com os seus comunicadores, ventilam a informação necessária que lhes empresta a publicidade. Como num jogo de caixas chinesas, uns tornam-se o eco dos outros. O que é mais interessante é que em nenhuma etapa desta troca o jogo se parte ou mostra a sua verdadeira natureza. Todos contribuem, solidariamente, para a manutenção da ilusão. Por exemplo, Luciana Abreu não se lança na canção sem antes ter diversas pessoas, igualmente do mundo da fama, a confirmar o seu valor como cantora. Nem uma só vez alguém o coloca em dúvida questionando a sua real necessidade, perguntando a Luciana se aquilo não traz nada de novo, nem sequer tem qualidade, para quê fazê-lo?

Este longo excurso serviu apenas para  situar o facto de que as espectaculares efemérides em torno de acontecimentos ou tragédias são apenas motivos para retroalimentar a fama. Ariana Grande mostra uma grande solidariedade com as vítimas do terrorismo em Manchester ao repetir o seu concerto na mesma arena? Em que sentido? Certo, o concerto na Meo arena recolheu dinheiro. Há uma aproximação que devemos fazer entre estes eventos e aquelas teletonas inventadas pelos norte-americanos onde se vai acumulando dinheiro comprando produtos publicitados na televisão. A lógica não difere muito. Podemos dizer que aqui os artistas entram com o seu trabalho gratuitamente. Mas sério? Gratuitamente? E os proventos da retroalimentação do mundo da fama? Não apenas o seu nome fica associado a uma iniciativa que é admirada por todos, como ao fazê-lo estão a acrescentar fama à sua carreira. Não são portanto inocentes estas participações; e só muito tangencialmente podem ser avaliadas como altruístas. A verdade é que o mundo da fama tem proventos simbólicos gigantes. E dado que a sua moeda – uma espécie de bitcoin da espectacularidade – é a visibilidade, acrescentar visibilidade é já lucro mais do que suficiente. Perguntemo-nos por que diabo contribuímos todos para chegar ao milhão de euros e não se juntaram estas celebridades, em média bem mais ricas do que qualquer um de nós, e contribuíram com um montante equivalente? A resposta é simples: porque no fundo estão a trabalhar para eles próprios. Lembram-se do live aid? A fome em África esteve longe de acabar, mas algumas daquelas músicas foram ouvidas até à exaustão, com os reflexos inerentes à retroalimentação no registo da fama.

É porque a fama não é um mundo como os outros. A sua multiplicação é exponencial. Os seus efeitos concentram-se numa só pessoa (ou num grupo, mas tomado como entidade singular) e intensificam o sentido moral de toda e qualquer das suas acções. Ter um filho não é aquilo que acontece a milhões de mulheres por esse mundo fora – é aquele filho daquela pessoa, emprestando-lhe uma aura que lhe acrescenta humanidade. Porque a bitcoin da fama – a visibilidade – produz um excesso de presença, um excesso que inere em termos de valorização de alguns em detrimento do anonimato de todos os outros. Sim, porque a fama comporta-se num sistema de diferenças; ela é por definição diferencial. A visibilidade de uns só tem poder mediante a invisibilidade de todos os outros. Aqueles que contribuem através das chamadas telefónicas ou no anonimato da audiência.

Dito isto, espero que o dinheiro angariado ajude as pessoas de Pedrogão; e espero que vá parar às mãos dos verdadeiramente necessitados porque o rótulo de vítima não apaga as assimetrias realmente existentes.

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