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Quem vê árvores não vê a floresta

Junho 24, 2017

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Tem-se falado muito de ordenamento do território e de gestão da floresta. Não sendo um especialista em qualquer uma das áreas, tenho no entanto  – como bom português – algumas ideias sobre o assunto. Primeiro, há um tique, que dificilmente se pode imputar com exclusividade ao homem e mulher português, que é o de atirar tudo para as costas do Estado. Porque o Estado não acautelou; porque o Estado não interveio; porque o Estado não previu, etc, etc. No entanto o Estado não é uma entidade suprema que omnipotente pairasse sobre nós. O Estado tem os limites que lhe deixamos ter; e para além disso compete, ou mesmo conflitua, com outros interesses. Por exemplo, a ideia sistematicamente aventada por ecologistas e outros com afinidades ao tema segundo a qual o Estado devia gerir a reserva florestal obedecendo a critérios não produtivos ou económicos, mas antes a orientações de salvaguarda quer da floresta quer das populações, parte do princípio que o Estado possui de facto esse poder. Ora, o grande problema da floresta portuguesa é pertencer a uma miríade de privados que fazem dela o que bem lhes apetece. Aliás, a história da ruralidade em Portugal pode ser contada através dos conflitos de cajado e caçadeira por quinhões de terra. Muitos desses quinhões têm floresta, onde a propriedade é de minifúndio e o proprietário é seu dono e senhor não obedecendo a mais nada senão a sua vontade. E esta última tantas vezes troca o seu quinhão por um anexo na vivenda, ou por um carro melhorzinho, ou por comprar uma vivenda maior. Quantas estórias não ouvimos todos nós sobre o ti Manel que vendeu os terrenos a uma celulose e que encaixou o dinheirinho para fazer uma casinha maior? O longo braço do Estado, tal como o da lei, não chega a tanto.

Nesta condição como gerir comummente uma floresta que faz parte dos desígnios e interesses de tantos privados? Como alinhavar uma orientação, que se traduza em prática posteriormente, colectiva quando os quinhões de terra são utilizados para estratégias meramente individuais?

Lembram-se da litania do grande eucaliptal em que gradualmente se tornava Portugal? Pois é, mas tal não seria possível caso os milhares de proprietários privados não o tivessem permitido. Quer isto dizer que a extracção de valor económico da floresta por parte do Estado não existe? Certamente que não. O Estado tem sido para todos os efeitos um dos principais interessados neste negócio. A indústria do papel dá muito dinheiro ao país. Mas o Estado não constitui – longe disso – o principal motor que levou a este estado de coisas. Foi a fragmentação do minifúndio que impediu o gizar de uma orientação centralizada para a floresta.  Não o laxismo do Estado ou dos sucessivos governos. Do Estado tudo o que é orientação será, por definição, centralizada. Mas tirando os regimes totalitários  (e mesmo esses possuem as suas brechas) a centralização não pode ser forçada. Uma responsabilidade comunitária deverá igualmente ser assacada. Porque culpar o Estado tornou-se algo fácil, mesmo preguiçoso e retira os indivíduos de uma responsabilidade colectiva que é necessariamente deles.

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