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O fogo combate-se com o fogo?

Junho 21, 2017

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Não pretendo ironizar com a dor das pessoas. Não pretendo minorar a tragédia que se abateu sobre a região de Pedrogão e Figueiró. A eles todas as homenagens são devidas e as mais sentidas penas endereçadas. Todavia, escalpelizar os resultados de tão grande tragédia passa inevitavelmente por sondar as suas causas. Essa é uma necessidade que tem sido representada pelos mais diversos sectores da sociedade portuguesa em formas diversas, por vezes desencontradas. Há, para ser justo, uma procura de resolução da catástrofe na mente das pessoas. É o equivalente ao mecanismo emocional do luto – é preciso alguma espécie de fechamento simbólico que permita a assimilação cognitiva e emocional dos acontecimentos. Um mecanismo é recorrente nas sociedades e podemo-lo encontrar em todos os tempos históricos: o bode expiatório. A procura do bode expiatório prende-se com o carácter sacrificial dos colectivos, a ideia de que é necessário sacrificar um elemento (ou vários) para que o colectivo prospere. Já não queimamos judeus nas fogueiras, nem cristão nas arenas, mas exigimos a cabeça dos ministros e fazemos autos-de-fé públicos com as palavras dos políticos. Por isso um tempo de escrutínio absoluto da palavra e dos gestos assemelha-se estranhamente a uma caça às bruxas. Ontem a entrevista de Judite e Pedro Pinto ao primeiro-ministro foi tingida dessas cores. Estaríamos nós a assistir a dois abutres a depenicar sedentos de sangue a carcaça recentemente aberta que se lhes apresentava? Pois assim parecia. Como em tudo na vida, e apesar da emocionalidade reiterada do nosso presidente, as coisas possuem uma dimensão estratégica. Não tardou por isso que os infelizes e trágicos acontecimentos pudessem servir de armas de arremesso na convulsionada arena da política. Com alguma cautela, diga-se. Mas também com gradual persistência, e a espera para que os jornalistas cumpram o seu papel favorito de caçadores de bruxas vai preparando o terreno para desfechar ataques futuros – e certamente mais seguros porque menos acossados pela emotividade do momento. E neste mesmo sentido a tragédia assim vivida nos últimos dias é péssima para o PS das eleições autárquicas. De repente, e como numa manifestação sádica da consabida expressão no melhor pano cai a nódoa, a pintura borrou-se por completo. Os tons róseos que coloriam os nossos dias tornaram-se de repente negros. Numa folha de serviço imaculada caem abruptamente 64 mortos (e eventualmente a contagem ainda não terminou). Desapareceu de cena o fim do défice excessivo, o crescimento da economia, o melhor ano de sempre para o turismo. Tudo limpo com um pano peçonhento de vidas ceifadas e floresta ardida. Tudo a eito. Mau para o governo? Sem dúvida. Mas tenho para mim que a exacerbação de certos tiques deve ser debelada a bem do bom senso. Por paradoxal que seja os tempos actuais trazem a conjugação entre a imprevisibilidade máxima e o desejo (e representação) da previsão e controlo totais. Ou talvez nada tenha de paradoxal. É quando se multiplicam as situações sociais de imprevisibilidade que aumenta exponencialmente a ansiedade de as controlar. Seja como for, este é um fenómeno que se pode comprovar facilmente pela histeria da exigência de previsibilidade absoluta.

Astuto como é, o primeiro-ministro assumiu imediatamente o tratar-se da maior tragédia humana causada por um fogo. Não caiu na esparrela de minorar o incidente, ou de tentar disfarçar a magnitude das suas consequências. Com isso retirou poder de fogo à oposição e aos jornalistas. Contudo, a estratégia só tem o alcance possível dentro da histeria da previsibilidade absoluta. Chegando aqui esbarra com a inflexibilidade de uma esfera pública, não apenas sedenta por apontar culpados, como fascinada pelo dever do controlo das coisas da natureza, do social, do espírito.

As tragédias acontecem. Não fosse pela sua imprevisibilidade e não seriam tragédias. Encontrar culpados para sossegar os espíritos é uma forma esquizofrénica de negar a imprevisibilidade também nas coisas humanas. Não é apenas a natureza que por vezes nos surpreende; os humanos são máquinas de imprevisibilidade. É claro que o erro é um mecanismo óptimo que nos dá possibilidade de correcção. Mas a ideia segundo a qual se a comunicação tivesse funcionado, isto não se passaria; se a gnr se tivesse coordenado, isto teria sido evitado; se a ministra tivesse autoridade centralizada, isto não teria estas consequências, se… é uma larga cadeia de “ses” sem conclusão à vista. É nestes “ses” que as coisas acontecem. Devemos lamentá-las, procurar melhorar? Claro que sim. Mas não viver na ficção de um mundo sob absoluto controlo do melhor juízo humano. Até porque este último não existe sem o mundo o desafiar e tantas vezes negá-lo.

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