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O mundo according to Breitbart

Junho 7, 2017

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A noção de que o autoritarismo é uma coisa que acontece em países como a Coreia do Norte ou a Venezuela sustenta-se em dois pressupostos errados. Primeiro, que as chamadas democracias consolidadas não podem ter mecanismos autoritários. Segundo, que a relação de poderes dos sistemas democráticos é autocontida. A primeira é facilmente negada por países como os Estados Unidos ou o Brasil. Com efeito, o que se verifica é que apesar de um sistema de checks and balances consolidado, o espaço para mecanismos autoritários é gigantesco. A segunda, é um cancro da própria democracia, que ao pensar-se como sistema auto-suficiente não se expande para o exterior da esfera da política, considerada esta no seu sentido mais estrito.

Os mecanismos autoritários emergem, por vezes de forma abrupta – como é o caso actual dos Estados Unidos –, através de formas enviesadas, dentro do próprio sistema de justiça ou através de conexões de natureza mafiosa – parece-me a palavra adequada – entre o mundo dos negócios e a política. Uma vez mais o caso norte-americano e brasileiro são emblemáticos. Mas estaríamos enganados se considerássemos que os casos mais gritantes seriam os únicos. Por cada democracia aparentemente saudável há um núcleo podre de compadrios, negócios e transacções que estão fora da alçada dos supostos mecanismos de controlo. Um dos aspectos que permitiu este estado de coisas foi a secundarização da política em relação à economia. Muito tem sido escrito sobre a influência das desigualdades sociais na eleição de magnatas populistas como Trump ou Macri na Argentina. Esta linha de pensamento quando interpelada responde altissonante: – É a economia estúpido! Talvez seja, mas apenas parcialmente. Uma grande parte, porventura a maior, cabe à cultura. O que leva as pessoas a votarem em massa nestas figuras é o facto de eles se apresentarem como homens de sucesso. O escorreito raciocínio segundo o qual “se ele conseguiu o que conseguiu nos negócios imaginem o que faria na política!”, tem levado milhões de pessoas atrás do canto da sereia dos gestores de emoções. Apenas a total infiltração das coisas da economia nos assuntos da política permite esta representação, esta mundividência, por grande parte do eleitorado. A uma menor escala a “tecnocratice” aguda do governo de Passos, com o seu batalhão de economistas encartados a repetirem o mantra de “deixem funcionar o mercado” encobria na realidade formas subterrâneas de funcionamento do mercado em benefício de redes clientelares. O laxismo do governo em relação à fraude fiscal dos muito ricos (mas a mão de ferro a esmagar os muito pobres!) mostra que a instrumentalização do poder do Estado em favor do dinheiro não é passível de ser controlada pelos tradicionais procedimentos democráticos.  Pelo contrário, estes servem frequentemente para ocultar essa instrumentalização. É aqui que o grande paradoxo da democracia actual reside. Como exercer os seus efeitos, desejavelmente benéficos, através dos seus instrumentos – de natureza política – quando ela própria gera as condições da sua plutocratização?

O que se passa nos Estados Unidos com Trump é o resultado de se guindar, por via eleitoral perfeitamente legitimada, a extrema-direita ao poder. Qualquer analista saberá dizer que não existem paralelos com o fascismo do período entre-guerras, que as distâncias são abissais entre um acontecimento e o outro. Desde logo os fascismos sustentaram-se na mobilização de massas em torno de um único partido que advogava um estado total que penetrasse as esferas sociais por inteiro: família, economia, religião, comunidade. Ora, esta unificação política não acontece nos Estados Unidos de Trump; pelo contrário, a extrema-direita encontra-se no poder, mas dentro do jogo democrático. Esta situação, contudo, foi também aquela que precedeu a totalitarização dos regimes alemão e italiano, e não é líquido que as contingências históricas não possam subalternizar as tipologias e modelos analíticos. Mas uma coisa emerge como um facto: o enquadrar da mensagem política tem as suas similitudes quer com experiências fascistas de antanho quer com um recorrente posicionamento estratégico de partidos de extrema-direita, sobretudo europeus.

Pensar Trump como um bomba relógio imprevisível é falhar o essencial. E isso tem que ver com o caldo ideológico onde devemos inserir Trump. Há uma linha visível que traça uma matriz onde se insere Trump e a sua entourage. Apesar dos esforços iniciais de Henrique Raposo para nos convencer que Trump era um inocente jacksoniano, retórica retirada ipsis verbis da insistente leitura dos ideólogos conservadores com que esse mesmo Raposo se deleita, o presidente norte-americano insere-se num leque diferente de propostas ideológicas. Passada a época da propaganda, até o próprio Raposo deixou de ser tão condescendente com Trump e o discurso do inocente jacksoniano passou de moda.

A alt-right, nome pomposo para baptizar a velha “Nova Ordem” e a junção entre supremacismo branco e os fundamentalistas cristãos do movimento Pro-life, é o que rodeia Trump. E digo rodeia porque Trump parece ser demasiado estúpido para liderar um tal projecto. Contudo a sua ligação a Banon é mais do que ocasional; e o fascínio que ambos partilham pela Rússia inscreve-se num programa cuja ideia é central para o supremacismo branco. Esse fascínio contrasta vivamente com o desprezo que nutrem pela Europa. Se quisermos perceber a orientação de Trump e Banon é ler a Breitbart. Toda a gente devia ser obrigada a ler a Breitbart para percebermos finalmente que é real, que não é apenas uma fantasia esquerdista – a extrema-direita está no poder! Quando nos preocupávamos com a possibilidade Le Pen ou Strache, eis que a extrema-direita chega ao poder na maior economia do mundo: the good old USA. É quase uma paráfrase do erro de análise marxista: quando todos achavam que a revolução aconteceria na Inglaterra industrialmente desenvolvida, ela acontece na Rússia agrícola, industrialmente atrasada. A contingência histórica tem destas surpresas.

Ler as caixas de comentários da Breitbart é também instrutivo. Permite perceber que aquilo não é gente afectada pela “grande depressão”; são fanáticos culturais, anti-feministas, com um ódio à esquerda apenas comparável aos regimes fascistas de Franco e Mussolini; com um ódio ao establishment político, e portanto com um discurso profundamente anti-político, e sobretudo com a reiteração acéfala dos tropos do autoritarismo ignorante: o descalabro climático é uma invenção!, o feminismo é destruidor das famílias, a pobreza é uma “mentalidade” (mindset no original). Este caldo ideológico onde fervilham punição e processos de intenção em substituição de revolta e emancipação tem servido de respaldo para encobrir o essencial da governação Trump: a extrema promiscuidade entre dinheiro e poder “democrático”. Neste sentido segue de perto o guião putiniano de um czarismo para os tempos dos piratas informáticos. O esmagamento da Europa entre as duas tenazes agora aliadas – os USA e o urso Russo – é o seu projecto mais consequente. A Europa consiste ainda no pequeno espaço onde as tendências cezaristas são combatidas. A América de Trump não precisa da Europa para nada; e tenho dúvidas em relação àqueles que se põem a adivinhar novas centralidades, colocando a Alemanha num pedestal. A verdade é que a Alemanha manda dentro da Europa, mas não tem expressão no concerto internacional, sobretudo quando apertada no torniquete das duas maiores potências militares.

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